“Carlos Moedas tem cabeça de liberal e não apoia intervenções do Estado, pensa como Passos Coelho”

Houve um tempo em que teria bastado a Ricardo Salgado telefonar a 2 ou 3 pessoas e o problema do GES teria sido resolvido em silêncio. A Caixa primeiro e o BCP depois teriam tratado dos problemas de financiamento. Se algumas perdas daí resultassem, um aumento de capital da Caixa Geral de Depósitos (o nome que se dá ao bail-out quando o banco é público) teria resolvido o problema. O GES continuaria vivo, como se nada fosse. A PT continuaria a ser uma empresa de bandeira com gestores de categoria internacional. E entre os 70 mil milhões de impostos pagos todos os anos, estes 4 ou 5 passariam despercebidos.

O PSD poderia ter feito muito melhor enquanto governo, e certamente que a falta de dinheiro e a supervisão internacional ajudam a fugir a tentações destas, mas vale a pena ler este excerto de uma excelente peça do Público para perceber as diferenças entre este governo e os que o antecederam:

“(…) Este é um período sombrio na vida de Salgado, com o grupo à beira da falência. E é obrigado a sair do seu casulo para pedir ajuda ao Estado. Dispara, então, nas várias direcções. Todos o ouvem, mas ninguém se compromete. Vai sozinho a Belém falar com Cavaco Silva, seu convidado de casa, que lhe terá dito: pouco posso fazer.

O banqueiro chega à Praça do Comércio para uma audiência com a ministra das Finanças, acompanhado de José Manuel Espírito Santo e de José Honório. Os três têm grande urgência e tentam convencer Maria Luiz Albuquerque a autorizar a CGD a emprestar 2500 milhões à Rioforte para suavizar a dívida de curto prazo. O envolvimento do banco estatal ajudava a que o BCP viesse a colaborar também. Pedem juros generosos. Maria Luís Albuquerque torce o nariz e terá notado que “não dispõe de instrumentos” para apoiar o GES (não financeiro).

No caminho está agora o primeiro-ministro. Quando entra em São Bento, Salgado não se sente confortável. Sabe que Pedro Passos Coelho não sente empatia por ele, mas acredita que o pode sensibilizar, pois a queda do GES terá impacto no BES (e na PT). E admite que os efeitos colaterais se farão sentir. O banqueiro é afirmativo: a situação é crítica, daí o pedido já endereçado de viva voz à ministra. De pouco servirá o encontro, pois Passos Coelho é vago, não tem nada para lhe dizer. E vai dar instruções políticas a Maria Luiz Albuquerque para manter a recusa.

Entre outros dirigentes políticos e governamentais com quem Salgado falou naquele período, mais de uma vez, está Carlos Moedas, na época secretário de Estado adjunto de Passos (e agora comissário europeu). “O Moedas, o Moedas! Eu punha já o Moedas a funcionar.” Foi a frase de José Manuel Espírito Santo (gestor do BES) que incentivou o banqueiro, pela segunda vez, a ligar ao secretário de Estado para que ajudasse a encontrar um plano de salvamento do grupo. Carlos Moedas ia a conduzir quando o atendeu e lembra-se de ter pensado: “Está assustadíssimo.” O Sol já relatou: “Carlos, está bom? Peço desculpa por estar a chateá-lo a esta hora. Tivemos agora uma notícia muito desagradável. Tem a ver com a procuradoria no Luxemburgo [onde a ESI e a Rioforte têm as sedes], que abriu inquérito a empresas. Temos medo que possa desencadear um processo complicado sobre o grupo. Porventura temos de pedir uma linha através de uma instituição bancária. Seria possível dar uma palavrinha ao José de Matos [presidente da CGD], para ver se recebia a nossa gente da área não financeira? Temos garantias para dar.”

    Carlos Moedas tem cabeça de liberal e não apoia intervenções do Estado, pensa como Passos Coelho

. Já veio garantir que “o tema morreu ali”, não passou do telefonema. É a sua versão.

