Porque é que há tantas greves de transportes públicos?

O Economista Insurgente

(excerto do livro O Economista Insurgente)
As imagens mais comuns nos dias de greve não são as de fábricas paradas, restaurantes fechados ou escritórios paralisados, mas sim de pessoas de classe média e baixa desesperadas por não terem transportes públicos disponíveis. As greves raramente têm sucesso no sector privado, mas as imagens da confusão geradas pela paralisação dos transportes públicos são bastante comuns. Autocarros parados, filas de pessoas exaltadas à espera de transporte (funciona ainda melhor em dias de chuva) e protestos dos utentes são as imagens de marca das reportagens televisivas em dias de greve. Apesar do insucesso de adesão que consecutivas greves gerais têm historicamente em Portugal, há um sector muito específico onde tendem a ter bastante sucesso: O sector dos transportes públicos.

Não é surpreendente que assim seja. Em primeiro lugar, a maioria dos trabalhadores das empresas de transportes públicos são funcionários relativamente bem pagos que podem suportar sem grande sacrifício a perda de um dia de salário. Pelos motivos que veremos mais à frente, estes trabalhadores têm grande poder negocial nas suas discussões com o Estado e foram conseguindo ao longo do tempo conquistar bastantes benefícios diretos e indiretos.

No entanto, existe um factor ainda mais importante para o sucesso das greves nos transportes públicos: As centrais sindicais concentram muitos esforços na sindicalização e mobilização dos trabalhadores deste sector. Para além do esforço de captação de trabalhadores do sector dos transportes, nos dias de greve é também junto às empresas de transportes onde mais piquetes de greve são montados. Existem bons motivos para isso: Uma greve bem sucedida no sector dos transportes tem um efeito multiplicador nos restantes sectores. Como muitas pessoas ainda vão dependendo dos transportes públicos para chegar aos empregos, uma greve nos transportes desencoraja ou impede de todo outros trabalhadores de deslocarem-se ao emprego. Aqueles que têm escolha, antecipando a greve nos transportes públicos, levam viatura própria para o emprego nesse dia, contribuindo para um trânsito ainda mais intenso. Tudo isto faz com que muitas pessoas completamente desinteressadas nos motivos da greve acabem por também faltar ao emprego nesse dia, aumentando de forma artificial o real impacto das greves. Ao contrário de outros trabalhadores, cuja ausência ao trabalho tem pouca visibilidade pública, uma greve dos transportes gera um caos visível e multiplicador. Precisamente por isso é que os sindicatos fazem um esforço tão grande para garantir adesão à greve neste sector.

Neste contexto, os governos não gostam de greves nos transportes e tudo fazem para as evitar. Cientes deste facto, os trabalhadores das empresas de transportes foram conseguindo ao longo dos anos acesso a benefícios não disponíveis a trabalhadores, com o mesmo nível de qualificações, noutros sectores. No privado, uma empresa que suba os salários dos seus funcionários acima da sua produtividade (ou seja, acima do retorno que o trabalho deles possibilita) acaba por ir à falência e fechar. Como grande parte das empresas de transportes públicos pertencem ao Estado, esse problema não existe. Estas empresas podem aumentar os salários, acumular prejuízos, passando-os diretamente para os contribuintes; que na próxima greve estarão à chuva à espera do comboio ou do autocarro pelo qual pagam bem, mas que nem sempre chega.

4 pensamentos sobre “Porque é que há tantas greves de transportes públicos?

  1. tina

    “Pelos motivos que veremos mais à frente, estes trabalhadores têm grande poder negocial nas suas discussões com o Estado e foram conseguindo ao longo do tempo conquistar bastantes benefícios diretos e indiretos.”

    Exatamente. Têm um poder tão grande, que desequilibram quaisquer negociações a seu favor. Este é um caso em que são os trabalhadores a explorar o patrão. Está tão errado que irá naturalmente acabar, com a aprovação da população inteira. Respiraremos todos de alívio quando esta ditadura chegar ao fim.

  2. Luís Pereira

    Há, porque, através delas, lixam o maior número possível de pessoas. Há, porque os respectivos sindicatos estão dominados pelos comunas para quem quanto pior, melhor. Há, porque muitas pessoas gostam de ser lixadas, gostam de ser reféns. Há, porque sabem que o patrão, o Estado, isto é, todos nós, lá arranjará dinheirinho para lhes pagar Se isso leva o Estado à falência, estão-se nas tintas. Os culpados serão sempre os patrões, a direita, como eles dizem. Há, porque ainda não foram privatizados. Quando forem, deixa de haver greves. Há, porque hoje fazem greve os maquinistas ou os condotores, amanhã, os revisores, depois de amanhã os vendedores de bilhetes, no dia seguinte, o pessoal de cabine, depois o pessoal de limpeza, a seguir, os revisores dos travões, depois os abastecedores de combustível, os que metem ar nos pneus, os que verificam se as rodas dos comboios estão ou não rachadas, os que apertam os parafusos, os que mudam o óleo, os que verificam os níveis da água e do fluido dos travões, os que…, os que… os que…. Provatizem essa tralha toda e vão ver que deixa de haver greves.

  3. Tiro ao Alvo

    “Estas empresas podem aumentar os salários, acumular prejuízos, passando-os diretamente para os contribuintes; que na próxima greve estarão à chuva à espera do comboio ou do autocarro pelo qual pagam bem, mas que nem sempre chega.”
    Só espero é que isso mude rapidamente; que esse povo, que anda à chuva e se molha, “abra os olhos” e afaste essa gente sem escrúpulos que domina os sindicatos (das empresas públicas).

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