Falemos de desigualdade (4)

A ideia neste post de comparar os níveis de bem-estar do Zé e do Vasco com os dos seus avós não foi o de demonstrar a tendência secular de crescimento económico e a forma como afecta todos positivamente, pobres e ricos. Essa é uma questão importante, mas não o ponto fundamental do post.

O principal ponto deste post foi o de, assumindo que efectivamente a desigualdade no nível de rendimentos aumentou, tentar saber se isso se converteu numa efectiva diferença nos níveis de bem-estar. O gráfico em baixo explica melhor este ponto. No eixo horizontal está o nível de rendimento e no eixo vertical o nível de bem-estar.

desigualdade

Será mais ou menos consensual que o aumentos de rendimento têm retornos marginais decrescentes em termos de bem-estar. É irrelevante para esta discussão discutir se o formato da curva é exactamente este ou a definição de “bem-estar”, mas parece-me que o conceito da curva será intuitivo para todos. Partindo do pressuposto que todos concordam, em termos gerais, com a localização dos pontos na curva a questão que se coloca é: será que o aumento das desigualdades de rendimento nas últimas décadas é assim tão importante na vida das pessoas como os números apontam?

Sobre este tema:
Falemos de desigualdade, no Observador
Falemos de desigualdade (2)
Falemos de desigualdade (3)

23 pensamentos sobre “Falemos de desigualdade (4)

  1. jo

    Parte de um princípio errado. A curva mede algo não mensurável utilizando métodos que ninguém conhece.Tanto poderia ser essa como outra qualquer.
    O Zé começa a ser um grande privilegiado no mundo de hoje, tem emprego e o suficiente para comer. Os que estão verdadeiramente por baixo não têm essa sorte. Vivem numa sociedade concebida para aumentar o bem estar marginal dos ricos (palavras suas) à custa da fome dos outros.
    O seu argumento lembra-me aquelas pessoas que fazem uma aldrabice, ficando com mais do que deviam, e quando são confrontadas respondem qualquer coisa como: “ele não precisa que eu lhe pague tudo o que lhe devo porque até vive bem”.

  2. Daniel

    Continuo a achar que o Carlos não pode assumir que a curva seja essa. Nem assumir que a definição de bem-estar, numa dada época, é algo transversal a toda a humanidade. Para isto relembro um individuo que apareceu na televisão à uns tempos a defender que 1500 euros de reforma era uma miséria. E não tenho dúvidas que para ele seria. Para o Carlos (e para mim) já não é.

    De qualquer forma vou partir do seu pressuposto. De acordo com o que apresenta, claro que a diferença se esbate. Está no gráfico (que uma vez mais, é o ponto mais discutível). Por isso lhe pergunto, se o Zé se aproximar do Vasco ( e vice-versa) ao ponto de conseguir criar emprego e investimento, por mais mínimo que seja, o Vasco vai notar diferença na sua vida? Não me parece. Já o Zé deverá notar bastante. Outra questão, qual seria a vida do Zé se a diferença de rendimentos se tivesse mantido? É por isso que se discute a desigualdade.

  3. Gosto muito desses argumentos de “não é mensurável” portanto baseamo-nos no meu feeling do que é justo ou não. Feeling esse que tem uma interpretação de medida subjacente. Não percebe a falácia?

  4. Também gosto do pretexto de que o gráfico é discutível mas não avançar alternativa. Se é discutível deveria haver alternativa óbvia. O ponto não é uma curva “científica”, impossível de determinar, mas o princípio lógico (retornos decrescentes).

  5. manuel branco

    Não sendo economista deixo uma pergunta: o gráfico tem pressupostos metdológicos? investigação feita? é baseado em estudos desnevolvidos onde e por quem?

