Prioridades

É no mínimo profundamente irónico (não fosse o trágico que envolve a situação) que, no dia em que mais uma vez vem a lume (no seguimento da morte de uma doente de hepatite C a quem não foi administrada por decisão tutelada pelo ministério da Saúde a terapia inovadora de custo elevado disponível para o efeito) a problemática do limite do custo das intervenções efectuadas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, tenha vindo ao parlamento e falado sobre o problema o responsável pela tutela que é a principal cara da insistência da maioria que sustenta o governo em manter no SNS a prática do aborto. Uma despesa do seu ministério que, contrariamente a outras menos afortunadas e susceptíveis, claramente se elevou ao domínio do intocável.

A somar a este facto discute-se no mesmo dia, e no mesmo parlamento – por proposta de uma maioria significativa da oposição – a ascensão ao mesmo SNS, com as respectivas despesas paga por apoiantes e detractores, da procriação medicamente assistida de mulheres sem quaisquer problemas de fertilidade, que têm todas as condições físicas para procriar sem essa assistência médica e não sofrem de qualquer patologia do foro médico.

São as prioridades que temos.

Leitura adicional: As contas do ministério da saúde afinal já estão resolvidas

13 pensamentos sobre “Prioridades

  1. Catarina

    Subscrevo. Prioridades totalmente invertidas da actualidade.
    Essa mesma opinião tem a Iniciativa Legislativa “Pelo Direito a Nascer” ( http://www.pelodireitoanascer.org/ ) , que propõe levar de novo ao Parlamento a questão dos recursos postos à disposição de quem aborta (nomeadamente, de forma repetida) bem como os postos à disposição de quem decide NÃO abortar. Pode ser que nesse âmbito alguém consiga explicar a Paulo Macedo o que ele pode efectivamente mudar…

  2. Luís Lavoura

    Já agora, façam-se umas contas. Em Portugal fazem-se um pouco menos de 20000 abortos por ano. Suponhamos que metade deles são feitos pelo SNS e que cada aborto custa no SNS 400 euros. Dá 4 milhões de euros por ano em abortos. Esse tratamento para a hepatite C custa, ao que parece, 40000 euros por pessoa. Pelo que, seria possível tratar com ele 100 doentes de hepatite C por ano à custa dos abortos. Penso (não tenho a certeza) que é praticamente toda a lista de doentes terminais de hepatite C atualmente existente.

  3. Luís Lavoura

    Aquilo que se discute no parlamento é, creio, a autorização para que se realize procriação medicamente assistida a mulheres não casadas e sem problemas de fertilidade. Não se discute a inclusão de tal coisa no SNS. Note-se que o SNS atualmente nem tem capacidade para fornecer PMA a todas as mulheres inférteis casadas, quanto mais a mulheres férteis solteiras!
    Ou seja, aquilo que se debate no parlamento hoje é a liberalização da PMA, não é o seu pagamento pelo SNS.

  4. balde-de-cal

    os custos compreendem doenças políticas como:
    aborto, droga,sida

    abaixo a inspecção das putas que o HIV é do povo!

  5. Luís Pereira

    Abaixo o financiamento do aborto, que é um escândalo enorme.. Se o não financiassem haveria dinheiro mais que suficiente para tratar desses casos de hepatite. Um filho, uma gravidez ,não é uma doença. Acabem com esse escândalo cruel para tratar quem está, de facto, doente.

  6. Pedro

    Restrições legais à procriação medicamente assistida é uma questão que nem se devia colocar. A cada um a liberdade de procriar. O seu financiamento público é outro assunto e deve ser discutido. Mas se permitirmos ao privado substituir o estado nestas coisas rapidamente a questão de custo no estado deixará de se colocar.

    A questão do aborto não tem nada a ver com isto e as externalidades positivas da legalização do mesmo são mais do que conhecidas.

  7. Luís Lavoura

    Pedro
    se permitirmos ao privado substituir o estado nestas coisas
    É permitido. Há muitas clínicas privadas que fazem procriação medicamente assistida.
    Só que, estão proibidas por lei de a fazer a mulheres férteis e/ou que não estejam casadas. É essa proibição que o PS e o BE pretendem eliminar.

  8. Pedro

    @Luís Lavoura: Concordo contigo. Por isso mesmo é que digo que a proibição nem devia ser uma discussão! A solução existe no privado e o estado não tem de regular quem é que procria nem como.

  9. Catarina

    Pedro, a quem não é dada a liberdade de procriar neste momento? É bonito usar os chavões da “liberdade” para justificar propostas-lei, mas é mais difícil perceber o impacto real nas pessoas.

    Já agora, e porque são tantas e tão conhecidas, pode só enumerar umas, sei lá, 3 “externalidades positivas da legalização” do aborto? Se puder ser, sustentadas com factos. Obrigada

  10. Pedro

    @Catarina: Hoje estava em discussão a proibição de uma mulher fértil e/ou solteira utilizar procriação medicamente assistida. O único impacto real nas pessoas é que por uma qualquer razão o estado acha estar na condição de impedir uma mulher adulta que prefere estar solteira e não ter um contacto sexual com um homem de procriar. É uma restrição a uma liberdade que, na minha opinião, não tem nenhuma razão de ser.
    Externalidades positivas da legalização do aborto: em Portugal ainda é cedo para as verificar, mas nos EUA essas estão bem documentadas. As mais diretas são: eliminar a existência de grupos criminosos e predatórios que fariam o aborto ilegalmente e em piores condições clinicas; no longo prazo verificou-se uma redução consistente na criminalidade mesmo quando se olha para a amostra controlando outros fatores concorrentes; maximização da liberdade do uso do seu corpo. Só pediu três, correto?

  11. Pedro

    Mas concordo com a Catarina numa coisa: este projeto de lei é injustificado… Simplesmente bastava eliminar qualquer restrição existente… A solução simples não é criar uma lei que permite, é eliminar a que proíbe!

  12. Pedro Borges

    Que difícil é ser a favor da descriminalização do aborto, mas contra o patrocínio do mesmo pelo erário público. Que difícil é olhar para um problema sem ver só preto e branco, para não falar na vontade tão infantil de teimar em forçar a nossa moral ao próximo.

  13. JS

    Alhos e bugalhos. Um SNS (relativamente) socialista desenhado no tempo em que o acto médico tinha preço reduzido (sem análises, TAKs, resonãncias e remédios com preços elevado a condizer e hospitais povoados por mal pagos “auxiliares”).
    Agora a saúde “obtem-se” via laboratórios de produtos farmaceuticos e hospitais (bastante) capitalistas. Não há Ministro que dê a volta a esta realidade.

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