S@m@s Tsipiras

A expedição à Sicília, de Paulo Tunhas no Observador.

Mas esqueçamos o inesquecível Zizek, e procuremos o pensamento de Tsipras para além das declarações, com bravata e sem gravata, a que os jornais nos habituaram. Tsipras não é um intelectual-bufão como Zizek. Em geral, limita-se a propor, como se diz, uma narrativa segundo a qual “os mercados”, com propósito explícito e consciente, afinco e determinação, visam a destruição da democracia. A coisa releva, ele di-lo naturalmente, do “espírito perverso do neoliberalismo global”. A Grécia é apenas a “primeira etapa” do vasto projecto concebido pelos “espíritos neoliberais mais iníquos”.

Contra isto, a Grécia deverá denunciar o Memorando. E, bem entendido, definir bem o inimigo. Com absoluta originalidade, o verdadeiro conflito é determinado: “O conflito na Europa não é entre países. É entre o capital e os mercados, por um lado, e os trabalhadores, por outro.” Ele lá o sabe. Mas os jornais não dizem exactamente isso. “Aquilo que precisamos é de uma Primavera Mediterrânica – como a Primavera Árabe”. Bom…

Exemplos a seguir? Para além, é claro, da Síria, onde a Primavera anda particularmente vibrante. Tsipras refere de passagem Mário Soares, o que infelizmente deve dar prazer a este, e, é claro, Hugo Chávez. Vindo do funeral de Chávez: “A Venezuela de Chávez é o brilhante exemplo de um país que combina o crescimento económico com uma redução das desigualdades sociais”. Tal sociedade “continua a ser um modelo para nós, como para a esquerda de todo o mundo”.

Teremos uma Venezuela dos Balcãs? O Oráculo de Delfos será substituído pelo Passarinho de Maduro? Ou uma Argentina, cujo exemplo Tsipras também aprecia? Ninguém sabe. Uma coisa, no entanto, se sabe. Tsipras não fará o mesmo que Alcibíades, que, depois de ter conduzido Atenas ao desastre, se passou para o lado de Esparta. Em 2013, prometeu que, no caso de aceder ao poder, o poder não o modificaria nem o “assimilaria”. Nada de “concessões e compromissos contra os nossos princípios”.

É claro que os gregos têm muitas razões de queixa contra o mundo. A União Europeia seguiu um caminho, com o euro, em que a soberania possível se foi estiolando. E, por razões que a construção europeia perfeitamente obliterou, as comunidades políticas vivem mal sem a soberania. O progresso da extrema-esquerda e da extrema-direita tem muito a ver com isso. Bem como o aumento das tentações nacionalistas e outras coisas muito feias.

Mas têm, desculpe-se, muito mais razões de queixa contra si mesmos. E isto não é moralismo nenhum, nem absurda Schadenfreude. Viveram alegremente em regime de elevada corrupção durante décadas, e acabaram com uma cereja em cima do bolo: elegeram um partido populista de extrema-esquerda, que se associou, para formar governo, com um muito pouco recomendável partido de direita. O Syriza jura com toda a força que vai dar uma surra na corrupção e pôr tudo na ordem. Não parece assim lá muito verosímil. O que se arrisca a fazer é conduzir a população a uma desgraça ainda maior. Neste caso, a Sicília está dentro de Atenas.

Um pensamento sobre “S@m@s Tsipiras

  1. Francisco

    Meninos a brincar com a malta…e socialista e afins a aproveitar para destabilizar…para apanhar os cacos….

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