Um programa eleitoral de extrema-

Sem quaisquer reservas, acusa Merkel de ser «a directora da prisão que é a Europa», ou Durão Barroso de ter sido o «guarda prisional». Acredita que estamos numa ditadura, a «euroditadura». A culpa? Do Euro, da União Europeia. A mesma «euroditadura» que tem subjugado a Grécia, dizendo a um país soberano «o que deve fazer e como o deve fazer». Clama pelo «fim do Euro», pois só assim poderão acabar as grilhetas que espartilham os países. Deseja a nacionalização dos principais bancos, pois o «Estado-estratego deve defender o interesse dos seus compatriotas». A Troika? Define-a como uma «hidra com três cabeças cujo único objectivo é defender os interesses dos bancos, das grandes instituições financeiras, dos credores dos países». É contundente quanto ao seu posicionamento: «não sou por menos Estado, não sou por mais privatizações, não sou pelo ultraliberalismo, não sou por essas leis do mercado que eu considero deverem ser controladas porque, caso contrário, conduzem ao esclavagismo». É naturalmente contra o acordo transatlântico, o TTIP, cujo objectivo é criar «mercado único mundial», onde «os fracos morrerão». A respeito do conflito ucraniano? A culpa é da UE, que «se imiscuiu voluntariamente na esfera de influência da Rússia». Finalmente, e quanto à geopolítica europeia: «os países do Norte tratam os do Sul como parasitas, gastadores, preguiçosos».

Alexis Tsipras num comício interno? Pablo Iglesias numa manifestação do Podemos? Poderia ser qualquer um dos dois, pois qualquer um subscreveria todas as posições suprarreferidas. Mas não é. É Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, o partido de extrema-direita francês, numa entrevista ao Expresso (edição em papel). Não fosse a reposição da pena de morte ou o fim da imigração, e seria um autêntico programa eleitoral da extrema-esquerda. Este episódio recorda-nos que nacionalismo e socialismo sempre andaram de mãos dadas, pelo menos no que a assuntos económicos diz respeito.

«Sou de extrema-direita, mas bem podia ser de extrema-esquerda».
«Sou de extrema-direita, mas bem podia ser de extrema-esquerda».
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20 pensamentos sobre “Um programa eleitoral de extrema-

  1. Francisco

    Mas com esta democracia de conveniências com agentes sindicalista e afins, não é de admirar Le Pens.

  2. Trotsky

    São posições que, actualizadas para os novos tempos, não se afastam por aí alem das que historicamente defendeu o General De Gaulle.

  3. JS

    Pois, pois, programas eleitorais….
    No programa eleitoral do PS/Socrcrates -para não ir mais longe- não constava como intenção “arruinar o País”. No entanto foi o que o eleito PM fez. Com toda a força da maioria democrática, do eleitorado “sempre” atraz de si, resolveu, conseguiu, legalmente, fazer o que de todo não constava no seu programa eleitoral.

    É obvia a distância entre os programas eleitorais e os factos que vão ocorrendo durante os 4, ou 6, ou 8 anos de autoridade democrática, legitima, de um PM.
    Algo tem que mudar nos sistemas políticos em voga ,,, e não é só em Portugal, nem só na Grécia. Veja-se a França e “alteranar”. O Reino Unido a UKIPar.

    Lembremo-nos de que não há assim tantos anos as Empresas encerravam 3 ou 4 dias no início do ano, em Janeiro, “para balanço”. Ou seja fechava-se o exercício “anualmente”(!!!). Isto para não falar dos célebres planos “quinquenais”, em política, de tão boa memória, ainda.

    Hoje em dia qualquer supermercado (ou empresa) sabe diariamente, “ao minuto” o que vendeu e o que tem que produzir e encomendar a fornecedores. Os produtos que estão “a dar lucro” e os monos de que precisa de se desfazer. O que o mercado quer.
    Sucesso ou ruína. Vida ou morte.

    É tempo de EM POLÍTICA evoluir.
    Seguir, fiscalizar o que está a resultar do exercício de poder pelo actual executivo (e do legislativo) “ao minuto”.
    E não é com eleições de 4 em 4 anos, a partir de programas inócuos na letra, mas letais nos resultados que vamos lá, como se tem visto. A propósito: alguém votou, esclarecidamente ou não, esta “europa”?.

    Os últimos acontecimentos referendados, ou não, na Suiça -nomeadamente a atitude do eleitorado, do soberano cidadão, em relação à moeda, à imigração e ao ouro- são a prática que demonstra o pragmatísmo do conceito. Se corre mal é responsabilidade indiscutida de todos. Se corre bem, óptimo.
    Vale a pena instituir um ciclo “para balanço e fiscalização do exercício poder executivo” pelo menos muito mais curto. E deputados com um minimo de representatividade / responsabilidade. Estima-se uma comunicação social a condizer.

