Falemos de desigualdade (2)

O Vasco é sócio de um escritório de advogados. Ganha 40 mil euros por mês. Vive em Cascais e tem um património de 5 milhões de Euros. O Vasco é o 1%.
O Zé é empregado de mesa. Ganha 600 euros por mês e vive num apartamento alugado em Massamá. Tem duas semanas de salário no banco e uma dívida à Cofidis. O seu património é negativo. Está no topo do último quartil de rendimentos.

Depois de acordar, o Vasco tem à sua espera torradas e um sumo de laranja preparados pela empregada. Toma o pequeno almoço e chama o motorista que o leva até ao emprego. Enquanto espera no trânsito entretém-se com o seu iPad air e telefona aos seus amigos. Durante a manhã tem várias reuniões, interage com muita gente, clientes e empregados.
O Zé acorda, mete uma fatia de queijo num pão e come uma laranja. Sai de casa a tempo de apanhar o autocarro. Enquanto espera no trânsito, brinca com o seu android e troca mensagens no Whatsapp. Durante a manhã, interage com muita gente, clientes e colegas empregados de mesa.

Ao almoço, o Zé vai ao macdonalds. Por 4 euros come um hamburger, batatas fritas e uma coca-cola. Sai do trabalho às 6 e depara-se com uma greve no metro. Tem que caminhar 1 hora até à estação de autocarros mais próxima. Chega a casa às 7 e meia. Faz o download do episódio da sua série favorita e fica a vê-lo no seu computador que comprou usado por 150€.
Ao almoço, o Vasco vai ao restaurante mais caro da sua zona. Por 200 euros come um hamburger gourmet de carne de vaca argentina rodeado de 8 batatas fritas em óleo de coco, e uma coca-cola. Sai do trabalho às 6 da tarde e vai ao ginásio. O personal trainer recomenda-lhe 1 hora de walking. Chega a casa às sete e meia, senta-se em frente ao seu ecrã plasma e sistema de som e compra o episódio da sua série favorita.

O avô do Vasco ganhava bem: podia comprar meia dúzia de sardinhas todos os dias e tinha uma motorizada para ir para o emprego na cidade. Já o salário do avô do Zé só dava para 1 sardinha por dia. Quando não havia batatas, ia para o trabalho com fome. Como só tinha dinheiro para uma bicicleta, passou a vida num raio de 10 kms à volta de sua casa. O avô do Vasco tinha 6 pares de sapatos que usava todos os dias. O avô do Zé andava muitas vezes descalço para não estragar o seu único par de sapatos.

O Vasco ganha 70 vezes mais que o Zé. O avô do Vasco só ganhava 6 vezes mais que o avô do Zé. A desigualdade aumentou, dizem.

46 pensamentos sobre “Falemos de desigualdade (2)

  1. k.

    O que mudou para a desigualdade, no seu exemplo, ter saltado de 6 para 70?
    Se a sociedade está mais produtiva, a desigualdade devia ser razoavelmente estável, sendo a diferença de produtividade dos individuos a causa da desigualdade.

    É claro, poderá afirmar que está a comparar um advogado com um trabalhador genérico na “actualidade, e essa é a razão do diferencial de produtividade
    Mas então, teria de comprar um “advogado no antigamente” com um trabalhador do antigamente – senão o seu post é altamente falacioso.

    PS: Facto curioso sobre mobilidade social – é maior na Dinamarca ou na França, do que em Portugal ou nos EUA.

