Deve a Igreja preferir a facilidade do julgamento ou a enorme dificuldade do Amor e da Misericórdia?

A Daniela respondeu ao meu artigo no Observador e apesar de já ter prometido abster-me de temas beatos por muito tempo, é um post com partes tão erróneas no que refere sobre Igreja e fé que deixo aqui algumas notas.

1. As bitolas da fé católica são o Amor e a Misericórdia de Deus. As virtudes teologais são a Fé, a Esperança e a Caridade (i.e., Amor). Qualquer pessoa que leia o Novo Testamento entende o feroz combate que Jesus e, depois, os Apóstolos fazem ao justicialismo e a visões justiceiras de Deus. Além das parábolas que referi (e mais há), temos o ‘não julgueis para não serdes julgados’, temos a teologia da cruz de Paulo, temos o ‘se Deus está por nós, quem está contra nós?’ paulino, temos o Espírito Santo paráclito (i.e., temos o ES – Deus – como nosso advogado de defesa), e um quilométrico etc. Querer elevar a justiça a um papel que não tem – e propositadamente não tem – pode ser muita coisa, mas não é catolicismo. O tema da justiça, que aparece ao nível da praxis e não de virtude de fé, está sempre relacionado com a justiça de reconhecer a cada pessoa um reduto de dignidade e tratá-la dessa forma, não de recompensa dos justos e punição dos incumpridores. A justiça vista da forma terrena é tão ausente do catolicismo que a Igreja – como se viu no caso dos padres pedófilos ou do assassino ‘inconseguido’ de João Paulo II (para dar um exemplo criminoso e outro misericordioso) – tem mesmo dificuldade em ver-lhe utilidade e usá-la.

2. A Igreja não tem de ficar de porta aberta à espera de que quem concorde queira entrar. É certo que há muito setores que querem ser um grupo pequenino de puros, com regras de entrada estreitas, mas também não é isso o catolicismo. Inerente ao catolicismo está – e, mais uma vez, vem no chato que é o Novo testamento – a missionação e a evangelização. Foi isso que transformou a Igreja no que é hoje. E usaram-se argumentos tão avassaladores e intelectualmente refinados como o da imagem que deixo abaixo, do Qorikancha, um mosteiro dominicano construído literalmente em cima de um local de culto inca, em Cuzco. Ou seja, através de esquemas como por os locais de culto cristãos onde estavam os anteriores pagãos conseguiu-se converter os nativos de um continente. Imaginam-se portanto os critérios exigentes para com os fieis que vinham associados a esta fineza teológica. A ideia: preferia-se ter as pessoas dentro da Igreja, mesmo que devido ao hábito de ir prestar culto à divindade no local do costume, do que exigir-lhes concordâncias absolutas com isto e com aquilo antes de as deixar entrar. Conclusão: estar dentro de uma Igreja com um porta aberta onde ninguém entra – não vamos olhar para o lado da crise de vocações ou dos números de católicos nas missas e nas outras atividades da Igreja a diminuirem, ou vamos? e também vamos fingir que a inveja e a bufaria dentro da Igreja católica não eram incentivadas em setores tradicionalistas perante o sucesso dos progressistas? – pode ser muita coisa mas, mais uma vez, não é catolicismo.

Qorikancha3. Quanto à parábola do aluno da Daniela, é rápido. De facto o difícil nesta maluquice do cristianismo inventado por Jesus é que foge completamente aos critérios humanos. Todos passariam, mesmo, desde logo porque não falamos de recompensas profanas. É uma religião que até tem um ‘bom ladrão’. A parábola da Daniela é precisamente o oposto da parábola dos trabalhadores da vinha. Eu, que tenho como fé o cristianismo, prefiro a versão de Jesus à da Daniela.

4. É sempre muito prático ignorar a História da Igreja e assumir que esta é a primeira vez que a Igreja tem convulsões que levam a que trema e se transforme. Voltando à Bíblia, está lá bem explicada a guerra entre a fação conservadora (Pedro e Tiago) que queria manter o respeito à lei mosaica e a de Paulo, que via como desnecessários os preceitos judaicos. O que se adotou foi esse grande abandalhamento da Igreja (como agora se diria) proposto por Paulo. Mesmo a comunhão tem vindo a ser cada vez mais democratizada, depois de séculos em que foi algo reservado para os dias de festa e para as pessoas mais importantes. A comunhão como algo corrente e que até pode ser diário, a comunhão de crianças,… é tudo recente na Igreja. E não deixou de ser considerado mais um abandalhamento da Igreja pelos conservadores de cada altura.

