O Julgamento

O Julgamento (Via Instituto Ludwig von Mises) :

O homem do betão e das PPPs, padrinho dos empreiteiros e das concessionárias que ainda hoje nos assaltam. Mentor do desgoverno financeiro que nos entregou aos credores, escudeiro do Estado forte, grande, ineficiente, metediço. Protagonista de um pós-bolivarianismo de tons ibéricos. Sócrates foi o último terramoto desde cataclismo que foi o regime nascido da Abrilada. Passos Coelho será, talvez, uma pequena réplica de mau gosto.

Mais que o julgamento, nos tribunais, de um dos homem que nos desgraçou a todos, este é o julgamento, público, do bando de abutres que nos vem pilhando desde sempre. Daqueles que nos ministérios e nas empresas defecaram na pouca dignidade que resta à nação, roubando – qualquer outra palavra é eufemismo – sem eira nem beira, perpetuando-se a si e aos seus no poder – político e económico. Este é o julgamento de uma terceira via, um capitalismo de socialistas caviar, um socialismo de capitais desviados. Este é o julgamento de um modelo de governação assente no compadrio, no suborno, na coerção, na corrupção aos mais altos níveis da sociedade.

Mas acima de tudo, este é o julgamento de um país e de um povo que gerou políticos à sua imagem. Das boleias e quotas pagas nas concelhias por uma conta mistério em vésperas de eleições. Dos clubes de futebol da terrinha e dos terrenos que vão andando de mão em mão. Este é o julgamento do chico-espertismo que tenta sempre passar à frente, no trânsito, na fila da repartição das finanças. Do menino que liga ao amigos do pai por causa daquela vaga na universidade, do pai que liga ao colega do secundário, que agora trabalha na Junta, para dar uma ajudinha ao colega que ficou desempregado. É o julgamento das garrafinhas de whiskey e dos bacalhaus pela consoada, para pagar favores do ano inteiro. Dos exames de condução feitos na marisqueira, dos vistos apressados no consulado, daquela licença para obras agilizada com uma sms ao senhor vereador.

(…)

O Zé – não o Sócrates ele mesmo – que é hoje deputado sem conseguir conjugar um verbo sem calinadas e entender-se com o sujeito e o predicado podia ser você, caro leitor. Com um pouco mais de esforço e afinco e se o André que brincava consigo e com os seus primos na casa de férias não tivesse perdido aquelas eleições, na federação académica ou na distrital. Se o Carlos, seu cunhado, não tivesse perdido aquela vaga na empresa, que até costumava fazer negócio com aquele ex-secretário de estado que agora está a “trabalhar” no ramo. O que o meu caro amigo teve não foi nem a ética nem a dignidade de cuja falta se acusam os nossos políticos de ter, como se abundasse na sociedade.

O que o meu amigo teve foi falta de sorte. Mas não se queixe. Ainda há uns meses conseguiu aldrabar umas facturas para “meter no IRS”. O empregado da Junta, que pôs a tijoleira lá em casa, deixa-o sempre estacionar lá o carro. O Mendes da esquadra deu um toquezinho relativamente àquela multa, mas também ninguém o mandou estacionar num lugar para inválidos. O meu amigo dê é graças a Deus por ter passado à frente nas urgências quando lhe deu aquela coisa no ano passado ou quiçá não estivesse aqui a terminar de ler este artigo. E não tenha vergonha. Todos o fazem. Se não fosse você, seria outro a aproveitar. E no que toca a benesses, antes nós que os outros.

12 pensamentos sobre “O Julgamento

  1. Daniel Carrapa

    O PSD e o CDS arrastarão o esqueleto de Sócrates até às eleições de 2015. Só esperemos que o homem não fique um ano na prisão para que a condenação avance nas vésperas das legislativas.

    Longe de mim defender (ou acusar) José Sócrates. Não me move qualquer simpatia pelo ex-político nem pelo homem, mas a presunção de inocência é mesmo para levar a sério num Estado de Direito. Mas o caso é este: os Portugueses já resolveram o “problema Sócrates” em 2011 – e resolveram-no com as opções políticas apresentadas pelos partidos com representação parlamentar. Eram más opções? Talvez, mas como dizia Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo depois de todas as outras que já foram experimentadas.

    O que decorre deste e de outros textos semelhantes é um exercício de culpa perigoso. Sócrates será odioso. Poderá até ser corrupto. Mas o que está aqui em causa é uma espécie de imolação “Do Sócrates”, o representante de todas as culpas, e todas as culpas encarnadas nesse símbolo de todos os males que é a classe política.

