Nespresso Grand Demos Ago

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Há cinco, seis séculos atrás, simples mercadores eram objecto de perseguição das autoridades e de condenação da Igreja. Estes mercadores cumpriam uma importante tarefa — a de arbitragem. Compravam bens onde eles eram abundantes e, logo, baratos, e vendiam-nos onde eles eram escassos ou até inexistentes. O lucro que auferiam era o prémio de risco pelo transporte, pela logística, e pelo risco de serem assaltados ou até mortos durante a travessia. Embora perseguidos, porque aparentemente não produziam nada, a actividade nunca foi totalmente proibida, não obstante as considerações morais de então sobre o mesma. Isto porque estes mercadores asseguravam que populações isoladas tivessem acesso a bens que, doutra forma, não conseguiriam ter.

Passados seis séculos, a ignorância que outrora perseguia estes mercadores continua a manifestar-se, desta vez envolvida em demagogia. Douto na arte, e até doutorado, Francisco Louçã conta-nos a história do Brasil, produtor de café, e da Alemanha, que, embora não o produza, é o terceiro maior exportador de café do mundo. À luz da iliteracia que versava no século XV, a interpretação é a mesma — a Alemanha, que não produz, colhe apenas o fruto do trabalho dos outros.

Não são necessárias complexas teorias económicas para perceber o erro crasso por trás deste raciocínio, basta uma simples dose de bom senso. A Alemanha faz precisamente aquilo que os mercadores de outrora faziam. Beneficiando da sua posição estratégia na Europa e das suas boas infraestruturas, a Alemanha importa para depois exportar. Importa o café, armazena-o, e depois revende-o em quantidades menores. E, se o café for reprocessado pela Nespresso no Norte da Alemanha — empresa Suíça, atente-se —, então existe ainda mais valor acrescentado: o grão tostado do café vira um produto de luxo com uma enorme procura mundial.

Se a Alemanha não acrescentasse valor, ninguém lhe compraria café. Afinal, porquê comprar o saco do café ao dobro do preço, quando o poderia fazer a metade directamente ao Brasil? Por vários motivos, que são fáceis de elencar: 1) tempo de entrega ordens de magnitude inferior; 2) MOQ (minimum order quantity) muito menor; 3) burocracia intra-EU vs Brasil facilitada; 4) menores custos de transporte por Kg; etc. Ou seja, embora o custo unitário do saco seja mais barato no Brasil, fica mais barato comprar diretamente à Alemanha até uma certa quantidade. Na verdade, não é apenas a Alemanha que faz isto com o café. Existem entrepostos por toda a Europa cuja finalidade é precisamente esta, a de servirem de ponto intermédio entre produtores e consumidores, ajustados à medida de cada um.

Tudo isto seria irrelevante se não fosse Francisco Louçã professor catedrático de Economia no ISEG. O obscurantismo económico do século XV perpetua-se assim nas universidades portuguesas.

20 pensamentos sobre “Nespresso Grand Demos Ago

  1. Kubo

    As catedratices dos Catedráticos são muito encomiadas e veneradas pelas Elites predominantes desde há muito.

    As Universidades estão pejadas de tanta jactanciosidade sapiencial.

    Do mesmo ISEG é o Catedrático Prof. Dr. Paulo Trigo Pereira que adora seguir a tradição Catedrática: vomitar catedratices. Este vomitou há tempos que “Dívida é receita não efectiva”…

    Bastaria fazer um exercício silogístico aristotélico simples para entenderem a sofística da asserção vomitada; mas para isso deveriam ensinar nas Faculdades de Economia os rudimentos das Categorias de Aristóteles [o que não fazem nem farão… Primeiro o direito à Catedratice e aos emolumentos conexos…] com vista a evitar-se erros de palmatória dos Doutores doutorais. PPP’s suculentas e artifícios tipo Swaps não passariam no crivo da elementar silogística de Aristóteles, mestre no esvaziamento da argumentação da Sofística.

    Típicos exemplares da vacuidade da sabença das Elites portuguesas; Eça continuaria a encontrar muitos Dâmasos e Condes de Abranhos no escol português actual e que em nada perdeu a congénita jactância do pensar indigente de oitocentos, que Eça e Ramalho tão bem nos ajudam a identificar na mediocridade pretensiosa da actualidade.

  2. Miguel Alves

    A minha opinião pessoal é que o Louça levou com os pés de uma Alemã, e não deve ter sido bonito de se ver… só isto explica esta obsessão com a Alemanha, é que o Doutor até vai buscar vídeos estranhos para atacar…. mas para quando um artigo do Louça sobre a Rússia ou Venezuela, é que “há vida para além da Alemanha”.

