Nuvens negras

Imagem retirada de http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=27&did=166870
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À excepção de António Costa, uns quantos oportunistas, e talvez um ou outro louco, não deve haver português que gostasse de estar no lugar de Pedro Passos Coelho. Até os mais ferozes críticos da política do seu governo reconhecerão que mesmo partindo para a empreitada com as melhores das intenções, ser Primeiro-Ministro deste país nas circunstâncias em que Passos foi incumbido de nos pastorear seria sempre uma muito pouco invejável tarefa: da gravidade do problema financeiro deixado pelo “engenheiro” José Sócrates e a urgência de o controlar, até aos obstáculos erigidos pelos inúmeros grupos de interesse sempre prontos a se oporem a toda e qualquer ameaça ao que outrora conquistaram, passando pela notória incapacidade ou falta de vontade dos mais variados membros Executivo para fazerem uma reforma que fosse mais que mera propaganda, tudo conspirava para que a vida do ocupante do Palácio de S. Bento no período legislativo de 2011-2015 fosse complicada.

Perante este deprimente quadro de dificuldades e complicações, não é de espantar que o Primeiro-Ministro se agarre aos mais insignificantes detalhes e os transforme em inigualáveis feitos de grandeza e heroicidade. E assim foi na passada quinta-feira, quando o Espírito do Passos Coelho Futuro (o da campanha eleitoral) resolveu assombrar os jantares natalícios dos seus conterrâneos com uma curta mensagem de Natal.

“Fechámos o programa de auxílio externo com uma saída limpa, sem precisar de assistência adicional”, regozijou-se o Primeiro-Ministro, esquecendo convenientemente não só que a troika desaconselhou essa “saída limpa”, como também que, no final, Portugal optou por não concluir o programa de assistência, prescindido da última tranche nele prevista após a declaração de inconstitucionalidade de algumas medidas necessárias à obtenção de objectivos orçamentais exigidos para o seu pagamento. Passos Coelho, no entanto, assegurou que a conclusão deste programa “não foi uma conquista insignificante”, e “ficará por muitos anos na nossa história”: “depois de tremendas dificuldades a que fomos sujeitos”, insiste, o país “reconquistou” a sua “autonomia”, e tem “em marcha um processo sólido de recuperação”, uma “nova fase” de “crescimento”, “aumento do emprego e de recuperação dos rendimentos das famílias”. “Podemos”, afirma Passos, “sentir cada vez mais confiança no futuro”.

Como seria de esperar, não faltou quem logo viesse acusar o líder do Governo de discursar sobre um país existente apenas na sua fértil imaginação. Poucos repararam como, a par deste exagero dos méritos dos seus trabalhos, o discurso de Passos Coelho acabava também por ser uma admissão do seu falhanço. Uma admissão involuntária, é certo, mas uma admissão na mesma: ao falar da carga de impostos e do “alívio fiscal” que supostamente “os portugueses” vão sentir, o Primeiro-Ministro disse também que “não podemos ir tão longe como gostaríamos”. Infelizmente, o Primeiro-Ministro não se alongou, mas é óbvio para qualquer um que, se o Governo não pode promover um “alívio” fiscal tão extenso como “gostaria”, é porque isso implicaria uma explosão dos valores do défice que minaria a credibilidade do Governo e deixaria o país numa muito frágil situação nos “mercados” de dívida pública. Como é também óbvio para qualquer um que essa explosão do défice que resultaria de uma hipotética descida dos impostos só aconteceria porque houve uma bem real relutância ou falta de habilidade para cortar a despesa do Estado em quantidade suficiente para tornar mais leve a carga fiscal que os portugueses são forçados a suportar. Sem querer, Passos Coelho diz a quem quiser perceber que os anos da sua governação foram uma perda de tempo.

