Golpe de mestre?

No passado dia 10 de Fevereiro Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia, dirigiu através do Twitter as seguintes palavras aos gregos:

I want to assure the Greek ppl that our policies will be implemented in full & I’m optimistic that we’ll find a compromise w/EU partners

Ontem o ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, enviou ao Eurogrupo uma proposta de acordo (meus destaques):

Dear President of the Eurogroup,
Over the last five years, the people of Greece have exerted remarkable efforts in economic adjustment. The new government is committed to a broader and deeper reform process aimed at durably improving growth and employment prospects, achieving debt sustainability and financial stability, enhancing social fairness and mitigating the significant social cost of the ongoing crisis.

The Greek authorities recognise that the procedures agreed by the previous governments were interrupted by the recent presidential and general elections and that, as a result, several of the technical arrangements have been invalidated. The Greek authorities honour Greece’s financial obligations to all its creditors as well as state our intention to cooperate with our partners in order to avert technical impediments in the context of the Master Facility Agreement which we recognise as binding vis-a-vis its financial and procedural content.

In this context, the Greek authorities are now applying for the extension of the Master Financial Assistance Facility Agreement for a period of six months from its termination during which period we shall proceed jointly, and making best use of given flexibility in the current arrangement, toward its successful conclusion and review on the basis of the proposals of, on the one hand, the Greek government and, on the other, the institutions.

The purpose of the requested six-month extension of the Agreement’s duration is:
(a) To agree the mutually acceptable financial and administrative terms the implementation of which, in collaboration with the institutions, will stabilise Greece’s fiscal position, attain appropriate primary fiscal surpluses, guarantee debt stability and assist in the attainment of fiscal targets for 2015 that take into account the present economic situation.
(b) To ensure, working closely with our European and international partners, that any new measures be fully funded while refraining from unilateral action that would undermine the fiscal targets, economic recovery and financial stability.
(c) To allow the European Central Bank to re-introduce the waiver in accordance with its procedures and regulations.
(d) To extend the availability of the EFSF bonds held by the HFSF for the duration of the Agreement.
(e) To commence work between the technical teams on a possible new Contract for Recovery and Growth that the Greek authorities envisage between Greece, Europe and the International Monetary Fund which could follow the current Agreement.
(f) To agree on supervision under the EU and ECB framework and, in the same spirit, with the International Monetary Fund for the duration of the extended Agreement.
(G) To discuss means of enacting the November 2012 Eurogroup decision regarding possible further debt measures and assistance for implementation after the completion of the extended Agreement and as part of the follow-up Contract.
With the above in mind, the Greek government expresses its determination to cooperate closely with the European Union’s institutions and with the International Monetary Fund in order: (a) to attain fiscal and financial stabilityand (b) to enable the Greek government to introduce the substantive, far-reaching reforms that are needed to restore the living standards of millions of Greek citizens through sustainable economic growth, gainful employment and social cohesion.

Sincerely,
Yanis Varoufakis
Minister of Finance
Hellenic Republic

Por outras palavras, a proposta grega era de garantir a extensão do empréstimo por 6 meses e, em contrapartida… continuar negociações sobre políticas que Syriza deseja implementar. Uma espécie de «primeiro enviem o dinheiro, depois vemos o que fazer com ele». O governo alemão percebeu a intenção e rejeitou-a imediatamente.

Mas, na minha opinião, o vencedor deste confronto foi a Grécia ao fazer a Alemanha cair numa “armadilha” mediática (foi vista como o vilão). É que – ao contrário de entidades oficiais – os jornalistas e comentadores foram enganados pela retórica da missiva e, por via daqueles, o público em geral (antes de ler o texto reproduzido acima, eu incluído), presumindo que a Grécia fez algumas cedências. Não o fez, colocou apenas no papel aquilo que anda a dizer há semanas.VaroufakisXadrez

Varoufakis teve aqui uma jogada de mestre o que, para um político dito amador, é louvável (acredito que a saída do euro é consequência perfeitamente aceitável para o Syriza, desde que não seja este percepcionado como a causa).

14 pensamentos sobre “Golpe de mestre?

  1. Pingback: Varoufakis. | Astrolábio

  2. Jorge Gaspar

    Claro, ter a parolada toda a dizer que a culpa é da Alemanha é de génio. O maduro nunca conseguiu nada parecido, nem a kirchner, nem os castro, nem stalin, nem kim yong un, nem hitler. Realmente é dificil meter os idiotas a apontar o dedo.

    Quando se arrasta um país para o abismo e ainda assim os consideram mestres …
    Quando as pensões e os salários dos funcionários públicos vierem em Dracmas é que vão ser elas. Aí sim, veremos a jogada de mestre, de preferencia com o orçamento das polícias reforçado.