5. Concordo com a Daniela: a Igreja não pode comprometer as suas verdades fundamentais para agradar ao mundo. Sucede que para mim as verdades fundamentais são a vida, a morte e ressurreição de Jesus (por sinal a tradição oral mais antiga de todas do cristianismo) e o amor e a misericórdia de Deus. Segundo o post da Daniela, a verdade fundamental presume-se serem o catecismo e a lista dos que podem comungar.

6. A Igreja é e deve ser diversa. Mais uma vez, foi diversa desde o início: adotou quatro evangelhos, por vezes contraditórios entre si, com tons, objetivos e ênfases muito diferentes. É por se entender que há diferentes vocações, que há serviços muito diferentes, que a Missão de uma pessoa é diferente de outra que há variadíssimas ordens religiosas e opções para os leigos. Como qualquer pessoa que olhe para o mundo e para a Igreja vê, há uma infindade de formas das pessoas serem tocadas – e se deixarem tocar – por Deus. Há quem goste de terços, há quem reze a tocar guitarra, há quem reze em retiros no meio da natureza (i.e., da Criação), há quem se aproxime da Igreja para fazer ação social ou voluntariado e não tenha sequer preocupações espirituais, há os mais marianos e há os que não toleram o marianismo (eu, por exemplo), há os que vão à missa para serem vistos e para socializarem, etc., etc., etc.. Há quem queira ‘cuspir em cima dos pecadores’, quem não sendo casado julgue as dificuldades dos casamentos falhados, quem não tendo filhos bote opinião sobre o número de filhos que os outros devem ter, quem perante um doente psiquiátrico que se suicida se escandalize com a desobediência a Deus sem sequer conseguir ponderar o sofrimento e a diminuição de liberdade que uma pessoa assim tem. A todos a Igreja tem de ter formas de acolher. (Um amigo jesuíta mandou-me, a propósito do meu texto, um dito madrileno: quando se quer confessar pecados sexuais, vai-se aos jesuítas; quando se quer confessar pecados sociais, vai-se à Opus Dei.) Foi Deus que criou tão grande heterogeneidade de seres humanos, pelo que a função da Igreja não é corrigir este erro de Deus e uniformizar o mundo. Isso fica para fé ateias como o estalinismo e o comunismo.

7. O perdão de Deus não pressupõe nenhuma mudança de atitude. O pródigo voltou porque tinha fome, não porque estava arrependido e em lado nenhum se afirma que aceitaria de futuro as regras do pai. Mas o pai correu a buscá-lo logo que o viu, antes de lhe exigir desculpas ou justificações. Foi o pai que correu. Lamento, não fui eu que escrevi. A ovelha que o pastor foi buscar também ninguém sabe se não foi buscada a contragosto. Zaqueu foi chamado por Jesus, que se fez de convidado para casa dele e tudo, antes de Zaqueu decidir mudar de vida. O bom ladrão não teve de fazer mais do que dizer que Jesus era inocente para se salvar. A seguir sabemos lá se não pensou ‘este gajo é um tanso que está crucificado e ainda acha que salva alguém’. O perdão de Deus é prévio ao arrependimento. É um dom gratuito de Deus.

8. O próprio pecado não é um ato em si que seja mau, pelo que falar em pecado implica sempre falar da circunstância do pecador. Um ato que seja um mal pode não ser sequer pecado. Para haver pecado é necessário que haja inteira liberdade da pessoa para poder escolher agir de outra forma e que haja inteira consciência na dita pessoa do mal que se está a causar. Também não fui eu que inventei.

9. A ideia do que é o catolicismo segundo o que está no post da Daniela não me pode provocar maior discordância. Acho eu que deveriam estar fora da Igreja quem assim pensa? Não – e, de resto, que enorme arrogância teria eu de ter para me considerar habilitada a ditar quem e como deve procurar a Igreja e nela permanecer – acho ótimo que esteja dentro. Nem vejo que se trate de um catolicismo mais exigente, o apresentado no post; toda a gente sabe que o Amor e a Misericórdia são exercícios muito mais difíceis do que o julgamento e a exclusão. Parece-me mais um catolicismo que rebaixa a fé a um mero código de conduta. Em qualquer caso fico feliz que esteja dentro da Igreja porque estou certa que Deus saberá dar uso a este tipo de fé para a tornar em bem.