  2. Fernando S

    Em termos de modos de vida a desigualdade era bem maior entre os Avós dos Vascos e dos Zés.
    De resto, naquela altura, a condição efetiva das pessoas não decorria apenas dos rendimentos e dos patrimonios nas suas avaliações monetarias. Outros factores não monetarios eram determinantes, desde o estatuto e reconhecimento sociais até ao acesso efectivo à educação e à saude passando por um sem numero de traficos de influencias com impacto nas vidas do dia a dia. As pessoas mais velhas sabem bem que as desigualdades entre um Senhor Doutor e um operario nas cidades ou entre um grande proprietario e um campones nos campos eram muitissimo maiores e gritantes do que são hoje entre os mais ricos e os mais pobres.
    No fim de contas, as diferenças de patrimonios e de rendimentos são certamente factores de diferenciação mas não são completamente determinantes em termos de desigualdades sociais.
    Os mais ricos não “comem”, literalmente, os milhões que ganham e possuem. Quanto mais ricos são maior é a parcela que é acumulada e investida, isto é, que entra no circuito financeiro e économico e, no fim de contas, serve para criar empregos, produzir riqueza, distribuir rendimentos por muitos e muitos Zés e Franciscos.
    O caso paradigmatico é o do famigerado Bill Gates : é o homem mais rico do mundo mas vive como uma pessoa normal ; o seu patrimonio representa sobretudo capital que esta e é investido todos os dias na criação de emprego e riqueza fazendo viver melhor milhões e milhões de pessoas (não falo apenas dos empregados da Microsoft e dos beneficiarios das suas doações humanitarias). Medir a desigualdade comparando os 50 biliões (ou algo do género) do Bill Gates com o dollar do mais miseravel dos africanos é um exercicio sem qualquer sentido e utilidade.

  3. jo

    Levado esta lógica ao extremo, podemos dizer que não há mal nenhum em roubar alguém que seja rico.
    O Zé está melhor que o avô – logo não se pode queixar de desigualdade na divisão da riqueza, porque até tem algum dinheiro.
    O Vasco é rico – logo não se pode queixar se for roubado e ainda ficar com algum dinheiro.
    A lógica da batata dá para tudo.

  4. João de Brito

    O problema da desigualdade é grave, mas não é o pecado original da economia liberal e pode ser atenuado por uma política fiscal mais redistributiva.
    O pecado original da economia liberal é a competitividade.
    Este princípio, que ninguém parece pôr em causa, é uma espécie de imenso estádio olímpico, onde é obrigatório bater recordes todos os dias, sob pena de ficar desqualificado.
    Como o fator humano é considerado um dos principais custos, no limite, das duas uma (ou as duas):
    – os trabalhadores acabarão por ser escravizados;
    – o desemprego atingirá proporções inimagináveis!
    Solução?!…
    Muito simples:
    – Considerar os trabalhadores não como um custo mas como um investimento!
    Como o capitalismo valoriza e valora o investimento (o capital) a cima de tuto, estará salvo o género humano!
    No fundo, é isso mesmo: exigir que, à pessoa humana, seja dada a mesma importância que é dada ao capital.
    Será exigir muito?!…

  5. Miguel Noronha

    “Levado esta lógica ao extremo, podemos dizer que não há mal nenhum em roubar alguém que seja rico.”
    Porquê?

  6. João de Brito,

    O problema da desigualdade é secundário em relação ao problema da bastança. Os países comunistas tinham menos desigualdade do que os capitalistas (quando descontamos as ZiL e as dachas), mas a grande parte da população era igualmente miserável, esfaimada. Um pobre nos Estados Unidos viveu sempre melhor do que a classe média na União Soviética.

    Eu adoro ricos. Especialmente os que ganham tanto que não podem comer tudo. E como o dinheiro não vai para baixo de um colchão, reentra, como disse o Fernando, na economia. Só não gosto dos ricos que são ricos porque usam o poder do Estado para fazer e manter a sua riqueza, implicando injusto domínio e tolhendo o mérito dos potenciais concorrentes. Sei lá, como Fidel Castro ou o José Sócrates ou o Mário Soares ou o Jorge Coelhone ou toda a dinastia Kim.

    A desigualdade é reflexo de as pessoas serem diferentes desde o nascimento. Diferentes em talentos, em ambição e muitas vezes na sorte. A desigualdade não é um mal em si. A incapacidade de trilhar o caminho do enriquecimento é que é, e essa incapacidade deriva mais de regulamentos políticos e condicionamentos económicos que de outra coisa qualquer. As leis maximalistas e a ASAE mataram mais negócios em Portugal do que a dita má gestão. Impostos elevados, alvarás e taxas diversas, moderam o ímpeto de investir dos que têm ideias. Só para lhe dar uma ideia, um café tem de ter exposto vinte e tal papéis de vinte e tal entidades diferentes, todas regiamente pagas, apenas para poder funcionar.

