Rui Tavares, a zebra e a búfaga, e as portas escancaradas

Imagem retirada de http://joaoferreiradias.blogs.sapo.pt/48708.html
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Rui Tavares, um candidato a apêndice de António Costa tido por “intelectual” em virtude de ter o seu nome na lista de contactos de muita gente, escreve hoje um artigo no Público acerca de Carlos Abreu Amorim e das críticas à declaração deste último afirmando que deixara de “ser liberal”. Escreve Tavares que “todas” as “reacções” dos “ex-correligionários de Abreu Amorim” ignoraram o “diagnóstico” que ele fizera acerca do liberalismo e dos seus problemas, sendo antes “ao estilo de A Queda de um Anjo – o idealista ingénuo que chegou ao Parlamento e se deixou conspurcar pela baixa política”. “O problema”, acrescenta Tavares, “é que com a crise financeira e a rédea solta que foi dada à banca para as suas depredações”, teve lugar “um assalto” cujas “vítimas”, assegura, “fomos todos nós”. E se “a casa roubada, trancas à porta” deveria ser, diz Tavares, a máxima que todos devíamos seguir, “nos quadrantes liberais” a “regra”, garante, “parece ser ‘a casa roubada, porta escancarada”. Tavares julga talvez dizer algo de profundo acerca da crise que atravessamos e da natureza dos problemas que a originaram com esta prosa. Infelizmente, ela apenas demonstra que Tavares não compreende nem Abreu Amorim, nem a crise que supostamente motivou a sua conversão ideológica.

Comecemos pelo deputado do PSD, deixando as coisas importantes para depois. Ao contrário do que Rui Tavares parece pensar, ninguém achou que Abreu Amorim fosse um ingénuo que se deixou desvirtuar pelas tentações da política. Há muitos anos que muitos dos tais “ex-correligionários” (uma noção ela própria absurda, só possível a quem não sabe o que está a dizer ou falte vergonha) criticavam ferozmente Abreu Amorim por ser um oportunista sem princípios e sempre à caça de quem lhe desse destaque. Uns começaram a criticá-lo quando passou dos encómios a Manuel Monteiro para brutais ataques ao seu anterior ídolo; outros quando esqueceu o seu vigoroso anticlericalismo para fazer entusiasmados passeios a Fátima em tempo de campanha; outros quando passou de admirador de Rui Rio a seu adversário incondicional; e outros ainda quando passou a frequentar as caixas de comentários dos blogues a elogiar os seus próprios textos assinando com um nome de senhora. Mas há mais ou menos tempo que toda a gente que conheça o percurso do ex-candidato à Câmara de Gaia sabe bem que ele é tudo menos um anjo. Falando por mim, o que critiquei ontem nas declarações de Abreu Amorim foi, não uma suposta ingenuidade que há muito sei ser inexistente numa figura onde só há espaço para a hipocrisia, mas a pobreza da sua explicação para a suposta mudança de opinião.

O que nos leva à crise e às explicações que Abreu Amorim e Tavares dão para ela. Tavares cita o deputado laranja quando este afirma que “em 2007 nos EUA e aqui, houve uma margem de liberdade dada aos agentes económicos, sobretudo financeiros, que eles não mereciam” e da qual, acrescenta, “não estavam à altura”. É aliás por concordar que Tavares propõe as tais “trancas” nas figurativas “portas” do sistema económico. O que Tavares pelos vistos não percebe é que o problema das “portas escancaradas” de 2007 não estava numa mítica ausência do Estado, mas precisamente na fácil circulação da sala dos interesses económicos para a sala do poder político feita através da sempre bem aberta porta da intervenção estatal e da partilha de interesses entre quem tem o poder político e quem tem acesso a ele.

