A versão ‘ viveram acima das possibilidades’ vinda da esquerda

Há que reconhecer: no início (mas ainda persiste) da implementação do programa de ajustamento havia o discurso do governo que assentava na ideia de que os portugueses se tinham endividado para consumir, que queriam gastar mais do que conseguiam ganhar e que tinham de ser ensinados a portarem-se como cidadãos economicamente responsáveis. As políticas fiscas extorcionárias de Vítor Gaspar não só visavam obter rapidamente dinheiro que permitisse ao estado honrar os seus compromissos financeiros como, também (ou, se calhar, sobretudo), castigar os portugueses por terem consumido em excesso, puni-los pelas veleidade de comprar os certamente apelativos ecrãs de LSD que no outro dia foram apresentados ao mundo por Paes Mamede.

Por mim, nunca alinhei nesse discurso. O excesso de consumo privado resolve-se quando os privados têm de pagar as contas e, para isso, gastam menos dinheiro em consumo e passam a gastar mais em amortizações de capital e juros dos empréstimos que contraíram. Não foi por isto que Portugal necessitou de um resgate financeiro. Foram os desvarios do estado, que desde Guterres aproveitou a possibilidade de endividamento a taxas de juros baratas trazida pelo euro (ou pela entrada nos mecanismos das taxas de câmbio) para gastar como se não houvesse amanhã. As privatizações (pela diminuição do stock de dívida) mantinham o nível de dívida em montantes aceitáveis e a diminuição das taxas de juro permitiam que se gastasse noutros lados. Depois veio o PSD e CDS, que claro que tiveram como política de consolidação orçamental (ataque fulminante de tosse) o aumento de IVA e mais taxas e taxinhas. Por fim veio a catástrofe sócrates, que, mesmo num contexto em que a economia já não crescia, o financiamento se tornava mais caro, e, depois, a crise de 2008 revelou todo o edifício sem alicerces que eram as finanças públicas portuguesas, continuou a gastar como se não houvesse amanhã.

Sempre com a crença – que Costa (naquela que é a única coisa inteligível das banalidades que diz) partilha – de que estimulando a procura interna a economia vai crescer, a dívida (pelo crescimento do PIB) diminui percentualmente e o mundo, de súbito, torna-se maravilhoso. Que isto desde 2000 não funcione, não interessa nada. Um bom socilaista acha que os outros são imbecis e vão persistir ad eternum em comportamentos que não levam a lado nenhum.

O resgate financeiro veio na sequência de políticas públicas desastrosas, não de decisões privadas. Nunca comprei esta narrativa (pobre da palavra narrativa, que depois de sócrates vai ficar sinónimo de historieta propagandística) destinada a sancionar a política fiscal imoral deste governo – e não apoiei a forma como se reduziram os défices orçamentais.

A esquerda – neste ponto muito concreto com razão – sempre se insurgiu contra esta visão do ‘viveram acima das possibilidades’. Foi por isso com surpresa que ontem, numa conversa de twitter com Rui Cerdeira Branco e Marco Capitão Ferreira, que o Rui sugeriu que a troika serviu para nacionalizar o crédito malparado privado. Entretanto (enquanto escrevia este post) já explicou que se referia à banca alemã, mas a conversa toda de ontem com o Rui e o Marco ia no sentido dos privados portugueses. Até parecia que são nacionalizados todos os prejuízos das empresas portuguesas, que de cada vez que há dificuldades em pagar aos bancos o financiamento que se obteve lá estão os contribuintes bondosos dispostos a ajudar nos tempos de dificuldade e por aí fora.

Claro que isto é uma tremenda alucinação, como qualquer pessoa sabe. As inúmeras empresas que faliram – muitas por não conseguirem pagar as dívidas à banca – são prova disso. E conheço muita gente que tinha empresas que, tendo falido ou não, teve de entregar todas as garantias que tinha contratado para os empréstimos da banca, ficando sem casas, carros, património de toda a espécie. E que tem níveis de vida agora que são um fraco reflexo do que um dia foram. (Quem diz que os funcionários públicos foram os mais afetados por esta crise devia ter um piano a cair-lhe em cima.)

E o pior é que não têm dificuldades por decisões de gestão insensatas ou de passos maiores do que a perna, mas porque foram exterminados pela contração da procura interna protagonizada por Vítor Gaspar e Passos Coelho através do enorme e imoral aumento de impostos.

Mas o curioso disto tudo é que a esquerda socialista, na sua ânsia de branquear a governação socialista quase ininterrupta entre 1995 e 2011 para fins eleitorais em 2015, parece que também já não recusa apontar o dedo aos privados portugueses pela necessidade de resgate em 2011.

