QE não é “money printing”

No decorrer da minha análise à descida do preço do petróleo, e no enquadramento prévio que dei ao quantitative easing (QE), surgiram dúvidas que serão de certa forma naturais, dada a complexidade subjacente à economia monetária. O sistema bancário passou de um mero balanço de entradas e saídas de ouro, evitando assim assaltos entre Florença e Veneza, para um intrincado sistema de moeda fiduciária em que os bancos têm capacidade de criar crédito, e os bancos centrais capacidade de manipular taxas de juro, que antes não eram mais do que o preço de equilíbrio entre poupança (oferta de crédito) e investimento (procura por crédito).

Recapitulando: quando um banco necessita de liquidez, entrega ao banco central um activo teoricamente risk-free, que geralmente são títulos de dívida pública, e que funcionará como colateral. O quantitative easing consiste somente em alargar o leque de activos que podem ser entregues em troca de liquidez. É pura e simplesmente um asset swap. Neste momento o balanço do banco central expande-se, o que não implica que os agregados monetários se tenham expandido também. Um exemplo: um banco tem em sua posse uma hipoteca de uma casa com um determinado valor; dada a natureza pouco líquida da hipoteca, o dinheiro está indisponível até que todo o capital e juros em dívida sejam pagos pelo cliente, tendo portanto apenas valor contabilístico. Trocando-o por liquidez, o banco tem agora aquele montante disponível para, por exemplo, a prestação de um novo crédito.

E como pode esta liquidez ser convertida em oferta de moeda? Apenas e simplesmente se aumentar a procura por depósitos, o agregado M1. E isso só acontecerá se 1) entrar dinheiro na economia através de novos depósitos; 2) o banco conceder crédito, situação análoga a criação de um novo depósito (o banco ao conceder crédito cria um depósito com o montante). Tal como explica o Prof John Cochrane neste artigo, tal pode não acontecer se os bancos não concederem esse crédito, o que aliás aconteceu nos EUA. Ou seja, quem beneficiou foram os bancos de investimento e os hedge funds que usaram esse dinheiro para investir noutros activos financeiros.

Em suma, embora no momento da troca de liquidez exista “novo dinheiro” a ser gerado que é entregue aos bancos, não se trata de “fresh money” criado do nada, mas antes de uma troca contabilística de liquidez. Naturalmente que o BC tem de criar aquela moeda, mas tal não é “money printing” ou monetização, em que dinheiro sem equivalente real é simplesmente impresso e injectado na economia através de dívida pública ou défices orçamentais. Infelizmente, os nossos media, comentadores e até alguns professores de economia geram uma enorme confusão sobre o assunto, o que confunde qualquer incauto.

Myth 1 – Quantitative Easing is printing money: Politicians, journalists and market participants often refer to quantitative easing as “printing money.” This is because when the Fed buys bonds from banks it does so by crediting those banks’ accounts at the Fed with reserves that didn’t exist before. But it’s misleading to call this process “money printing” because it doesn’t actually do anything to increase the amount of money in circulation. In fact, in our monetary system, most money is created by private banks and not the Federal Reserve.

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22 pensamentos sobre “QE não é “money printing”

  1. Filipe

    Claro que QE não é imprimir moeda, é trocar, a minha simples questão é se o BCE é bem vindo como maior credor da UE, o Mário não referiu esse pormenor, ou diria eu, pormaior.

  2. lucklucky

    Mas acabou de explicar que Quantitative Easing facilita a concessão de mais crédito pelos Bancos. Logo money printing.

  3. MG

    Fed Up with the Fed?
    Thomas Sowell

    “When people in Washington start creating fancy new phrases, instead of using plain English, you know they are doing something they don’t want us to understand.
    It was an act of war when we started bombing Libya. But the administration chose to call it “kinetic military action.” When the Federal Reserve System started creating hundreds of billions of dollars out of thin air, they called it “quantitative easing” of the money supply.

    When that didn’t work, they created more money and called it “quantitative easing 2” or “QE2,” instead of saying: “We are going to print more dollars— and hope it works this time.” But there is already plenty of money sitting around idle in banks and businesses. …..”

    Thomas Sowell
    http://www.creators.com/conservative/thomas-sowell/fed-up-with-the-fed.html

  4. CsA

    MMM uma dúvida:

    A banca troca certos ativos por liquidez para poder conceder credito. Se parte deste crédito será transformado em novos depósitos e se os bancos apenas mantém parte destes devido ao sistema reservas fracionárias, podias explicar melhor como é que não vai ser criado “novo dinheiro” ?

