O Insurgente

O mexilhão, o polvo e o caviar (2)

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A propósito da já celebre declaração do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho acerca de como “o mexilhão” não foi tão sacrificado com a crise, e que os que têm mais pagaram “muito mais”, o Carlos citou aqui uns dados da OCDE, demonstrando como a desigualdade diminuiu em Portugal nestes últimos anos, e concluiu que “que esta realidade aborrece muitos que dizem querer defender o mexilhão, quando o que querem proteger é o polvo. Ou, na melhor das hipóteses, o seu próprio direito ao caviar”. Não contesto a validade dos dados da OCDE (quanto mais não seja porque não tenho competência para o fazer), nem critico o Carlos por criticar quem quer “proteger o polvo” sob o manto da defesa “do mexilhão” ou do seu “direito ao caviar”. Mas há um aspecto que tanto o post do Carlos como (e isso é muito mais grave) a afirmação de Passos ignoram: que podendo ser verdade que em termos absolutos “quem tem mais pagou mais”, a crise e muitas das medidas deste Governo e do anterior causaram um impacto muito mais grave nos que têm menos. A forma como “o polvo” que nem eu nem o Carlos queremos defender agiu fez com que parte do “mexilhão” tenha sofrido mais do que os que comem “caviar”, por muito mais que estes tenham pago. Quem perdeu o emprego porque, por exemplo, o restaurante onde trabalhava fechou por ter perdido condições para continuar a funcionar, não por uma “destruição criativa” do mercado mas por um “(un)intelligent design” do Criador de Impostos através da subida do IVA sofreu um impacto maior e porventura mais duradouro nas suas vidas; as pessoas cujo pequeno estabelecimento comercial teve de fechar (só na pequena terra onde vivo ocorrem-me logo dois, e é possível que tenham sido mais)devido aos custos impostos pela obrigatoriedade de adoptar as máquinas de registo das facturas (e suas vergonhosamente constantes actualizações, porque o fisco precisa de actualizar regularmente a entrada de novo dinheiro nos seus cofres) viram a sua vida ser bem mais dificultada; as pessoas que todos os dias são atormentadas pelos abusos da Autoridade Tributária, que lhes exige em tom ameaçador pagamentos de impostos e multas que elas não devem, só porque há uma enorme necessidade de alimentar “o polvo” para diminuir o défice sem cortar nos seus tentáculos vêem a sua vida cada vez mais complicada; isto para não falar de toda a classe média que vê a sua carga fiscal aumentar cada vez mais enquanto o “polvo” não deixa de distribuir benesses fiscais com o propósito de “atrair investimento” que pelos vistos não seria viável sem que lhe fosse “inventado” uma espécie de “Portugal fictício” com condições que não se aplicam ao resto da sociedade. O Carlos pode ter razão ao apontar uma certa falta de rigor aos críticos da afirmação de Passos Coelho. Mas essa mesma declaração pecava por uma grande falta de noção da realidade da vida de muitos dos portugueses que fazem parte do tal “mexilhão”. Compreendo que o Primeiro-Ministro já esteja a pensar nas eleições, mas viver num bunker não costuma dar bom resultado, nem para a vida de quem vota nem para a de quem anda à caça dos votos.

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