O futuro da ciência

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Vejo a ciência como Feyerabend a viu: um processo anárquico, não necessariamente estruturado, que se quer arrojado e disruptivo. É assim que eventualmente acabamos por dar o salto de Kuhn, de paradigma em paradigma, por vezes com revés. Assim deve ser a ciência. Mas não descuro Popper: o método subjacente à validação científica deve ser sério, verificável e replicável, para que a sua falsificação seja possível. Tento sintetizar o que Feyerabend não quis: um processo de descoberta científica que seja criativo e o mais livre possível ancorado numa metodologia científica rígida.

1. Vicissitudes da vida, nem toda a produção científica, ainda que válida, interessante e até revolucionária, acaba por dar-se a conhecer. Existe um bottleneck que exerce dois importantes papéis: revisão e auditoria da produção científica; publicação e divulgação dessa mesma produção científica. As revistas servem este propósito. Contudo, o espaço e o tempo são limitados: não é possível publicar nem todos os artigos, assim como não é possível encontrar revisores para tantos artigos. Não apenas isto, mas dada a recente valorização do número de papers publicados, em contraste com a qualidade dos mesmos, mais difícil de aferir, começaram a surgir revistas especializadas na prototipagem rápida, sem qualquer valor acrescentado (na maior parte dos casos nem sujeita os artigos a peer review, e quando o faz, é dissimulado). É a isto que Pedro Pita Barros alude, e bem, neste seu interessante artigo.

Esta preocupação não é nova. Pessoas como o Randy Schekman, laureado com o prémio Nobel pelo seu importante trabalho em biologia, já tinham alertado para este pernicioso efeito das revistas científicas, muitas vezes sujeito a argumentos de autoridade — a reputação dos autores é, por vezes, condição suficiente para a sua aprovação. De um forma diferente mas complementar, também Paul Ginsparg se apercebeu do problema, criando um repositório online de acesso aberto que permite a partilha de qualquer artigo, o arXiv, que atingiu agora 1 milhão de artigos científicos.

Devemos questionar este modelo, especialmente numa era em que é possível a publicação virtualmente infinita de artigos, assim como alargar o espectro de revisores, muitas vezes com interesses comuns aos dos autores dos artigos, gerando perniciosos conflitos de interesse. Mas, para isto, a academia tem de re-equacionar o seu modelo de avaliação. É um círculo vicioso que tem de ser quebrado algures: se a carreira académica continuar a valorizar os artigos com base no impact factor do jornal em que são publicados, dificilmente este problema será ultrapassado. Por outro lado, e atentando ao que o professor Pedro Pita Barros refere, é importante considerar a credibilidade dessa mesma revista. No entanto, um critério de peso que use o impact factor estaria a ignorar repositórios como o arXiv, não sujeitos a impact factor, dado que este não é, com efeito, um jornal. Defendo um modelo de publicação aberta, sujeito a validação de qualquer interessado que não apenas um conjunto diminuto de revisores. Na era da internet, não existe qualquer impedimento a que assim seja.

2. Não menos relevante, é precioso (e preciso) reflectir sobre o papel da FCT na promoção da investigação científica, e sobre as áreas de particular interesse para Portugal. Não descurando a investigação fundamental, dados os recursos escassos de que Portugal dispõe, o enfoque deverá ser na investigação aplicada que possa produzir imediata transferência de tecnologia e inovação, tanto no sector privado como no público. Neste sentido, tenho sérias dúvidas que o financiamento de estudos que visem legitimar a violência de índole revolucionária, com propósitos políticos e um viés ideológico óbvio, se consubstanciem naquilo que devem ser as prioridades da FCT, como bem refere o Gabriel Mithá Ribeiro. Só numa concepção marxista, já há muito ultrapassada, é que o processo científico segue uma estrutura normativa: o como é dá lugar ao como deverá ser. E só neste enquadramento é que é possível aceitar conclusões como as apresentadas no estudo supra-referido: “(…) enfrentar a progressiva e consequente deslegitimação e criminalização da violência” (p.295). Adicionalmente, também tenho reservas quanto à importância de um estudo que vise as bandas punks, concluindo, enfim, que são subpolíticas e hiperpolíticas. Num mundo de recursos infinitos, parece-me de todo adequado que cada um estude aquilo que lhe interesse, empregando o seu tempo no que lhe dá prazer. Num mundo, e especialmente num país, de recursos escassos, todo o euro despendido tem um enorme custo de oportunidade. Devemos criticar essas opções, nem que seja por dever filosófico a Karl Popper: a ciência, e o meio que a circunda, assim como as pessoas que a fazem, deverá estar escrutinada e sempre sujeita à crítica racional. Ei-la.