  5. Miguel Noronha

    Como o Mário explicou a questão essêncial foi a não concessão de crédiro pelos bancos que preferiram investir a liquidez obtida via QE em commodities,

  6. CsA, sim, nesse caso há. Mas isso aplica-se a tudo. Se eu consumir, aumenta o consumo. Se investir, aumenta o investimento. Mas enquanto não consumir ou enquanto não investir, não aumenta nem consumo nem investimento. Logo, o QE, isoladamente, é totalmente neutro nos agregados monetários. Depende da expansão dos deposits demands (M1), que como os EUA até agora demonstraram (ainda) foi muito ténue. Acontecendo, pode gerar, obviamente, uma enorme expansão da oferta monetária e, consequentemente, inflação.

  7. Miguel Noronha

    Sim. Mas isso é o chamada “helicopter money” que é diferente da QE cujos pormenores o Mário explicou. Assim há uma expansão da base monetária.

  8. Já agora, uma outra nota. Se o QE ocorrer ao mesmo tempo que ocorre uma política fiscal expansionista, com défices orçamentais e emissão de títulos de dívida pública, então nesse caso em particular o QE conduz automaticamente à expansão dos agregados monetários, com o crédito solicitado pelo Estado. Não sendo o caso, e volto a a repetir, não expande os agregados monetários, pelo menos até que os bancos ofereçam esse crédito.

  9. Miguel Noronha

    Convém não esquecer que após a crise do subprime e as consequentes defaults e falências bancárias aumentou a aversão ao risco. Para além disso os bancos foram obrigados pelos reguladores a aumentar os seus rácios de capital. O que explicará em grande medida o fracasso do QE. (falo em fracasso na medida em que este – ao contrário do desejo das autoridades políticas e monetárias – não resultou num aumento da liquidez geral). Noutras circunstâncias o efeito teria sido diferente.

  10. lucklucky, da mesma forma que uma nota que encontre no chão facilita o seu consumo, mas que só ocorrerá quando o efectuar, e terá efeito neutro se nada fizer com ela. É o mesmo com o QE. O QE, embora facilite a expansão dos agregados monetários, não os aumenta per se.

  11. Miguel Noronha

    Expliquei-me mal. O aumento de liquidez ficou retido no bancos (ok, e parte dele foi transferido para os produtores de commodities o que lhes proporcionou alguns “anos dourados”) e não foi transmitido ao resto da economia como era pretendido.

  12. Se o banco central compra directamente obrigações ao estado, monetiza dívida. Se o banco central empresta aos bancos e estes comprarem obrigações ao estado com esse dinheiro, o efeito é o mesmo. O único cenário em que isto não ocorre é se os bancos já tivessem as obrigações antes da operação de QE ou as comprasse no mercado secundário.

  13. Miguel, eu referi essa situação na resposta ao lucklucky, QE ao mesmo tempo que emissão de títulos de dívida pública, gera expansão da massa monetária. Mas repara que é isso que acontece mesmo sem QE: o Fed compra títulos à Reserva Federal. O que o QE acaba por fazer é alagar o leque de activos, incluindo mortgages, corporate bonds, etc. Ora, a troca por liquidez cedendo esses títulos não gera expansão de M1 per se.

  14. CN

    Mais valia monetizarem o défice, sou contra, mas os BCs ao injectar reservas que os bancos têm excesso só incentivam bolhas de preços financeiros/activos reais.

    Claro que o problema é o medo místico com que encaram a descida de preços.

  15. Kubo

    Excelente o comentário de MG, ao introduzir-nos na exposição de Thomas Sowell sobre o assunto.

    De facto, não é a aparência que é realidade, pois que o invisível é que vai definir o conteúdo primordial.

    As PPP’s também tinham uma aparência deliciosa; o invisível é que acabou por prevalecer nos estradistas das reengenharias financeiras.

    Thomas Sowell mostra mais uma vez que, sendo de côr, não está colorido das aparências subliminares das catedratices costumeiras. Bem haja pelo discernimento mais uma vez demonstrado!

    Obrigado MG por nos trazer, através de Sowell, a Sofia – que não a Sofística…

    Como diz Sowell no texto referido por MG:

    The old-time Keynesian economic religion will always say that the only reason creating more money hasn’t worked is because there has not yet been enough money created. To them, if QE2 hasn’t worked, then we need QE3. And if that doesn’t work, then we will need QE4, etc.

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