  6. Fernando S

    As desigualdades de rendimentos e patrimonios aumentaram no longo prazo.
    Por sinal, o nivel geral de bem-estar geral também.
    A pobreza e a marginalidade absolutas diminuiram em %. A esmagadora maioria da população é hoje “classe média”. O numero de “milionarios” aumentou significativamente.
    Em paralelo, as diferenças de modos de vida, de estatutos sociais, de acessos a bens e serviços que contam na vida do dia a dia, diminuiram consideravelmente. As desigualdades “sociais” são hoje bem menores do que eram há um século.
    Um dos indicadores utilizados para ilustrar o aumento das desigualdades é, por exemplo, a % da riqueza total concentrada no 1% dos mais ricos e nos 20% mais pobres. Esta diferença é impressionante e tem aumentado com o tempo.
    Mas este tipo de indicador não tem qualquer relevancia em termos do que é o nivel de bem-estar da população em geral. Incluindo os 20% mais pobres. Isto já foi muitas vezes explicado.
    Mas também não nos diz absolutamente nada quanto ao que se passa com os restantes 79% das pessoas, quanto às desigualdades, tanto as de rendimentos e patrimonios como as “sociais”, relacionadas com os modos de vida.
    Na verdade, o aumento absoluto e relativo do que se convencionou designar por “classes médias” foi de par com o aumento das desigualdades de rendimentos e patrimonios no seio destas mesmas “classes médias”.
    Por exemplo, descartando o 1% dos “magnates multimilionarios”, a esmagadora maioria dos novos “milionarios” sairam das “classes médias” e fizeram-no basicamente a partir do respectivo trabalho e, complementarmente, da aplicação das poupanças obtidas com esse trabalho. De resto, estatisticamente não integraram o 1% dos mais ricos e, em termos de modos de vida, permaneceram “classe média”. Por exemplo, milhares de desportistas de alto nivel podem ganhar milhões mas não deixaram por isso de ser “classe média” (“alta”, soi dizer-se para os distinguir das vendedoras de boutique de um centro comercial, que é “baixa” – de resto, muitos dos primeiros até arranjaram namoradas nalgumas das segundas.).
    Ou seja, se quizermos aprofundar a questão das desigualdades de rendimentos e patrimonios e o respectivo impacto sobre as desigualdades “sociais” em geral, muito mais do que olharmos para o que se passa com a concentração da riqueza nos 1% dos mais ricos e com a situação dos 20% dos mais pobres (diga-se de passagem que há um século os 20% mais pobres tinham uma % muito menor da riqueza total – mas não é isto o que importa aqui), interessa ver o que se passa ao nivel das pessoas que integram as “classes médias” (incluindo o Zé, empregado de mesa, com carro e casa propria a pagar empréstimo ao Banco) e que, na generalidade, são o que se costuma designar por “trabalhadores” (o Cristiano Ronaldo, o Director Financeiro de uma empresa, o Vasco, socio principal num gabinete de advogados, etc, etc, tudo gente que está muito bem na vida, também são “trabalhadores”).
    Resumindo ainda mais e cortando a eito porque não dá para estender mais : a questão das desigualdades não tem nada a ver com as estatisticas relativas à repartição dos rendimentos e dos patrimonios entre “o capital” e “o trabalho” !!

  7. Daniel

    Quer uma alternativa, Miguel? Muito bem. Dependendo das pessoas a quem perguntar, o Zé pode estar acima ou abaixo do avô do Vasco em relação ao bem estar. A curva pode ser mais pronunciada entre o Zé e o Vasco e menos entre os avôs. Se corrigirmos os rendimentos à inflação actual, o Zé pode até ficar atrás do avô do Vasco.

    O principio dos retornos decrescentes é que o Miguel levantou é outra razão para discutir as desigualdades.

  8. Vamos admitir o gráfico como uma hipótese de trabalho. Ocorrem-me cinco notas:

    1. Embora o logaritmo seja uma função monótona, há leituras muito diferentes consoante se aplique uma escala linear ou logarítmica nas abcissas, nas ordenadas ou em ambas.
    2. As sensações são tipicamente representadas grandezas logarítmicas, o que contribuirá para esticar o gráfico das ordenadas, transformando-o quase numa esquina em ângulo recto.
    Como exemplos, os ruídos medem-se em decibel (dB) que é uma escala logarítmica e a maior parte das pessoas concordará que acender uma segunda vela num castiçal que só tem uma vela acesa contribui mais para a sensação de iluminação o que acender a quarta, ou a quinta vela nesse castiçal.
    3. As pessoas são muito mais sensíveis ao mal-estar do que ao bem estar. Do ponto de vista numérico é indiferente e graficamente também é pouco significativo, mas a percepção é muito diferente. Isto é constatado a título pessoal: as pessoas não se sentem bem quando estão saudáveis mas sentem-se mal quando estão doentes e económico: uma pessoa com o mesmo rendimento per capita em paridade de poder de compra em 2014 ou em 2004 sente-se muito pior agora, porque desceu o seu rendimento face ao passado.
    As pessoas são mais sensíveis às variações de estado do que aos estados.
    4. Num mercado aberto em que se procura minimizar a assimetria de informação as diferenças de bem-estar são amplificadas pela comunicação e pela percepção de ranking/comparação. É isso que explica a corrida aos novos gadgets da Apple quando se pode obter mais de 95% das mesmas especificações técnicas com um produto de uma marca branca por menos de um quarto do preço (quem disse que os agentes económicos são racionais ? 😉 ). É também isso que explica que o nº 1 de uma prova olímpica tenha a glória assegurada e o nº 4 dessa mesma prova, que excederá o percentil 99,99….% da população nessa competência/actividade só será heroi para a sua família, sendo esquecido de todos os outros.
    5. Se o ganho marginal de bem-estar tende para zero com o aumento de rendimento, então justificam-se taxas de imposto sobre o rendimento marginais de 100% na medida em que a perda de bem-estar é negligenciável e tende para zero para a população de rendimento mais elevado enquanto esse mesmo rendimento trará ganhos de bem estar significativos para os demais. É essa a aplicação óptima global dos rendimentos disponíveis.