42 pensamentos sobre “O futuro da ciência

  1. k.

    Do alto da minha confessada ignorância..
    Questione-se o modelo sim – mas e alternativas?

    – Para o peer reviewing.. de facto, a produção cientifica é tão grande, que uma revisão adequada de tudo o que é produzida é dificil, senão impossivel. O que fazer? Restringir a “oferta” para obter um volume que possa ser validade efetivamente? Não seria isso um perfeito desperdicio?
    Porque não então usar um sistema baseado na “popularidade” do investigador?
    Por outro lado, até que ponto as métricas de produtividade que são colocadas aos investigadores são perniciosas? Pelo meu entendimento, para obter financiamento os investigadores são premiados pela quantidade.. não necessáriamente qualidade da sua investigação. Não será isso uma das causas do problema?

    – As áreas de particular interesse para Portugal.. cada cabeça terá a sua sentença. A sua crítica pode ser interpretada como tendo um viés politico também!
    Acho que um problema mais simples de resolver, portanto um que deve ter prioridade, é a mui-falada ligação das Universidades às Empresas (isso resolveria parte do problema de saber “o que é necessário”).
    Do lado empresarial, devo dizer que nunca vi grande impulso para ir às Universidades para ir buscar conhecimento, resolver projetos e problemas – algo que até vem da cultura de gestão das empresas, diga-se…
    No entanto, o que podem fazer as Universidades?

  2. k,

    1. Imagino um modelo tipo Reddit ou Digg, em que os artigos são submetidos, votados e revisões são também votadas e sujeitas a escrutínio, não limitando assim nem a publicação nem a revisão;
    2. A parceria com empresas já começa a existir, embora os spill overs de subsídios a R&D ainda sejam muito ténues [1]; independentemente disso, até porque nem tudo pode ser feito em parceria com empresas, é preciso direccionar o foco.
    3. Algumas empresas grandes começam agora a contratar PhDs e a estabelecer muitas parcerias com algumas Universidades; não há muito que possa acelerar este processo, até porque já existe financiamento para projectos conjuntos.

    [1] – http://www.voxeu.org/article/rd-tax-incentives-new-evidence-trends-and-effectiveness

  3. anonimo

    “tenho sérias dúvidas que o financiamento de estudos que visem legitimar a violência de índole revolucionária, com propósitos políticos e um viés ideológico óbvio, se consubstanciem naquilo que devem ser as prioridades da FCT”
    Concordo totalmente.

    “Não descurando a investigação fundamental, dados os recursos escassos de que Portugal dispõe, o enfoque [FCT] deverá ser na investigação aplicada que possa produzir imediata transferência de tecnologia e inovação, tanto no sector privado como no público. ”
    Aqui acho, por causa do primeiro parágrafo que seleccionei, que está a ‘confundir’ aplicada/fundamental com ‘áreas de investigação’. Eu acho que a FCT deve focar-se em financiar áreas de investigação com relevância para “transferência de tecnologia e inovação”, mas em investigação fundamental, deixando para as empresas o investimento em investigação aplicada (preferencialmente no seguimento/aproveitamento de resultados da investigação fundamental financiada pela FCT).

  4. k.

    Mário Amorim Lopes em Janeiro 21, 2015 às 11:03 disse:

    Relativo ao ponto 1, não iriamos cair na situação actual? Continuariamos com um volume de publicações gigantesco, sem capacidade para um peer review adequado. Num sistema tipo Reddit, como impedir que as publicações mais votadas fossem as que têm conclusões mais do agrado do “votante”?
    Pelo que entendo, o sistema actual já é mais ou menos assim.. só que em vez de “up votes” temos “number of citations”

    É crivel ter algum sistema que permita medir o impacto social de uma determinada publicação?
    Seria possivel dessa forma focalizar recursos?