    Quando o Estado tira aos ricos não dá aos pobres. Isso é parlapié de esquerda, mas não tem contraparte na realidade. O Estado dá o grosso do que colecta aos amigos, algo aos inúmeros desfuncionários, e uma migalha com uma lágrima ao canto do olho aos que acaba por manter pobres, pois dá-lhes a impressão que podem viver com pouco fazendo nada.

    O caminho para o enriquecimento está em o Estado sair da frente e deixar as pessoas prover por si próprias. Um rico que tenha enriquecido por honesto negócio terá de arrastar mais pessoas para a bastança. Poucos, se algum, são os ricos que enriquecem sós. Se assim não fosse, por que raio é que se fala em clusters industriais e em integração vertical e em push-pull? Porque é que se quer uma empresa terminal, de montagem (como a Auto-Europa), em Portugal?

  7. António

    Gostava de deixar a minha opinião mas ainda só vou nas primeiras 6 páginas do «Capital no século XXI» do Piketty. Será que o livro me ajudará a emitir a minha opinião ??

  8. Carlos Guimarães Pinto

    A questão não está tanto na melhoria de qualidade de vida. A questão está em saber se uma desigualdade material de 60x hoje tem o mesmo efeito que uma desigualdade material de 6x há menos de um século atrás.

    Ou, pensando um século à frente: se daqui a 100 anos o 1% for constituido por pessoas como Bill Gates e o 99% por pessoas como Zeinal Bava. A desigualdade material será bastante superior à actual. Será essa desigualdade algo com que nos devemos preocupar?

  9. Miguel Noronha

    Outro exemplo. Se amanhã o Bill Gates se mudar para Portugal a desigualdade aumentará brutalmente. E dái? Os pobres estarão mais pobres?

  10. João de Brito

    FMC,
    bom dia e um abraço!

    Honra-me que me tenha dirigido o seu comentário.
    Mas surpreende-me que esse comentário nada tenha a ver com o meu!…

    João de Brito

  11. João de Brito,

    Dirigi-lhe o comentário por ter dito que a desigualdade pode ser resolvida por uma política fiscal redistributiva. Opino que a distribuição não a resolve e que, pelo contrário, mantém os pobres na pobreza.

  12. Fernando S

    João de Brito em Outubro 22, 2014 às 11:21 disse:
    “O pecado original da economia liberal …. que à pessoa humana, [não] seja dada a mesma importância que é dada ao capital.”

    Esta ideia, repetida à saciedade, de que os liberais não dão importancia às “pessoas”, é um enorme mito criado e alimentado para efeitos de propaganda demagogica.
    Ninguém dá mais importancia às pessoas, aos individuos, do que os liberais. Tudo na visão do mundo dos liberais passa pelas pessoas, pelas suas condições, pelas suas preferencias e capacidades, pelas suas motivações e comportamentos, pelas suas funções, pelas suas contribuições e pelas suas retribuições no conjunto da sociedade.
    De resto, mesmo no que se refere ao conceito de “capital”, é sabido que para os liberais até o trabalho pode ser encarado e tratado como um “capital”, um “capital humano”.
    Não é preciso “exigir” nada !!

  13. Quanto ao dito factor humano, um investidor pensa em recuperar o seu dinheiro com um multiplicador qualquer maior do que um associado a essa recuperação. Um trabalhador é sempre um custo, e a formação de um trabalhador é que pode ser pensada como investimento. O enriquecimento de outros é um efeito colateral muito desejável e desejado do investimento, mas nem deve ser o essencial nem o mote.

    A minha prática profissional mostrou-me que poucos ou nenhuns patrões deixam de se preocupar com os seus trabalhadores. Muitos pagariam mais se pudessem, e admitiram-mo, mas sabe como é o código de trabalho: se aumentas o salário não o podes voltar a baixar, senão quando o ministro estiver de feição e o sol em zénite sobre o poço de Alexandria numa noite de Verão. O enriquecimento dos trabalhadores é tolhido pela prudência compreensível do empregador perante leis provindas do melhor que pôde reunir a estupidez das armas e barões assinalados nesta ocidental praia lusitana.

