Inflação

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Inflação

“A Economia numa lição” foi escrito por Henry Hazlitt em 1946. O livro não é grande, tem uma linguagem acessível e existe uma edição em português lançado pela editora Actual. A obra é importante e meio caminho andado para, de forma consciente, não se ficar amarrado às narrativas dominantes que atrofiam o debate e conduzem o país numa via que, por não ter sido devidamente discutida, se comprova mais tarde ser desastrosa.

Perante o receio de que a economia não cresça com uma inflação inferior a 2% ao ano, é quase unânime a necessidade desta ser estimulada. Para tal, a solução que tem
vingado nos EUA, e agora na Europa, é o de aumentar a despesa pública sem se subir os impostos. Como? Muito simplesmente através da compra pelos bancos centrais de dívida pública. O conceito é brilhante pois não tem custos para os políticos em exercício, já que os cidadãos não ligam directamente a inflação aos governos, como o fazem com o aumento dos impostos.

No entanto, o preço, quer político quer económico, existe. É que, além de ser negativo para a economia que os governantes tenham rédea livre para gastar, é ainda mais perigoso, para as democracias, que os governos se possam expandir livremente, pois que, não havendo nada que os ligue aos resultados negativos das suas medidas, o escrutínio normal em qualquer democracia desaparece.

Mas há mais: como lembra Hazllit, riqueza não é igual a dinheiro. O excesso deste significa inflação, um imposto que prejudica mais os pobres que os ricos e que fomenta a desigualdade. A desigualdade que servirá depois de pretexto para o discurso populista, outro perigo para as democracias, que já grassa na Europa e que vive da ignorância e do desespero.

Estamos num campo em que vertente política e económica andam lado a lado. Vezes sem conta ouvimos dizer que a descida dos preços adia o consumo. Ora, esta conclusão esquece que as pessoas não deixam de adquirir aquilo de que precisam e, mesmo que o façam, que estão a poupar; estão a criar capital que não fica debaixo do colchão, mas é investido. A diferença é que esse investimento será feito pelos cidadãos, no pleno uso das suas liberdades individuais, e não pelos governos. Algo que pode ser um problema para algumas pessoas, mas não para todas.

Desde a semana passada que todos os principais bancos centrais estão a comprar dívida pública. Os resultados nos EUA, no Reino Unido e no Japão não são animadores. A política monetária tem os dias contados, mas só dentro de alguns anos é que os dirigentes políticos estarão preparados para enfrentar esta nova realidade. Entretanto, a inflação não só nos coloca à mercê do Estado, como enriquece a banca e os mercados financeiros que, curiosamente, os adeptos da política adoptada pelo BCE, tanto criticam. Porque será?

14 pensamentos sobre “Inflação

  1. Luís Lavoura

    Realmente, a inflação reinante é preocupante. Os EUA estão com uma inflação temível. É horroroso.

  2. OCNI

    A inflação será provavelmente chamada para tapar o défice americano.
    Em 1929 antes da hiperinflação também existiu um período deflacionário.

  3. Carlos Duarte

    É, os EUA, o Japão e o Reino Unido têm inflações como nunca se viram! Nos EUA já está quase nos 4 dígitos (em permilagem, entenda-se)…

    A verdade é uma: eles têm-se fartado de imprimir notas e inflação, nada.

  4. Carlos Duarte

    Hiperinflação em 1929? Em 1929 a taxa de inflação foi negativa. E em 1930 nula. Não percebi…

  5. Miguel Noronha

    Porque na sequência da crise financeira e após as falências bancárias os reguladores impuseram o aumento dos rácios de capital e a aversão ao risco também subiu consideravelmente. Consequentemente o QE (que é erradamente interpretado como emissão monetária quando é apenas cedência de liquidez contra activos menos líquidos e cujas posições são fechadas no final de cada periodo) não foi foi transformado em mais empréstimos (e logo mais liquidez) junto dos consumidores. Em vez disso foi usado ou para reforçar “almofadas financeiras” ou investido em algo mais seguro como commodities. É ver o que sucedeu aos preços do petróleo e outros produtos agricolas quando o FED decidiu encerrar o programa.

  6. Carlos Duarte

    Ou, talvez, porque os consumidores não querem consumir? Não há procura, não há dinheiro gasto, não há inflação (com a agravante, e aí concordo, de a injecção de capital se estar a fazer no sistema bancário – se fosse “helicopter money” se calhar era diferente).

  7. Miguel Noronha

    “Ou, talvez, porque os consumidores não querem consumir? ”
    De uma forma ou de outra se os o dinheiro para algures no circuito não há inflação.