    Enfim
    Se EU tiver soluções, prometo que publico um trabalho para revisão 😛
    Acho que não vai acontecer.. 😦

  5. Caro anonimo, o lapso foi meu, pois não defini fundamental. Fundamental é ciência teórica básica, como são a filosofia ou a matemática teórica. Certamente que análise funcional e tipologia terão muito interesse, até aplicado, mas Portugal tem de escolher onde aplicar os recursos, e a celeridade dos resultados é, infelizmente, uma necessidade. Neste sentido, as Universidades deverão estudar matérias de interesse aplicado, como por exemplo a optimização, p. ex. recorrendo a modelos de programação matemática state-of-art, de uma linha de produção de uma grande indústria, sendo que a sua manutenção deverá estar, naturalmente, de fora.

  6. Um modelo de open access – open assessment que procura dar uma resposta a este estrangulamento em economia é o economics e-journal – http://www.economics-ejournal.org – que já tem 8 anos, mas não se conseguiu afirmar como alternativa relevante. Baseia-se em revisão pelos pares voluntária e publicamente disponível para que cada um possa aferir da relevância dos artigos lá colocados.

    Alterar a reputação das principais revistas científicas é muito difícil. Ao aumento da “procura de espaço de publicação” também correspondeu um aumento da “oferta” desse mesmo espaço, sendo o exemplo mais bem sucedido dado pelas 4 novas revistas da American Economic Association.

  7. CN

    Isto não é de todo verdade em economia:

    ” Popper: o método subjacente à validação científica deve ser sério, verificável e replicável, para que a sua falsificação seja possível. “

  8. Revoltado

    Preparem-se para o “open” acess (mais uma imposição dos nossos burocratas). Aí sim, será bonito; sendo os autores dos artigos a pagar pela sua publicação, qual vai ser a motivação das revistas científicas para recusar a publicação de um artigo, sabendo que isso implica perca de receitas? E quem ganhará: a qualidade e excelência ou o cash-flow?

  9. Caro Revoltado, a ideia do open access é interessante enquanto princípio. A verdade é que a visibilidade de muitos papers fica limitada por causa das paywalls, e porque nem todas as Universidades têm capacidade para pagar as subscrições às grandes editoras.

  10. CN

    ” É verdade para a economia mainstream positivista.”

    Só há uma verdade,

    E os empiristas não têm nenhuma verdade para mostrar…usando o seu próprio critério de validade. Têm?

    PS: De resto, o empirismo do método científico para ciências naturais é interpretado com sendo mais do que realmente é. A teologia, como ramo da filosofia, tem alguma coisa a ensinar.

    O facto de nas ciências naturais se fazerem colecções de medidas e constantes em material inerte, que depois, obviamente é replicável” não nos permite de facto “compreender” o fenómeno.

    Ou seja, estamos a chamar a “científico” como se fosse uma grande coisa, no domínio da colecção de constantes que em si não nos transmitem o “porquê” da essência. Mas enfim, divago.

  11. Revoltado

    Caro Mário,

    O acesso aos artigos terá sempre que ser pago. As editoras não trabalham de borla. A questão é saber se o pagamento desse custo deve estar do lado da oferta (os autores) ou, se como é normal com qualquer outro serviço, do lado dos consumidores (quem procura os artigos).

  12. Joao Bettencourt

    Caro Mário,
    Ja considerou se o segundo ponto pode existir sem o primeiro? Isto e, se a ciência se pode tornar no departamento de R&D da economia nacional sem que esse departamento se encontre sujeito a métodos de avaliação quantitativos como o índice h ou outras métricas semelhantes?

    Eu vejo inevitável que assim seja. Alias, a ciência e hoje em dia um legitimo sector industrial dada a quantidade de recursos humanos e capital que mobiliza.

