Um bom “furo”

Se um jornal conseguisse provar que os membros do governo tinham votado a decisão relativa à resolução do BES em benefício próprio, isso seria um “furo” jornalístico. Diria mesmo uma notícia bombástica. Parece, no entanto, que os factos não vão de encontro a essa ideia. Nada que tenha impedido o Público de tentar passar essa ideia através de insinuações rasteiras indignas de um jornal supostamente sério: Uma notícia cheia de disparates e um editorial deliberadamente obscuro que tenta retirar uma lição de moral de factos supostos.

Em primeiro lugar, dizer «Membros do Governo tinham mais de um milhão de euros no GES quando decidiram o seu futuro» é uma frase manhosa. Lendo a notícia, percebe-se que o «mais de um milhão» é o total de investimentos no GES de 16 membros do governo. Uma média de pouco mais de 62 mil euros cada um. Nada de espantoso, portanto. Aparentemente o grosso deste milhão pertencerá a apenas três membros do governo. Poderiam este três ter beneficiado da resolução do governo? Como veremos adiante, não.

Em segundo lugar, a listagem de bens detidos pelos membros do governo no GES sugere que se estes foram afectados pela a decisão do governo, isso foi mais no sentido negativo e não positivo. Investimentos em obrigações do Espírito Santo Financial Group ou do Espírito Santo Banque Privée perderam com a falência dessas entidades. No limite, a passagem do BES a Novo Banco poderá ter diminuido ainda mais as possibilidades de recuperação dos investimentos, uma vez que o banco era o principal activo do grupo. Aparentemente, metade de toda a exposição dos membros do governo ao GES eram investimentos deste género. Isto para não dizer nada das acções do próprio banco, que passaram a valer (muito) perto de zero.

Em terceiro lugar, ter investimentos num banco e ter depósitos num banco não é a mesma coisa. Depósitos são passíveis de ser perdidos em caso de falência do banco. Outros investimentos podem ser recuperados ou não dependendo da sua natureza. Acções, fundos de investimento e outros títulos de entidades terceiras estão no banco apenas para ser guardadas. Todos estes títulos são dos seus donos não do banco. Se este entrar em insolvência, os títulos continuam lá. Já os depósitos são usados para conceder crédito a outros clientes, pelo que no caso de prejuízos – e se as reservas do banco forem insuficientes – podem ser perdidos.

Quando a notícia do Público liga a questão dos depósitos acima de 100 mil euros com os membros do governo que tinham mais de 100 mil euros no banco, está deliberadamente a confundir as coisas: Não eram mais de 100 mil em depósitos. Eram mais de 100 mil na carteira completa, incluindo títulos diversos que não têm nada a ver com a questão dos depósitos. «Deliberadamente» porque a associação feita é negada pelos próprios factos relatados na notícia.

Por fim, o que ocorreu no Chipre foi bastante diferente do caso BES/GES. Os dois maiores bancos do Chipre tinham activos totais que eram 400% do PIB do país. E tiveram prejuízos que em termos relativos foram o dobro dos prejuízos do BES. No Chipre não houve outro remédio que não o “bail-in”. O Banco de Portugal e o governo não impuseram um “bail-in” no BES porque quiseram evitar esse estigma. Não por ser do interesse particular deste ou daquele membro do governo. Até podemos questionar se esse caminho não teria sido melhor, tanto para os bancos do Fundo de Resolução como para os contribuintes, via CGD, mas não neste contexto desonesto de tentar mostrar algo que parece ser o contrário da realidade.