  4. António

    Folgo em constactar que os Insurgente já não mostram tanto os tiques e tendencias nacionalistas, e anti UE ( e anti euro), que mostravam até… este governo ir para gestor do Estado.

    Parece que agora, o Euro, os juros ultra baixos, a impressão de dinheiro (QE), o centrão social democrata (ou seja, socialista), já são o mal menor que é preciso defender das extrema, extrema direita e extrema esquerda.

    E o liberalismo (nas várias variantes) onde é que ficou no meio disto tudo?

  5. PPorto

    Este episódio recorda-nos que os partidos do centro político eurófilo não estão ao serviço do bem comum; em consequência, perde eleições.

  6. Lufra

    A extrema-direita ou a extrema-esquerda são a mesma coisa.
    Ir parar a um qualquer gulag ou campo de extermínio, caminhando directamente para norte, ou dando a volta pelo sul, o resultado final é o mesmo.

  7. José

    Democracia é isto mesmo: ter de respeitar o Sócrates e o bando de irmãos metralha que o acompanhava quando ele ganhou as eleições, e ter de respeitar a Frente Nacional quando ela ganha, independentemente do que pensemos sobre o assunto e do desagrado que isso nos provoque. Há por aqui gente que nega aos outros a capacidade de poderem exprimir as suas opções: e isso é que é a falta de democracia, ou pelo menos é a «democracia» que eu (e presumo que outros também) não quero.
    Quanto à pena de morte qual é o problema de ser reintroduzida? Queria ver o que é que os seus detractores defenderiam se lhes matassem a mulher, o marido, um filho ou uma filha por exemplo…
    Hoje em dia há formas de através de um interrogatório indolor (sublinhe-se!) saber se um suspeito de assassínio foi ou não o assassino, e o resto é tudo tretas.
    Aliás é curioso verificar que os principais críticos da pena de morte, são os mesmos que quando se referem aos seus adversários políticos, o fazem de uma forma tal, que dão ideia que só não os matam porque não estão no poder.

  8. Quanto à pena de morte, concordará que, enquanto liberal, não posso aceitar que o Estado corrija um mal com outro mal, praticando deliberadamente o cúmulo da coerção e brutalidade sobre o indivíduo — a sua execução. Reservo essa posição bárbara para a extrema-direita.

  9. Simão

    Qual é o problema de Marine Le Pen?!
    Então não estamos em “Democracia”?!
    O seu programa está a ser livremente sufragado e, pelo que vou vendo, não se a pode acusar de hipocrisia ou de esconder as suas intenções. Deste modo, se a FN porventura ganhar as eleições em França isso será, tão só, o resultado da tão incensada Democracia (i.e “Ditadura da Maioria”). A FN não defende nenhuma ditadura nem o fim da Democracia.
    O PNR, independentemente da opinião que cada um tenha dele, tem direito a existir e expor as suas ideias ou não?! (estamos em Democracia ou não?!)
    Quanto à pena de morte sou contra. Defendo, sim, a reintrodução da prisão perpétua para crimes graves.
    Da mesma forma qual o problema do Syriza?!
    Que eu saiba o Syriza não defende nenhuma ditadura “estalinista” nem quer memter ninguém em Gulag’s (nem isso seria possível hoje em dia) zsendo o seu programa muito idêntico aos programas mais “ortodoxos” da social-democracia dos anos 60 e 70. Mais nada.
    Basta de agitar “espantalhos” do passado e exagerar os devaneios pueris dos seguidores do cabo de Braunau ou do seminarista da Geórgia como se essas experiências fossem hoje mínimamente exequíveis.

  10. Renato Souza

    MAL

    Note que as pessoas que execram a pena de morte, defendem (com razão) a guerra defensiva (devo notar que muitos defendem inclusive o terrorismo, mas deixarei esse assunto de lado, porque certamente não é este o caso). Ora, a guerra defensiva, por mais que seja justificável, é infinitamente pior que a pena de morte. Guerra envolve sempre morte e sofrimento para pessoas inocentes (muitas e muitas pessoas). Envolve operações de retaliação, cujo objetivo é apenas impor um custo à parte adversária, para obriga-la a moderar certos atos. Envolve operações especiais de espionagem, inclusive com assassinatos de pessoas que nunca cometeram nenhum crime. Envolve o controle militar (e portanto coerção extrema) sobre populações civis. Envolve execução de traidores ou colaboradores com o estrangeiro.
    A pena de morte, em comparação é infinitamente menos drástica. Envolve apenas a morte de uma pessoa comprovadamente culpada (conforme devido processo legal) de algum crime particularmente hediondo.
    Então, minha primeira colocação é essa: Há uma contradição de fundo entre defender a guerra defensiva e ser contrário à pena de morte.
    .
    Em segundo lugar, a postura contrária à pena de morte tem levado (não sei se por acidente ou por necessidade) à extrema distorção moral dos debates sobre os direitos humanos. Países que tem praticado a pena de morte são colocados no mesmo saco de gatos que países genocidas. A defesa da vida tem ficado mais fraca, obscurecida, por essa confusão. EUA e Coreia do Norte são jogados no mesmo saco de gatos, como se executar um assassino e massacrar os opositores (ou simples discordantes) fossem a mesma coisa.Tenho ficado horrorizado com os textos produzidos pelo atual jornalismo, que dizem (ou querem dizer) que matar inocentes é igual a executar assassinos. Tais textos me fazem ser muito mais firme na minha posição de defesa da pena de morte. Não quero nunca achar que Pol Pot não era pior que qualquer presidente ou PM de um país livre onde possa ter ocorrido alguma execução de um assassino. Se a oposição à pena de morte faz isso com a mente de muitas pessoas, por garantia nunca vou me opor à pena de morte.
    .
    Finalmente, a pena de morte é coerção extrema, mas é coerção proporcional à coerção praticada pelo criminoso. Quem não quer ser coagido, não coaja outros.

