O bom exemplo da Estónia

taavi-roivas-peaministri-kandidaat-sotsiaalminister-68441387Passou algo despercebido, mas há 18 dias atrás o Reform Party ganhou as eleições legislativas na Estónia, formando governo em coligação com os sociais-democratas. Taavi Rõivas, 34 anos, líder do Reform Party, assume assim o cargo de primeiro-ministro da Estónia.

Isto é particularmente interessante porque o Reform Party não é o tradicional partido socialista, social-democrata, conservador ou democrata-cristão, pejado de senis senadores e de figuras do regime do tempo da outra senhora, ou de repetidos vultos que obstinadamente teimam em não desaparecer. Nem é um partido dos ex-apparatchiks agora hipsters na New Left. É um partido reformista de cariz assumidamente liberal, cheio de gente jovem e dinâmica. “A primazia da liberdade individual”, “um dono privado é melhor mestre que o Estado”, “uma sociedade aberta”, ou a ideia que “para uma sociedade funcionar, indivíduos, empresas e sindicatos podem resolver muitos dos seus problemas sem a intervenção do Estado” são alguns dos mantras políticos publicamente assumidos pelo partido, que contrastam com a cansativa e estéril ladainha do bem comum, chavão máximo da ética republicana.

Talvez porque a Estónia tenha de facto sentido na pele — literalmente — o comunismo sob a égide da União Soviética; talvez porque preza a liberdade, após tantos anos de privação; talvez porque os seus cidadãos saibam, por experiência própria, o que é a opressão do Estado; talvez por isso nem sequer existam partidos comunistas na Estónia; ou simplesmente porque acreditam na liberdade individual, os estónios transmitem uma importante mensagem aos restantes países europeus: existe vida para além do nacionalismo da Frente Nacional, ou do insano disparate do Syriza.

27 pensamentos sobre “O bom exemplo da Estónia

  1. Rinka

    A aguardar o dia em que vamos ler “Estónia colapsa”
    Podemos montar um relógio para contar as horas?

  2. tina

    “aguardar o dia em que vamos ler “Estónia colapsa””

    É impossível isso acontecer com pessoas corajosas, que estão preparadas para trabalhar e tomar riscos. Quem fracassa são os que se querem pendurar nos corajosos e no trabalho deles, ou seja, são sempre os sanguessugas da esquerda que fracassam.

  3. Francisco

    Os canhotos esquecem-se que a Europa não é só Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia. É salutar que olhem para os outros países cujos povos não votaram em partidos de esquerda que compram os votos à custa da riqueza da nação…

  4. MG

    “Até ver, aquilo que continuamente parece teimar em colapsar são regimes comunistas e socialistas.”

    Ai está, eu sempre desconfiei. Afinal os romanos sempre foram uma trupe de comunistas, cobardes e preguiçosos…

  5. E, contudo, há lá uma grande fatia de russos e, claro, russófilos. Mesmo assim, separam-se as águas. Aliás, pelo que percebi quando estive uns (5) dias em Tallinn, cidade maravilhosa apesar das cicatrizes soviéticas nos alojamentos massificados felizmente (obviamente) longe do centro histórico de fazer inveja pela beleza e o restauro, e com conversas bem divertidas mesmo com russas a sério, separam bem as águas e até evitam misturar-se. O segregacionismo russo, da sua comunidade que se auto-isolou, pelo que percebi, não afectou minimamente os autóctones.

    Quanto à notícia, nem sabia disto. Bons ventos do (Norte) Este, apesar da ameaça do urso vizinho. Contra os canhões, marchar, marchar.

  6. MG,

    Nos últimos tempos do Império havia distribuições gratuitas de pão e pouca gente a trabalhar. E os compinchas do imperador dominavam o comércio. E os impostos eram (para a época) terríveis.

    Leia Gibbons. Os romanos dissolutos eram mesmo indolentes e esperançados no panis et circensis.

  7. Mário,

    Espero que não gravitem para o centro. O pior que poderia acontecer é ter um partido libertário a trabalhar à la social-democracia, lixando-nos a reputação com os resultados já mais que testados da social-democracia.

    Também nós tivemos, temos ou teremos, ou não teremos, ou teríamos de ter o governo mais liberal de sempre. Os resultados de tanta liberalidade tíbio-socialista são mais ou menos e assim-assim.

