Tudo a perder

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O dia das eleições primárias do PS foi o ponto de inflexão de António Costa, momento em que a auspiciosa aura de nevoeiro que o acompanhava se começou a desvanecer. Do alto do prado do largo do Rato o imponente Costa, qual Ghandi de Lisboa travestido de Salvador da Pátria, assume-se então como ele inegavelmente é, negando o que pretende ser. Uma estratégia política digna de distinção por um Machiavelli moderno, não fosse um pequeno pormenor. As eleições são daqui a um ano. E, até lá, Costa só tem a perder.

Senão vejamos. No plano de estratégia política interna, se António Costa quiser recuperar o lesivo legado de José Sócrates & Cia., como aliás tem feito até ao momento, perderá todos os socialistas que, não obstante o seu alinhamento ideológico, rejeitam Sócrates. Caso reverta a estratégia de apoio a José Sócrates arrisca-se a perder a confiança da ala socrática, confiante que isso expiasse os pecados do passado, acantonando-os então nos movimentos, uniões e plataformas que pululam nas ávidas avenidas da esquerda, três anos longe das manivelas do Estado, uma eternidade no calendário do sonho socialista.

O mesmo se passa com as uniões à esquerda. Ou à direita. Se calhar as uniões com a esquerda anti-capitalista são perigosas. A crise é má, a coisa piorou, mas no fundo António Costa sabe que com a extrema-esquerda seria bem pior. Ao prometer alianças à esquerda aliena o centro e o centro-direita, receoso de ver um Rui Tavares perto da coisa, quanto mais à frente da coisa. Já quando se chega ao outro lado perde implicitamente o apoio dos intransigentes da esquerda, muitos do próprio PS, resolutos em afastar a direita do poleiro de que se julgam donos. Talvez excepto o Daniel Oliveira, que esse é versátil.

Em termos de políticas económicas a coisa é ainda mais gravosa. Os sonhadores que julgavam ser possível resolver o sério problema das finanças públicas sem reduzir despesa e/ou aumentar impostos ficaram agora a saber que entre o sonho e a realidade está a Câmara Municipal de Lisboa, que preparou taxas e taxinhas para continuar a pagar os 114 sociólogos que emprega. Mais ainda, o sonhador que infortunadamente não resida em Lisboa fica também a saber que António Costa está disposto a direccionar taxas de um aeroporto que é infraestrutura nacional, que ocupa áreas pertencentes a dois municípios, e que aliás já paga derramas municipais, para um município em particular, o de Lisboa. Centralismo no seu apogeu, certamente digno de salvas da cova do sr. Sebastião José, Marquês de Pombal.

As promessas, políticas ou económicas, também se esfumam. O PS diz que os salários dos funcionários públicos serão integralmente repostos assim que o PS ganhar as eleições. António Costa diz que afinal não será bem assim. Serão eventualmente repostos, precisando esse momento com o rigor de um bom procrastinador: algures, um dia. E a sê-lo, nunca explicando de onde vem a verba. Retirada a outra rúbrica de despesa? Ou de mais aumentos de impostos? Seja como for, não colherá grande entusiasmo entre os funcionários públicos que achavam que com ele é que é, ou com ele é que era.

Pois com Costa é que vai ser, que Costa não é Hollande!, Costa não é Renzi!, Costa é Costa!, e quem o conhece sabe disso, surreal mas real testemunho de Edite Estrela, como a própria. Aqui a coisa também não está famosa. Os indigentes defensores da renegociação da dívida, os que se estão a lixar para a dívida, os Pedros Nunos Santos — entre tantos outros Pedros, gente de arfada argumentação mas hábil ofício no secretariado do PS, agora mascarados de comentadores de coisas — tecem a desolação. Afinal Costa não vai bater com o pé pois não existem soluções messiânicas para a dívida, pelo menos segundo as palavras de um dos homens que veio regenerar e mobilizar com sangue novo o PS, Vieira da Silva.

À medida que a névoa se esfuma António Costa irá, com a inevitabilidade da realidade que encarou os sonhadores do terceiro parágrafo, perder parte dos seus apoios. De Pedro Passos Coelho sabemos o que sabemos, e o espaço é limitado para eu elencar tudo de que discordo. De António Costa vamos descobrindo, e o que temos descoberto é que António Costa é um, mais um, como aliás todos os outros de outrora, de hoje e de amanhã, e que até Outubro tem tudo a perder.

7 pensamentos sobre “Tudo a perder

  1. JP

    O afundamento do Costa Concórdia só foi possível graças ao comandante Schettino (lê-se “sócretino” com o “O” e “R” abafados) e à sua loura. Por falar nisso, sabem quem levou o Sócrates para o PS? 🙂

  2. Luis

    As reuniões com a esquerda do Livre é mera cosmética. O tipo aceita qualquer coisa em troca dum lugarzito de deputado.

  3. Carlos Duarte

    Caro MAL,

    Obviamente que Costa não é o “Salvador da Pátria” (nem sequer para as diversas facções que constituem o PS, à esquerda de Seguro). Mas também me parece óbvio que a “táctica” de AC é evidente: deixar o Governo afundar-se sozinho que, apesar de algumas melhorias recentes, vai fazendo com todo o enlevo e dedicação. As eleições do próximo ano são his to lose e ele sabe muito bem disso. Até lá, vai nem ser carne nem ser peixe, limitando-se a aproveitar da mediocre governação que temos.

  4. Euro2cent

    > os sonhadores do terceiro parágrafo

    O português é uma língua muito cansativa. Não sei quantos lá terão chegado.

  5. Caro Carlos Duarte, o que o Governo fez de bem ou de mal está já registado nestes três anos volvidos. A diferença é que por muito mau que isso tenha sido, não é pior do que uma bancarrota. E ainda há quem se recorde disso. Daí que a estratégia do nihilismo político não funcione. As pessoas estão mais exigentes, e Costa não conseguirá passar um ano sem se comprometer. E ao fazê-lo, vai perder votos.

  6. Pingback: Tudo a perder | O Insurgente

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