    Seria esta a conclusão procurada?

  9. jo

    Apresentou um gráfico sobre uma grandeza que não sabe medir, nem definiu sequer.
    Quando confrontado com o facto, exige que quem o critica faça esse gráfico, se não a crítica não é válida.
    Tem razão: há aqui uma idiotice qualquer.

  10. «Se o ganho marginal de bem-estar tende para zero com o aumento de rendimento, então justificam-se taxas de imposto sobre o rendimento marginais de 100% na medida em que a perda de bem-estar é negligenciável e tende para zero para a população de rendimento mais elevado enquanto esse mesmo rendimento trará ganhos de bem estar significativos para os demais. É essa a aplicação óptima global dos rendimentos disponíveis.»

    Para dizer isto tem de aceitar alguns pressupostos:
    1) O rendimento de uma pessoa não é dela mas antes de todos.
    2) Os impostos sobre o rendimento não se destinam a pagar os gastos do estado, mesmo que sejam progressivos, mas antes a atribui bem-estar às pessoas independentemente do seu trabalho e contexto de vida.
    3) Não há discernimento individual no investimento, pelo que reduzir os incentivos ao enriquecimento não terá impacto na economia.

  11. hustler

    Mais uma vez ha um detalhe (importante) na analise das desigualdades, aonde fica a mobilidade social? E mais que obvio que o nivel de bem estar absoluto aumenta de um periodo para o outro, mas e a mobilidade sodcial? Gostava muito que o CGP apresentasse um grafico mobilidade social vs rendimento, ai veriamos o seguinte, a movimentacao da posicao do Ze estaria abaixo da posicao do seu avo, inversamente o Vasco estaria acima do seu!
    Isto levanta a seguinte questao: e licito que a sociedade “impeca” a ascencao social ao aumentar o hiato de rendimentos (independentemente do aumento do bem estar absoluto) dos estratos sociais? E moralmente aceitavel que o Ze nao possa aspirar aos mesmos bens e estatuto social que o Vasco (no caso de ter potencial para isso)? Deverao os Zes deste mundo resignarem-se a sua condicao social apenas por nao terem nascido num berco de ouro?
    Nao acha que esta analise das desigualdades peca pela omissao da mobilidade social?

  12. Fernando S

    almofala em Outubro 23, 2014 às 14:04 disse:
    “… as diferenças de bem-estar são amplificadas pela comunicação e pela percepção de ranking/comparação. É isso que explica a corrida aos novos gadgets da Apple quando se pode obter mais de 95% das mesmas especificações técnicas com um produto de uma marca branca por menos de um quarto do preço (quem disse que os agentes económicos são racionais ?”

    E quem é que diz que “a percepção de ranking/comparação”, seja ela influenciada pela “comunicação”, não entra na avaliação (subjectiva, naturalmente) do “bem-estar” de cada consumidor ??…
    O almofala tem uma medida objectiva e universal do que são as “reais” (não “amplificadas pela comunicação”) “diferenças de bem-estar” ??…
    O “racional” num agente economico é procurar e pagar o preço correspondente àquilo que “percepciona” como sendo a sua preferencia … e não fazer algo de diferente porque tem a consciencia de ser um estupido “irracional” !!

  13. Andre

    Continuam a discutir o que não é importante.

    Obviamente que a variável bem estar não é mensurável, até porque difere de pessoa para pessoa.