  3. Hajapachorra

    A Grécia não sai do euro. Tende calma e estudai mais um bocadinho. Não magoa. Estudai História, anterior ao séc. XX, e literatura, anterior ao séc. XX. Deixai essas drogas da teoria política, da sociologia, economia e outras necromancias.

  4. tina

    Não foi só o governo grego, a interpretação do Guardian também foi feita nesse sentido, dando a impressão que eles já tinham concordado com isto e aquilo, e não que ainda iam discutir os termos em como ia ser feito. Eu também caí nessa.

    .

  5. A carta está muito bem escrita de uma forma diplomática. Ao ser ambígua em diversos termos permite interpretações em que cada lado poderia “cantar vitória” e dizer que conseguiu o que queria.
    Um problema é que não compromete de forma verificável os Gregos com a continuação das políticas anteriores (pelo que seria preciso confiar neles… pois… ou aceitar que essas politicas caíssem), e para além disso os governos de vários países da Eurozona não querem de todo permitir ao Syriza ESSA vitória (concordando que se para o Syriza é quase indiferente ter extensão de 6 meses ou parecer que está a ser posto fora pela Alemanha… para a CDU/CSU e para muitos partidos no governo na Europa não é – e nem estamos a falar de questões económicas aqui).
    Mas a verdade é que de um ponto vista utilitário direto muito provavelmente um “mau acordo” é muito melhor que a destruição da União Europeia (claro que isso não iria ocorrer imediatamente, nem sequer implicaria a saída imediata de mais países, mas expulsar a Grécia implica isso no médio prazo – acho que os países do centro iriam aprender nessa altura que há coisas bem piores que estar numa “transfer union”).

  6. Uma maneira de a velha rameira, evitando ser sovada num quarto escuro, sair à rua e poder dizer que foi violentada mesmo que venha pela mão do agressor até à porta e demore a entregar.lhe a chave de entrada…

  7. tina

    Eles não querem sair do euro, pois foi a resposta de 75% da população a esse inquérito. O que ainda não perceberam é que as pessoas realmente não se importam que eles saiam, julgam ainda que vão causar mossa e é com isso que estão a jogar. Tal como um filho drogado, que espera que os pais estejam sempre do lado dele.

  8. Tina,

    Os gregos gostam muito do Euro. Já tiraram 25 mil milhões deles dos bancos, com picos de levantamentos nesta semana, antes do feriado bancário de segunda-feira. Fala-se à boca fechada de corralito ou de tonsura.

  9. Andre

    Ontem estava a pensar exactamente no mesmo e concordo parcialmente.

    Os gregos andam a deixar andar a coisa, a ganhar tempo e não saímos da cepa torta.. Se repararem estamos no mesmo ponto de há 1 mês atrás. Imensos “avanços” e “recuos”, muito se escreveu sobre isto e nada. Reconheço a habilidade em ter ganho tempo.

    Eu se tivesse no Eurogrupo já tinha perdido a paciência e tomaria a seguinte medida:
    Emprestava o dinheiro que eles queriam a 6 meses, com uma condição a meio do empréstimo (passados 3 meses portanto):
    Na carta comprometem-se a cumprir orçamentalmente certo? Como ninguém acredita mas é essa a principal condição, se os gregos falhassemnestes três primeiros meses, seriam avisados que nos outros 3 meses teriam de atingir certo patamar. Se não o atingissem, aplicavam um programa.

    ou seja, aceitava, mas com condição de que passados 6 meses se quisessem mais seria à nossa maneira (da Europa). Era uma forma de mostrar flexibilidade, deixar este governo fazer a borrada que quer fazer, encosta-los à parede para pedir mais e depois, já com o acordo assinado 6 meses atrás, terem de se submeter a medidas de ajustamento.

  10. Pingback: Tudo como previsto – Porque é que a Grécia sai do Euro já em Fevereiro | O Insurgente

  11. RJ

    O que a grecia quer é empatar a europa durante 6 meses para ver se com as eleições na espanha conseguem com que o ‘podemos’ ganhe para tentar ter mais força na europa. O problema deles é que para além dos Alemães ja os terem topado, eles têm de fazer isto de tal forma que tem de ser projectado que foram eles que vergaram toda a gente (para que os ‘podemosp desta vida ganhem mais força)

  12. RJ,

    Tem toda a razão. E eu acho que é melhor fechar a torneira e apanhar o embate de 2% do PIB da Zona Euro do que permitir que se ateiem fogueiras.

    A dita solidariedade europeia sai sempre dos bolsos de alguns (dos contribuintes alemães). Se os tipos são tão bons e justos e assizados governantes, façam o tal haircut de 100%, e poupem-nos a mais intransigências.

    Depois desenmerdem-se orgulhosamente sós (o que vai de certeza dar em miseravelmente SOS).

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