No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’ é sobre os vistos gold.

Os vistos gold

Os vistos gold são um estímulo do Estado ao mercado imobiliário. Foi por isso que os critiquei, em Janeiro deste ano, neste jornal. O governo, perante um mercado que depois de anos e anos de impulsos vindo do Estado rebentou em 2008, achou por bem repetir a dose. Como? Introduzindo um elemento alheio a esse mesmo mercado, desvirtuando-o.

Claro que houve ganhos. Alguém ganha quando o Estado intervém. Para quê esperar pela retoma natural quando o poder político pode dar uma mão e permitir ganhos imediatos? O problema é que o prejuízo, muito maior que o ganho, só é visível se olharmos com atenção; só será sentido a longo prazo. É geralmente o que se passa quando o Estado intervém: uma estratégia com poucos custos políticos, porque as perdas são dispersas e dificilmente concretizáveis.

Houve contratos-promessa que retiraram imóveis do mercado para serem vendidos mais tarde; empresas que foram criadas especificamente para o fazerem; imóveis idênticos que foram transaccionados a preços muito diferentes. Negócios destes nada têm de errado. As pessoas são livres de acordar o que quiserem. Sucede que nestes casos se compram casas, não porque sejam desejadas, mas para a obtenção de um prémio do poder político.

Também nada há de mal na ideia de atribuição de vistos. Errado é fazê-lo através de um mercado alheio a isso. Até porque o pretexto que tem sido dado é mesmo esse: incentivar o crescimento, apressar a retoma. As consequências são, para quem esteja atento, desastrosas.

Anúncios

12 pensamentos sobre “No Fio da Navalha

  1. castanheira antigo

    Já agora , gostaria que concretizasse as consequências desastrosas , embora no geral eu concorde que o estado não deve intervir na economia . Mas num país onde o governo (estado) intervém em tudo não me choca o caso dos vistos gold que introduz cash num país economicamente de rastos aliviando um pouco o pesadelo.

  2. HL

    Esta medida o problema que teve foi ser possível de agilizar o processo via “contactos” abrindo um potencial de corrupção, ora do meu ponto de visto isto deve ser otimizado:
    1) Os vistos de residencia passarem a ser concedidos no acto da escritura, sendo que o comprador deve apresentar registo criminal apostilhado, traduzido por organismo oficial.
    2) Reduzir o montante a 300.000 euros/250.000 euros para injectar ainda mais competitividade fiscal face a outros países que estão a copiar a medida.

    Assim acabava-se com os defeitos que o André propõem de desvirtuar o mercado e deixa de haver espaço a corrupção pois passa tudo a fazer-se de forma transparente e ágil.
    Além de que o André esquece-se das externalidades que podem advir com a fixação de alguns destes cidadão no país, pois eles consomem, assam a conhecer as nossas empresas (investem)…. Eu sei que o a André vai dizer sim mas trazem externalidade negativas como o tipo que tinha um mandato internacional, mas…. isso é 0,03%, um tipo que não se sabe bem que crime cometeu e a autoridades do país em causa pelos vistos esqueceram-se de explicar? Além de que qual a diferença entre esse o a via aberta a bentos kamganbas e família dos Santos e amigos que simplesmente expropriam(roubam) cidadão nacionais nos seu países de origem.

    Esta medida injecta bastante competitividade e não creio que desvirtue o mercado, alias afigura-se me difícil que um chines compre uma casa de 300.000 por 500.000, pode acontecer mas muito pontualmente, de qualquer forma com a simplificação do processo ficava de imediato sanado.
    A unica coisa foi um aumento de procura e isso é negativo?

  3. HL

    Por certo André estou de acordo com quase todas as suas posições públicas, mas com esta, vai me desculpar, não.

  4. Rui

    Até me parece uma medida bastante liberal, permite a mais pessoas residir em portugal caso assim o desejem. A situação anterior era mais restritiva.

    Parece-me que uma posição liberal seria preconizar o alargamento da concessão dos vistos gold a imoveis de menor valor e nao o contrario…

    Já do meu ponto de vista pessoal, a questão da “venda” da nacionalidade em troco de beneficios economicos é discutível, mas a verdade é que portugal é um país bastante amigável para imigrantes de baixos rendimentos pelo que não vejo por que não há de o ser também para imigrantes de elevados rendimentos. (bem sei que o visto gold apenas permite a residência o que não dará necessariamente acesso à nacionalidade mas do ponto de vista pragmatico facilita bastante)

  5. Luís Lavoura

    Confesso que não enxergo quais sejam as consequências desastrosas. Poderia o autor especificar?

    Também a mim, como ao comentador Rui, parece-me que é liberal permitir a mais pessoas que possam residir em Portugal. Conceder mais vistos, sejam eles “gold” ou “silver”, é sempre liberal. Ou não?

  6. Luís Lavoura

    Eu para mim os vistos “gold” são uma medida liberal e em princípio desejável, pois que abrem o mercado. Ninguém vai comprar cá uma casa se depois não tiver visto para vir utilizar a casa sempre que lhe apeteça. Pelo que, os vistos “gold” vieram abrir uma parte do mercado (o das casas caras) a pessoas a quem ele anteriormente estava vedado. Ora, abrir o mercado é bom, não é?

  7. Luís Lavoura

    Este post parece-me radicar naquela velha máxima de que o liberalismo é uma coisa muito boa, desde que não seja na nossa área de atividade. Abrir o mercado e permitir a imigração são coisas maravilhosas, mas, por favor, não na minha área de atividade!

  8. ShakaZoulou

    Os RERTs tambem trouxeram capital para Portugal, porque não fazer mais?
    O que aconteceu aos imóveis entre os 400/450 mil euros após a aprovação da lei dos vistos dourados?
    Porque Portugal pode vender a circulação no espaço schengen?
    Porque o Canadá está a terminar os seus vistos dourados?

  9. PiErre

    Luís Lavoura não entende o liberalismo?
    Não percebe que, quando o Estado intervém na Economia, só por mero acaso não a subverte?

  10. HL

    Se a moradia de 400/450 for em cascais… é a lei da oferta e da procura…. também lhe garanto se a moradia for em Beja continuara a ser transacionada pelo mesmo valor.
    Porque o Luxemburgo pode vender competitividade fiscal? e nós não? Alias os EUA se não tiver antecedentes se a memória não me atraiçoa com um investimento de 500k USD (menos de 400k EUR) pode obter um green card.

  11. Luís Lavoura

    PiErre
    O Estado intervem sempre na economia. Por exemplo, ao restringir a concessão de vistos o Estado está a intervir na economia. Se o Estado restringe os vistos intervem na economia e se deixa de restringir também intervem.
    O que os liberais pretendem é que o Estado intervenha no sentido de conceder maior liberdade, em particular às transações económicas. No caso vertente, que o Estado deixe de obstaculizar uma transação económica (um russo rico comprar uma casa em Portugal) através do requisito de um visto.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.