Quantitative Easing numa imagem

QEJá aqui expliquei que Quantitative Easing (QE) não corresponde à criação imediata de moeda: o Banco Central apenas aumenta a base monetária (MB) disponibilizando liquidez a médio prazo (para além das vulgares cedências de liquidez de curto-prazo), mas a moeda só é efectivamente criada e chega à economia real quando os bancos cedem crédito, depositando esse dinheiro numa conta (expansão M2). O que tem acontecido é que esse dinheiro não tem chegado à economia, fruto da consolidação dos bancos, que têm não expandido mas contraído a cedência de crédito. O QE pretende ser mais um incentivo a que essa cedência de crédito aconteça.

Uma vez mais, e por forma a resfriar os ânimos daqueles que acham que o BCE vai atirar dinheiro para Portugal, construí uma pequena ilustração que tenta explicar como funciona o QE. Serve também para explicar porquê que o QE não gera necessariamente inflação: só quando toda (ou uma parte substancial) a liquidez for efectivamente canalizada para a economia é que a oferta de massa monetária inflacionária (M2) expande, podendo aí gerar-se inflação. Aliás, este é o grande problema do QE: o difícil não é começar, é parar.

 

25 pensamentos sobre “Quantitative Easing numa imagem

  1. Luís Lavoura

    O desenho que fez é um bocado complicado. Seria talvez melhor explicar com peças lego, como o deputado Paulo Sá ontem habilidosamente fez.

  2. Luís Lavoura

    Talvez a coisa esteja um pouco melhor explicada nos meus posts “O erro do quantitative easing” de ontem e hoje, no meu blogue.

  3. Kubo

    Thomas Sowell:

    «When the Federal Reserve System started creating hundreds of billions of dollars out of thin air, they called it ‘quantitative easing’ of the money supply.

    When that didn’t work, they created more money and called it ‘quantitative easing 2’ or ‘QE2,’ instead of saying: ‘We are going to print more dollars— and hope it works this time.” But there is already plenty of money sitting around idle in banks and businesses. …..’ »

    «The old-time Keynesian economic religion will always say that the only reason creating more money hasn’t worked is because there has not yet been enough money created. To them, if QE2 hasn’t worked, then we need QE3. And if that doesn’t work, then we will need QE4, etc.»

    Fonte: In Comentário de MG

    Em síntese: As Muito Adoradas Reengenharias Financeiras …

  4. antónio

    Explicação pertinente e a meu ver tecnicamente correcta e fundamentada. Em vez deste alivio quantitativo não teria sido preferível encontrar um mecanismo de fazer chegar o dinheiro às famílias reduzindo-lhes os impostos e incentivando-os assim a consumir de forma responsável permitindo o crescimento económico ?? Isto sugeriu salvo erro Mark Blyth, seria inovação em economia, o alívio quantitativo é uma ferramenta provavelmente ultrapassada (o seu texto confirma isso em parte pois não gera por si só inflação) para resolver problemas que são contemporâneo. De qualquer modo parabéns pelo post, está francamente bom.

  5. antónio, quem sugeriu isso, sob a forma de exercício teórico, foi Milton Friedman. É o chamado “helicopter money”. Nunca foi experimentado, embora fosse tecnicamente possível. Seria um estímulo fiscal sem custos em termos de défice, embora potencialmente inflaccionária. Tenho alguma curiosidade metodológica em ver uma experiência dessas de âmbito muito controlado, confesso.

  6. CsA

    MAL se essa massa monetária não chega à economia qual é então o verdadeiro objectivo do QE? Resgatar os bancos? Animar as bolsas?

