Sobre o direito à greve

  1. O direito à greve é um anacronismo nas sociedades atuais, um resquício, uma visão ultrapassada que ignora o que é o mundo contemporâneo civilizado. A greve traduz uma visão dialética, conflituante, das relações entre o “trabalho” e o “capital”, ignorando que hoje impera o interclassismo, a economia vive integrada, e o ambiente legal e institucional é suficientemente protector do trabalho, sem que se justifique por isso o recurso sistemático e banal a um processo profundamente destruidor de valor e que é tanto mais eficaz quanto mais prejuízos causa à empresa em si e aos clientes e utentes que dela dependem.
  2. A greve tornou-se infelizmente mais uma ferramenta política dos sindicatos-reféns dos partidos políticos da esquerda, e menos um mecanismo de defesa real dos interesses legítimos dos trabalhadores.
  3. Não deixa de ser relevante que a greve praticamente tenha desaparecido da realidade das empresas privadas, ao mesmo tempo que se tornou um expediente banal no sector público (incluindo empresas públicas). Hoje, em Portugal e em todo o mundo civilizado, impera um ambiente económico em que a empresa se faz, não de relações de conflito, mas de cooperação – uma cooperação por vezes difícil, é certo, mas sempre, de cooperação – entre accionistas, gestores, trabalhadores, clientes e fornecedores, numa teia complexa e multilateral. Muitas empresas em Portugal, que se encontram em dificuldades, são bons exemplos de como a cooperação, por vezes tensa, é certo, é a única saída, por vezes exígua, para a solvência. A destruição de valor não é hoje alternativa para ninguém, que não para alguns agentes sindicais e trabalhadores do setor público, uma ideia obsoleta que persiste nas cabeças da esquerda mais radical – que em Portugal continua a ser mainstream.
  4. Nas empresas públicas, no sistema educativo, nos hospitais, a greve continua a merecer um “carinho” especial por parte de “sindicatos-partidos” e dos que dormem no seu regaço. A greve, diga-se sem rodeiros, não é mais do que uma forma de causar atrito em favor de agendas políticas da esquerda, traduzindo-se num mecanismo agressivo de extorsão da sociedade que tem de pagar os custos da sua banalização – pois não há almoços grátis, todos pagamos, do nosso bolso, os custos das greves dos trabalhadores do metro, da TAP, dos professores, dos profissionais de saúde. Até ao dia em que não haja mais dinheiro para pagar, ou empresas viáveis para financiar. A TAP pode bem vir a tornar-se num primeiro exemplo deste fim-de-linha, dada a falência iminente, e o risco real de não haver quem a queira comprar.

18 pensamentos sobre “Sobre o direito à greve

  1. A democracia é apenas um mecanismo de escolha de quem governa, por via do voto. A qualidade de uma sociedade mede-se não pela “democracia”, que é um pressuposto, mas pela qualidade da sociedade civil, pela efetiva separação de poderes, pelos níveis de autonomia da sua população. Infelizmente, a esquerda adora achar que a “democracia” é só por si virtuosa, esquecendo que os valores essenciais de uma sociedade estão, na maior parte das vezes, muito para lá do político.

  2. Filipe

    O PCP, através dos ramos Sindicais, domina o sector publico, faz guerilha contra qualquer governo. Como pode uma sociedade estar dependente de 10% dos votos? O PEV existe? Para quê, para 2 moções de censura anuais?

  3. Carlos da Silva

    Na minha modesta opinião, vejo a greve apenas como ferramenta de chantagem usada essencialmente por funcionários públicos e portanto pagos com os impostos dos Portugueses, para conseguirem para si próprios os melhores proveitos financeiros possíveis sem um mínimo de consideração pela totalidade dos Portugueses, os que lhes pagam os ordenados. Acho que empregados, se insatisfeitos com as condições em vigor, têm o direito de individual ou coletivamente se dirigem ao empregador e propor: ou Os Senhores melhoram as nossas condições ou nos demitimos. Aí o empregador tem duas opções , ou cede, ou aceita a demissão e procura novos empregados. Esta é a lei da oferta e da procura e não a lei da chantagem.

  4. O que é que a esquerda ou direita tem a ver com o assunto?!… A questão do direito à greve, na forma como está colocada parece-me uma postura muito “lazy” de eliminar uma pedra de tabuleiro que encerra confronto e conflito de interesses entre partes. A sociedade é isso mesmo: conflito. Competitividade é conflito, concorrência é conflito, patrões e empregados é conflito. Os melhores nascem da vitória sobre os conflitos. Para isso são precisas algumas regras básicas e espírito aberto. Quem pretenda eliminar os “conflitos” que lhe dão trabalho e consomem massa cinzenta terá sempre a tendencia para eliminar outros pontos de conflito, como partidos, etc, porque também dão muito trabalho, e assim sucessivamente até construir a republica autocrática do absurdo (seja ele socialista ou outro!)… Dont be lazy!…

  5. Luís Lavoura

    que a greve praticamente tenha desaparecido da realidade das empresas privadas

    Em Portugal isso será assim, noutros países, porém, não. Na Alemanha, por exemplo, as greves em empresas privadas não são raras.