  13. “CN, não é verdade na economia segundo a escola austríaca, cuja praxeologia defende um modelo apriorístico.”

    Acho que mesmo o apriorismo implica aceitar algo como um método ” sério, verificável e replicável, para que a sua falsificação seja possível” – o mecanismo de verificar/falsificar é que será diferente: em vez de fazer experiências ou compilar estatísticas para ver se batem certo com a teoria, será mais refletir no assunto e analisar os vários passos lógicos da teoria para ver se há alguma falha no raciocinio (mas no fundo isto não mais é que a velha dicotomia entre o empirismo britânico e o racionalismo francês – ainda que na economia me pareça haver uma curiosa inversão, comparada com outros ramos, entre quem prefere o empirismo e quem prefere o racionalismo).

  14. “a reputação dos autores é, por vezes, condição suficiente para a sua aprovação”

    Não estou muito por dentro disso, mas não é suposto a revisão ser “cega”, sem os revisores saberem quem é o autor?

  15. Joao Bettencourt

    “Não estou muito por dentro disso, mas não é suposto a revisão ser “cega”, sem os revisores saberem quem é o autor?”

    Normalmente e ao contrario: os revisores e que são anónimos. Mas algumas revistas
    já fazem revisão em “double blind”.

  16. miguelmadeira, depende dos casos. Em alguns existe single blind review, double blind review ou open. Pessoalmente, mesmo sabendo que poderia dar origem a represálias, prefiro um sistema one-way review: o revisor não sabe o nome de quem submeteu, mas quem submete depois sabe o nome dos revisores.

  17. Interessante. Parabéns!
    O problema da inflação de papers e do nepotismo nas revistas de topo tem um aspecto positivo na medida em que reflecte a importância crescente da ciência e das publicações.
    Porém, é especialmente negativo quando reflecte apenas um fenómeno gerado pelo uso da quantidade na avaliação dos académicos e dos centros de investigação. Hoje os jovens investigadores sentem-se obrigados a publicar 3 ou 4 papers por ano. No entanto, em muitos dominios a investigação pode exigir décadas de trabalho. Como podem ser avaliados esses investigadores?

    O open access é inevitável, mas é preciso assegurar referees crediveis que nos poupem a trabalheira de distinguir o trigo do joio. A experiência da Amazon, onde há milhares de reviewers, mostra que os autores com muitos recursos já têm centenas de comentários antes do livro ter saído. A maioria são uma fraude.

    Por isso, em ciência, temos duas opções: a) encontrar referees honestos e imparciais; e ou b) ter um sistema concorrencial de rating dos “referees”.
    A segunda opção é mais realista.

  18. CN

    Miguel Madeira

    Se o argumento é que até o apriorismo é uma forma de empirismo, acho que é precisamente o contrário.

    Ou seja, nenhum “método científico” consegue comprovar que o “método científico” em economia é “científico”.

    Adicionalmente, os próprios empiristas quando escrevem sobre economia, acho que nem têm consciência da quantidade de afirmações, pressupostos, conclusões, para os quais em nada se confrontam com o “método científico”, mas simplesmente o confronto de lógica consistente das suas próprias afirmações.

    Para todos os efeitos, não há método científico em Economia. Mas há método.

    Num post sobre o “futuro da ciência” parece ser necessária alguma claridade.

    Dito isto, podemos divagar se o apriorismo não é “científico”. Bem, assim deveer, e parece-me que na mesma medida em que a matemática também o é.

  19. CN, este artigo não visava uma discussão epistemológica, mas sim uma discussão que focava dois pontos em particular: a revisão de artigos; o financiamento da ciência em Portugal. Finalmente, embora considere o tema interessante, não sou filósofo da ciência, pelo que terei de me cingir ao método científico vigente, falsificação empírica com crítica racional (o de Popper).

  20. “Se o argumento é que até o apriorismo é uma forma de empirismo, acho que é precisamente o contrário.”

    Não – o meu argumento é que tanto o apriorismo/racionalismo (parecem-me identicos) como o empirismo devem ser verificáveis, ainda que verificáveis de forma diferente.