    Os trabalhadores que mais ganham são aqueles que, se saírem da asa do empregador, podem vir a fazer concorrência. Um advogado brilhante ou é feito sócio do escritório ou cria o próprio escritório e leva parte da clientela. De um empregado de mesa, nada se pode dizer: caem às dúzias ao se abanar a árvore.

  14. Fernando S

    João de Brito em Outubro 22, 2014 às 11:21 disse:
    “Considerar os trabalhadores não como um custo mas como um investimento!”

    Os trabalhadores não são um “custo” para ninguém. Muito menos para uma sociedade. As pessoas são “a sociedade”.
    O que são “custos” para as empresas são os salarios dos trabalhadores. Mas não são os unicos. O famigerado e vilipendiado “capital” também acarreta “custos” : o “custo do capital”, o valor da amortização, etc, etc. Não poderia ser de outro modo : produzir não é uma dadiva gratuita dos céus, tem custos, e por isso mesmo é que é indispensavel confrontar em permanencia os beneficios dos produtos com os custos da produção dos mesmos. Para ver se vale a pena e o que é efectivamente preferivel do ponto de vista dos destinatarios finais, as “pessoas”.
    Por sinal, as empresas também “investem” nas pessoas : por exemplo, quando gastam dinheiro com a respectiva formação.

  15. o Zé é rico. é empregado de mesa e dá-se ao luxo de ir comer ao McDonnalds… ou isto mudou muito ou, que eu saiba, normalmente os empregados de mesa comem nos restaurantes onde servem, faz parte do trabalho… se opta por deitar 88€ por mês (4×22) então e se calhar está onde as suas opções o levaram e não a desigualdade…

  16. Fernando S,

    As pessoas ainda não são sujeitas a amortização contabilística. 😉 Mas sim, são um custo, como o é o papel de fotocópia ou aa amortizações da máquina da produção. A palavra custo não tem de ser associada a mal nenhum. É necessário gastar dinheiro nas empresas para apresentar produtos e serviços que os clientes preferem. As pessoas fazem parte dessa estrutura de custos, e, bem visto, apenas existem nas estruturas de uma empresa bem geridas porque são consideradas essenciais e insubstituíveis para o processo de negócios.

    Lembro que quem anda com paninhos quentes para as «pessoas», e essa treta de estas não serem um custo, normalmente anda a sugerir programas de eternos estagiários ou empregos subsidiados pelo Estado e que, para além de serem um fardo injusto para a sociedade, desaparecem quando o estímulo que os justificava desaparecer.

    Se quisessem mesmo enriquecer Portugal acabavam com os alvarás e as licenças e as taxas municipais e os códigos de trabalho catarpácicos. Após um período de adaptação, retomaríamos o milagre económico português que, por alguma razão que não discirno no momento, acabou no ano fiscal de 1974.

  17. João de Brito

    Há um equívoco em tudo isto.
    Não sei quem criou o mito de que o que mobiliza a atividade humana é o lucro e a riqueza.
    A ganância nunca foi sinónimo de progresso. Pelo contrário.
    O que de facto faz o progresso é o talento.
    E o talento não se compra nem se vende.
    Passo explicar.
    O Cristiano Ronaldo não é o melhor do mundo porque ganha muito dinheiro: o Cristiano Ronaldo ganha muito dinheiro porque é o melhor do mundo. E é o melhor do mundo, porque nasceu talentoso e ama o que faz. Se, por hipótese, vivesse num mundo sem dinheiro, não tenho dúvidas de que continuaria a ser o melhor. Porque lhe está no sangue e na alma!
    Conclusão: o lucro e a riqueza não são necessários para mobilizar as pessoas, porque há outras motivações e outras compensações.

  18. Daniel Carrapa

    Um texto destes, de tão absurdo (ou mesmo estúpido), nem dá para discutir a questão de fundo da desigualdade. Mas fica o desabafo, para quem interessar.

    Primeiro ponto. A mim, de um investigador forense, pouco me importa se é de esquerda ou de direita. Interessa-me que faça a análise da realidade com base nos factos. E que se existir uma poça de sangue no chão, não ponha de lado a hipótese de ter havido um crime.

