A esquerda lava mais branco

Alexandre Homem Cristo no Observador

A Patrícia está a decorar a sua casa e colou na parede uns postais que reproduzem cartazes de propaganda da União Soviética. Ela é uma mulher de centro-esquerda, e é sobretudo uma pessoa culta e informada: sabe que a URSS foi um regime totalitário, que oprimiu povos e matou milhões, e que assombrou a Europa durante o século XX. Ou seja, ela sabe que colar aqueles cartazes não é o equivalente a colocar um quadro na parede – eles têm um significado político e moral. Um significado com o qual ela não se identifica. Só que, diz-me, não resistiu ao apelo estético. Mas, pergunto-lhe, e se fossem cartazes da Alemanha nazi, da Itália fascista ou do Estado Novo? Nesse caso, tal coisa nunca lhe passaria pela cabeça. Ou seja, afinal, o critério não é apenas estético.(…)

O ponto aqui não é realçar a hipocrisia de se tolerar selectivamente um totalitarismo à esquerda e de se rejeitar outro à direita, como se houvesse totalitarismos bons e maus, ou autoritarismos bons e maus. A hipocrisia é óbvia. E, por mais absurda que a distinção seja, ela faz-se. A questão é porquê.

15 pensamentos sobre “A esquerda lava mais branco

  1. Revoltado

    A meu ver é devido à influência dos cartoons checoslovacos com que o Vasco Granja nos brindou durante as nossas infâncias. Uns foram mais afectados que outros.

  2. Eu penso que a diferença é que existe uma continuidade ideológica entre a extrema-esquerda e o mainstream nascido do Iluminismo que não existe para a extrema-direita: isto é, a extrema-esquerda defende de forma radical ideias que, de forma leve, quase toda a gente defende (p.ex., quase ninguém defende a colectivização dos meios de produção, mas quase toda a gente defende limitações à propriedade privada em nome do “interesse geral”), enquanto as ideias da extrema-direita mesmo numa versão soft estão forma do mainstream (p.ex., não é só exterminar os judeus que é “politicamente incorreto” – defender abertamente* qualquer forma de discriminação étnica ou racial é considerado inaceitável; da mesma forma, não é só a monarquia autoritária legitimista que vai contra os padrões “modernos”, mas sim qualquer tipo de monarquia em que o rei conte para alguma coisa – por vezes a comunicação social até chama “absolutas” a monarquias constitucionais “presidencialistas”, como a Jordânia ou o Koweit). Isso gera face à extrema-esquerda uma complacência (“eles até têm boas intenções, só que exageram”) que não há face à extrema-direita.

    Além disso, a democracia tem tido efetivsmente uma pior relação com o autoritarismo de direita de que com o de esquerda – houve muito mais guerras quentes entre o “mundo democrático” e regimes autoritários de direita (inclusive a guerra mais cinematográfica de todos os tempos) do que com regimes de esquerda (tirando guerrilhas não-estatais, só me ocorre a Coreia e o Vietname – uma guerra quase esquecida e outra perdida); e há muitos mais exemplos de democracias “institucionalizadas” – ou pelo menos regimes parlamentares – destruidos por ditaduras de direita do que por de esquerda (normalmente as ditaduras de esquerda sobem ao poder derrubando, ou regimes autoritários de direita, ou democracias com poucos meses de vida)

    *sim, é socialmente aceitável defender a chamada “discriminação positiva”, mas sempre apresentando-a como uma forma de anular uma suposta “discriminação negativa” pre-existente

  3. Miguel Madeira,

    «Povoem o Mundo de Russos» não era um slogan da Alemanha Nazi. 1982, União Soviética.

    E quantas purgas de judeus hoive na União Soviética? Já ouviu falar dos médicos de Moscovo?

    Quem era o país que tinha quotas de judeus na admissão à Universidade? Não era a Alemanha Nazi (por mais tristes razões). Era a União Soviética.

    Revoltado,

    A gente ignorava as trampas checo-soviéticas e esperava sempre os outros dois: Tom & Jerry e o fantástico Bugs Bunny. Ninguém se lembra do Vasco Granja pelas porcarias checas.

  4. Miguel Madeira

    Nazi significa Nacional Socialismo. O socialismo internacional nos anos 50 deu em socialismo patriótico. Nos início dos anos 50, o termo «cosmopolitismo» era razão (ou desculpa) para atirar uma pessoa para os fundos da Sibéria. Portanto também nacional-socialismo.

    Não há autoritarismo de esquerda e de direita. São mais semelhantes, mesmo economicamente, que diferentes. Num regime a propriedade dos meios de produção é coletivizada, no outro (Alemanha Nazi) é posta sob controlo dos agentes governamentais, tendo o proprietário apenas direito a um estipêndio mensal (um salário, portanto).

    Que diferença há?

  5. O Homem Cristo desperdiça tempo com cadáveres. O PCP é um cadáver, o “movimento comunista” é outro, e por aí. A esquerda “comunista” já não escreve História pois ficou obsoleta e sumiu!… A “História” hoje é escrita pelos media controlados e geridos por interesses globais neste nosso mundo cada vez mais interessante e “matrixiano”. A “verdade” é o que sempre foi: a manipulação mais consistente e “vendável”. O Homem Cristo é um militante e a Patrícia uma ingénua com falta de criatividade…

  6. “E quantas purgas de judeus hoive na União Soviética? Já ouviu falar dos médicos de Moscovo?”