O Primeiro-Ministro, manifestamente, integra o grupo das pessoas que não querem perceber o que quer que seja. Falou, à primeira vista sensatamente, das muitas “incertezas no plano externo” que “comportam riscos para os quais devemos procurar estar preparados”. Mas logo afirmou que “este será o primeiro Natal desde há muitos anos em que os Portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”, uma afirmação só por si suficiente para tornar clara a magnitude da incompreensão do mundo por parte do homem à frente dos nossos destinos. A crise dos preços do petróleo bem pode ter levado muitos espíritos menos sensatos a sentirem um grande alívio com o aparente enfraquecimento de uma Rússia que parecia cada vez mais perigosa. O problema está em que o comportamento agressivo da Rússia sempre se deveu precisamente à percepção que o regime putiniano tem da fraqueza do país (e do seu controlo sobre ele): a circunstância do regime ser (como escreveu Fraser Nelson) “uma gigantesca empresa energética com um exército” pode ter enriquecido os seus corruptos líderes, mas também os fragiliza, à medida que um mercado menos favorável lhes diminui a riqueza, e uma economia atrofiada se arrisca a retirar-lhes o apoio popular. Com tropelias na vizinhança, Putin une os russos em torno do líder que os “protege” de um “Ocidente moralmente decadente”. E se perder o controlo do poder, quem o vier a substituir será provavelmente ainda pior. Quanto maiores forem os problemas da Rússia, mais agressiva tenderá a ser, com todos os problemas que isso acarreta.

Ao mesmo tempo, mais perto de nós (em todos os sentidos), a Grécia caminha para um acto eleitoral que pode deixar o poder no colo do Syriza, e com isso fazer regressar a crise da moeda única europeia. Alguns optimistas julgam talvez que à beira do precipício, a Alemanha se convenceria finalmente a abrir os cordões à bolsa para evitar o descalabro. Ignoram que essa opção, podendo talvez salvar a economia europeia, corre também o risco de conduzir à desintegração da União: ao implicar, através da desvalorização da moeda que essa política de menor “austeridade” acarretaria, uma perda do valor dos salários e poupanças dos cidadãos dos países com finanças públicas (relativamente) saudáveis, esse esforço só seria aceite por países como a Alemanha se tiverem meios de impor aos outros medidas orçamentais restritivas. O resultado não se faria esperar (até porque já por aí anda): os “ajudados” queixar-se-iam de serem cidadãos de segunda, e os restantes do despesismo dos anteriores, concordando apenas no desprezo pelo arranjo e na ânsia pela sua extinção.

Mas nem é preciso olhar para os céus estrangeiros para ver as “nuvens negras” que, ao contrário do que julga Passos Coelho, ameaçadoramente pairam sobre Portugal. Basta olhar para o nosso. Por muitos bons indicadores que possam ser encontrados para vislumbrar uma luz ao fundo do túnel em que temos caminhado, eles são meramente conjunturais. São sucessos de curto prazo. Tudo o que é estrutural e de longo prazo na nossa economia continua sem ser reformado: a carga fiscal continua demasiado elevada para que a economia a possa suportar sem ser estrangulada, mas ao mesmo continua a ser insuficiente para cobrir todas as despesas que o Estado tem de fazer, despesas essas que em grande medida o eleitorado não está disposto a dispensar; a Segurança Social continua a ser um esquema Ponzi insustentável pelo qual todos somos vigarizados por obrigação legal imposta pelo Estado; a Justiça, para além dos casos mediáticos, continua a ser um caos lento e injusto; e o país continua a estar muito dependente do favor de quem lhe vai emprestando dinheiro, sem no entanto lhes oferecer algo que impeça que, uma vez desfavorável a conjuntura, de novo todos receiem a nossa capacidade de cumprir as nossas obrigações; acima de tudo, paira sobre as nossas cabeças a muito escura “nuvem” da degradação das condições políticas para se fazerem essas reformas no futuro, a principal e mais negativa consequência do falhanço governativo de Passos: ao criar um enorme descontentamento com a “austeridade” sem ter feito nada que a fizesse valer a pena, o Governo torna simultaneamente mais necessárias e menos apetecíveis novas medidas de consequências muito difíceis para a vida dos portugueses.

É por isso que, ao contrário do que António Costa diz desejar, o “ano novo” estará longe de trazer consigo “vida nova”. O calendário indicará certamente o início de mais um ciclo de 365 dias, mas como qualquer elemento da espécie humana acaba por descobrir mais tarde ou mais cedo na vida, o passado demora a passar. Continua connosco mesmo quando julgamos que o deixámos para trás. E tal como Passos teve de lidar com a “herança” de Sócrates, também Costa terá de suportar o peso da de Passos. O “ano” poderá ser novo, mas infelizmente – para o líder do PS, e acima de tudo, para todos os portugueses – as tropelias de Sócrates e o fracasso de Passos continuarão aí, já velhinhos mas bem vivos a pairar sobre nós, e a “vida”, não será nova, mas pior. “Vem aí uma tempestade”, disse há uns anos uma senhora integrante de uma fantasia hollywoodesca de qualidade apreciável. Pelos vistos, nem Passos Coelho nem António Costa julgam que a profecia se aplique ao cantinho onde tanto eles como nós tivemos o azar de ser trazidos a este mundo. Não demorará muito para que um e outro descubram que estão enganados. Pena que todo um país tenha que os acompanhar na valente molha que se abaterá sobre nós.