    Segundo. A questão da desigualdade não ocorre num lugar abstracto. Naquela espécie de território das fábulas para onde os liberais parecem querer levar a discussão, onde, havendo verdadeira igualdade de oportunidades, haverá sempre desigualdade, porque os mais capazes serão sempre mais beneficiados em relação aos menos capazes.

    Terceiro. A questão da desigualdade interessa discutir na realidade. E que realidade é essa? Façamos perguntas.

    Há uma alteração crucial do paradigma económico a partir da década de setenta que faz iniciar um processo de crescimento gradual e geométrico do crédito. Ou seja, o volume de dinheiro (criado sobre a forma de crédito) em circulação da economia é hoje muitas vezes superior ao dinheiro que existia há apenas quarenta anos.

    No entanto, o rendimento médio do trabalho, em termos relativos, estagnou, se não mesmo diminuiu, nesses quarenta anos. Porquê?

    Se nos perguntarmos: mas vivemos hoje pior do que há quarenta anos? – qual a resposta.

    Objectivamente, não. Mas não podemos comparar o que não é comparável. O sistema de crédito em que assentou o crescimento económico dos últimos quarenta anos, baseado no consumo, permitiu-nos acesso a um conjunto de bens e serviços impensável anteriormente. Mas o volume de dívida que pende sobre cada cidadão, sobre cada família, é incomparavelmente mais elevado – em muitos anos de vida – daquele que existia antes deste boom de crédito.

    Vivemos melhor? Sim. Mas vivemos incomparavelmente mais endividados.

    Muitas perguntas ficam por fazer. Porque motivo ocorreu uma quebra de crescimento de rendimento do trabalho, que acompanhou positivamente o crescimento da produtividade até há década de 60, para divergir a partir da década de 70?

    Porque motivo a insuflação da economia pelo crédito dos últimos quarenta anos é acompanhada de um processo continuado de desigualdade entre ricos e pobres?

    O que é que está, afinal, a acontecer?

    A direita liberal quer discutir o assunto, no “deserto do real”? Ou quer entreter-nos com elocubrações no Olimpo? É que, se é para isso, mais vale ficarem de fora da discussão.

  19. «Se, por hipótese, vivesse num mundo sem dinheiro, não tenho dúvidas de que continuaria a ser o melhor.»

    Mas teria de ir fazer outra coisa na vida. Como servir às mesas. Deixaria de jogar futebol, assoberbado com outras coisas. Pergunte de qualquer forma ao Ronaldo se poderia fazer o que faz sem o cheque correspondente.

    «Conclusão: o lucro e a riqueza não são necessários para mobilizar as pessoas, porque há outras motivações e outras compensações.»

    Há certamente outras motivações para se criarem empresas, mas o desejo de melhorar a sua condição (leia-se lucro) faz a economia ocidental distinguir-se admiravelmente de Cuba. E diga-me lá sinceramente, um pobre em Portugal, já nem digo nos Estados Unidos ou em França, vive mais ou menos desafogadamente do que em Cuba?

    «E o talento não se compra nem se vende.»

    Aluga-se. Eu algo o meu a umas dezenas de euros à hora, consoante o trabalho a executar. E se me contratam, não sendo nem de longe o mais barato do mercado, é porque percebem que não sou nenhum pedaço de asno e que consigo fazer o trabalho que me pedem, o qual é visto com valor muito superior pelo meu cliente. E esta é a chave.

  20. Carrapa,

    «Vivemos melhor? Sim. Mas vivemos incomparavelmente mais endividados.»

    O Carrapa vive mais endividado, se é isso que quer dizer. Eu não. Apenas tenho um resquício (menos de 20%) do empréstimo da casa, que fui adiantando quanto pude, enquanto vi os meus conhecidos comprar novos carros, viagens e cortinas de luxo. A única dívida que tenho de assumir, contrariado pela sua inutilidade e pela sua inevitabilidade, é a dívida do Estado, tomada por poucos, eleitos por muitos, em benefício de alguns.

    Quando a economia da pândega der o flato mestre, o que acontecerá dentro de um lustro, quem estará melhor?