    Pois, mas o anti-semitismo nazi era aberto, enquanto o da URSS era disfarçado e envergonhado (enquanto no ocidente aposto que os judeus estava sobrerepresentados entre os simpatizantes comunistas, para não falar da liderança bolchevique inicial, onde penso só havia dois não-judeus), o que faz com que o anti-semitismo da URSS seja mais facilmente visto como um dos famosos “erros e desvios”, em vez de ser visto como um aspeto central da ideologia (se o fosse, eles não o iriam esconder do mundo…).

  7. “Não há autoritarismo de esquerda e de direita. São mais semelhantes, mesmo economicamente, que diferentes. Num regime a propriedade dos meios de produção é coletivizada, no outro (Alemanha Nazi) é posta sob controlo dos agentes governamentais, tendo o proprietário apenas direito a um estipêndio mensal (um salário, portanto).

    Que diferença há?”

    Num mundo ideal, em que tudo funcionasse como previsto, com governantes benevolentes e omniscientes, acho que não faria grande diferença. No mundo real, com todos os problemas de informação assimétrica, de agência, etc., suspeito que uma empresa de propriedade estatal totalmente gerida por funcionários públicos será sujeita a incentivos diferentes do que uma empresa privada hiper-regulada mas em que a micro-gestão técnica continue nas mãos dos proprietários (veja-se que não há nenhum filme chamado “A lista de Sederov”, em que um comissário soviético salda da execução um grupo de deportados dos trabalhos forçados porque precisa deles para conseguir cumprir o plano).

  8. lucklucky

    Não tem nada que ver com isso.
    Tem apenas que ver com quem domina a comunicação.
    O Comunismo nunca teria durado 70 anos sem a cumplicidade do Jornalismo Ocidental.

  9. EMS

    “E quantas purgas de judeus hoive na União Soviética? Já ouviu falar dos médicos de Moscovo?”

    E quantas purgas de judeus houve na Russia Czarista?
    Os medicos de moscovo acabaram ilibados.

  10. EMS

    O Alexandre não gosta de cartazes da União Sovietica por mais interesse estetico que tenham.
    A Patricia interessa-se por estetica Sovietica mas não gosta de cartazes fascistas.
    A unica conclusão que se pode tirar é que ambos são ideologicamente apegados a uma facção politica.
    Eu até me considero de esquerda mas adoraria ter uma replica disto:

  11. Luis

    «E, por mais absurda que a distinção seja, ela faz-se. A questão é porquê.»

    Faz-se em Portugal. Faz-se menos em Espanha (quer dizer, fazia-se, este Podemos é ridículo) ou Itália.

    Mas não se faz no mundo anglo-saxónico.

  12. “Não tem nada que ver com isso.
    Tem apenas que ver com quem domina a comunicação.”

    Isso não é a verdadeira resposta, porque apenas remete a questão para outro nível – porque é que (mesmo da parte dos jornalistas que não eram nem comunistas nem nem fascistas) o comunismo tinha normalmente melhor imprensa do que o fascismo? E creio que a resposta anda perto da que dei às 12.06.

  13. “Mas não se faz no mundo anglo-saxónico.”

    Á tempos li qualquer coisa sobre uma empresa norte-americana que alugava pessoas para participarem em manifestações, em que se referia que os figurantes poderiam requerer condições especiais, como não serem chamados para manifestações de extrema-direita (e o autor do artigo – um liberal português a viver nos EUA – perguntava-se “se for de extrema-esquerda já não há problema?”), o que parece que nos EUA também se faz a distinção

  14. Miguel Madeira,

    «Pois, mas o anti-semitismo nazi era aberto, enquanto o da URSS era disfarçado e envergonhado»

    Caro amigo, aprece que nas quotas da Universidade e nos médicos judeus.

    NKVD (oops, EMS),

    Se por ilibados considerar que foram todos parar à Sibéria, estamos a redefinir o conceito de crime e castigo. O Estaline teve planos de mandar todos os judeus para a Sibéria (está documentado) e só não o fez porque esticou o pernil e o Kruschev não era homem besta como o seu antecessor.

    E dou-lhe uma ANEDOTA SOVIÉTICA:

    Num aeroporto da União Soviética, m velho judeu dirige-se a um homem:

    — O senhor é anti-semita?

    — Eu? Não, não sou. Eu adoro os judeus.

    O velho judeu agradece a resposta e segue o seu caminho. Dirige-se a um outro homem com a mesma pergusta. Este responde:

    — Eu não. Na União Soviética não há anti-semitismo.

    Agradecendo mais uma vez a resposta, o velho judeu aparta-se e dirige-se a um terceiro homem, perguntando-lhe se era anti-semita. Este, bravo, retorque:

    — Eu? Claro que sou! Esculmalha hebraica!

    O velho judeu alegra-se.

    — Finalmente encontro um homem honesto. Faz-me o favor de me olhar pela mala enquanto vou à casa de banho?

  15. Miguel Madeira,

    Ero de digitação anterior. Corrijo.

    Parece que nas quotas de judeus e nos médicos de Moscovo e nos planos de deportação para a Sibéria a União Soviética não tinha vergonha nenhuma.

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