  7. LV

    CsA,
    Não respondo como especialista/técnico (ou do alto de um Phd – Hat tip JGrant), mas como o caso americano demonstrou, o alívio foi para Wall Street. Não para a rua. E se entendi bem o desenho de MAL, é isso que por cá vai acontecer. Os bancos estão tão mal, mas tão mal que dificilmente vão conceder crédito para investimento. Seja a empresas ou famílias.
    A menos que se queira lançar fogo na palha que está nos balanços das entidades centrais do sistema (FED –
    Greenspan dixit, mas acrescentemos BoJ, BCE e depois, claro, os privados, bancos ou outros).
    As declarações de Draghi, ontem, parecem-me a admissão de uma total derrota das políticas dos últimos sete anos. Leiam-se, especialmente, as respostas aos jornalistas.
    Saudações,
    LV

  8. Andre

    Isto não tem nada a ver mas precisava de saber por alto o valor total de privatizações que foram feitas no periodo 2011-actualidade

    Alguem tem link ou podem dizer?

    Estou com falta de memória.
    EDP REN ANA renderam 6,4MM, e que mais?

  9. Mesmo que o crédito não chegue à economia, tem sempre o efeito colateral de fazer baixar ainda mais os juros dos títulos de dívida, permitindo ao Governo fazer rollover e reduzir custos com o serviço de dívida.

  10. Fernando S

    É provável que, mais cedo ou mais tarde, esta politica do BCE acabe por favorecer o crescimento economico na Europa.
    Mas que tipo de crescimento économico, até quando, e a que preço ?
    Todos os paises vão sentir um alivio financeiro : os menos endividados poderão gastar mais ; os mais endividados poderão diminuir, ou até inverter, o ritmo de consolidação (desde os Bancos até aos agentes economicos privados passando pelos Estados).
    O problema, porque há efectivamente um problema, é que este alivio financeiro, e o crescimento na economia que dele resulta, tenderá no curto prazo a favorecer sobretudo os paises e os sectores de actividade que no passado desequilibraram as economias nacionais e a economia da Zona Euro : mais consumo de bens não transaccionaveis, mais despesa e investimento publicos, menos investimento nos sectores transaccionaveis e produtores de bens e serviços de investimento.
    Ou seja, é um crescimento viciado e, por consequencia, não sustentável a mais longo prazo.
    Teria sido preferivel, como defendeu Angela Merkel, o BCE ter mantido uma politica monetária mais restritiva, mesmo com alguma deflacção e com um crescimento fraco da economia, de modo a incentivar e dar tempo a que as economias dos paises europeus completassem (os mais atrasados) e consolidassem (os mais adiantados) certas reformas estruturais.
    Estas reformas (do Estado, da fiscalidade, do mercado de trabalho, dos mercados de produtos, etc) deveriam permitir que as economias reais ajustassem os respectivos modelos em sentido mais produtivo e equilibrado (proporcionalmente, menos Estado e mais mercado, menos consumo improdutivo e mais investimento em produtividade, menos desequilibrios financeiros internos e externos).
    Posteriormente, com economias europeias mais equilibradas, então a politica monetária do BCE poderia, e deveria, ser mais expansionista no sentido de fornecer à economia o dinheiro necessário para financiar um crescimento saudável, isto é, sem risco inflacionista nem efeitos desequilibrantes sobre a economia real, de cada pais e do conjunto da Zona Euro.

  11. hustler

    Obrigado pelo post! É sempre bom ver alguém esclarecido dar uma explicação correcta! Os jornalistas não são economistas, e na maior parte das vezes, pouco ou nada sabem do funcionamento da massa monetária, especialmente destes processos mais intrincados. As explicações que aparecem nos jornais, são na maior parte das vezes, enviesadas. Agradeço o trabalho pedagógico que apresenta nos seus posts!

  12. «Nunca foi experimentado, embora fosse tecnicamente possível.»

    Mas, no fundo, qualquer combinação em que um aumento da massa monetária seja complementada por um aumento do deficit (ou redução de superavit) no mesmo valor acaba por ser o helicopter money na prática, não?

  13. «The old-time Keynesian economic religion will always say that the only reason creating more money hasn’t worked is because there has not yet been enough money created. To them, if QE2 hasn’t worked, then we need QE3. And if that doesn’t work, then we will need QE4, etc.»