    «Muitas perguntas ficam por fazer. Porque motivo ocorreu uma quebra de crescimento de rendimento do trabalho, que acompanhou positivamente o crescimento da produtividade até há década de 60, para divergir a partir da década de 70?»

    Faça leis que restrinjam o despedimento e restringe a contratação. Restrinja a contratação e restringe o rendimento dos novos trabalhadores.

    A década em que Portugal mais cresceu, na sua história e desde que há séries, foi a década de 70, até 1974. Será que aconteceu alguma coisa em 1974 que tenha influído no crescimento? Alguma coisa que tenha revolucionado o ímpeto do crescimento?

  21. Daniel

    Também não seja alarve Carlos. Com tanto crescimento e melhorias tecnológicas desde os avôs do Vasco e do Zé para o tempo dos próprios Vasco e Zé alguma coisa tem que pingar para os Zés. Aqui a discussão da desigualdade não se trata de congratular a melhoria que essas pingas tiveram na vida dos Zés mas sim se podemos abrir um pouco mais a torneira e correr um fiozinho para os mesmos Zés, só para eles se aproximarem mais um pouco dos Vascos.

    Pela sua lógica não devia haver discussão nenhuma pois desde os tempos em que o antepassado do avô do Zé foi escravo do antepassado do avô do Vasco a melhoria de vida foi dramática.

  22. Lucas Galuxo

    O problema nem será tanto a desigualdade. O problema é que o pouco que o Zé ganha remunera um trabalho útil e não dispensável e o Vasco, muito provavelmente, ganha o que ganha comissionando a venda de Portugal a pataco a chineses ou angolanos ou arbitrando litígios com o Estado em que este perde sempre.

  23. Miguel Noronha

    Se forem os chineses a pagar-lhe ainda tem reflexo positivo na balança de capitais e serve para cobrir os défices na balança comercial

  24. PiErre

    “Economia da pândega”, diz o caro Francisco Miguel Colaço e diz muito bem.
    É a melhor definição para a situação que vivemos. Apoiado!

  25. Daniel Carrapa

    Francisco Miguel Colaço, se já não vale a pena debater o tema da desigualdade no domínio da abstracção teórica, pior será trazê-la para o campo do pequeno ego e dos pseudo casos pessoais.
    Quanto à questão de fundo importa notar que se a trajectória portuguesa diverge do cenário europeu quanto à produtividade ela não diverge quanto à tendência de desigualdade na distribuição de rendimentos. Não vou presumir que o Francisco queira dizer que a ditadura era melhor para a economia. Mais uma vez, o caso português é circunstancial. A Europa demonstra o contrário. E espero que não esteja em causa o princípio de que a democracia constitui um modelo mais justo e eficaz de redistribuição da riqueza do que uma sociedade não democrática.
    Passando à frente, o que importava debater – não aqui, certamente – é os motivos pelos quais esta divergência, o crescimento da desigualdade na redistribuição de riqueza, tem vindo a suceder nas nossas economias. E esse debate não pode deixar de confrontar os efeitos do sistema monetário, do sobreaquecimento da economia por via do crédito nas últimas décadas, do papel das instituições financeiras privadas neste processo, dos efeitos da globalização, entre vários outros aspectos estruturais para um debate que se quer político. O contributo dos economistas é desejável. O dos técnicos da econometria, não tanto.

  26. Carlos Guimarães Pinto

    Daniel, esse “alarve” vai passar desta vez.

    A ideia de colocar os avós na história não foi o de comparar os estilos de vida para mostrar como o Zé está tão melhor que o seu avô. A ideia foi a de transmitir o quanto o aumento da desigualdade material não corresponde a uma transformação proporcional nos estilos de vida. Provavelmente ganhar 6 vezes mais há 50 anos era bastante mais relevante do que ganhar 40 vezes mais hoje. Por isso os estilos de vida do Vasco e do Zé estão bem mais próximos que os dos seus avós.

