Reflexividade socialista

PS_Syriza

O Tiago Barbosa Ribeiro faz aqui uma reflexão sobre os acontecimentos recentes na Grécia, em particular a degeneração do PASOK. Como sociólogo que é, compreenderá certamente a crítica que lhe farei: faltou um exercício de reflexividade. Em particular, transpor esta análise para o seu próprio partido. Para tal, basta substituir PASOK por PS, e o resultado é este:

“O PS tornou-se dispensável perante o eleitorado [grego] porque deixou de oferecer respostas alternativas no quadro dos valores da social-democracia e os socialistas votaram maioritariamente [no Syriza].

O drama do PS acompanha a implosão da Esquerda democrática filiada na Internacional Socialista em tantos outros países europeus, mas a derrota começou muito antes.

Iniciou-se pela crença de que havia uma adesão mais ou menos perene a partidos sistémicos, mas os vínculos emocionais por acontecimentos marcantes (ex: transição democrática, adesão à UE, etc.) contam cada vez menos. Por outro lado, muitos partidos socialistas assumiram a sua própria derrota ideológica antes de perderem nas urnas, aceitando gerir um sistema socioeconómico cada vez mais desigual em vez de o transformar.

A cedência ao realismo impossibilista dos partidos da Direita levou muitos socialistas a uma mera gestão das circunstâncias no quadro das regras impostas por terceiros, estranhas aos seus valores. Aí foram incapazes de perceber a armadilha em que se colocaram perante os liberais, reproduzindo uma angustiante falta de respostas. Quantos socialistas não olham para a função governativa nos limites estritos das balizas do tratado orçamental e de regras europeias que, como todas as regras e tratados, devem ser alterados quando deixam de servir os povos?

Ora, o PS deixou de cumprir a sua função histórica ao assimilar o eco do falso extremismo perante medidas que há poucos anos seriam consideradas sociais-democratas: maior regulação pública, reversão de privatizações de setores estratégicos, aumento do salário mínimo, mais progressividade fiscal, impostos pesados sobre grandes fortunas, forte taxação de heranças, reestruturação de dívida usurária que abafa o desenvolvimento.

Pensando como a Direita, os socialistas do PS acabaram a governar como a Direita, formatando-se aos maneirismos dos eurocratas. Preferiram abdicar de transformar as relações entre capital e trabalho (em favor deste), anulando o seu papel nas sociedades modernas. Com isso deixaram de ser úteis como instrumento de mudança social para muitos socialistas [gregos], que votaram [no Syriza] com uma genuína expectativa de mudança.

Os socialistas do PS não são caso único e cabe a outros confirmar a mesma sentença ou escrever outro desfecho.

Sim, os partidos também morrem.

Recordemos que, em 1996, o PS privatizou, de forma parcial ou total, a Companhia Nacional de Petroquímica, dispersou 27% do capital da Portugal Telecom, o BFE, a Cimpor, o Banco Totta e Açores, a Tabaqueira, o Banco Comercial dos Açores, o BANIF. Em 1987, privatizou a Setena-ve, 30% da EDP e da Quimigal. Em 1999, acrescem a conclusão da privatização da Cimpor, o grupo Portucel, a Siderurgia Nacional-Serviços, a Tertir, Silopor, PEC SGPS, Dragapor. Deste plano inicial, ficaram por privatizar a ANA e a TAP. Foi também o PS que, em 2009, apresentou um novo vínculo da função pública, menos restritivo. E foi o PS de Guterres que terminou com o imposto sucessório.

E bem. Significa que o PS evoluiu, tal como os seus homólogos europeus evoluíram, através da social-democracia e da 3ª via. Os partidos socialistas “meteram o socialismo na gaveta” e açambarcaram o maior motor de desenvolvimento, o capitalismo, reservando a ação do Estado à equidade social. Adoptaram o modelo misto, a economia social de mercado, que nos escritos de Alfred Muller-Armack pautava bem a sua diferença com o ordoliberalismo, também ele de origem alemã. O modelo nórdico confirma-o: não obstante o Estado Social, os países nórdicos são países de abundante liberdade económica, onde existe, por exemplo, cheques-ensino, ou onde as pessoas podem escolher o seu prestador de saúde, público ou privado. Como escreveu a The Economist, se Milton Friedman ressuscitasse sentir-se-ia mais em casa em Estocolmo do que em Washington.

O que o Tiago pretende, juntamente com outros jovens membros do PS, como o João Galamba, é a radicalização do PS. É fazê-lo recuar um século, e retornar às origens: ao socialismo puro, desprovido das vantagens que só uma economia de mercado oferece. Recuperar a imoralidade do imposto sucessório, promover a intromissão do Estado na vida das pessoas, intervir na economia a partir do seu centro de controlo.

Posto isto, é incontornável que os partidos morram. E com esta estratégia de syrização, o PS arrisca-se a ser o próximo.

22 pensamentos sobre “Reflexividade socialista

  1. lucklucky

    Não é um século . É desde o vírus marxista ter infectado o socialismo.

