Situação grega: implicações políticas para Portugal

Nos últimos 3 anos e meio, a oposição ao governo tem baseado grande parte da sua argumentação nestes 2 pilares:
1. Existem alternativas ao programa de austeridade
2. Essas alternativas dariam resultados mais positivos do que o programa de austeridade

Até agora estes dois argumentos nunca foram testados. Com excepção das resistências iniciais do governo grego, todos os países periféricos embarcaram em programas de austeridade. Mesmo os países que não necessitaram da intervenção directa da troika e são governados por partidos da área política do PS (França e Itália) optaram pela austeridade nos mesmos moldes que Portugal.

A eleição do Syriza vem finalmente colocar à prova esses argumentos. O Syriza foi eleito com a promessa clara de acabar com a austeridade. Foi eleito no país que mais sofreu com a crise e é o partido mais à esquerda com poder na Zona Euro. A existir uma alternativa, nenhum partido estará mais disposto a aplicá-la do que o Syriza. Enquanto que com Hollande e Renzi se pode argumentar que são líderes ideologicamente flexíveis e por isso cederam à pressão germânica pela austeridade, com o Syriza essa desculpa é inválida. A existir de facto uma alternativa à austeridade, o Syriza aplicá-la-à. Se tiver sucesso nessa aplicação, então a teoria da oposição será tida como verdadeira: existia de facto uma alternativa à austeridade e essa alternativa teria tido melhores resultados. Mas se uma dessas condições não se concretizar, então será provada a razão do governo.

Em resumo, será provada a razão da oposição se:

1. O Syriza inverter o programa de austeridade (subir o SMN, reverter alterações no código laboral, aumentar a despesa pública e parar as privatizações)
e
2. O resultado dessa inversão for positivo para a Grécia

Por outro lado, a oposição será provada errada se:

1. O Syriza não inverter o programa de austeridade, ficando demonstrado que não existia de facto alternativa viável
ou
2. Sendo invertido o programa de austeridade, a política alternativa dê maus resultados para a Grécia.

Os próximos meses trarão a resposta.

12 pensamentos sobre “Situação grega: implicações políticas para Portugal

  1. Artur Amorim

    O raciocínio é evidente para quem não é ideologicamente rígido. Mas como sempre vão arranjar sempre argumentos do tipo “a culpa é dos mercados” ou “trata-se de uma guerra económica da Alemanha com os gregos”. O conjunto dos argumentos populistas é infinito e inumerável.

  2. Manuel Vilhena

    Discordo. A política do Syriza já foi aplicada em toda a Europa. Essa prova já foi feita. Foi a resposta europeia à crise de 2008 que Portugal foi dileto seguidor: aumentou os salários da função pública, baixou o IVA, fez a festa do parque escolar, etc, etc. O resultado foi uma crise de financiamento das dívidas públicas.
    Contudo, sendo delirantemente optimista, imaginemos que a política anti-austeritária (pós política austeritária, muito importante este ponto) dá bons resultados, ora pode-se sempre argumentar que só deu resultado porque a austeridade criou as fundações para tal (ex. superávit primário na Grécia).
    Para mim a questão sempre foi e será: seria possível atingir melhores resultados com políticas austeritárias mais suaves nos países com défice excessivo conjugadas com políticas crescementistas nos países onde havia margem para tal? Sou tentado a considerar que sim!…

  3. JLeite

    Os gregos, uma boa parte deles pelo menos, acharão sempre que a responsabilidade do que de mau lhes acontecer será sempre dos outros, principalmente dos alemães.
    São uma espécie de nação habitada por adultos com cabeça de crianças.

  4. LA-C

    Penso que quer as tuas premissas quer as tuas implicações estão correctas.
    Apenas duvido que seja necessário esperar meses.

  5. jorge

    Não é exactamente verdade. Como resultado do programa, a Grécia tem um Orçamento equilibrado e a conta corrente perto disso. Por isso o ponto de partida não é identico. Sem quaisquer medidas, depois de uma queda tão grande do PIB, o seu crescimento é uma inevitabilidade. Por outro lado, a paragem da hemorragia financeira abre espaço para outras medidas que antes não podiam ser consideradas.

  6. Jorge,

    25 mil milhões de euros foram retirados dos bancos desde o fim de Dezembro, dos quais 68 milhões apenas na manhã de ontem. As receitas fiscais já desceram 20% face às previsões.

    O orçamento equilibrado é coisa de Samaras, não de Tsipras.

  7. Este post está completamente errado uma vez que não interpreta correctamente o plano anti-austeridade. Estaria correcto se malta anti-austeridade fosse coerente mas isso é uma miragem. A malta anti-austeridade quer medidas keynesianas mas com financiamento externo ad eternum. Porque se não necessitasse desse financiamento nenhuma destas reuniões e negociações seriam necessárias: o Syriza aplicava-as e tudo iria florir e nunca mais necessitariam de andar a pedinchar. Mas não: querem aplicar as suas medidas que só serão sustentáveis se outros pagarem a diferença para o seu custo! É aliás essa a política de António Costa, a da solidariedade e da alternativa à austeridade. A Alternativa não são as medidas de crescimento, a alternativa é existirem permanentemente transferências dos países do norte para os do sul (França incluída!), só falta é assumir isso à boca cheia!

  8. jorge

    Francisco
    eu sei disso. mas mesmo com os desvios na receita a situação orçamental já não é de defice de 15%. Foi num mês, com as pessoas a pensarem que a rebaldaria tinha regressado. O desvio de Janeiro foi o marxista errático que estava ocupado nas negociações e que deve achar que as questões de gestão do orçamento são questões menores para a sua genialidade.

    O meu argumento é apenas que não se pode comparar eficácia de politicas em situação de ruptura financeira com as condições que existem após ajustamento (ainda que incompleto). Mais, o Eur/USD a 1.4 ou a 1.14 ou menos não é indiferente. etc

    Estou de acordo que ali estão todos os ingredientes para correr mal. Se mantiverem os excedentes orçamentais e fizeram as reformas estruturais previstas no memorandum, daqui a uns meses estão todos à bolachada entre eles e com os parceiros de coligação. Se desatarem a fazer “experiencias” unilaterais violando as condições do memorandum, essa violação torna os emprestimos exigiveis por violação de “covenants”. Portanto, o mais provavel, daqui a 4 meses, ou há eleições ou há Grexit

  9. Pingback: Alexis Tsipras, O Neoliberal | O Insurgente

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