9 pensamentos sobre “Nuvens negras

  1. lucklucky

    Ora bem.
    Só discordo do primeiro parágrafo, boa parte das pessoas não tem consciência, e quanto mais instruídos e mais em Lisboa menos.

  2. “tudo conspirava para que a vida do ocupante do Palácio de S. Bento no período legislativo de 2011-2015 fosse complicada.”

    – 1 maioria;
    – 1 governo;
    – 1 presidente;
    – a troika;
    – 1 secretário geral da oposição razoavelmente amigo;
    – 1 central sindical amiga;
    – amigos vários europeus;
    – 1 CS maioritariamente amiga, nomeadamente a nível de análise económica (micro/macro, etc)

    Fica-me uma dúvida:

    A vida de Passos Coelho sofreu a conspiração por parte de quem, durante estes quase 4 anos?

    – de grande parte dos cidadãos portugueses?
    – da Constituição?
    – do Tribunal Constitucional?
    – do aborrecimento de ainda estarmos n1 estado democrático?
    – de todos os anteriormente referidos?

  3. “…Ignoram que essa opção, podendo talvez salvar a economia europeia, corre também o risco de conduzir à desintegração da União:::”

    Fica-me outra dúvida: a União – quem?

  4. como pode imaginar, não sou um defensor de Passos Coelho nem da sua política. Apenas disse que governar Portugal nestes anos era difícil, e mais é quando (como é o caso de Passos Coelho) não se tem a vontade ou a capacidade de fazer o que era preciso fazer. E escrevi-o aqui.

  5. F,

    Não sou grande apoiante do que Passos Coelho anda a fazer (e especialmente do que não anda), mas olhe que há um ano a dívida externa líquida anda a descer e não a subir. Mais, a economia recupera. E a Troika não dá mostras de ter de voltar ao país, e isto apesar das dívidas do 44, as quais andamos a pagar.

    O terror do país é ter um governo do Costa Concórdia, o pródigo. Mas ao contrário da parábola do filho pródigo, quem acaba teso e a chafurdar com os porcos não é o Costa. Somos nós.

  6. Ana Vilhena

    Pois eu sou um grande apoiante de PPC, digo-o em qualquer lado sem reservas absolutamente nenhumas, claro, não concordo com tudo o que se fez, mas tenho uma enorme admiração pelo que se conseguiu, o que não foi pouco, a começar pela recuperação da credibilidade do país que estava na lama, coisa que parece de somenos importância par alguns que tanto falam na necessidade de investimento, adiante, e acima de tudo pela resiliencia demonstrada num país onde os media tudo fizeram para lançar o país no caos. Como disse o antigo ministro das finanças de Sócrates, Teixeira dos Santos, ” o próximo governo nemsequer terá tempo de se sentar à secretária” , tal era a magnitude e urgência dos problemas, acrescento eu. A tarefa era de facto ciclópica, mas isso já se esqueceu, vivemos numa sociedade com memória de galinha: foi o desemprego galopante; a recessão inevitavel; foram as manifestações constantemente apoiadas ad nauseiem pela comunicação social; as aulas magnas; as greves gerais e não gerais; os manifestos com gente da esquerda e direita socialista; o tribunal constitucional ; as irrevogabilidades de PP; o segundo resgate que estava mesmo a ver-se que era inevitável depois a saída suja que era a opção a seguir, etc, etc. Enfim, anos de chumbo a que resistiu galhardamente, salvando o país, é esta a palavra, do caos que o queriam lançar. Merece o meu respeito e admiração.

  7. A reflexão do texto faz todo sentido. Pena que tanta gente tenha levado tanto tempo para entender a completa nulidade humana e técnica de Passos Coelho. Na verdade, o único tabuleiro que ele maneja com à vontade é o da política. E mesmo neste, tudo é prestidigitação, demagogia e “efeitos especiais”: voz colocada, boa imagem, ar resoluto. O homem é embalagem. Estudada, apurada, eficaz. Mas não passa disso… Não é nem nunca deveria ter sido para levar a sério.
    E voltamos à “base”, segundo a qual “os portugueses não se governam nem se deixam governar”. Ler hoje o “Memorando de Entendimento” espelha bem a dimensão rotunda do falhanço.

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