    Mas qualquer pessoa com 2 dedos de testa e um pouco de humildade intelectual consegue ADMITIR que o nível de bem estar vai tendo aumentos decrescentes nos meus exemplos abaixo:

    – Uma pessoa sem dinheiro para comer recebe uma refeição (Haverá aumento de bem estar maior do que este?)
    – Uma pessoa que não tenha teto e passe a ter.
    – Uma pessoa que mora a 30Km de Lisboa (Sem ser Cascais!), que não tenha carro e tenha de vir para Lisboa todos os dias de BUS/Comboio e depois Metro/CARRIS. São 3 horas de viagem por dia. Passa a ter um carro. Passa a hora e meia de viagem por dia.
    – Uma pessoa de Lisboa que tenha carro mas que para evitar o transito compra uma mota
    – Um casal de classe média alta que compra uma casa no algarve para férias
    – Um casal rico que tem casa em Lisboa, Cascais e Vale do Lobo e compre um Iate na marina de Vilamoura
    – O Roman Abramovich que compra um clube de futebol, o maior Iate do mundo e o avião particular mais rapido do mundo. Isto por exemplo já é brincar ao monopólio e ao Championship Manager.

    Estes conceitos podem diferir de pessoa para pessoa (eu por exemplo talvez preferisse a casa no algarve do que à mota!) e por isso é que no quadril mais avançado estas diferenças são cada vez menores.

    O conceito que o Carlos tenta abordar parece-me muitissimo bem pensado e acertado.

    Isto não invalida que qualquer pessoa tenha o direito de ter o que quiser. Ter o direito tem, muito provavelmente não vai é conseguir ter. Porque não existem nem existirão nunca 7Mil Milhões de Iates no mundo inteiro.

  14. Lucas Galuxo

    Estou com o almofala. Este gráfico mais parece pretender justificar taxas marginais de IRS de 100%. Não serve.

  15. Rafael Ortega

    “Porque não existem nem existirão nunca 7Mil Milhões de Iates no mundo inteiro.”

    Fásssssssiiiissssta!!

    😉

  16. hustler

    “Isto não invalida que qualquer pessoa tenha o direito de ter o que quiser. Ter o direito tem, muito provavelmente não vai é conseguir ter. Porque não existem nem existirão nunca 7Mil Milhões de Iates no mundo inteiro.”, a questao aqui nao e toda a gente ter um super iate, a questao e condenar o estatuto e sucesso a nascenca! Porque e que alguem que nasce pobre nao pode aspirar a ser rico? O direito ao berco de ouro tambem e um “direito adquirido”? por este andar ainda metem isso na Constituicao!

  17. Fernando S

    hustler em Outubro 23, 2014 às 16:11 disse:
    “um grafico mobilidade social vs rendimento, ai veriamos o seguinte, a movimentacao da posicao do Ze estaria abaixo da posicao do seu avo, inversamente o Vasco estaria acima do seu!”

    Esta conclusão do hustler é no minimo discutivél.
    Mesmo pegando no exemplo do post, o Zé, empregado de mesa, não estaria hoje provavelmente com um estatuto social abaixo do do Avo, eventualmente trabalhador rural no Alentejo, e o Vasco, socio num gabinete de advogados, não estaria hoje forçosamente com um estatuto acima do do Avo, eventualmente professor de zoologia na faculdade de ciencias em Lisboa.
    Generalizando, o que as estatisticas mostram é apenas que a mobilidade social é menor nas sociedades onde a desigualdade de rendimentos é maior e inversamente. Seria de admirar que não fosse assim.
    Mas considerando a evolução no tempo, a mobilidade social ascendente e descendente tem aumentado e é cada vez menos limitada pelas desigualdades de rendimento e patrimonio.
    Retomando o exemplo, o Zé e o Vasco até poderiam ser hoje colegas como professores dos liceus !…

  18. Breves respostas às respostas:
    Miguel Botelho Moniz em Outubro 23, 2014 às 15:26
    1) O rendimento de uma pessoa não é dela mas antes de todos.

