A ideologia de vacinar os filhos

Parte do meu texto de hoje no Observador.

‘Ora nada pior do que tornar a ciência objeto de lutas política.

Qualquer pessoa de bem já tem contabilizadas algumas gargalhadas à conta do criacionismo ensinado como se uma teoria científica se tratasse. O filme Inherit the Wind continua atual nos lados da direita religiosa americana.

Do lado esquerdo temos o dogma do aquecimento global. Eu – que reciclo (porque faz sentido reutilizar em vez de desperdiçar), que entendo os benefícios de respirarmos ar despoluído, bebermos água limpa e não termos solos contaminados, e que aprovo uma gestão sustentável dos recursos do planeta – confesso que vejo mais fanatismo nos defensores do aquecimento global do que segurança vinda de uma investigação conclusiva. E, de cada vez que se alude às temperaturas que não subiram nos últimos anos ou à não ocorrência dos vários cataclismos climatéricos que nos tinham prometido, a resposta é mais ferocidade que ciência.

Na energia nuclear passa-se o mesmo. Não tenho opinião sobre o assunto e duvido que venha alguma vez a tê-la. Porque os dois lados estão tão politicamente conotados que não percebo onde acaba o argumento científico e começa o político. Não estou segura de que um extremo não esteja disposto a comprometer os evidentes riscos de segurança para ter energia mais barata; e que no oposto não se ignorem desenvolvimentos tecnológicos que tornem as centrais nucleares mais seguras para manter um estandarte político.

Pelos vistos vamos ter este folclore também na discussão das vacinas.’

Está completo aqui.

12 pensamentos sobre “A ideologia de vacinar os filhos

  1. Pedro

    Em todas as discussões existem fanáticos. No aquecimento global o consenso cientifico é generalizado, independentemente dos fanáticos. Na vacinação idem.

    A questão nuclear tem mais de sentimento que de ciência. Ambos os lados aceitam os factos mas avaliam o risco de forma diferente.

    A ciência é basilar para discussão política. Decisão política sem ciência só por acaso é acertada.

  2. Em ciência os consensos não existem. A ciência faz-se sempre na dúvida é por causa da dúvida. De cada vez que se declara consenso científico, faz-se uma declaração de fé, e não de ciência.

  3. Pedro

    Consensos científicos de cor:
    – Mecanismo da evolução por seleção natural;
    – A terra é redonda e não plana;
    – A gravidade existe…

    Não é declaração de fé. Consenso científico é simplesmente dizer: com toda a informação disponível a única conclusão razoável é, grosso modo, X, podendo haver discussões de detalhe.
    E isto cria um desafio a todos os cientistas para descobrir algo que rebente com este consenso.

  4. Revoltado

    A energia nuclear é como andar de avião: as estatísticas mostram que é o meio de locomoção mais seguro, mas sempre que cai um é uma grande tragédia.

  5. «Consensos científicos de cor:
    – Mecanismo da evolução por seleção natural;
    – A terra é redonda e não plana;
    – A gravidade existe…»

    No primeiro caso, sim, há um consenso. A teoria da evolução é quase impossível de provar empiricamente pois necessita de um periodo de tempo gigante para observar. A sua elevadíssima probabilidade materializa-se num consenso de aceitação.
    Nos outros dois, a comprovação é empírica. O consenso é irrelevante.

  6. MJ,
    O único aspecto ideológico desta cena das vacinas é se é legítimo ou não obrigar pessoas a fazer algo porque é bom para elas. Se as pessoas devem ter a liberdade de fazer determinadas (potencialmente) más escolhas. Não há grande dúvida, de um ponto de vista científico, relativamente à vantagem das vacinas.

  7. lucklucky

    Neste artigo tivemos mais uma vez os resultados de décadas de propaganda dos jornais marxistas tugas:

    Há tanta gente na Esquerda como na Direita Americana contra as vacinas. Porque é que autora julga que Obama e Clinton se portam desta maneira neste assunto?

    Segundo, e a minha opinião, por redundância é bom que haja diferenças no caso das vacinas. Que haja quem tome e que haja quem não tome. É curioso que a autora venha buscar Darwin quando nega Darwin no caso das vacinas.

    ——

    Aquecimento Global não há evidência de ciência alguma quanto mais sabermos medir temperaturas globais e o que raio quer dizer a expressão..
    É uma construção e fraude social. Qualquer pessoa que tenha estudado o método científico percebe que é impossível provar o que quer que seja com o nosso conhecimento.

  8. Pedro Oliveira

    Quem fala de consensos cientificos do sec. XXI devia lembrar os consensos ‘científicos’ do sec. XVI… A ciência não se faz por consensos.

  9. Pedro

    @Miguel Botelho: Não é apenas saber se as pessoas podem ou não fazer algo que é mau para elas, mas sim para os outros. Não é a pessoa que decide se vai ou não receber a MMR, mas sim os seus pais. Além disso as vacinas funcionam muito bem não só por elas próprias e para quem as toma mas para quem não as pode tomar também. Chama-se a isso “herd immunity”. Um pai que não vacina a sua criança está a pô-la em risco e às crianças dos outros.
    Não é equivalente à discussão, por exemplo, do consumo de drogas ou do suicídio em pessoas saudáveis.
    Claro que não é preciso um período de tempo gigante para observar evolução. Há imensos seres com tempos de vida curtos e com os quais é possível observar este processo diretamente. Há também o campo da genética que permite observar diretamente as linhagens evolutivas. Há ainda o registo fóssil, mais interpretativo que os anteriores mas conjugado com geologia bastante clarificador…
    O consenso só decorre de verificação empírica, pelo que dizer que existe comprovação empírica logo o consenso é irrelevante é vazio de significado.

    @luckylucky: Em relação ao aquecimento global há imensos estudos que indicam um aumento generalizado das temperaturas. Há um consenso de mais de 95% dos cientistas da área acerca deste ponto. Além disso há outra discussão: é o aquecimento global causado pela atividade humana. Aí o consenso científico desce para os 75% dos especialistas.

    @Pedro Oliveira: Um consenso científico no século XXI não é equivalente a dogmas de uma teocracia supersticiosa e ignorante do século XVI. Além de não haver propriamente autoridades na ciência – o que há são ideias mais ou menos robustas – em ciência não se parte da conclusão para as provas mas sim das provas para uma conclusão. Uma evolução relevante face ao século XIX, quanto mais XVI.
    Consenso também não significa que a ideia não pode ser rebatida. Aliás a melhor forma de um cientista ganhar fama é exatamente demonstrar que o consenso está errado.

  10. «O consenso só decorre de verificação empírica, pelo que dizer que existe comprovação empírica logo o consenso é irrelevante é vazio de significado.»

    Como o consenso decorre da verificação empírica, o valor epistemológico está nesta última e não no consenso. Logo, consenso sem verificação empírica é que é “vazio de significado”. A validade não advém do consenso mas da verificação. Não me parece complicado perceber isto. O consenso não faz parte do método científico.

  11. Pedro

    @Miguel Botelho: Se quiseres discutir semântica está à vontade. O que eu escrevi não implica que o consenso seja parte do método científico, nem que eu valorize o consenso acima da verificação empírica, pelo que o teu comentário é em si “vazio de relevância”.
    Falar num consenso por parte dos especialistas é uma forma mais do que normal de descrever quando a generalidade dos cientistas está grandemente de acordo em relação a uma qualquer questão científica quanto mais não seja para dizer que é a mais provável explicação.

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