Um ou dois casos mediáticos em que eventuais práticas de corrupção poderão ter sido descobertas não significam que o sistema de Justiça português tenha deixado de ser um caos que atrapalha a vida de muita gente. A Autoridade Tributária ter sido instrumental na captura de um político corrupto não apaga a forma atentatória dos direitos dos cidadãos com que ela se comporta diariamente. Não é por um ex-Primeiro Ministro que destruiu o país estar de momento preso que o país e a vida dos que nele habitam passam a estar melhores. Por muito que uma chuva de artigos de opinião o digam, o país não mudou esta semana.
Isto é só o Salgdo a queimar alguns. Espere pela bomba , isto é só o inicio… do fim.
O país está a mudar e isso é que importa, caminhar na direção certa. Da mesma forma que a necessidade de austeridade já foi entranhada pela maioria dos políticos e aceite pela maioria do público, agora também a evasão fiscal e corrupção serão levadas mais a sério por potenciais criminosos.
Mas, ainda há muito pouco tempo, não se imaginava sequer que sinais deste tipo pudessem surgir. Continuo sem acreditar na Justiça portuguesa, uma andorinha não faz a primavera, mas, mesmo assim, gosto do que estou a assistir. Esperemos que seja um primeiro passo de uma longa caminhada.
Independentemente das nossas simpatias ou antipatias, convém ter alguma moderação nos entusiasmos e estar atento. Ter que deter alguém para um simples acto de prestar declarações, ainda por cima no momento em que está a entrar (e não a sair) do país, não é normal. Ser detido com as câmaras das televisões à espera, é radicalmente anormal. Por isso… cautelas e caldos de galinha.
Já vi não sei quantas vezes a conversa das câmaras de televisão à espera, mas as únicas “imagens exclusivas” que vi foram dum Opel Corsa escuro a passar à frente duma câmara, numa noite escura e húmida numa rua difícil de reconhecer.
Podem mostrar-me o produto dessas câmaras de televisão à espera?
E se tivesse sido para entregar em mão uma notificação, as câmaras não estariam à espera? E se a notificação tivesse sido enviada numa simples carta registada, não estariam as câmaras à espera no dia em que se apresentasse no tribunal?
Ninguém que não represente perigo de fuga, ou de destruição de prova (que inclui combinar versões doa factos, enquanto destruição de prova testemunhal) deve ser detido para interrogatório. Não e sei qual foi a justificação, mas terá sido uma dessas 2.
Independentemente disso é ingénuo pensar que de que forma fosse, as câmaras não estariam à porta. Basta meter meia dúzia de pessoas ao barulho, ente MP, oficiais de justiça, polícia, arguidos, advogados de defesa. Em vez de tentativas sempre frustradas de discrição e “segredo de justiça”, fariam melhor em ser transparentes e comunicar oficialmente o que se passa, em vez de dar azo a especulações.
Ó Nuno: Tenha juízo! Independentemente das imagens serem boas ou más, não há qualquer dúvida de que ALGUNS jornalistas foram informados sobre o que ia acontecer. A informação só pode ter saído dos principais personagens do acontecimento: polícia, juíz(es), advogados, o(s) próprio(s) arguido(s). Daqui resultam duas inevitáveis conclusões: o “segredo de justiça” não foi respeitado por quem tem obrigação de o respeitar (ou é só o “Zé Ninguém” que tem essa obrigação?); a comunicação social foi USADA, não para informar (porque não tem elementos suficientes para isso), mas para dar espetáculo (propaganda) e provocar conclusões definitivas na opinião pública (sobre culpas, sobre a acção da justiça, etc.) que não tem elementos suficientes para o fazer. A partir daqui, o circo está montado e o resultado final pode ser o pior, quer para o apuramento da verdade (que é o que interessa), quer para a credibilidade da própria justiça. Imagine, o Nuno que, no final, tudo fica em águas de bacalhau. Já imaginou melhor plataforma de (re)lançamento, de recuperação da imagem daquele que muitos portugueses detestam?
Todos os dias os jornais/TV’s apresentam imagens de suspeitos a entrarem para interrogatório nos tribunais – suspeitos ou arguidos ou testemunhas.
Porque raio de razão os politólogos customeiros estão tão indignados agora (como quando do caso da Casa Pia)?
Dão-se 20 Milhões de Euros a quem não souber (não a quem fingir que não sabe…) …
Ó Kubo: Tem andado um pouco distraído. O problema das fugas de informação e do desrespeito pelo segredo de justiça, é, não só, assunto velho em Portugal, como foi “truque” usado, também… nos tempos dos governos Sócrates.
Gil: o espetáculo jornalístico nunca é bonito nestes casos. A ingenuidade da sua posição é pensar que se tivesse sido à porta de casa seria diferente. Não seria. E também não o seria se fosse por carta: estaria o espetáculo montado no dia em que se tivesse que apresentar.
Dentro do possível, mesmo sendo no aeroporto, e depois de ter adiado a viagem por duas vezes, foi detido com recato no parque de estacionamento. Mesmo estando jornalistas avisados, não há imagens. Pouco depois, foram à casa, antes do arguido a poder visitar.
Se fosse um banqueiro, tudo tranquilo, tinha sido assim para não ter oportunidade de destruir a papelada que tinha no cofre. Ou o director geral, duma polícia, ou dum instituto público.
Era melhor que o segredo de justiça tivesse sido respeitado? Claro que sim. Em todos os casos supracitados e em nenhum o foi. Mas estas coisas não se mantêm em segredo por muito tempo, e quantas mais pessoas sabem, mais fácil é haver fugas. Pelos próprios arguidos, se não o dito cujo, os outros, ou o advogado que nada discreto foi.