Leitura dominical

Voar como o Jardel, a crónica de Alberto Gonçalves, no DN.

Ao entregar democraticamente a Câmara Municipal de Lisboa a um adjunto, António Costa declarou–se empenhado em, de agora em diante, “servir Portugal e os portugueses”. O Dr. Costa pode e deve ser responsabilizado por muitas enormidades. Porém, esta não é nada original. Nos modernos e esclarecidos tempos que correm, ainda não há político que evite atoardas do género: todos fingem acreditar que as suas carreiras, ambições, manhas e naturezas são exclusivamente dedicadas ao bem comum. A artimanha mediria a altíssima conta em que tais espécimes se têm se de facto não medisse a baixíssima conta em que têm o eleitorado.

A verdade é que os políticos dizem barbaridades assim porque esperam, com certa propriedade, haver uma audiência para as ditas. Ao contrário do que tantas vezes se refere, o problema das democracias, e da nossa em particular, não é a descrença de inúmeros cidadãos na política: é a crença, ou fé cega, de outros tantos. Bastante pior do que o cinismo é a ingenuidade com que se continua a engolir patranhas evidentes, a aplaudi-las em comícios e a legitimá-las nas urnas. Por incrível que pareça, há mesmo criaturas que levam a sério a citada declaração de intenções do Dr. Costa (ou, insisto, de qualquer um, incluindo os que simulam combater a hipocrisia dos políticos através de uma bonita conversão à política). Em matéria de probabilidades teóricas, seria mais verosímil a descoberta de pinguins em Marte ou de um tratado de oratória assinado por Jorge Jesus. Não é o que acontece na prática.

O que acontece é este desgraçado estado de coisas: no Portugal de 2015, uma percentagem demasiado significativa da população vota com o entusiasmo e as ilusões de 1975. Sintoma de atraso? Sem dúvida. Puro Terceiro Mundo? Não sei. No Brasil, que em princípio corresponderia melhor ao conceito, abundam os candidatos vitoriosos a cargos públicos que já não acham necessário recorrer às historietas do “serviço” à comunidade ou do “espírito de missão” para acabar eleitos. Lá, com frequência, a sinceridade basta à eleição.

Veja-se o caso de Mário Jardel, antigo futebolista conhecido pelos golos e pelos assumidos excessos em matéria de narcóticos. Em Outubro passado, concorreu a deputado do Rio Grande do Sul sob o único pressuposto de que precisava de “manter a cabeça ocupada”. A troco da franqueza, 41 mil pessoas ofereceram-lhe o lugar, numa tocante demonstração de maturidade cívica. Só isto bastaria para fazer do Sr. Jardel e respectivos votantes exemplos a seguir. Mas a história não termina aqui: após dois meses na assembleia estadual, nos quais nunca abriu a boca ou maçou o povo com a apresentação de uma proposta, a cabeça voltou a desocupar-se, o Sr. Jardel demitiu as dezenas de assessores e foi-se embora. Em suma, a perfeição. E uma goleada aos nossos políticos, que além de impostores nunca se calam e quase nunca desaparecem.

Um pensamento sobre “Leitura dominical

  1. Os nossos políticos nunca se calam e nunca se vão embora, porque:
    1. os povos latinos, de matriz judaico-cristã, é fatalista e consequentemente estão convencidos de que as coisas não mudam e o que tem de ser tem muita força;
    2. têm medo da liberdade, da autonomia, da autodeterminação e consequentemente sentem-se bem na pele de funcionário público e preferem alguém que assuma as responsabilidades por eles;
    3. desde que da mesa do orçamento vão caindo algumas migalhas com que sobrevivam, toleram a corrupção dos políticos e afins, perfilhando o ditado que diz que “quem parte e reparte e não fica com a maior parte ou é burro ou não tem arte”;
    4. porque as elites, que são os tais e afins, sabendo de tudo isto, exploram a situação até ao tutano.
    Nota:
    Os portugueses até protestam muito… mas é na rua e no café… sem pôr em causa o regime…
    porque fogem da mudança como o diabo da cruz!…

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