    “se fosse “helicopter money” se calhar era diferente”
    Recordo de alguns apelos para se alterar o QE e se passar a financiar directamente os consumidores perante os o pouco resultado que este estava a ter

  8. Carlos Duarte

    “De uma forma ou de outra se os o dinheiro para algures no circuito não há inflação. ”
    Absolutamente de acordo. Daí o parecer que podem imprimir Euros, Dólares e Ienes à vontade que vai dar em nada. Se ninguém o gasta (sejam os bancos sejam os consumidores), a máquina emperra.

    “Recordo de alguns apelos para se alterar o QE e se passar a financiar directamente os consumidores perante os o pouco resultado que este estava a ter.”
    Nunca foi tentatado mas tinha piada ver o que acontecia. Os Alemães é que podiam fazer isso (não era nada mau!).

  9. Miguel Noronha

    Os alemães tem péssimas recordações da inflação. Nós devíamos lembrar como foi nos anos 70/80 com taxas anuais de 20%.

  10. Filipe

    Miguel, sou absolutamente a favor da ortodoxia alemã, o QE dos USA só nos obrigou a fazer o mesmo, tal como a OPEP, vão uns atrás dos outros.

  11. Rodolfo

    “porque os consumidores não querem consumir? Não há procura”.. quem escrevey isto já parou para ler bem o que escreveu?? Toda a gente quer consumir mais. Não é por não quererem.

    “e se passar a financiar directamente os consumidores” .. repare que ‘despesa’ são reivindicações à riqueza da sociedade. Normalmente, pelo mercado, só pode ter despesas (retirar riqueza da sociedade) quem teve receitas (quem inseriu riqueza na sociedade). Ora, ao imprimir dinheiro e dar aos consumidores, está a passar-se à frente do processo de ‘inserir riqueza na sociedade’, o que leva a uma regressão na riqueza geral. Eu pergunto: como é que isto pode ser bom?

  12. @Luís Lavoura e @Carlos Duarte: se se estão a referir à “inflação” baixa nos EUA, penso que se estão a referir ao Consumer Price Index. O cálculo deste indicador é mais do que aldrabado, a começar pelo facto de que não considera combustíveis nem comida. No site do shadowstats (http://www.shadowstats.com/alternate_data/inflation-charts) podem observar o valor do CPI calculado segundo a metodologia de 1990 e podem ver que se situa perto dos 4%.
    Outro aspecto importante é que os preços podem se manter constantes e não existir inflação; isto porque numa economia normal a tendência com os aumentos de produtividade é que os preços baixem. A inflação pode contrariar esta tendência fazendo subir os preços dando a ilusão de que se mantêm constantes. Recomendo vivavemente que vejam este vídeo do Peter Schiff:

  13. hustler

    @André Abrantes Amaral e João Cortez,

    Dizer que há ganhos de produtividade e ignorar o resto é o mesmo que dizer na economia não há trade-offs! Não se pode agarrar no manual escolar da universidade (que é um compêndio básico) e transpor apenas esses ensinamentos para a realidade!
    Existem muitas evidências relativamente ao excesso de inflação e à ausência completa da mesma e todas elas mostram que há mais custos que benefícios! Quando um banqueiro de um banco central se propõe alcançar determinada % de inflação, não é porque recorreu ao manual escolar do Robertson, Mankiw ou Barro ( que aliás, são omissos nesta matéria, uma vez que são escritos para um público alvo de iniciação à economia), mas sim porque existem inúmeros papers publicados no meio académico que tentam medir o custo benefício, Todos eles são unânimes em apontar que uma inflação nula ou deflação, têm mais custos que benefícios.
    Os ganhos de produtividade e a maior propensão para poupar (e posteriormente investir) não são compensados pelo elevado desemprego!

    “Macroeconomic Implications of Downward Rigidity

    If employers cannot cut wages, what does this mean for the economy, and particularly for inflation targets? To answer this question, we developed a simulated economy with thousands of firms, each subject to random demand and supply shocks that affected its desired level of employment and wages. We then simulated the behavior of that economy at high, moderate, low, and zero rates of inflation. In this simulation model, unemployment rises at low rates of inflation. There are costs to pursuing low inflation, and these costs are as permanent as the gains of maintaining zero inflation. The effects are permanent because, in the turbulence of the economy, there are always some firms that would want to cut their workers’ real wages, and nominal wage rigidity makes this impossible when inflation is low. For the aggregate economy, the consequence of real wages that are too high is employment that is too low. This real cost is not only permanent but also much larger than any reasonable estimate of the gains created by going to zero inflation.”

    http://www.brookings.edu/research/papers/1996/08/useconomics-akerlof

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