Ao contrário do que argumenta aquilo a que por preguiça ou ignorância chamamos de “esquerda”, o “poder político” não está “dominado” pelo “poder económico”; e ao contrário do que aquilo a que por preguiça ou ignorância chamamos de “direita” assegura, o “poder económico” não está “controlado” pelo “poder político”; na realidade, um e outro convivem e dependem um do outro, numa relação simbiótica como a da zebra e da búfaga: os interesses económicos que conseguem passar pela “porta” dos gabinetes políticos aceitam e incentivam a complexa regulação elaborada pelo poder político, quanto mais não seja porque os protege de concorrência; o poder político aceita que estes se comportem de forma irresponsável porque esse mesmo comportamento lhe permite, durante algum, beneficiar de condições extremamente favoráveis à realização de propaganda e distribuição de benefícios pelas clientelas; o poder político recebe desses interesses dinheiro e apoio para certos “projectos” tidos como “estratégicos” mas meramente propagandísticos, e em troca, aqueles últimos recebem condições extremamente favoráveis para a realização de uma série de negócios que muitos lucros lhes trazem.

Rui Tavares diz querer pôr “trancas à porta” do sistema. Não percebe, talvez porque no Bairro Alto não se aprenda muito sobre estas questões, que ao acrescentar mais Estado ao problema, apenas “escancara” ainda mais as ditas “portas”. O que os liberais – grupo do qual se pode excluir o Governo, diga-se de passagem – e outros que com eles concordam neste ponto – o meu caso – pretendem é precisamente fechar as portas que unem os interesses de quem detém o poder político e os que vivem no seu dorso, colocando cada uma das partes no seu devido lugar, e separando-as efectiva e definitivamente. Ao querer acrescentar mais Estado, Rui Tavares não conseguirá, ao contrário do que julga, eliminar o mercado e o que de pior ele possa ter: apenas substituirá o mercado da livre interacção dos indivíduos pelo obscuro mercado da influência política e da troca de favores.

E já que gastei algum tempo a explicar coisas óbvias a alguém que passa por pessoa inteligente, acrescento uma outra coisa para ilustração de Rui Tavares: o seu artigo no Público inicia-se com uma pretensa citação de Irving Kristol, em que este teria dito que “um conservador é um liberal que foi assaltado”. Ora, o que Kristol escreveu foi que “um neoconservador” – e não simplesmente “um conservador” – “é um liberal” – no sentido americano do termo, ou seja, alguém a quem nós chamaríamos “de esquerda”- “assaltado pela realidade” – e não simplesmente “assaltado”. Se Tavares quer armar-se em esperto e manter a capa de político culto que gosta de ostentar, talvez devesse ter algum cuidado em verificar o que está a citar. Talvez possa ligar a algum dos seus múltiplos contactos. É possível que algum deles tenha lido mesmo aquilo que Tavares gosta de fazer crer que conhece, e o possa elucidar.

10 pensamentos sobre “Rui Tavares, a zebra e a búfaga, e as portas escancaradas

  1. lucklucky

    “Liberal” no discurso político americano identifica alguém como….. Rui Tavares.

    A palavra correcta seria Libertarian. Logo a citação de Irving Kristol não se aplica.

    Corolário: Rui Tavares é incapaz de ler um jornal ou revista americana ou então está a distorcer a verdade.

  2. Joaquim Amado Lopes

    Rui Tavares – “alguém que passa por pessoa inteligente”
    Só para quem não o ouça/leia.

  3. lucklucky

    “ele próprio assinala o significado do termo no contexto americano no seu texto. isso em si não é problema. O mesmo não se pode dizer do resto”

    Tem razão ele explica a diferença.
    Para mim continua problema. Mente e confessa a mentira.

  4. Hajapachorra

    Detesto liberais mas ainda detesto mais os tavarichs e amorins desta vida. Um passa por ‘académico’ sem ter publicado nada que se veja, outro diz-se historiador por ter escrito o grande livro do terramoto, por sinal um livrinho bem pequeno. São da raça do engenheiro 44, este tem licença, aqueles têm menstruado ou obturamento, todos especialistas na falta de vergonha.

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