Deputados

Porque é que a qualidade dos deputados decaiu? O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Deputados

A 7 de Maio próximo o Reino Unido vai a eleições. O comentador político Danny Kruger considera-as as mais entusiasmantes e, ao mesmo tempo, aborrecidas das que se recorda. Entusiasmantes, porque tudo pode acontecer; aborrecidas, porque a diferença entre os partidos é de pormenor. Tal como cá, o debate político, atenuadas as diferenças entre os maiores partidos, resume-se a insultos, truques de retórica e a questões menores.

Julia Langdon é uma jornalista britânica que tem escrito sobre política desde 1971. Em Fevereiro deste ano apresentou um estudo, cujo conteúdo divulgou no The Guardian, sobre o quanto a Câmara dos Comuns mudou desde o ano em que começou a trabalhar e o presente. E o que Julia nos conta é que o actual Parlamento é o menos representativo desde que foi atribuído o direito de voto às mulheres. Enquanto, em 1971, os deputados eram advogados, professores, mineiros, engenheiros, ou seja, das mais diversas profissões, actualmente proliferam os políticos de carreira, pessoas com cursos superiores, mas que cresceram dentro dos respectivos partidos e, a maioria deles, sem nunca ter exercido uma profissão fora da política.

É assim que dentro dos partidos com assento no Parlamento desapareceu a diversidade social, cultural, educacional e profissional. Dizem todos o mesmo, porque são todos o mesmo e querem todos ser a mesma coisa, ou seja, membros do governo. Fechados na redoma em que se criaram, limitam-se aos insultos, aos truques de retórica e às questões menores. Não representando o povo, porque não o entendem, não discutem os seus problemas, mas as questiúnculas menores que a ninguém interessa e que não colocam em causa a essência que os mantém à tona.

O problema britânico é, como se vê, semelhante ao português e não se resolve facilmente. As razões nos trouxeram a esta realidade são inúmeras. Julia Langdon refere os baixos salários dos deputados britânicos que empurram os mais esforçados e inteligentes para profissões onde se ganha bem melhor. Em Portugal o vencimento é uma questão, mas não a principal, tal como não é a única no Reino Unido.

A razão para a pouca representatividade dos deputados está na irrelevância actual do Parlamento. Tanto no Reino Unido, como em Portugal, o poder passou do legislativo para o executivo. É no Governo, e não na Assembleia, que se tomam decisões. Os deputados não decidem, pelo que não debatem verdadeiramente; porque não são ouvidos, já nem sequer escrutinam o governo. Ser deputado já não é uma vocação, uma aspiração, mas um lugar que se ocupa à espera de melhor oportunidade.

A expansão do Estado levou a uma impaciência no agir que não dá espaço a que se debata. A força do Parlamento, que passa pela contenção do poder político, é apenas mais uma vítima do fim do conceito do poder limitado como algo benéfico para os cidadãos. Muito pouco mudará enquanto não surgirem deputados com vontade de inverter a presente situação.

6 pensamentos sobre “Deputados

  1. André, no Brasil não é diferente. A imensa maioria dos nossos parlamentares são políticos profissionais e, os que não são, acabam sendo desrespeitados porque se diz que estão representando os interesses da sua classe. Na verdade, a política anda mal.
    Aqui os salários de deputados federais são gigantescos (cerca de R$ US$15mil mensais, mais benefícios que podem totalizar US$50mil mensais). E temos mais de 500 deputados.
    No Brasil, 44% do PIB vai para o Estado e o Estado é péssimo.
    Aqui ainda se discute capitalismo x socialismo! (Acredite!).
    Então quando leio algo como o que tu escreves, penso que há algo maior (ou menor) no mundo a ser investigado. Algo, quem sabe, menos intelectual e mais valoroso.

  2. Sonhei que cada partido poderá ter 40% dos seus deputados com mandatos renováveis, serão deputados “permanentes”, e 60% sem possibilidade de renovação de mandatos pois não há insubstituíveis, ou caso sejam mesmo muito bons, podem ser passados para o grupo dos 40%… Os permanentes serão “técnicos” de legislação e profundos conhecedores do “Estado”. Os outros serão selecionados para dar o melhor numa matéria escassa e necessária: o bom senso e a ligação com os problemas reais da sociedade. Estes, não abandonarão as suas ligações de trabalho, terão menos tempo “preso” na assembleia, serão compensados pelo “sacrifício” e passada a legislatura voltam à vidinha… Os outros, os 40%, serão bem pagos. Políticos mal pagos dão sempre mau resultado… Entretanto acordei…

  3. Francisco

    ” No Reino Unido a diferença de partidos é de pormenor”. Na verdade e pela verdade se os partidos forem sérios nunca poderão estar muito distantes porque a Verdade é única. Em Portugal (e não só) conseguem interpretar números à vontade dos burros (povo). Deve ser falta de conhecimentos matemáticos …

  4. Manuel Costa Guimarães

    “Porque é que a qualidade dos deputados decaiu?”
    Alguma vez foi superior a 0?

  5. Alexandre Carvalho da Silveira

    Estamos sempre a aprender. Estava convencido que o sistema eleitoral dos ingleses, os eleitores de um determinado circulo eleitoral elegem o candidato que lhes dá mais garantias, era uma maneira de forçar os partidos a apresentarem candidatos a deputados de qualidade. Afinal parece que não.
    Estamos condenados à mediocridade. Cá e lá.

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