    Penso é que isso até é mais a religião monetarista do que a keynesiana – pelo menos guiando-me pelo debates na internet entre Nick Rowe/Scott Sumner vs. Paul Krugman (com os monetaristas a dizer que, se a expansão monetária ainda não fez arrancar a economia, é aumentar a dose até resultar, enquanto os keynesianos respondem que criar dinheiro é como um comprimido que não faz bem nem mal e que o que é preciso é maiores deficits orçamentais)

  14. miguelmadeira, sim, embora não de uma forma tão ubíqua quanto seria um depósito directo nas contas. Muito desse dinheiro perde-se algures na máquina do Estado e não reverte para os cash-strapped, aqueles que fariam com que a procura agregada efectivamente aumentasse.

  15. ricardo

    É bom fazer mais dinheiro e “injectar na economia” para estimular o crescimento e derrotar a direita da austeridade.
    Já o engº de saudosa memória mandou fazer um aeroporto em Beja e estimulou empreiteiros, a câmara municipal e outros progressistas. Em Évora roiem-se de inveja e toda gente gosta de ter um belo aeroporto muito arrumado, como novo e que põe Beja no mapa do mundo.
    Agora só faltam aviões mas temos fé que hão de vir porque é sabido que onde há aeroportos há aviões.
    O grande BCE também sabe que os países onde há dinheiro são ricos e que se o dinheiro está curto para os governos e para a necessidade é preciso fazer mais.
    Produzir riqueza à antiga está ultrapassado e agora já não é preciso produzir batatas, máquinas, remédios e outras canseiras que tal – faz-se o dinheiro, põe-se nos bancos e pronto.`
    Os bancos assim podem emprestar aos governos para aliviar a austeridade na vida das pessoas.
    Tá feito.
    PS: Tanto mal que diziam do sr. Milton Friedman mas afinal, tal como se diz agora, “somos todos… monetaristas”

  16. JoaoMiranda

    ***Mas, no fundo, qualquer combinação em que um aumento da massa monetária seja complementada por um aumento do deficit (ou redução de superavit) no mesmo valor acaba por ser o helicopter money na prática, não?***

    Interessa saber se é a fundo perdido ou não. Se não é a fundo perdido esses empréstimos terão que ser pagos um dia e o efeito inflacionista é revertido. Como os agentes privados sabem disso, tenderão a retrair-se. Se o governo aumenta o défice eu sei que daqui a uns anos os impostos vão aumentar, provavelmente no preciso momento em que o banco central vai ser forçado a reverter os estímulos (foi o que aconteceu em 2008).

  17. antónio

    Penso que no nosso país a comunicação social, os blogues e outros meios, terão nesta questão do alivio quantitativo um papel fundamental. Deverão adoptar uma atitude responsável a qual passará por informar de modo claro e distinto os cidadãos menos esclarecidos com as questões de economia (são seguramente a maior parte) que não haverá de modo algum nenhumas rotativas a imprimir as notinhas mágicas de Euro. Este alivio quantitativo só terá sucesso se os cidadãos sentirem que a economia transmite confiança no seu dia a dia. Se isso não acontecer, os cidadãos menos esclarecidos vão sentir-se frustrados e irão pensar e questionar-se o que fizeram afinal a tanto dinheiro, o comentário típico será ”aqueles gatunos”.

  18. lucklucky

    A ser verdade:
    “O que tem acontecido é que esse dinheiro não tem chegado à economia, fruto da consolidação dos bancos, que têm não expandido mas contraído a cedência de crédito.”

    Sem o QE os Bancos poderiam ter oferecido mais o crédito. Logo esse dinheiro esará na economia.

  19. ricardo

    Como se vê pelas taxas euribor o sistema está a nadar em liquidez pelo que não se compreende para que serve mais liquidez.
    Estou para ver porque razão bancos com excessos de liquidez, sem aplicação rentável para esses fundos, iriam vender títulos de dívida pública ao banco central para ficar ainda com mais excesso de liquidez.
    Só se for para poderem comprar mais dívida pública por razões políticas ou para embelezar contas para os constâncios.
    Ou então a situação está tão fora de controlo que os doentes tomaram conta do manicómio.

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