  21. miguelmadeira, a praxeologia diz que as conclusões do seu método são válidas e axiomáticas, independentemente da sua verificação ou não. Confesso que esse é dos meus maiores pontos de discórdia com a escola austríaca (isso e a questão da matemática).

  22. CN

    “miguelmadeira, a praxeologia diz que as conclusões do seu método são válidas e axiomáticas, independentemente da sua verificação ou não.”

    Dito assim parece grave.

    A questão crucial e que faz a diferença é que a praxeologia é muito cautelosa ou limitada no que assume ser possível formular como verdades universais praxeológicas, e assim sendo, não passíveis de serem verificáveis/falsificáveis

    Ou seja, para descanso do MAL, este não encontrará essas tais verdades praxeológicas onde o próprio MAL considere ser uma lacuna terem de ser verificáveis ou capazes de o ser [ou pelo menos, estou a arriscar-me a pressupor que o MAL assim concordará].

    Hoppe dá estes exemplos:

    Now let us turn to some typical economic propositions.

    Consider the validation process of a proposition such as the
    following: Whenever two people A and B engage in a
    voluntary exchange, they must both expect to profit from it.
    And they must have reverse preference orders for the goods
    and services’ exchanged so that A values what he receives
    from B more highly than what he gives to him, and B must
    evaluate.the same things the other way around.

    Or consider this: Whenever an exchange is not voluntary
    but coerced, one party profits at the expense of the other.

    Or the law of marginal utility: Whenever the supply of
    a good increases by one additional unit, provided each unit
    is regarded as of equal serviceability by a person, the value
    attached to this unit must decrease. For this additional unit
    can only be employed as a means for the attainment of a
    goal that is considered less valuable than the least valued
    goal satisfied by a unit ofsuch good if the supply were one
    unit shorter.

    Or take the Ricardian law of association: Of two producers,
    ifA is more productive in the production of two
    types of goods than is B, they can still engage in a mutually
    beneficial division of labor. This is because overall physical
    productivity is higher ifA specializes in producing one good
    which he can produce most efficientl~ rather than both A
    and B producing both goods separately and autonomousl~

    Or as another example: Whenever minimum wage laws
    are enforced that require wages to be higher than existing
    market wages, involuntary unemployment will result.

    Or as a final example: Whenever the quantity of money
    is increased while the demand for money to be held as cash
    reserve on hand is unchanged, the purchasing power of
    money will fall

  23. Questão sobre a praxiologia – a praxiologia recusa que se possa discutir se há falhas lógicas nas suas conclusões, ou apenas recusa a refutação empírica?

    Já agora, tenho dúvidas que a “Whenever an exchange is not voluntary
    but coerced, one party profits at the expense of the other.” seja necessariamente (ainda que possa depender do que se considera “party” e “profits”) verdadeira – ambas as partes podem perder, não? (confesso que não sei se isto conta como contra-argumento lógico ou empírico, mas acho que é “lógico”)

  24. k.

    “CN em Janeiro 21, 2015 às 16:47 disse: ”

    Está a fazer argumentos análogos aos criationistas – quem tiver tempo, pode ver este debate muito interessante:

    ““miguelmadeira, a praxeologia diz que as conclusões do seu método são válidas e axiomáticas, independentemente da sua verificação ou não.””
    É grave sim.
    Se algo não pode ser verificado, a sua aceitação torna-se ou “inquestionável”, ou espúria. E dado que os “austriacos” afirmam que é inquestionável.. tornam os seus axiomas algo parecido com uma religião.
    O que é decididamente inferior ao Método Cientifico, com todas as suas falhas.

  25. CN

    Caro k

    “E dado que os “austriacos” afirmam que é inquestionável.. tornam os seus axiomas algo parecido com uma religião O que é decididamente inferior ao Método Cientifico, com todas as suas falhas.”

    Vamos lá a ver. O método científico não tem “falhas” em economia. Não se aplica de todo em Economia, e se me provar onde a tem, sou todo ouvidos.

    A estatística, econometria, etc em economia tem validade no campo aplicado. O estudo limitado de qualquer coisa, uma descrição histórica, ou o aarriscar que talvez se possa comportar de igual forma no curto prazo. Mas não para produzir teoria económica pura.

