Radicalismos vs Ambiguidades

O meu mais recente texto no Instituto Ludwig von Mises Portugal.

A Falência do Centrão na Era das Ambiguidades

Não é fácil perceber se a falência do centrão é uma causa ou uma consequência das posições radicais, mas parece mais plausível reunir ambos numa evolução em que são inversamente proporcionais, à medida que respondem – ou deixam de responder – aos problemas mais prementes da sociedade em determinado período. É inútil analisar, e até decidir alinhar, pelo radicalismo ou pela moderação/continuidade sem passar em vista alguns aspectos básicos referentes à democracia e algumas causas que parecem estar prestes a conduzir a uma ruptura institucional. As eleições para o Parlamento Europeu, em 2014, foram o primeiro abanão indisfarçável que fragilizou o “estado de graça” dos partidos socialistas e social-democratas, quando a insatisfação dos eleitores se materializou, com especial destaque, na ascensão do UKIP na Grã Bretanha (24 deputados), da Front National em França (23 deputados), do Podemos em Espanha (5 deputados), do Syriza na Grécia (6 deputados), do N-VA na Bélgica, para além da conquista de visibilidade política por parte de pequenos partidos nacionalistas e eurocépticos. Depois desse primeiro abanão – e para avivar a memória daqueles que pudessem achar que aqueles resultados eram fruto de uma mera rebeldia pontual –, chega-nos a vitória do partido Syriza nas eleições legislativas gregas de 2015. Muito haveria a dizer para explicar este resultado, mas não nos interessa agora abordar as especificidades dos gregos enquanto povo, discorrer sobre a ignorância racional dos eleitores, bracejar e clamar para que se ponha o país de quarentena, temendo contágios, nem saber se os eleitos são mais ou menos bons (a nível técnico, ético ou psico-afectivo). O que a vitória do Syriza e os resultados das eleições europeias de 2014 têm em comum é o esmorecimento do centrão (no caso grego, o esmorecimento do PASOK e da Nova Democracia.)

(…)

Ainda que pareça paradoxal, é uma consequência natural que a oligarquição da representatividade se conserve graças ao sufrágio universal. O desgate dos partidos passa também pela percepção de que a oligarquização se alimenta do distanciamento entre a deliberação e o eleitorado. É que a personalização da política tem beneficiado muito do recurso contínuo aos meios de comunicação para tentar criar carisma aos olhos dos indivíduos e padronizar a opinião pública, mas os meios de comunicação são mais uma das muitas armas que pode virar-se contra quem a usa. A proliferação de informação em permanente actualização e a publicação de opiniões em variadas plataformas acessíveis a qualquer indivíduo, complica a vida a qualquer líder em democracia, ajuda a minar rapidamente a credibilidade de quem fracassa/corrompe/silencia, ao mesmo tempo que disponibiliza os canais necessários para divulgar opiniões, procurar alianças e criar projectos que escapam ao espectáculo de omissões e dissimulações da partidocracia.

As omissões podem ter consequências mais determinantes em política do que aquilo que efectivamente é feito ou dito. É também aqui que o radicalismo vai absorver parte da sua força: no silêncio dos partidos de centro a respeito de problemas que os cidadãos, no terreno, já detectaram há muito tempo – refira-se que os cidadãos, regra geral, não estarão igualmente sensíveis em todos os domínios, pelo que é natural manifestarem rápida e fiel compreensão em assuntos que lhes são caros no dia-a-dia, como por exemplo em matéria de segurança, enquanto, por outro lado, aceitam passivamente o acesso a crédito fácil ou promessas de regalias suportadas à custa dos seus concidadãos. Eis algo em que dificilmente todos os partidos “radicais” dificilmente concordariam, apesar de a existência de pontos em comum induzir na tentação de os lançar para uma única categoria mal compreendida, com a mesma leviandade com que subestimam as razões destes movimentos políticos que fogem ao consenso oficial. Tendemos a subestimar os nossos inimigos até ao momento em que somos afrontados por uma humilhante derrota. Contudo, o adiar do inadiável por quem detém o poder gera crescente preocupação e sentimento de negligência nas bases, o que ajuda a explicar que se defendam soluções de ruptura em detrimento do conformismo sujeito à continuidade do status quo.

2 pensamentos sobre “Radicalismos vs Ambiguidades

  1. lucklucky

    O erro deste texto é assumir que o centrão não é radical e extremista também.

    O volume de endividamento do centrão foi/é radical, o volume de imigração aceite pelo centrão é radical. E ficam ainda por listar outras radicalidades e extremismos do centrão.

  2. Daniela Silva

    O erro do seu comentário é (talvez tenha saltado os dois primeiros parágrafos disponíveis no original) ignorar a chamada de atenção que eu faço quanto aos muitos sentidos que o termo “radical” pode assumir. Quando um termo passa a ser aplicado a tudo, não define nada.

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