    E para reforçar com uma data de Marxistas a entrarem no PS, este fica Marxista.

    Basicamente é tomado por dentro.

  2. Teixeira

    Não sei porque dão tempo de antena a esse Tiago Barbosa Ribeiro. Quem acompanhe o que ele diz nas redes sociais nos últimos anos percebe que é uma pessoa limitada de inteligência, duma desonestidade intelectual incrível, e representa o pior que existe na política nacional, os aparelhos partidários, por onde vivem e se movem pessoas de valias medíocres, e só por isso conseguem até escrever colunas de opinião em jornais nacionais.

  3. Ramires

    Uma espécie de boaventura sebento santos pra os pobrezinhos ( de espírito, tal como o outro aldrabãozeco de Coimbra…).

  4. Luís Lavoura

    Recuperar a imoralidade do imposto sucessório

    Não o acho nada imoral.

    Na lógica de que as pessoas devem ser ricas em função do seu próprio mérito, o imposto sucessório cabe impecavelmente. As pessoas não devem ser ricas por herança mas sim pelo seu próprio mérito e esfoço.

    Considero o imposto sucessório moralmente bem mais apresentável do que o IRS. Enquanto que o IRS tira a uma pessoa o produto do seu próprio esforço, o imposto sucessório tira a uma pessoa o produto do esforço dos seus antepassados.

  5. Rodolfo

    Luís Lavoura, o imposto sucessório tira o produto do esforço de quem morre. Este deve poder fazer o que quiser com os bens que adquiriu durante a vida. Na minha opinião, não necessariamente passar para os filhos, mas fazer o que quiser com eles, inclusive não passar para os filhos. Não vejo porque razão se é obrigado a passar uma parte para os filhos.

  6. 1. Existindo propriedade privada, o seu titular tem o direito de fazer com ela o que bem entender: oferecer, taxar, vender, destruir. Existindo valor acrescentado do uso dessa propriedade, é taxado (IVA). Não existindo, sendo uma mera transferência entre partes (pais e filhos), é confisco cobrar imposto;
    2. A herança corresponde, em boa verdade, às poupanças. Poupanças que são o reminisciente dos rendimentos que já foram taxados. Na prática, é dupla taxação.

  7. Lucas Galuxo

    Bom, se o PS se transformar no PASOK português iremos ser governados por quem represente as ideias do Syrisa. Não percebo o entusiasmo que pr’áqui vai.

  8. mggomes

    Acha portanto o Luís Lavoura que tem fundamento moral o estado confiscar aquilo que não lhe pertence nem ajudou a construir (já não terá sido mau se não tiver atrapalhado em demasia)…
    Mas já tem total enquadramento moral o estado confiscar aquilo que uma ou mais gerações se esforçaram por legar às seguintes, muitas vezes com sacrifício destas!…

    Já agora, suponho que considere que o imposto sobre os prémios elevados do Euromilhões deva ser de 100% e não de “apenas” 20%
    Ou será que há mérito em ter pura e simplesmente sorte?

    Mais uma vez se prova que o socialismo se alimenta da inveja.
    O que o torna profundamente imoral.

  9. Luís Lavoura

    mggomes,
    os impostos são sempre dinheiro que o Estado confisca sem ter ajudado a ganhá-lo. Sempre! Aquilo que se discute é qual a forma menos injusta de confisco. Eu acho que, entre IRS e imposto sucessório, o último é preferível ao primeiro.

  10. Luís Lavoura

    Rodolfo, o imposto sucessório não incide sobre quem morre. Incide sobre os seus descendentes. Quem morre de nada tem que se queixar. Morreu e já nada mais paga de imposto! Quem paga o imposto sucessório são os descendentes.

  11. Luís Lavoura

    Mário Amorim Lopes,
    certamente que saberá, melhor do que eu, que o imposto sobre a propriedade é aquele que menos distorce a atividade económica. Um imposto sobre a propriedade – por oposição a um imposto sobre o consumo (IVA) ou um imposto sobre o rendimento (IRS) causa uma distorção mínima nos estímulos que devem guiar a atividade económica. Não percebo, portanto, por que é que o MAL considera o IVA ou o IRS preferíveis ao imposto sucessório.
    Quanto ao argumento da dupla taxação – se eu aufiro rendimentos e depois os gasto, pago duas vezes imposto: IRS quando aufiro, IVA quando gasto. Da mesmíssima forma, se eu auferir rendimento e depois o legar ao meu filho, pagarei duas vezes imposto: IRS quando auferir, IS quando legar. Duplas taxações há muitas, Mário!

  12. mggomes

    Luís Lavoura,
    Eu acho qualquer forma de confisco injusta e não consigo encontrar justificação moral para nenhuma.
    O imposto sucessório tem, além do mais, o efeito perverso de penalizar a poupança.
    O que, bem sei, para os “crescimentistas” e cultores de semelhantes misticismos representa mais um ponto a favor…

  13. Luís Lavoura,

    1. Não analiso a questão do imposto sucessório numa matriz utilitarista, mas sim moral. E, nessa matriz, é imoral, independentemente de ser mais ou menos eficiente que outros impostos;
    2. Um mal não justifica outro (excepto eu, o MAL). Também sabemos que o IVA incide também sobre o IA. Não é por eu ter levado com um tiro que você deverá levar também.