    O autor deste texto nem esconde a sua desconsideração pelo regime democrático. A democracia concede-lhe o direito de o exprimir. Mas o que está neste exercício de culpa dos políticos – com toda a culpa que têm e tiveram – é uma lavagem de responsabilidades de todos aqueles que instrumentalizaram o poder governamental durante décadas desta democracia. Os banqueiros e os construtores civis com os seus consórcios, os advogados e outros intermediários, com as suas ramificações ocultas para dentro dos partidos, mil e um empresários e os seus negócios privilegiados com (ou através d’) o Estado, os titulares de cargos nas principais áreas sectoriais da administração pública e tantos outros actores do sistema político e económico.

    Ao contrário do que para aí vai, a possível acusação de um ex-primeiro-ministro não é o fim do regime, não é sequer caso inédito na Europa ou no mundo. Mas muito menos está em causa “o julgamento de um país e de um povo que gerou políticos à sua imagem” – este sim o bias tóxico que está subjacente a este texto. O país gerou políticos à sua imagem, gerou banqueiros à sua imagem, e gerou empresários, construtores civis, advogados, jornalistas, bloggers e tudo o mais à sua imagem. Já o povo, meu caro, o povo anónimo que não se move pelos partidos nem chega às administrações de bancos e empresas, não escreve para os jornais, não faz estudos para os governos, vive amarrado a um dia-a-dia mês-a-mês com o seu espaço de liberdade restringido pelas constantes limitações da sua conta mensal, não vota para esse peditório.

    [E venham de lá esses “thumbs-down”, obrigado e bom dia.]

  2. Agora sim, podemos dizer que um país que tem um Sócrates, tem tudo! Ele vai ser o supremo redentor dos nossos pecados, o anti-cristo finalmente crucificado, o mau da fita, o metralha chefe dos metralhas, o bandido, o oportunista, o tarado do betão. E com ele, vai também a esquerda, o PS e todos os outros “mamões”… A direita emerge como um Polaris sorridente, limpa, excelsa, brilhante… Ao pé do Sócrates, o BPN não é nada, o Isaltino… Quem é o Isaltino?!… Os submarinos são uma fantasia, a badalhoquice Passos-Relvas, um pequeno deslize, e tudo o resto, miragem…
    Enfim, este país do “bloco central”, esse porco gordo e besunta, que se alimenta no meu bolso é uma delícia… Ontem a justiça era má, era quadrada, era tribunal constitucional… Hoje é benta, sagaz, atenta, eficiente…

  3. JP

    Belo retrato dos tiques da nação. É da corrupção pequenina que se passa à outra, à medida que se vai trepando nas hierarquias.

  4. Francisco Miguel Colaço em Novembro 25, 2014 às 19:55

    “Uma boa obra apaga muitos pecados.” – Boa, boa, Francisco… É isso mesmo que a malta pensa agora. Durante umas semanas. Depois volta tudo ao mesmo…

  5. Filipe

    Caro Daniel, li o seu texto e devo dizer que mito do que lá está escrito parece bem, mas…. apesar de tentar passar as culpas ao eleitorado, e com razão, há portugueses que querem começar a limpeza por algum lado.

    Que seja por Sócrates, do mal o menos, mas não volte a tomar a árvore pela floresta, há pessoas honestas e pensantes.

  6. Daniel Carrapa

    @Filipe Julgo que está a interpretar exactamente o oposto do que eu escrevi. A frase «o julgamento de um país e de um povo que gerou políticos à sua imagem» é do texto original. É o autor que tenta passar as culpas ao eleitorado, não eu.

  7. JPT

    Estas reacções confrangem-me. Na quinta-feira, Sócrates estava solto e em Paris. Agora, Sócrates está preso, na Penitência de Évora, acusado dos crimes que, no fundo, qualquer pessoa de bom-senso achava que ele cometia há anos,à vista de toda a gente. Não se está melhor? Claro que a corrupção não acabou, nem o cancro, nem a queda do cabelo, nem este catarro de que a minha senhora se queixa, mas, arre, um indivíduo ostensivamente (direi pesporrentemente, dragqueenamente) corrupto foi preso, em Portugal, apesar de ser um putativo candidato a Presidente pelo partido do regime. E não estamos melhor? É verdade que ainda não foi tudo preso, que os meus impostos não baixaram, que políticos continuma distribuir favores e aos amigos, que funcionários continuam a aceitar (ou até pedir) atençõezinhas, e que carros teimam em estacionar nos passeios e donos a não apanhar o cocó dos cães. Mas não estamos todos melhor do que estávamos na quinta-feira? Todos nós, mesmo os alienados do Culto do Sócrates? (toda a gente sabe que o que arde cura) Parem de ser tugas, também nisto! Olhem para o copo meio cheio, e parem de chorar porque não vos deram um penalte.

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