    Estará cá o Costa para fazer a real bosta.

  8. “um partido reformista de cariz assumidamente liberal, cheio de gente jovem e dinâmica. “A primazia da liberdade individual”, “um dono privado é melhor mestre que o Estado”, “uma sociedade aberta”, ou a ideia que “para uma sociedade funcionar, indivíduos, empresas e sindicatos podem resolver muitos dos seus problemas sem a intervenção do Estado”.

    – Também quero!!…

  9. Simão

    “…os resultados já mais que testados da social-democracia.”

    Em conjunto com a Democracia-Cristã representou o apogeu de bem estar na Europa.

    Vão perguntar no centro e norte da Europa se não resulta.
    Podem começar na tão “incensada” Alemanha, uma SOCIAL-DEMOCRACIA e pátria do que se entende por ESTADO SOCIAL (ver Bismarck).

    Ora bem, a maior economia da Europa e uma das maiores do mundo é…..uma Social-Democracia!!

    Embrulhem! 🙂

  10. Simão

    A Alemanha conheço muito bem por motivos profissionais e pessoais (avó materna alemã).
    É um completo “wellfare State” e isso nunca lhes prejudicou a competitividade.
    Ao contrário do que “cacarejam” certos Media e demais comentadeiros, o governo da Chanceler Merkel é uma coligação bem moderada.
    Merkel chefia uma coligação, CDU-CSU (União Cristã Democrata-União Cristã SOCIAL) que, por sua vez, para governar (uma vez que não teve maioria absoluta), está coligada com o SPD (Partido SOCIAL Democrata da família política do PS português).
    Ou seja, o governo de Merkel, que se desdobra em benefícios sociais é, organicamente, um autêntico “hino” ao binómio “Social-Democracia-Democracia Cristã” que dominou a política da Europa Ocidental desde 1945.
    Isto nunca lhe retirou competitividade e poder económico, ou seja, a Social Democracia funciona.

    Se compararmos a Alemanha ás (poucas) economias que estão à sua frente podemos fazer o seguinte ajuste: comparando o tamanho territorial e o número de habitantes da Alemanha com os que lhe estão à frente, a Alemanha é…. a maior economia do mundo.

    Ooops….olha…. lá se foi o mito de que a Social-Democracia/Democracia Cristã não funciona.
    🙂

  11. Simão, a Europa cresceu mesmo com partidos sociais-democratas e democratas-cristãos é uma descrição mais apropriada. E Bismarck queria apenas unir a Alemanha, o Estado Social foi o candy.

  12. Simão

    Mas como explica o Mário a tremenda eficácia económica da Alemanha sendo……uma Social-Democracia?!?

  13. Social-democracia é uma ideologia, não é um regime político. A Alemanha é uma democracia liberal, como são todos os países europeus. E tal como os restantes países europeus, também tem a sua dose de socialistas que vão tentando estragar a coisa. Mas, ao contrário de países como Portugal ou Grécia, em muito menor escala. É bom recordar que os alemães foram os proponentes intelectuais do ordoliberalismo, uma versão maneta do liberalismo, mas ainda assim com afinidades liberais.

  14. anonimo

    “um partido reformista de cariz assumidamente liberal, cheio de gente jovem e dinâmica. “

    Não são só as “elites” de esquerda socialista que não se entendem em Portugal. Infelizmente as “elites” liberais também não se dão ao trabalho, com a desculpa que a criação de um partido liberal até seria anti-liberal. Limitam-se por isso a análises e críticas de bancada.

  15. Simão

    “Social-democracia é uma ideologia, não é um regime político.”

    Compreendo o que quer dizer mas, em Portugal a Social-Democracia é, de facto um Regime.
    A prova?!
    A Constituição da República Portuguesa de 1976.

    Mesmo que o Governo (este ou outro) estivesse interessado (o que não é líquido) em ir mais além em reformas não o conseguiria pois já o que este Governo fez “esbarrou” na panóplia de limitações do “regime”.
    Mesmo o que o Governo fez (ou tentou fazer …… a mal disfarçado contragosto, diga-se) foi sempre severamente limitado pela Constituição/Regime.