  14. Simão

    Deploro informar mas…..:

    http://www.cityam.com/208691/yanis-varoufakis-expresses-surprise-free-market-endorsement-here-s-why-adam-smith-institute

    Imagino a estupefação, o desconcerto e o horror com que alguns autores e comentadores estarão a reagir a estas notícias e ao “blink” da UE (yes, they “blinked first”). O mundo já não é como era. É a vida. Habituem-se.

    Varoufakis anda a “arranjar amizades” nos sítios mais “insólitos”. (Real)Politik is a b*tch!

  15. Luís Lavoura

    Mário Amorim Lopes,
    1. Claro que o imposto sucessório é “imoral”, mas é-o menos do que, por exemplo, o IRS. O IRS incide sobre o dinheiro que eu, com o meu esforço, ganhei. O IS incide sobre dinheiro que eu ganhei sem ter feito esforço nenhum por isso.
    Portanto, se a sua irritação é contra impostos imorais, vire-a primariamente contra o IRS.
    2. O IS nem sequer se trata de dupla tributação. Quem paga o IS é quem herda. Não é quem lega. Ora, quem herda paga IS tal como pagaria IRS. Recebe um rendimento do seu antecessor e tem que pagar imposto por ele. Exatamente como quando se paga IRS por qualquer outro rendimento que se aufira.

  16. Simão

    Ó Fernando S vamos lá ver se nos entendemos…
    O Sr.Varoufakys, em entrevista ao (insuspeito) Telegraph, falando com Ambrose Evans Pritchard assumiu, finalmente, com CORAGEM, que a República Helénica (vulgo: Grécia) está….insolvente. Isto após anos e anos da tal “salvífica” e não menos “benemérita” política de austeridade.
    Então esta fabulosa “receita” não ia resolver tudo. Os ilustríssimos governos da ND não conduziram a Grécia à terra do “leite e de mel” tal como promoetido por Merkel e seus acérrimos defensores?!
    Em que ficamos?!
    E, já agora, o Sr.Varoufakys NÃO É marxista! É apenas é REALISTA.
    Quando estamos insolventes estamos…..insolventes. Period.
    Eu, se for credor, não me interessa mínimamente “espremer” o devedor como se fosse um limão. Prefiro receber em mais tempo do que não receber ou receber uma fracção. Já agora Varoufakys e Tsipras não querem um “write-off”, defendem, sim, aquilo que básicamente é uma “time -extension”.
    A entrevista na íntegra:

    http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/11388263/Greeces-rock-star-finance-minister-Yanis-Varoufakis-defies-ECBs-drachma-threats.html

    Tratar a economia com”clubismo” e apriorismos” irreais é, apenas , tonto. E irreal.
    As coisas são o que são, não o que queríamos. Daí a opinião do ASI. Como diria o “outro”: chuta-se com o pé que está mais à mão.

  17. Luís Lavoura, reforçou o que eu disse. As pessoas trabalham e esforçam-se e pagam imposto. O que sobra, para deixar aos filhos, é taxado novamente. Não consegue ver a imoralidade disto? É uma segunda derivada de imoralidade.

  18. hustler

    MAL,
    “The IMF, hardly a bastion of populism, has found that high levels of inequality are correlated with slower growth, and redistribution, within reasonable limits, with faster and more durable growth. Income inequality has also been associated with life expectancy inequality, though, again, it’s not clear which way the causation runs. And, perhaps most worryingly, concentrated economic power could turn into concentrated political power, entrenching economic power, in what Ezra Klein dubs a “doom loop of oligarchy.” Actually, as my colleague Larry Bartels points out, that might already be here: studies show that the rich have 15 times more influence on policy as average people.”

    http://www.washingtonpost.com/blogs/monkey-cage/wp/2014/04/08/rich-people-rule/

    Está a ver o Daniel Proença de Carvalho? agora imagine o país nas mãos de uma dezena de oligarcas com tanto poder e riqueza nas mãos!

    “Daniel Proença de Carvalho começa a ganhar a aura de novo dono disto tudo. Especialista em direito penal, arbitragem, fusões e aquisições, o seu escritório tem como clientes algumas das principais empresas portuguesas, sendo que o próprio advogado é presidente do conselho de administração da cimenteira Cimpor e da Controlinveste Conteúdos (detentora do “Diário de Notícias”, “Jornal de Notícias”, TSF, entre outras empresas de comunicação social), lidera a operação de compra da Portugal Telecom (PT) por parte dos franceses da Altice e é presidente da assembleia- -geral de 26 sociedades comerciais como a holding da Galp Energia, o Banco Espírito Santo Investimento ou a Renova.”

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