    Se é possível fazer bem a algumas pessoas causando uma mau-estar negligenciável, tendencialmente nulo a todas as outras pessoas, seria tolice deixar de fazer esse bem. Note-se que o que o gráfico parece indicar é que a perda de rendimento não causa mau-estar nos indivíduos de mair rendimento. O povo tem uma expressão para isso: “ganha tanto dinheiro que nem sabe o que fazer com ele”.
    2) Os impostos sobre o rendimento não se destinam a pagar os gastos do estado, mesmo que sejam progressivos, mas antes a atribui bem-estar às pessoas independentemente do seu trabalho e contexto de vida.
    Não há fim mais nobre para as receitas públicas do que atribuir bem-estar. É essa a definição de “welfare”. Não há no meu texto correlação ou independência da promoção do bem-estar com o trabalho e contexto de vida, logo esta leitura é enviesada.
    3) Não há discernimento individual no investimento, pelo que reduzir os incentivos ao enriquecimento não terá impacto na economia.
    O post trata de bem-estar e não do impacto na economia. Desde as mais estafadas citações de Adam Smith que se postula que a motivação para a excelência é o interesse egoísta do indivíduo e não o bem genérico da economia. Logo, se um indivíduo saturar a sua capacidade de sentir mais bem estar, raramente* se preocupará com a economia.
    Fernando S em Outubro 23, 2014 às 16:20 disse:
    Concordo que a percepção é subjectiva mas a importância da comunicação é fundamental na projecção das expectativas. Voltando ao exemplo dos posts, o Avô do Zé só conhecia o mundo num raio de 10km por isso o maior rendimento era limitado aos rendimentos disponíveis nesse raio. Hoje o Zé ouve na televisão os rendimentos do Tiger Woods, do Carlos Slim e dos operários no Bangladesh. Portanto, a diferença de rendimento potencial entre ele e as suas metas aspiracionais aumenta muito e, esse fosso de expectativas pode transformar-se em frustração ou agressividade, como foi relatado sobre os ataques às Tuilleries em 1789 e aos palácios de Moscovo e Sampetersburgo em 1917
    O gráfico objectivo do bem estar é difícil de fazer. Mas pensando um pouco, parece-me que o Índice de Desenvolvimento Humano é uma boa aproximação. Se procurarmos num motor debusca por “HDI to GDP per capita PPC chart” ou algo semelhante encontramos


    ou isto

    e temos uma sensação de déjà vu. Estas medidas já são mais objectivas embora não estejam isentas de críticas (cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Human_Development_Index#Criticism) e proponho ao CGP que use esta formulação como alternativa ao Bem-Estar.

    *Os recentes donativos de Warren Buffet e outras pessoas milionárias para a Fundação Gates parecem ser um exemplo notável de excepção, pois essas pessoas, percebendo que lhes faltava a capacidade de se sentir melhor ofereceram a parte “sobrante” do seu rendimento e património.

  19. hustler

    “Mas considerando a evolução no tempo, a mobilidade social ascendente e descendente tem aumentado e é cada vez menos limitada pelas desigualdades de rendimento e patrimonio.”, pois, e qual e a explicacao para este fenomeno? Transferencias sociais em especie via impostos! Voltamos ao ponto de partida, a mobilidade social so e alcancada se houver igualdade de oportunidades e para isto acontecer tem que haver acesso a uma educacao universal, bem como saude e justica! Donde vem o financiamento para isto? Dos impostos!
    Daqui se conclui o seguinte, das desigualdades proveem menos impostos, logo menos transferencias sociais, consequentemente menos servicos publicos (com qualidade) universais!
    Menos servicos publicos de acessibilidade universal, menos igualdade de oportunidades e menor mobilidade social!

  20. Joaquim Amado Lopes

    almofala,
    “Se o ganho marginal de bem-estar tende para zero com o aumento de rendimento, então justificam-se taxas de imposto sobre o rendimento marginais de 100% na medida em que a perda de bem-estar é negligenciável e tende para zero para a população de rendimento mais elevado enquanto esse mesmo rendimento trará ganhos de bem estar significativos para os demais. É essa a aplicação óptima global dos rendimentos disponíveis.”
    O que está a dizer é que, se o agregado familiar do almofala tiver 6 individuos cada um com automóvel próprio, é justo que lhe tirem 5 desses automóveis para os entregar a 5 famílias que não tenham automóveis. O mesmo acontecendo a novos automóveis que o almofala venha a comprar para o seu agregado familiar.

    Se o almofala quiser partilhar tudo aquilo que é seu e que daria mais jeito a outros do que lhe dá a si esteja à vontade para o fazer mas, pelo que me diz respeito, só eu posso decidir a falta que me faz aquilo que me tentarem roubar e só eu devo poder decidir se partilho ou não o que é meu.
    Não há injustiça nem hipocrisia maior do que alguém pretender decidir o que é “justo” fazer com o que não é seu.