    Não estou a dizer se é mau ou se é bom. Não estou a opinar. Estou, tão só, a constatar.
    Uma ideologia, mesmo na Europa do Séc.XXI, pode ser um “Regime”.

  16. Simão,

    A Alemanha é eficiente porque o povo teima em interiorizar, para desespero da escarralhada, que se pode ganhar pouco sem fazer nada. Eles preferem ganhar muito fazendo bem.

    Problema:

    “Tem de se deixar de perpetuar a ilusão de que em X se pode viver sem trabalhar.” (citação real de um líder político de X) Calcule X.

  17. Pedro Miguel Rodrigues

    “Nos últimos tempos do Império havia distribuições gratuitas de pão e pouca gente a trabalhar. E os compinchas do imperador dominavam o comércio. E os impostos eram (para a época) terríveis.

    Leia Gibbons. Os romanos dissolutos eram mesmo indolentes e esperançados no panis et circensis.”

    Recomenda-se mais leituras dos clássicos. E recomenda-se ainda mais leitura de uma distinção básica: República Romana vs Principado vs Dominado. Também recomenda-se leituras mais próprias de um estudo académico e jurídico sobre a História de Roma, que um ultrapassado Gibbons, um errado Gibbons, e uma linha, antiga, de doutrina anglo-saxónica (salvo raríssimas excepções…) que, sobre a História de Roma, só sabe dar tiros nos pés…

    Um bom estudo de Roma pode dar muito jeito, mas não desta forma…

  18. Pedro Miguel Rodrigues,

    Antes um ultrapassado Gibbons que nenhum, que é o que esta gente lê, visto que não aprendem com o passado nem compreendem o periclitante advir. De qualquer forma, leio mais traduções dos autores contemporâneos do declínio.

    Os asnos também vivem para o presente e não sabem senão queixar-se da qualidade da flora, sem entender que são as suas próprias fezes aquilo que fertiliza mal o campo e lhe tira o viço.

  19. Pedro Miguel Rodrigues

    Caros Alves e Francisco Miguel Colaço,

    No que toca a estudos que tentam “colar” termos modernos, especialmente, económicos e jurídicos, a Roma, nomeadamente, durante o seu período republicano e durante os primeiros tempos do Principado, lamento por quem os leia e os leve muito a sério. Como é bem compreensível, a realidade romana não admite uma aplicação adaptada ou literal, de termos modernos. Simplesmente, não funciona; é um “insulto” a um estudo, de bom senso, imparcial sobre Roma e as lições que nos pode dar.

    Porque, caro Francisco Colaço, a melhor lição que a Roma republicana nos pode dar é a relação entre normas juridicas e o exercício do Poder. Mais do que isto é, quase, inventar. Por isso, caro Francisco Colaço, pior do que ignorar, é ler um Gibbons ultrapassado. Porque, neste caso, é preferível a ignorância do que não se sabe; do que a ignorância derivada de um conhecimento errado, que é o que acontece com Gibbons e afins.

    Do mesmo modo, repete-se a lógica inicial… Se o caro Francisco Colaço, ou outros, querem, mesmo, discutir sobre Roma nas facetas que mais interessam para os dias de hoje, então, dá jeito ler uma quanta doutrina, básica, sobre a diferença, abissal, entre a Roma Republicana e a Roma do Principado. Só assim é que se pode falar de um “declínio”. É que, curiosamente, Roma tem, pelo menos, três declínios… E, curiosamente, o “declínio” imperial nem é o que tem mais lições…

  20. Renato Souza

    Já que falaram dos romanos, é de notar que o colapso econômico de seu império (ao qual se segui o colapso militar) foi causado por inflação monetária e controle de preços. Os romanos não eram socialistas (nem capitalistas), mas a causa de seu colapso foram duas políticas que os socialistas quase sempre praticam.

    Os economistas austríacos escreveram sobre isso, e é impressionante comparar as descrições da época com os fenômenos econômicos atuais, como a Venezuela.

    Eu vivi a hiperinflação no Brasil, particularmente no tempo do Presidente José Sarney. A única diferença entre tais eventos foi que em Roma, a desorganização produtiva se aprofundou mais, porque o congelamento de preços foi mais drástico.

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