Manifesto dos 74 Redux – não generalizem porque Ninguém tem culpa

Todas as cartas de amor são ridículas, já dizia Fernando Pessoa. Não sabemos se a aproximação ao dia de S. Valentim terá tido alguma influência mas o que é certo é que houve quem se sentisse motivado a subscrever uma carta muito ridícula que, ao contrário das cartas de amor, conta com a agravante de não ser destinada à leitura privada.

Manifestando sempre grande temor e estima pelos ilustres/personalidades/vedetas/celebridades dos consensos de sempre, os meios de comunicação despacharam-se a noticiar que Passos Coelho não iria responder à “carta dos 32”. Lamentável, que arrogância, tão snob! E, de facto, não é suposto responder a uma coisa dessas por vários motivos. O motivo mais básico é o de tal elemento não ter qualquer relevância institucional. Assim sendo, dar alguma atenção mediática à carta contribuiria para conferir-lhe importância que ela não tem, criando maior confusão relativamente às impressões que os cidadãos criam quando procuram entender o regime com que lida e o peso de influência dos vários instrumentos que existem à sua disposição. Mas esta pretensão de confundir a opinião pública não é nova e sempre foi apanágio de quem procura sobrevalorizar o poder das manifestações em detrimento do resultado das urnas (não obstante todos os defeitos que possamos apontar ao processo), chantagear a acção governativa por meio de manifestos de elites, ou atribuir legitimidade a um governo estrangeiro como verdadeiro representante dos portugueses ao mesmo tempo que dá desprezo ao governo nacional – essa espinha atravessada na garganta durante toda a legislatura.

Em segundo lugar, por uma questão de honestidade e de boa educação, não deve ser dada resposta a uma carta que não se dirige a Passos Coelho mas sim ao povo português em geral. Lá porque a saudação identifica formalmente o PM, isso não significa que seja genuinamente dirigida a ele. Este género de cartas são pequenos mimos com que os meios de comunicação são brindados de vez em quando, pois o objectivo é encabeçar e dirigir a agenda política, ocupar espaço de oposição nos momentos mais oportunos (enquanto o Syriza ainda tem brilho) e minar a credibilidade de Passos Coelho entre a opinião pública. A presente carta está para o povo português como as discussões na Casa dos Segredos estão para os pobres telespectadores; simples encenação para entreter e matar tempo. E não há dúvida de que era urgente ocupar espaço político com esta banalidade de forma a disfarçar um pouco o ressabiamento e perplexidade da oposição perante a falta da “espiral recessiva”.

Em terceiro lugar, é sensato não dar resposta porque não existe forma de responder a uma carta vaga e pateta – “abordagem robusta”, “soluções realistas e de efeito imediato”, “democracia inclusiva” e outras vacuidades sonantes – sem ser de forma vaga e pateta. Posto isto, é natural que o PM não se pronuncie, ou não se alongue, sobre este assunto no próximo debate quinzenal (embora seja livre de o fazer) porque a táctica deste enxame de abelhas que entrou em fúria com a vitória do Syriza é a táctica, já demasiado batida, de lançar a batata quente para o lado de quem está a ser desafiado.

O mais engraçado numa carta tão curta e tão superficial – característica essencial em qualquer consenso despojado de convicções e de propostas – é conseguirmos encontrar incoerência nas entrelinhas.

É por isso também do interesse de Portugal contribuir ativamente para uma solução multilateral do problema das dívidas europeias reduzindo o peso do serviço da dívida em todos os países afetados, que tem sufocado o crescimento económico, agravando a crise da zona euro. Pela mesma razão, é ainda necessário que Portugal favoreça uma Europa que não seja identificável com um discurso punitivo mas com responsabilidade e solidariedade, que não humilhe estados-membros mas promova a convergência.

Ora, num só parágrafo, apesar de se refugiarem em eufemismos como “solução multilateral” e “solidariedade”, podemos perceber que acusam o PM de privilegiar um discurso punitivo contra os gregos (a acusação de ser lacaio de Merkel está sempre subjacente e é guardada para os espaços de opinião televisivos mais inflamados) ao mesmo tempo que apelam à única solução que conhecem, evitando sempre pronunciar o nome dos países que pagam a conta porque a Alemanha já está demasiado denegrida na narrativa e iria estragar a carta do amor ridículo dos 32. Só assim poderam ignorar a ligação que existe entre maior endividamento e maior dependência (humilhação) face a quem nos empresta. São estes os grandes defensores da soberania que temos por cá.

E aproveitando que referi espaços de opinião inflamados, é útil que conste, para memória futura, que em inícios de 2015, reconhecer publicamente a existência continuada de corrupção e nepotismo que absorvem e inutilizam qualquer altruísmo externo que se mobilize em favor das vítimas do caos, dá direito a receber o rótulo de “racista”. E é assim porque Pacheco Pereira (um dos 32) defendeu na Quadratura do Círculo de dia 13 de Fevereiro que não se podem fazer generalizações contra um povo em abstracto, pois isso é profundamente hipócrita, inaceitável e racista. Enfim, um generalização é, por natureza, injusta com as excepções, pois a sua utilidade reside na possibilidade de identificar regularidades, padrões, traços distintivos e alguma previsibilidade. Normalmente, quem se enfurece contra este tipo de operação de abstracção é quem está interessado na manutenção da confusão que não permite trazer à luz do dia certos factos.

No fundo, os 32 ilustres, quando afirmam que quem adopta um discurso punitivo contra os gregos “vai ter de engolir” essas palavras se as reclamações e gritos em negociações surtirem cedências e maior conforto para a Grécia, assemelham-se àqueles veteranos criminosos que já conhecem a rotina do bairro e que incentivam os mais novos a trocar o trabalho pelo crime. Sabem a que horas a senhora da mercearia está mais susceptível com pouca clientela, conhecem a rotina e as fraquezas dos agentes de segurança, conhecem os horários dos vizinhos, etc. Com tanta experiência acumulada no seu bairro, gabam-se de preferir aguardar pela hora e local perfeitos para o crime em vez de irem “vergar a mola” diariamente. O que se destaca na carta dos 32 não é nenhum particular altruísmo e compaixão pelos gregos mas sim a percepção e cálculo egoísta de que, se há vantagens para uns, passa a existir margem de chantagem para todos. Assim sendo, mesmo que haja consciência de que os sacríficios europeus em favor da Grécia podem continuar a “cair em saco roto” e de que são tímidas as possibilidades de virem a ser feitas reformas estruturais, a curto prazo o crime compensa e o que conta são as próximas eleições.

Passos-Coelho

2 pensamentos sobre “Manifesto dos 74 Redux – não generalizem porque Ninguém tem culpa

  1. RO

    Enquanto não nos conseguirmos ver livres deste grupinho de “notáveis”- são sempre os mesmos- e dos fiéis da CS que lhes dão eco, não vamos a lado nenhum.
    Pena que Passos Coelho tenha acabado por lhes dar uma abébiazita, salvo erro em Bruxelas, ao referir-se à “coisa”, já que a única resposta aceitável era o mais completo desprezo.

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