    Ps: Eu amaria viver num mundo em que, existindo a pena de morte, não existissem ISIS, governo coreano, Boko Haran, e todo tipo de monstruosidade. E, pensando bem, talvez só seja possível vencer certas monstruosidades com o auxílio da pena de morte. Que, como eu disse, é infinitamente menos violenta que a mais justa das guerras.

  11. Manuel Costa Guimarães

    O barómetro moral do sistema jurídico tem que ser sempre superior à vontade de justiça pessoal quanto a um certo crime, pois se assim não fosse, viveríamos na Idade Média. Por muito que quisesse matar o homicida da minha (ex.:) mulher, teria que o fazer com as minhas próprias mãos e arcar as consequências desse acto, pois de outra forma seriam responsáveis, pela morte desse homicida, 10 000 000 de portugueses.

  12. Pingback: O critério de representatividade de Marine Le Pen | O Insurgente

  13. José

    Mário Amorim Lopes, é livre de não gostar do que eu entendo ser correcto mas ao menos sugiro-lhe que leia com atenção o que escrevi. Fui muito claro referindo que existem formas indolores, repito: indolores (!), de confirmar se alguém é ou não culpado de ter praticado um crime. Do ponto de vista estritamente económico é muito mais barato para o Estado recorrer a esse tipo de processo para obter uma conclusão inquestionavelmente mais fiável, do que recorrer a um julgamento.
    Depois há três aspectos que os detractores da pena de morte insistem sempre em ignorar:
    1. uma das finalidades de uma boa lei é desincentivar a prática do crime;
    2. outra das finalidades é produzir sentenças que reponham as circunstâncias tal como existiriam se o crime não tivesse sido praticado;
    3. como é que a sociedade compensa as vítimas de um criminoso reincidente?
    Sobre o primeiro não conheço estudo nenhum que demonstre que a abolição da pena de morte diminui a criminalidade. É curioso assinalar que um dos sobreviventes de Tiannanmen em entrevista nos EUA ter declarado que a pena de morte é um processo de controlo das más práticas sociais que a China não poderia pôr de lado.
    Sobre o segundo, no caso de um assassínio a solução pela pena de morte é igualmente economicista: como não seria possível repor as circunstâncias, o criminosos passaria a ser dador de qualquer órgão do seu corpo necessário para salvar um doente. Quando não fosse capaz de sobreviver pelos próprios meios tirava-se o que ainda tivesse proveito, e o resto ia para o balde do lixo. Arrepiante? Lembre-se da primeira finalidade de uma lei…
    Sobre a terceira nem vale a pena acrescentar uma palavra…
    Se é ou não a posição do PNR desconheço. Mas aqui também lhe refiro três coisas:
    a) deixei de votar no final do século passado;
    b) li o Arquipélago de Gulag, Gulag: a History, os Contos de Kolyma, Cannibal Island: Death in a Siberian Gulag, e o Livro Negro do Comunismo, portanto é-me muito difícil de compreender a sua referência se simultaneamente não revelar a mesma aversão a tudo o que esteja à esquerda do PS em Portugal;
    c) em matéria de literatura desde os 12 anos que gosto do Erskine Caldwell e desse fantástico romance escrito pela Harper Lee.
    Assim sendo resta acrescentar que quem não gosta de resultados eleitorais não faz eleições…

  14. Caro José, não vou enveredar pela conversa da pena de morte, muito menos com base em critérios utilitaristas. É uma discussão de princípio, e eu recuso que o Estado tenha a autoridade para o exercício ilimitado da coerção sobre o indivíduo. As Constituições foram criadas precisamente para limitar esse abuso de poder. Quanto à sua referência à aversão por partidos de extrema-esquerda, por cada artigo em que critico a extrema-direita, tenho 100 a atacar a extrema-esquerda. Não está a ser justo.

  15. José

    Caro Mário Amorim Lopes registo a sua hospitalidade, cortesia e tolerância. com uma opinião que não partilha.

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