  6. Luís

    «O PCP, através dos ramos Sindicais, domina o sector publico, faz guerilha contra qualquer governo. Como pode uma sociedade estar dependente de 10% dos votos? O PEV existe? Para quê, para 2 moções de censura anuais?»

    O PCP é um cancro na sociedade portuguesa. Lamentavelmente, a Direita poderia ter feito muito mais para remover os comunistas de pontos chave e não o fez. Os comunistas querem destruir a economia para apresentarem posteriormente o seu plano de salvação.

  7. Como já foi escrito, a eliminação do conflito em sociedade, significa uma de 2 constatações:

    – vive-se numa sociedade perfeita;

    – vive-se em ditadura.

    Como nenhuma das constatações será apoiada por alguém minimamente esclarecido, resta o direito à greve. Temos pena, mas é a vida.

  8. Nuno

    Aceitemos a sua tese do conflito.

    A TAP precisa de mais 200M€ emprestados que se somam aos 800M€ que já deve. Depois um plano de 2010 que previa eliminar os 1300M€ em dívida até 2016, e com alguns anos de bons resultados, chega a 2015 com 1000M€.

    Para defender a companhia e o interesse público (público esse que é o único acionista da companhia), os sindicatos avançam com uma greve que oblitera as poucas dezenas de milhão de lucro que a TAP poderia ter este ano. Faz sentido.

    Quando a TAP falir, enquanto única companhia pública de aviação europeia, ficarão muito satisfeitos por terem feito uma greve para defender as suas stock options.

  9. “A sociedade é isso mesmo: conflito.”
    Nao concordo. Sociedade e’ cooperacao.
    Colectivismo coercivo e’ conflito;
    Estado e’ colectivismo coercivo;
    Estado e’ conflito;
    Estado ≠ Sociedade

  10. jo

    1 – Não há nenhuma cooperação dentro das empresas. O mercado é a negação da cooperação. Não é possível afirmar que não deve haver salário mínimo nem limites à livre contratação entre patrões e empregados e, ao mesmo tempo, dizer que estes colaboram entre si para fixar os valores dos salários. Está à espera que a Sonae pergunte aos caixas do supermercado quanto é que estes acham que merecem receber?
    2 – A política está presente em tudo. Só quem acha que a política se limita às declarações de “irrevogáveis” ministros é que pensa que os sindicatos não são política.
    3 – A greve deixou de ser vulgar no sector privado a partir do momento que se tornou fácil para os patrões despedir e não cumprir as leis do trabalho. Em Portugal na prática a greve está proibida no sector privado, com exceção das grandes empresas.
    4 – Para este ponto temos uma questão de definição. Como o autor considera “político” e de “esquerda” e que “estão a seguir uma agenda própria” todos os que não concordam com ele, claro que não pode haver greve. É o argumento dos tartufos: Só são maus os que não concordam com o tiranos, por isso o tirano não é mau desde, que concordem com ele.

  11. JS

    ” … ficarão muito satisfeitos por terem feito uma greve para defender as suas stock options….”
    Exacto. Com o passivo da TAP na mesa de negociação o que é que estas alminhas querem afinal?. Madness!.

  12. JP

    Quando não houver TAP, nem RTP, nem Carris, nem Metro, a comunada dedica-se à Autoeuropa e restante indústria privada. Ou fecham as portas.

  13. Mesmo que todo o resto do que o RAF escreve fosse verdade, acho que isso apenas demonstraria que “a greve é um anacronismo nas sociedades atuais”, não que “o direito à greve é um anacronismo nas sociedades atuais” (são coisas diferentes)

  14. Reaça

    Esta esquerda portuguesa é nacionalista, salazarista, mas agora é tarde.
    Do Salazar fica o combóio e o metro por enquanto.
    O resto vai tudo embora
    EDP, CTT/TLP e outros anéis já não voltam mais.

  15. Pingback: direito e greve | BLASFÉMIAS

  16. José Pinheiro da Silva

    Totalmente de acordo.E nunca fui patrão.E até já fiz greve…em 1973. A greve sempre foi, ou deveria ter sido, a última arma do trabalhador, quando parecia clara a luta do capital/trabalho. Isso já era. Quem não quer entender são aqueles que vivem à custa dos trabalhadores e não me refiro ao Estado nem aos patrões. Refiro-me aos oportunistas, às ordens de sindicatos político-dependentes, indivíduos muitas vezes sinistros, que estão preocupados com o seu tacho.Alguém vai acordar um dia e, abandonando a preguiça, recusar as cotas, deixar de alinhar na bandalheira
    Pinheiro da Silva

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