    Assim sendo não há nada de “inferior”. Quanto muito seria e própria Economia a ser “inferior”.

    Tem os exemplos acima. Se quiser explicar em que medida considerar essas preposições verdadeiras por si só, é “inferior”…teria de explicar como é que testes/experiências as tornariam superiores…

  26. CN

    Queria dizer “proposição” e não “preposição”.

    Miguel, acho que é isso, a interpretação dos termos.

  27. CN, as teorias do crescimento económico (Solow, Ramsey-Cass-Koopsman, Barro, Lucas, Romer, e tantos outros) usam modelos teóricos puros com fundamentos microeconómicos, sem partirem de uma base econométrica. Não é portanto verdade que toda a teoria económica parta de empiricismo. Aliás, os dados empíricos só serviram para, lá está, tentar falsificar Solow. Uma coisa é economia, outra é econometria.

  28. Na sequência do que o Mário Amorim Lopes escreveu, dá-me a ideia que os austríacos exageram no “emprismo” na economia – no que diz respeito aos neo-clássicos, aquilo parece-me fundamentalmente igual aos austríacos, com a diferença da formulação algébrica (o principio básico – assumir uma série de príncipios e elaborar o resto por dedução – é igual, e mesmo os principios de base acho que são basicamente iguais); mesmo o neo-keynesianismo também pode ser visto quase como pura dedução lógica (é só pagar nas premissas neo-clássicas e juntar uma adicional – que há uma desutilidade intrinseca no ato de pensar em preços e/ou mudá-los). Creio que a única “escola” que é fundamentalmente “empirista” é capaz de ser os “institucionalistas” (estilo “Ladrões de Bicicletas”), que são ainda mais minoritários que os austríacos.

    [Mas admito que já estou a desviar a conversa muito do tema original do post]

  29. miguelmadeira, o neokeynesianismo é nada mais do que os modelos macroeconómicos neoclássicos com fundamentos microeconómicos e um ou dois pormenores keynesianos, como é o caso dos salários e preços rígidos no curto prazo e um ou outro atrito. De keynesiano tem muito pouco.

  30. Luís Lavoura

    Não descurando a investigação fundamental, o enfoque deverá ser na investigação aplicada que possa produzir imediata transferência de tecnologia e inovação.

    A investigação aplicada deve ser tarefa das empresas. O papel da FCT (i.e. do Estado) é financiar a investigação fundamental.
    Caso contrário até podemos cair no paradoxo de o contribuinte português estar a financiar uma imvestigação aplicada que depois irá ser aproveitada, eventualmente até patenteada, por empresas estrangeiras e não por empresas nacionais.

  31. k.,

    A economia é uma meso-ciência. Meso-ciência porque não há verdades concretas como na física. O comportamento dos consumidores tem aquela coisa de ceteris paribus, o que quer na prática dizer que se pode aplicar a teoria económica apenas se ignorarmos todo o resto da realidade. 😉

    É claro que as teorias económicas fazem sentido, e eu já as apliquei muitas vezes para calcular preços óptimos de venda, pois os economistas da empresa não sabiam aplicar as fórmulas que tinham à frente com os dados estatísticos disponíveis. (É para isso que existem os engenheiros, acho eu). 😉

    Agora sem brincadeiras, a economia apenas se mede pelos seus resultados. Considere Japão da dinastia Meiri contra a Índia de 1961. Iniciaram com dados estatísticos semelhantes. Um fez reformas socialistas, outro liberalizou e abriu os mercados. Um ficou rico, o outro pobre.

    O que disseram de Singapura quando resolveu abrir a sua economia e privatizar o que havia a privatizar! E os resultados viram-se. Lembra-se de Portugal a.C.. e d.C. (antes de Cavaco e depois de Cavaco)? Das privatizações e dos loucos anos 80? Ou do Portugal de Marcello Caetano, quando se abriu um bocado da política de condicionamento industrial?

    k., quando as teorias são falíveis e incertas, os resultados medem-nas. Economia de mercado é sempre igual a abastança, e normalmente traz consigo o desejo de liberdade e a resistência ao opressor. A economia socialista traz a miséria e a grilheta, financeira primeiro, política no fim. Portanto, longe fique o socialismo, seja esse loucaneiro, jeronimeiro ou costeiro, ou mesmo coelhista ou portista. A estrada a que leva o socialismo apenas enriquece uns poucos.

