A crise da comunicação social explicada numa notícia.

Nesta notícia do jornal dito de referência chamado Diário de Notícias. É que isto não é só ativismo político (coisa diferente de ativismo político é que é difícil encontrar no DN; e por alguma razão eu não dou nem um cêntimo do meu dinheiro a esta publicação neste estado de coisas). É a notícia mais imbecil, ignorante, aparvalhada, estulta, básica, ignorante que eu me recordo de ter lido em Portugal nos últimos anos.

E nem trago isto aqui para entrar na discussão sobre os números das exportações, que mesmo que fossem um sucesso seriam um sucesso das empresas, não do governo. E também nunca partilhei da ideia gaspárica e passista de que devíamos ser um país totalmente virado para as exportações, e as empresas que vendem para o mercado interno – as tais vilãs que não se dedicam aos bens transácionáveis – que vão à falência, que os portugueses devem ser uma espécie de chineses que trabalham para exportar e que, no resto do tempo, poupam em vez de consumir, que as ‘taças de ferro de arroz’ que os tempos maoístas garantiam na velhice agora já não são asseguradas.

A desinformação, estupidez e má-fé começam logo no título: a Alemanha ROUBA crescimento económico a Portugal (entretanto ‘rouba’ foi alterado para ‘desviou’). A tese do artigo, que espanta ter sido congeminada por alguém sem deficiências cognitivas, é esta: os países com quem temos défices nas trocas comerciais estão a prejudicar o crescimento económico do país. (O que, por acaso e tal como no caso de ontem, é termos a esquerda novamente a tomar para si as imbecilidades deste governo, desde logo que o PIB vale apenas pelas exportações.)

Vamos lá ver.

1. A coisa mais bonita da economia é que não é um jogo de soma nula. Aquilo que uns ganham não é aquilo que os outros perdem. (De resto tem sido esta a tragédia de comunistas pelo mundo inteiro.) Pelo contrário: em economia, o bem dos outros é o meu bem e o mal dos outros é o meu mal. Se eu tenho um vizinho rico, vou-lhe conseguir vender mais e vou enriquecer também. Se o meu vizinho é pobre, a probabilidade de continuarmos ambos pobres é maior. A evolução da economia não se faz por transferência de riqueza de uns lados para outros, de uns indivíduos para outros, mas por inovações (tecnológicas, dos canais de distribuição, da maior proximidade das relações entre agentes económicos,…) que verdadeiramente criam riqueza out of the thin air. Os mesmos recursos de antes, depois da inovação permitem que se crie uma riqueza maior, que a produção seja mais abundante. Quem não sabe ou não percebe isto, devia escrever na secção de mexericos ou de crimes (o DN também aposta forte aqui) mas abster-se de todo de ecrever sobre assuntos económicos.

2. Só um rematado imbecil pode supor – como sucede no artigo – que aquilo que compramos à Alemanha (a vilã deste texto) poderia ser produzido em Portugal ou, podendo ser, que o seria pelo mesmo preço ou mais barato. Só um rematado imbecil não sabe que se não comprássemos à Alemanha o que compramos, os consumidores portugueses ou não compravam de todo (porque não produzíamos) ou compravam muito mais caro (porque é precisamente por não conseguirmos produzir mais barato que não se produz cá). E, como se não comprássemos à Alemanha também não lhes venderíamos (estas coisas funcionam sempre para os dois lados), o rendimento que os portugueses obtêm com as exportações ir-se-ia, não seria compensado pelo que se produzia a mais para o mercado interno (o autor do texto não deve saber que somos um país de 10 milhões de pessoas) e teríamos portugueses com rendimentos menores a necessitarem de comprar bens que seriam mais caros ou inexistentes. É a isto que se chama perder poder de compra.

3. A beterraba que escreveu o artigo é tão ignorante que nem percebe que o que importamos da Alemanha pode ser necessário para exportar para os sítios onde a criatura vê o comércio internacional como virtuoso. Dou o exemplo da minha empresa. Temos a frota de marca alemã, os empilhadores de paletes são alemães, a estanteria do armazém a mesma coisa e sei lá mais quantos equipamentos que suportam o trabalho das pessoas da empresa. É por termos esses equipamentos – que nos permitem organizar o trabalho melhor e diminuir custos – que conseguimos vender quer para o mercado interno quer para outros países. Pelo que o jornalista que vá dar palpites sobre que tipo de relações comerciais devo ter ou deixar de ter com a Alemanha, Espanha e os outros países no seio caridoso da sua família, que nas decisões das minha empresa não tem que se meter nem opinar. Se não gosta, simplesmente não compra – que é o que eu faço com o DN enquanto o jornal dito de referência continuar com esta indigência desinformativa.

4. A beterraba também não sabe, mas se Portugal tem um défice comercial com a Alemanha, é porque os agentes económicos livremente escolhem importar mais da Alemanha do que exportam. Tal como Portugal não é uma economia, fechada, também a UE não é outra economia fechada. E ainda bem. Pelo que, a não ser que a beterraba – e os partidos malucos syrízicos em que provavelmente vota e para os quais faz propaganda – queiram tirar Portugal da UE e da Organização Mundial de Comércio, vai suceder sempre – e é não só normal como saudável que assim seja – que com uns países temos excedentes comerciais e com outros temos défices comerciais. Nem uns nem outros nos ‘roubam’ crescimento económico. Pelo contrário: podermos comprar e vender a todos é o que potencia o nosso crescimento económico.