O que, a verificar-se a tendência, é só mais um sintoma do desnorte socialista.

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8 pensamentos sobre “A versão ‘ viveram acima das possibilidades’ vinda da esquerda

  1. rr

    Cara Maria João
    Existe certamente a despesa do estado, e a que privados fazem.Contudo,repare que na realidade muitos privados dependem do estado.E assim com a maior parte de gasto social, nomeadamente pensões e salários.Ora, reduzir despesa estado é também, em boa medida, reduzir despesa dos privados.Baixar pensoes e dininuir ajuda social

  2. Tiro ao Alvo

    Diz que conhece “muita gente que tinha empresas que, tendo falido ou não, teve de entregar todas as garantias que tinha contratado para os empréstimos da banca, ficando sem casas, carros, património de toda a espécie”, o mesmo é dizer, parece-me, que essas pessoas “viviam acima das suas possibilidades”.
    É certo que também o V. Bento passa por esse aspecto sem se deter, dizendo apenas que as economias deficitárias foram “vítimas” dos juros baixos, de que beneficiaram desde a adesão ao euro até ao momento em que o “mercado” deu conta do risco excessivo que os investidores estavam a correr, ao comprarem a nossa dívida pública.
    Repare apenas neste aspecto: a Banca portuguesa, antes de 2008, endividou-se acima das suas possibilidades com financiamentos à habitação, pois não tinha recursos com maturações adequadas para esse efeito, celebrando contractos a taxas que hoje lhe são deficitárias e ruinosas. Isto quer dizer, no meu entendimento, que quem “beneficiou” de taxas de juros muito baixas para a compra de habitação própria, também viveu acima das suas possibilidades, sendo certo que, em grande parte, os “prejuízos” da Banca terão que ser (e estão a ser) suportados por todos nós, sempre que essas famílias se endividaram para além do razoável.
    Concluindo, o forrobodó dos nossos governos, em termos de despesa pública, deve ser assumido, não me parecendo muito avisado esperar que os outros povos, os que se esforçaram por ter contas públicas equilibradas, venham agora em nosso auxílio.

  3. ricardo

    Mas os privados (fazer esgar de nojo) quando fazem seja o que for é por ganância e à custa dos desfavorecidos (aqui suavizar a voz) enquanto que o Estado quando devidamente controlado por gente que vem por bem (de esquerda) distribui o bem e rectifica o mal que o capitalismo e o poder do dinheiro querem fazer ao nosso povo (gente do nosso partido).
    Portanto quando acontecem bancarrotas, misérias, injustiças e desmandos é porque o poder diabólico do capitalismo se sobrepõe aos esforços e às boas intenções dos nossos camaradas.
    O diabo (leia-se o capitalismo) pode estar disfarçado de arrogância da Alemanha, violência sobre as mulheres, homofobia, aquecimento global, sionismo, Goldman Sachs, mas o verdadeiro crente
    armado com a pureza da verdadeira doutrina (que o querido líder e os acólitos fornecem nos média) não se deixa iludir e persevera no caminho do bem, deixando-se de pensamentos impuros e entregando-se nas mãos de quem sabe o que é melhor para todos.
    Privados?! cruzes canhoto!!!

  4. Luís Lavoura

    não têm dificuldades por decisões de gestão insensatas ou de passos maiores do que a perna

    Não me parece. Pela descrição que a Maria João faz, têm dificuldades porque tinham empresas com poucos capitais próprios e muitas dívidas. Ou seja, porque contruíram grandes empresas sobre uma base de capital próprio muito pequena. “Capitalismo sem capital”.

  5. Je

    Este mês facturei 1800€ Weee! Uma vitória depois de meses de luta. Contra o desemprego primeiro, contra a burocracia das SS e do IEFP, depois: conbtra os borlistas e demais oportunistas que se esgadanham pelo trabalho barato – quiçá grátis – de mais um desempregado fresquinho.

    Desta fortuna – que pela primeira vez em muito tempo me permitiria respirar, quem sabe comprar roupa nova,beber um café – o estado reclamou para si 1000€. Isto considerando que me deve o favor de pagar a reforma minima um dia, lá longe.

    Quem é que vive acima das suas possibilidades?

  6. Je,

    Os portugueses vivem conforme as suas decrescentes possibilidades, sem outro remédio. O Estado português é que vive acima das possibilidades dos portugueses que não trabalham no Estado nem dele dependem.

  7. Pingback: A crise da comunicação social explicada numa notícia. | O Insurgente

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