  27. João de Brito

    É falso dizer que a economia liberal corresponde à satisfação das necessidades das pessoas.
    Se fosse verdade já não haveria tantos milhões de pessoas na miséria.
    A economia liberal corresponde, isso sim, aos desejos das pessoas, o que é uma coisa muito diferente.
    Desejos esses que, ainda por cima, são induzidos pela publicidade explícita e pela manipulação implícita, levada a cabo pelos meios de comunicação, detidos pelos grandes grupos económicos.
    Para não falarmos dos próprios sistemas de ensino…
    Para não falarmos de necessidades (sim, necessidades) criminosamente provocadas, para que se vendam certas vacinas, certos pesticidas…
    Nota: Para podermos avaliar devidamente um sistema, temos de sair dele. para ganharmos perspetiva. Se raciocinarmos dentro dele, entraremos em curto circuito e nunca de lá sairemos.

  28. rrocha

    Sr carlos a um ponto desta historia que nao foi tido em conta o nivel de “felicidade” nao conta so o que se ganha mas tambem se o que se faz nos deixa confortaveis a situaçao de um ganhar pouco e outro muito pode estar dentro da ambiçao de cada um.
    alias o “rico” pode ter comido no restaurante xpto e nao ficar satisfeito mas a moda manda ele tem de estar nos locais IN mesmo contra a sua vontade ou que vai ao ginasio so para nao ser o gordo la do escritorio muitas vezes a vida que os mais ricos levam nao e facil .
    por outro lado a Ze e claro que gostava de ter mais rendimento mas quase posso apostar se ganha-se o euromilhoes fazia o que maior parte faz que compra casa carro ajuda a familia e depois leva um vida normal.

  29. Daniel Carrapa,

    «Não vou presumir que o Francisco queira dizer que a ditadura era melhor para a economia.»

    Nunca o disse, nunca o direi. Digo apenas que nos anos 70, com muito mais liberdade económica do que hoje, crescíamos a 7%, e éramos apontados pelo Financial Times como o terceiro milagre económico, o qual iria ofuscar os precedentes, o alemão e o japonês.

    Depois vieram os barbudos com horror ao sabonete cantando o amanhã e enganando o povo.

    Numa outra nota, nem imagino quão grande teria sido o nosso crescimento se houvesse liberdade política verdadeira no consulado do Marcello Caetano.

    «E espero que não esteja em causa o princípio de que a democracia constitui um modelo mais justo e eficaz de redistribuição da riqueza do que uma sociedade não democrática.»

    Está em causa, sim senhor! A democracia que temos, abrileira e irresponsável, tira a muitos para dar a uns poucos, espalhando umas migalhas com uma lágrima ao canto do olho para manter os pobres pobres, dependentes e a votar no suposto benfeitor. Sou profundamente averso a esta democracia de taxistas. Creio numa república constitucional, onde os limites à acção dos governantes sejam bem especificados, e os elementos democráticos sejam bem balizados, e o Estado seja mantido pequeno e limitado para não sorver a iniciativa do país. Para não termos aeroportos em Beja, que os iluminados do poder nem se lembram transformar num aeroporto sanitário em plena crise de ébola. Ou regadios da Cova da Beira. Ou material NBQ que deixa passar água (também chamados Pandur).

    Neste momento não temos uma democracia, mas uma democrápulacia, o último estágio antes da revolta dos escravos e da anarquia que conduzirá a mais um período negro de ditadura e de grilheta. Não faltam na história em Portugal períodos assim. Só de cabeça conto seis, iniciando-se com D. Pedro I e terminando em 1926.

  30. hustler

    Esta historia e gira na medida em apenas nos diz que o capitalismo e o processo mais eficaz para aumentar a riqueza total num dado intervalo temporal (por oposicao ao planenamento central da economia). E obvio que no momento 1 estao todos mais ricos que no momento 0 e consequentemente, o seu nivel de vida estara melhor do que antes.
    O facto do Ze poder comer um hamburguer todos os dias, ter roupa e sapatos, poder viajar de um lado para o outro nos transportes publicos, etc.., poem-no num nivel de vida muito superior ao do seu avo. Este acontecimento e por si so muito positivo, qualquer um de nos concordara que e melhor comer hamburgures todos os dias do que passar fome, melhor ter um ou dois pares de sapatos do que andar descalco, etc…., mas o problema desta analise simplista e que apenas nos mostra a evolucao das coisas de um ponto de vista distanciado, no entanto, se olharmos atentamente percebemos que nao e bem assim.