As diligências feitas pelo clã terão chegado a José Luís Arnaut, amigo de Barroso, e a Paulo Portas. O vice-primeiro-ministro chama a atenção de Passos para “a gravidade de deixar cair o GES” e recebe um chega para lá. Ao presidente do BES restam agora poucos amigos. Um deles é Durão Barroso, com quem fala várias vezes. Barroso ainda se movimentou (por Lisboa e Luxemburgo) mas, do ponto de vista de Salgado, depois de tudo o que terá feito pelos amigos, Barroso [a quem o BES pagou um curso nos EUA] não se empenhou o suficiente e, hoje, o sentimento é de desconforto. É a síndrome de quem deixa a crista da onda. Este terá sido, provavelmente, um dos primeiros momentos em que Salgado sentiu que a idade, 70 anos, e o ambiente não lhe permitiram “brandir a varinha mágica”. Fecham-se todas as portas que interessam. O banqueiro já não tinha flexibilidade para manter e gerar conivências. (…)

Este é o retrato de um presidente sem poderes, um governo sem a abertura a que Ricardo Salgado estava habituado, de um vice-primeiro-ministro há demasiado tempo nos círculos de poder, e de um grupo empresarial do regime a cair de podre (como o próprio).

10 pensamentos sobre ““Carlos Moedas tem cabeça de liberal e não apoia intervenções do Estado, pensa como Passos Coelho”

  1. tina

    Que belíssimo post Carlos, muito obrigada! Agora ficou tudo claro como a água. Belo post, belo governo. Parabéns a PPC, Carlos Moedas e Maria Luís. Sem dúvida uma grande diferença para os governos socialistas, que se sentem bajulados pela atenção dos grandes e tudo lhes cedem.

  2. Infelizmente, é por estas e por outras do mesmo género que o PSD vai perder as próximas eleições.

    Sai caro querer ser honesto e imparcial num país que não é mais do que uma freguesia de compadres e comadres.

  3. Miguel Noronha

    O editorial está extramente confuso mas pelo pouco que percebi acha que deviamos ter metido dinheiro dos contribuintes. Não estando ileso de riscos pelo menos o plano implementado minimiza esse risco que está dependete do valor da venda do Novo Banco.

    Mais estranho ainda é achar que serve de contraponto ao post do Carlos.

  4. k.

    “Miguel Noronha em Outubro 27, 2014 às 11:01 disse:”

    Não percebeu.
    O governo tomou uma decisão mais onerosa para, hoje sabemos – o contribuinte, ao decidir “salvar” depositantes acima de 100.000 Euros.
    Por motivos.. que podemos questionar, tendo em conta que essa decisão beneficiou membros do governo.
    Portanto a história de “ah este governo é isento”, que se depreende do post original, é falaciosa.

  5. Miguel Noronha

    Mais onerosa?!
    Qual seria a menos onerosa? Deixar falir o banco e pagar todos os depósitos até 100.000 euros?

    De que forma os membros do governo foram beneficiados e quais?

  6. k.

    “Miguel Noronha em Outubro 27, 2014 às 11:33 disse:”

    Seria menos oneroso para o fundo de resolução da banca – isto é, a CGD, isto é, o contribuinte, acho que ninguem acredita que o Novo Banco seja vendido pelos 4.6 mil milhoes – se não tivesse de emprestar tanto dinheiro para salvar “grandes depositantes”.

    Poderá encontrar a lista dos membros do governo nesta noticia:
    http://www.publico.pt/politica/noticia/Membros-do-governo-tinham-mais-de-um-milhao-no-ges-quando-legislaram-sobre-o-seu-futuro-1674200

  7. Miguel Noronha

    “Seria menos oneroso para o fundo de resolução da banca – isto é, a CGD”
    O FRB não é apenas a CGD
    http://www.fundoderesolucao.pt/pt-PT/ofundo/Paginas/Instituicoesparticipantes.aspx

    “acho que ninguem acredita que o Novo Banco seja vendido pelos 4.6 mil milhoes”
    Ao contrário de você eu não faço ideia do que as pessoas acreditou ou não. Tenho a bola de cristal avariada. Porém nesta solução o prejuízo a ser coberto é a diferença.

    “se não tivesse de emprestar tanto dinheiro para salvar “grandes depositantes”.”
    O empréstimo (que no fundo é o capital do Novo Banco) salva grandés e pequenos depositantes. O FGB não teria dinheiro para pagar a toda a gente com menos de 100.000 euros. E nesse caso provavelmente teria de entrar o contribuinte. E a conta seria bem superios aos 4.6 MM

  8. Miguel Noronha

    “Poderá encontrar a lista dos membros do governo nesta noticia:”
    Pelo que vejo houve muito mais perdas com aplicações das hodings do GES. Esses ficaram a “arder”.

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