  21. Andre

    Hustler se reparar no meu comentário eu afirmei que qualquer pessoa tem o direito de ter o que quiser. Qualquer pessoa pode e deve aspirar a ser rico. Mas nem todos podem sê-lo, é um facto! Eu quero ser, estou a tentar, mas quem sabe??

    Mas o que é o direito de posse? Para mim é ter liberdade de trabalhar juntar dinheiro e comprar um certo bem. Ou seja, tem direito a tê-lo, se, digamos, trabalhar por o merecer. Nada cai do céu!

    E isso do berço de ouro à nascença, considero um principio errado.

    Se os meus antepassados foram mais poupados, mais visionários, mais trabalhadores, ou mais sortudos, que os seus antepassados e me deixaram mais do que a si, isso quer dizer que tenho de dividir consigo para partirmos em pé de igualdade?

    Isso não é deitar por terra o esforço, a visão, ou mesmo a sorte que algumas pessoas tiveram antes?

    Não acha que se essa mentalidade prevalecer, os valores que deixo ao meu filho, por exemplo estudar para ser bom, trabalhar para viver sem preocupações, entre outros, não deixam de fazer sentido? O mérito, o esforço, não são valores para se preservar? Isto nivela as pessoas por baixo.

    Podemos também deixar (e deixo) a honestidade e solidariedade como valores centrais, mas nem todos vão para padres…

  22. Joaquim Amado Lopes em Outubro 24, 2014 às 02:36 disse:
    “O que está a dizer é que, se o agregado familiar do almofala tiver 6 individuos cada um com automóvel próprio, é justo…”

    1. Não escrevi nada sobre justiça, só sobre eficiência global na alocação de rendimentos em ordem ao bem-estar, que é o tema do gráfico: bem-estar em função do rendimento, ou na minha proposta alternativa, índice de desenvolvimento humano em função do rendimento.
    2. Presumo que o gráfico fale de indivíduos e não de agregados familiares.
    3. O que escrevi é que se conclui a partir do gráfico que para rendimentos elevados a importância perda dos rendimentos marginais é insensível / insignificante / negligenciável / tendente para zero (escolha a expressão que preferir).
    4. De qualquer modo, quer considerando um indivíduo, quer considerando uma família, poucas serão as pessoas que rejeitarão a conclusão que a perda do sexto automóvel é menos grave do que a perda do segundo automóvel ou, pior ainda, do único automóvel.

  23. hustler

    “E isso do berço de ouro à nascença, considero um principio errado.

    Se os meus antepassados foram mais poupados, mais visionários, mais trabalhadores, ou mais sortudos, que os seus antepassados e me deixaram mais do que a si, isso quer dizer que tenho de dividir consigo para partirmos em pé de igualdade?”, esta a ver isto pelo prisma errado, nao e voce que tem que dividir tudo, sao os mortos que tem devolver a sociedade o excesso de recursos acumulados, dai a razao de lhe chamarem “imposto dos mortos”. Os descendentes nao “produziram” qualquer capital, mas chamam a si essa heranca apenas atraves de um normativo legal (uma clausula na lei que defende os interesses corporativos dos progenitores em relacao a sua descendencia, em ciencias chamam-lhe darwinismo)

    “Isso não é deitar por terra o esforço, a visão, ou mesmo a sorte que algumas pessoas tiveram antes?” nao propriamente, qualquer legado pode continuar na presenca ou ausencia de descendentes!

    “Não acha que se essa mentalidade prevalecer, os valores que deixo ao meu filho, por exemplo estudar para ser bom, trabalhar para viver sem preocupações, entre outros, não deixam de fazer sentido? O mérito, o esforço, não são valores para se preservar? Isto nivela as pessoas por baixo.”, voce esta a confundir-se, o que voce realmente quer dizer e: os bens (em vez de valores), trabalhar para viver sem preocupacoes significa: deixar algum aos meus para que nao passem dificuldades (a sua frases sao a mais pura forma de darwinismo). O que acaba de dizer nada tem a ver com valores, merito e esforco, tem a ver apenas com herancas e capital! O merito e o esforco nao necessitam de capital para singrar (pois sao valores nao tangiveis), mas ao nao admitir isto tem medo que a sua descendencia possa nao vingar se nao tiver uma vantagem na casa de partida. Por outro lado, admite inconscientemente que nao acredita no colectivo, acha que a sociedade lhe tem o dever de lhe dar algo (saude, escolas, justica,etc.), mas acha que nao tem a obrigacao de contribuir de forma proporcional aos seus recursos!

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