  3. Manuel Lopes Rocha

    Aquilo que Louçã diz nada tem de económico, pelo contrário: é um preconceito meramente ideológico em relação ao lucro e à forma inteligente como as empresas alemãs exportadoras de café gerem o seu negócio. Apesar de fazer crer o contrário, Louçã não fala como economista mas sim como qualquer outro militante da extrema-esquerda que tem uma aversão à ideia de lucro e de riqueza.

    Ao longo dos tempos, Louçã sempre se destacou porque, sendo um docente universitário aparentemente de mérito reconhecido, tinha opiniões menos ortodoxas em matéria económica. Não sei como são as faculdades de economia, mas creio que não serão muito diferentes das de direito onde determinados professores também “reputados”, por mais disparates que dissessem, são ouvidos e admirados sem contestação. Por mais absurdas que sejam as suas posições (se fossem ditas por alunos de primeiro ano dariam chumbo directo), continuam a opinar sem qualquer contestação. Certamente Louçã, na sua área, é um perfeito exemplo disto.

  4. Luís

    Creio que há uns anos a Alemanha fazia o mesmo com o lítio extraído em Portugal e os espanhóis aproveitavam a laranja algarvia e o marisco da Ria Formosa.

  5. Luís, os espanhóis mandam para Portugal os porcos pretos para a engorda. São pesados à entrada e à saída. Quanto às laranjas, penso que hoje compramos laranja algarvia que por vezes é espanhola…

  6. anónimo

    Num país onde a bancarrota é cíclica, quando eu for ditador, despeço com justa causa tudo o que é professor catedrático de Economia e Finanças Públicas.
    Não é só este seminarista chic de Telheiras. São todos os outros em todas as outras faculdades.
    A última bancarrota é a prova da incompetência científica das ciências económicas em Portugal.
    Os economistas – Prof Doutores – responsáveis pela bancarrota são chamados ás televisões para darem mais palpites. E continuam nas respectivas faculdades a massacrar os alunos com teorias que, obviamente, não resultaram na prática.
    Aquela cavalgadura do Teixeira dos Santos não terá vergonha quando está à frente dos alunos a debitar “ciencia” ?
    Não haverá um aluno que lhe responda: “isso é o que o Sr. Prof. diz…” ?

  7. Pingback: Porcos pretos | O Insurgente

  8. campus

    Isto sim, esta crónica é serviço público. Um tema que poucos aprofundam e que demonstra a hipocrisia da esquerda e o discurso contra os ” ricos “. Este incompreensível desejo que 99,9 % da humanidade sejam pobres.

  9. JPT

    Gosto em especial da afirmação de que “Tudo é lucro” na actividade de converter café em cápsulas Nespresso. Tudo, claro, excepto o custo da moagem e do tratamento do café de modo a enquadrar-se nas características de cada um dos tipos de café Nespresso e a ter a durabilidade do dito produto; o custo com o fabrico das próprias cápsulas Nespresso e das respectivas embalagens; o reembolso do custo dos anos de investigação e desenvolvimento que permitiram que o conceito de “cápsulas Nespresso” exista e que eu possa beber uma bica, com qualidade, em casa, sempre que me apetece; o custo com a promoção e o marketing que criaram e mantêm a apetência dos consumidores pelas “cápsulas Nespresso” quando, entretanto, inúmeros imitadores, muito mais baratos, apareceram no mercado, e que incluem manter lojas em locais dispendiosos e com atendimento requintado e aplicações que permitem a compra on-line. Tudo isto é triste, tudo isto existe, tudo isto é lucro.

  10. lucklucky

    Penso que o ódio aos Alemães por muita gente hoje explica muito dos mecanismos que construíram o ódio aos Judeus.

  11. Alguém que pergunte ao Prof. Dr. Louçã (que envergonha a minha faculdade!) porque é que o Brasil deixa então escapar esse almoço grátis! Pelos vistos os brasileiros até podiam ficar com esse lucro todo para eles, mas não querem, deve ser porque não são capitalistas gananciosos e trabalham para aquecer, concerteza! O Dr. Louçã ainda está a fazer a sua evolução para quiçá um dia finalmente constatar que a mais valia não está no produzir mas no vender…

  12. Luís Lavoura

    Louçã poder-se-ia ter lembrado de que Portugal também é um substancial exportador de café, apesar de não cultivar nenhum. As fábricas de Campo Maior fartam-se de exportar.

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