20 pensamentos sobre “A crise da comunicação social explicada numa notícia.

  1. Fernanda

    Escusava de dar tão mau nome às beterrabas, que são legumes tão benéficos para a saúde de quem os consome. 😀

  2. Atualmente quando quero ler noticias, leio o Avante, o orgao de CS mais moderado deste Pais.

    Excluo O Observador, esse antro de neo liberais fascistas que sao a voz negra dos mercados e os porta voz da nazi da Merkel..

    Agora a sério, a CS em Portugal está num nivel tao baixo, que eu, mero cidadão, abstenho me de ouvir, ver ou ler noticias. Só assim consigo sair de casa, tal o estado de podridão, morte, pobreza, desgraça, horror que vive o pais.

    A acompanhar o DN e SICN temos agora a TSF, que tem lavagens cerebrais diarias no seu A Voz do Povo.. hoje então foi degradante.

  3. Paulo Costa

    Eis um notavel texto em que o estilo apaixonado se aliou de forma perfeita à certeza dos argumentos e à justiça da escolha do alvo. Se fosse sempre assim, MJM estaria num patamar Pulitzer. E não, não é ironia, é mesmo uma vénia.

  4. JPT

    Noto que este cavalheiro, para lá de perceber tanto de economia como eu de pesca submarina, mostra-se ainda desprovido da capacidade de perceber aritmética elementar e de escrever em português decente. Convido alguém a tirar outra conclusão desta sequência de notícia e comentário à mesma. Notícia: “Ontem, o vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, disse que “é evidente que quanto mais se cresce mais difícil é continuar a subir, mas as exportações portuguesas voltaram a crescer em 2014, o melhor ano de sempre”. Comentário: “Estaria a falar no valor nominal em euros porque em termos de taxa de crescimento as vendas cresceram apenas 1,9%, o pior registo desde 2009 (-18%), quando o PS estava no poder e o país a ser atingido em cheio pela crise económica global.” Não sei se me espante mais com a incapacidade de captar a relação entre uma percentagem e a evolução da grandeza a que essa percentagem se reporta, se com a expressão do “em termos de taxa de crescimento as vendas cresceram”.

  5. tina

    “É a notícia mais imbecil, ignorante, aparvalhada, estulta, básica, ignorante que eu me recordo de ter lido em Portugal nos últimos anos.”

    Foi nisso que o DN se tornou desde que aquele Macedo se tornou diretor.

  6. J.Ventura

    No entanto o DN proporciona todas as semanas a possibilidade de uma pessoa se rir um bocado com as crónicas do Mário Soares , isso tem que contar para alguma coisa.

  7. Manuel Vilhena

    Assertiva como quase sempre, só não se compreende ou talvez sim ( para ganhar credibilidade, suponho, embora não o necessite, aviso já), que tenha que dar uma bicada no governo num assunto em que o governo não era tido nem achado. Pior ainda, sem qualquer réstia de verdade. Ora, onde é que leu e/ou ouviu o PPC e VG a defender a enormidade que “devíamos ser um país totalmente virado para as exportações, e as empresas que vendem para o mercado interno – as tais vilãs que não se dedicam aos bens transácionáveis – que vão à falência, que os portugueses devem ser uma espécie de chineses que trabalham para exportar…”? E já agora, quem lhe disse que as empresas que trabalham para o mercado interno não se dedicam a bens transacionáveis, terá sido também esse duo? Certamente já ouviu falar em substituição de importações, que pelos vistos é o que a sua empresa também faz e ainda bem. Enfim, não havia necessidade!…

  8. Gil

    A Maria João Marques tem razão. Além do mais, deu excelentes argumentos para demonstrar que ter a austeridade como um fim em si mesmo (é a isso que se limita se não houver uma estratégia económica associada), é um absurdo.

  9. jose carlos

    O Prec aconteceu há 40 anos, mas o fantasma do socialismo real ainda ofusca muitos cérebros que por ai andam. Confundem igualdade de oportunidades com igualdade de rendimentos, como se estivéssemos todos destinados a ser funcionários públicos e a ganhar todos o mesmo salário independentemente das competências, da produtividade, da inteligência, da vontade ou até da sorte de cada um. Uma espécie de Cuba onde 90% anda a pé ou de bicicleta e vive com uma esmola de meia dúzia de euros por mês e os restantes 10% são os sobas que conduzem o rebanho e claro compram nas lojas especiais onde nada falta aos sobas.

  10. Gil

    Já agora e talvez surpreendentemente: “Após seis anos de crise, a zona euro está pior. O seu mau desempenho não era inevitável e poderia ter sido melhor. Se não foi, tal decorre duma política económica desadequada”. Vítor Bento, in Observadorhttp://observador.pt/especiais/eurocrise-uma-outra-perspectiva/

  11. Dario

    Excelente artigo!
    Cá para mim a beterraba que escreveu o artigo do DN até conduz um carro alemão, mas fica bem nos tempos que correm dizer mal da Alemanha!

  12. A. R

    Quem põe obstáculos ao meu crescimento são as mercearias, a EDP, a Companhia de Águas, a Companhia do Gás e outros malditos que tricam o meu salário.

  13. Pingback: Como a ignorância se espalha | O Insurgente

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