12 pensamentos sobre “Um bom “furo”

  1. Fernanda

    Apenas uma pequenina correção:
    – “Ir de encontro a” significa “ir contra algo/alguém” (ex: o carro foi de encontro à parede)
    – Ir ao encontro de significa estar de acordo com ou ir em direção a (ex: o João foi ao encontro da namorada).
    Assim, se os factos “não vão de encontro a essa ideia”, significa que não vão contra ela, ou seja, os factos estão de acordo com a ideia.
    Sim, a língua portuguesa é extremamente traiçoeira. 🙂

  2. JoaoMiranda

    Dois pontos:

    1. As perdas estimadas no BES relativamente às últimas contas apresentadas são cerca de 4 mil milhões. Para compensar essa perda accionistas e obrigacionistas junior ficaram no banco mau. É debatível se são 4 mil milhões ou se é mais. Sendo mais, quem deveria assumir essas perdas, na ordem de prioridades definida pela lei (isto tudo é definido na lei, não foi o governo que decidiu ad hoc), são os obrigacionistas senior que têm cerca de 9 mil milhões de euros de dívida. Estes 9 mil milhões são mais que suficientes, nunca tendo estado em causa perdas para os depositantes. Portanto nunca houve nenhuma hipótese de bail-in neste caso.

    2. O Público insinua que a alternativa escolhida não foi a que melhor serve o interesse público mas a que melhor serve os membros do governo. Podemos imaginar qual seria a reacção do Público caso em vez da solução actual tivesse sido necessário recorrer a bail ins.

    Note.se que a única decisão do governo contrária ao que estava na lei foi a de excluir do banco mau os depósitos dos pequenos accionistas. Uma decisão que ninguém contestou, antes pelo contrário. Não será difícil encontrar no Público choradinho pelos pequenos accionistas, pelo que não se percebe do que se queixam.

  3. Manuel Vilhena

    Ainda se houvessem provas que estes elementos governamentais tinham alienado todos os ativos relacionados com o GES/BES uns dias antes da decisão da separação, aí sim, poderíamos ter também um furo jornalístico, assim temos mais do mesmo, ou seja, a mesma trampa de jornalismo de sempre.

  4. rrocha

    “Em Julho de 2013, quando foi nomeado ministro da Economia, Pires de Lima deu uma ordem aos bancos onde tinha contas para que vendessem todas as suas acções portuguesas.”
    “Foi um gesto de transparência. Desligou-se da banca portuguesa”
    Aqui esta uma atitude na minha opiniao correcta.
    Fico com uma duvida se o BES nao seria salvo se fosse dado tempo para se organizar como o BCP que nos ultimos anos teve perjuizos de 2740 milhoes e ainda ca anda.

  5. Lápis Azul

    “Parece, no entanto, que os factos não vão de encontro a essa ideia.”
    Eu entendo que está correcto.
    Os factos são de um tipo e a ideia de outro …

  6. Tiro ao Alvo

    Tem toda a razão, a “notícia” do Público é vergonhosa – uma parte por incompetência dos jornalistas, outra parte pela má fé da sua Direcção, useira e vezeira a cometer pecados desta natureza.
    Declaração de interesses: sei do que falo pois sou leitor daquele jornal desde o seu lançamento. Mas ando a pensar poupar esse dinheiro.

  7. JPT

    Fui leitor diário daquele jornal desde o lançamento até uns três anos. Hoje cravo-o às sextas, sábados e domingos para ler o VPV e o Inimigo. 90% do que leio lá deixa-me triste. É como ver um parente com Alzheimer. Um dos grandes mistérios de Portugal é porque é que Belmiro de Azevedo continua a pagar aquilo. Se o grupo precisa de custos, há outros menos penosos.

  8. Fernanda Bettencourt

    ““Parece, no entanto, que os factos não vão de encontro a essa ideia.”
    Eu entendo que está correcto.
    Os factos são de um tipo e a ideia de outro …”

    Ir de encontro a = estar contra
    Ir ao encontro de = estar a favor

    Se os factos não vão contra a ideia = os factos estão a favor da ideia.

    Um de nós percebeu mal o texto…

  9. Filipe

    Temos a qualidade jornalistica que merecemos, hoje li a crónca da Helena Matos no observador e adorei, está lá tudo.

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