  32. Luís Lavoura

    O papel da FCT, isto é, do Estado, é financiar a investigação fundamental. Não deve financiar investigação aplicada – essa é tarefa das empresas. Cada empresa deve financiar a investigação que lhe interesse. Não devem os contribuintes portugueses estar a financiar algo que no futuro poderá ser utilizado por uma qualquer empresa estrangeira.

  33. Luís Lavoura

    Francsico Miguel Colaço,
    se Você já viu investigação “fundamental” que foi paga pela FCT e aproveitada lá fora, então é porque ela não era na realidade investigação fundamental. Investigação fundamental é coisa que náo terá aplicação imediata no tempo de vida de um indivíduo.

  34. Luís Lavoura, reformulando, a FCT deve financiar investigação que permita gerar spill overs nas empresas e institutos públicos, não em uma em particular, o que geralmente significa tecnologia que possa aumentar produtividade.

  35. CN

    MAL

    Isso é outro aspecto da questão. E já passamos por ela. A matemática e a linguagem são equivalentes, assim sendo, não torna a economia mais ou menos verificável/falsificável. Por exemplo: as proposições acima são passíveis de serem traduzidas em linguagem matemática. E daí?

    adicionalmente, um problema no entanto que subsiste com a matemática em economia são as simplificações, incluindo o asumir de uma realidade de preferências cardinais em vez de ordinal. Mas se vamos entrar por aí acho que nos iríamos afastar do essencial. não é a matemática que torna a economia empírica ao abrigo do método científico.

  36. “Meso-ciência porque não há verdades concretas como na física”.

    O problema da ciência económica é que não se baseia num consenso sobre qual é o seu verdadeiro objecto e que não trate de “verdades concretas”… whatever that is.

    No passado, havia um certo consenso de que a economia tratava do estudo da riqueza (algo bem concreto), embora numa perspectiva lógica ou filosófica e não estatística. Hoje há muita gente que olha para a economia como um ramo da teoria da decisão e, como tal, pode ser considerada uma disciplina da matemática ou da lógica.

    Porém, como a organização da produção e a repartição do rendimento são determinadas também (ou sobretudo) por fundamentos jurídicos, ideológicos e históricos a ciência económica não pode deixar de ser uma mistura de todos estes ingredientes. No entanto, como nem os processos históricos podem ser repetidos em laboratório nem o economista está totalmente separado do objecto observado, a ciência económica é necessariamente frustrante e por essa razão é muitas vezes chamada de “dismal science”.

    Para os interessados no tópico deixo aqui esta referência para um texto que escrevi há uns anitos: “O Estado da Ciência Económica”, Boletim de Ciências Económicas 45, A: 99 – 134. Coimbra 2002.

  37. lucklucky

    Não é por essa razão que é considerada “dismal science”, Carlyle foi quem usou o termo primeiro para criticar os economistas -liberais- que defendiam o fim da escravatura e o mercado “desregulado”, em resumo defendiam o fim do mercantilismo.

    Carlyle escreveu num panfleto que defendia que a maneira de regular o mercado de trabalho nas Índias era voltar a instituir a escravatura.
    A crítica de Carlyle não era só económica era especialmente cultural.

    http://www.econlib.org/library/Columns/LevyPeartdismal.html

  38. Luís Lavoura

    a FCT deve financiar investigação que permita gerar spill overs nas empresas

    A mim isso parece-me pouco liberal. É pôr os contribuintes estarem a financiar coisas que depois servirão para gerar lucros privados.

    A mim como liberal parece-me, pelo contrário, que a FCT deve financiar investigação que, pela sua natureza, dificilmente poderá gerar lucros a médio prazo (digamos, no prazo de vinte anos).

    A restante deve ser deixada principalmente às empresas.

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