(Num registo muito diferente do meu e muito mais cauteloso, ainda que evidentemente constantando que o caminho é o da Misericórdia, leia-se o post do João Távora.)

6 pensamentos sobre “Deve a Igreja preferir a facilidade do julgamento ou a enorme dificuldade do Amor e da Misericórdia?

  1. Maria João, excelente.

    Por ter comentado no post da Daniela Silva umas ideias semelhantes às suas, mas de uma forma mais ligeira e menos estruturada (e reconheço, menos polida), o meu comentário foi identificado como um “atentado à inteligência” e fui ameaçado de ser “eliminado”.

    Com fanáticos religiosos não vale a pena debater.

  2. Fernando

    Maria João: deixe-se de escrever, mesmo com a ajuda dos jesuítas (dançarinos sem duas células cinzentas ou não), sobre o que não sabe. Ok? Dedique-se ao que domina e, assim, não cairá no ridículo.

    Pela sua lógica não há verdade nem amor que sejam objectivos (onde é que já ouvimos isso? no relativismo amoral, evidentemente) e acaba-se por identificar o amor com o “tudo é admissível”. Mas não é. O amor, e o perdão misericordioso que dele decorre, é a realidade mais exigente que existe e separa o que é admissível do que é inaceitável. Deus está sempre disposto a perdoar, mas tal perdão não é efectivo em todas as circunstâncias: requer a aceitação do mesmo enquanto realidade subordinada à aceitação de Deus como Deus (amorosamente justo).

    Quer um quilómetro de citações bíblicas? (aquelas que os jesuítas ignoram ostensivamente para agradar à turba) Mt. 7,13; Mt. 13,40; Mt. 18,8-9; Jd 1,14-15; 2Pd. 3,7; 2Pd. 3,16; Hb. 2,2-3; Ef. 5,6; Gal. 6,8; etc.; etc.; etc.

  3. Pedro S

    Maria João, não me parece que hoje em dia o julgamento da Igreja sobre o divórcio venha de qualquer tipo de “facilidade de julgamento”. Pelo contrário, o mais fácil seria aceitar o zeitgeist e recusar-se a criticar.

    Existem de facto situações dramáticas de pessoas que foram abandonadas pelo cônjuge. Nesses casos, convém lembrar que faz parte da essência do Sacramento a configuração do amor conjugal com o amor de Deus pelo Seu povo. Tal como Deus não esquece a Sua promessa de fidelidade só porque o povo o abandona uma e outra vez, também aquele que contrai Matrimónio deve estar consciente que ao fazê-lo se está a comprometer a ser imagem dessa fidelidade a toda a prova. Provavelmente o que faz falta é reconhecer-se que o Sacramento do Matrimónio é extraordinariamente exigente, e se calhar não é para toda a gente: quando se pede o Sacramento do Matrimónio, está-se também a prometer fidelidade “na alegria e na doença […] todos os dias da nossa vida”, independentemente do mérito presente ou futuro do cônjuge, da sua fidelidade ou presença.

  4. Maria João Marques

    Fernando, evidentemente de temáticas do Amor, e pelo que se vê do azedume com que fala dos jesuítas, não entende nada. É uma limitação sua, há que aceitá-la. Nunca dei por que os jesuítas censurassem o que fosse dos Evangelhos. Em todo o caso, ‘turba’ são as pessoas que Deus criou e ama tanto quanto a si e que quer dentro da sua Igreja. Lamento que lhe desagrade.

    ‘também aquele que contrai Matrimónio deve estar consciente que ao fazê-lo se está a comprometer a ser imagem dessa fidelidade a toda a prova. Provavelmente o que faz falta é reconhecer-se que o Sacramento do Matrimónio é extraordinariamente exigente, e se calhar não é para toda a gente’
    Isto é uma graçola, certo? Bem, eu proponho que se crie a medalha dos bons e justos, Vv. recebem-na, ostentam-na, são reconhecidos como os puros, ficam felizes e deixam a Igreja para as pessoas comuns e não alucinadas, pode ser?

  5. luis

    Antes do mais queria dizer-lhe que não sou julgador de ninguém. Sou um pecador (com toda a naturalidade e sem que isso abale a minha autoestima de quem se sabe filho de Deus), alguém que falha muitas vezes, mas que sente que a misericórdia de Deus me pode levar, se eu quiser – e repito, se eu quiser – a procurar melhorar todos os dias, bem sabendo que no dia seguinte posso voltar a errar outra vez.
    E lido muito bem com o facto de poder haver pessoas de outras religiões, ou sem religião, que são muito mais “bons católicos” do que eu. Isso para mim é evidente, basta que amem mais e melhor do que eu: amem a Deus diretamente ou amem a Deus através do amor ao próximo.

    Gostaria, no entanto, de comentar algumas das suas frase, pois parece-me erradas e até de alguma forma limitadoras da nossa liberdade, perante um Deus que está sempre disposto a perdoar:

    “O perdão de Deus não pressupõe nenhuma mudança de atitude”:
    Esta frase parece-me errada. Se Deus me perdoar e eu não quiser perdão, esse deus não respeitaria a minha liberdade. É evidente que o perdão de Deus, como qualquer perdão, pressupõe que o perdoado queira ser perdoado. Outra coisa é a disponibilidade de Deus para perdoar. Essa sim, é um pressuposto e é permanente. É até prévia ao meu arrependimento, pois é, na verdade, eterna.

    “O pródigo voltou porque tinha fome, não porque estava arrependido e em lado nenhum se afirma que aceitaria de futuro as regras do pai”:
    Esta sua frase é, a meu ver, contrariada pela parábola, que diz “Pai, pequei contra o céu e diante de ti: já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros”. Há um manifesto reconhecimento do erro, erro que (comportamento errado do filho) é evidente para todos e a final também se tornou evidente para o filho. E não se diga que o problema foi a fome: a fome foi uma consequência dos seus erros, que o fez lembrar-se da felicidade em que antes vivia. Assim como nós, quando fazemos algo que não está certo, isso também nos faz fisicamente mal, emocionalmente mal. Ao contrário, quando temos uma atuação caridosa, por exemplo, sentimo-nos bem e não o fazemos para, egoisticamente, nos sentirmos bem.

    “O bom ladrão não teve de fazer mais do que dizer que Jesus era inocente para se salvar”:
    Esta sua frase está também errada, com o devido respeito, pois o ladrão diz algo mais importante do que dizer que Jesus era Justo: “Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam…». Ou seja, reconhece que o seu castigo é resultado da justiça aplicada à sua atuação social. Este reconhecimento é que leva, se bem percebo, Jesus a responder-lhe da forma como respondeu. Esta frase do bom ladrão é a sua tomada de consciência de que fez mal e a sua abertura ao perdão que Deus sempre está disposto a dar-lhe.

    Termino no sentido do que comecei. As diferentes “tendências” da Igreja são, a meu ver, uma enorme riqueza. Mesmo o que a Maria João refere sobre a “confissão perante Jesuitas” e a “confissão perante padres do Opus Dei” é para mim uma riqueza: cada um pode escolher o caminho com que mais se identifica e até escolher vários caminhos ao longo da vida, conforme as suas circunstâncias.
    O que eu não gostaria de ter era um deus que me obrigasse a ser perdoado, pois isso limitaria a minha liberdade, incluindo a liberdade a viver as consequências do que faço (boas ou más). Um deus que me impusesse um perdão que eu não quero não é um deus, é um ditador.

    Com sinceridade e com o gosto que tenho em ler o que escreve – mesmo quando discordo – parece-me que a Maria João exagera na sua posição e que relativiza o bem e o mal, como se o bem não tivesse consequências (para mim e para os outros) boas e o mal não tivesse consequências (para mim e para os outros) más.

    Não vou comentar mais sobre a questão dos recasados, etc, para não me alongar, mas é evidente que o fim de um casamento é um insucesso. Agora, isso não quer dizer que um recasado ou divorciado é manos “bom católico” que um católico, pois acredito que somos olhados por Deus tendo o Amor como medida e, portanto, os nossos insucessos também são vistos por Deus à luz do Amor.
    Cumprimentos

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