    O Carlos GP deu o exemplo do mcdonalds, pelo que convem perguntar aonde fica a morbilidade relacionada com a obesidade, doencas cardiacas, hipertensao, baixa esperanca de vida, naquelas pessoas que sao “obrigadas” a fazer o regime das fast food, como e o caso do Ze.
    Convem tambem perguntar se, dada a sua condicao de “proletariado”, o Ze consegue mudar o seu destino, ou se por outra, o seu destino esta tracado a nascenca. E o Ze capaz de fazer uma ascencao social igual a do Vasco, se for igualmente esforcado e inteligente? Provavelmente nao! Sera culpa das desigualdades? muito provavelmente sim!
    Se alguem achar que apenas depende do merito do Ze, entao tera que perguntar se o conseguira fazer sem ter acesso a um ensino e cuidados de saude de qualidade! E quem devera pagar esse ensino publico e saude? O utlizador pagador que tem 485 euros de salario minimo?

    A verdadeira causa para a mobilidade social esta na redistribuicao via transferencias sociais e colectadas atraves de impostos progressivos. Facamos um simples exercicio, se o IRS baixasse 20% em todos os escaloes, quem ganharia mais com isto? O Vasco (do primeiro quartil) de rendimentos ou o Ze (que nem “faz” IRS)? O primeiro iria ver o seu rendimento disponivel enormemente, o segundo ia ver menores apoios sociais, aumentando ainda mais a desigualdade e agravando ainda mais a (i)mobilidade social.

    Existem varios mecanismos para travar as desigualdades sociais, os mais eficazes sao os impostos directos como o IRS, IMI e o extinto imposto de sucessao.
    Um outro e colocar os servicos publicos a competirem com os servicos privados e os funcionarios publicos receberem apenas o salario de mercado do sector.
    Outro ainda, e acabar com o monopolismo e lobbismo de algumas profissoes, tais como medicos, advogados e outros. Estes nao trabalham de acordo com as regras do mercado e nao sao verdadeiramente concorrenciais.
    Por fim, o excesso de burocracia, regulamentacoes e uma teia juridica complexa, retira (muita) riqueza a quem nao a tem e entrega-a, muitas das vezes, a parasitas que usam estes expedientes para enriquecer, mas que nao sao elementos produtivos de uma sociedade (ausencia completa de meritocracia).

    http://www.forbes.com/sites/danmatthews/2014/07/24/why-isnt-inheritance-tax-100-per-cent/

  31. Fernando S

    Caro Francisco (Francisco Miguel Colaço em Outubro 22, 2014 às 12:28),
    Concordo naturalmente com o essencial do que diz no seu comentário.
    Quanto à questão dos trabalhadores serem ou não um “custo” para a empresa … 🙂
    Claro que, na linguagem corrente, é como diz o Francisco : o trabalhador é um custo para a empresa e isso não tem nada de mal.
    Dito isto, em rigor de conceitos, os trabalhadores são antes de mais um “recurso” para a empresa. O que é um “custo” para a empresa é o que a esta lhes paga, as remunerações (e outros gastos internos de contexto). Se, por hipotese, a empresa utilizar o trabalhador e não lhe pagar um salario, o trabalhador permanece um “recurso” mas não representa um “custo”.
    Pergunta o Francisco : “Sim, isso todos sabemos, mas qual é o interesse em entrar nesse nivel de detalhe ?”
    Eu apenas chamei a atenção para o facto do trabalhador não ser em rigor um “custo” porque um comentador anterior, julgando fazer uma critica “fatal” ao capitalismo e ao liberalismo, quiz estabelecer uma distinção entre o tratamento do trabalhador como um “custo” e do capital como um “investimento”. Dando ao “custo”, o salario do trabalhador, um cunho negativo (“é demasiado baixo !…”), e ao “investimento” um cunho positivo (“é bem remunerado !…”). Ora, o que acontece é que tanto o trabalho aplicado como o capital investido são ambos recursos e as respectivas utilizações tem normalmente custos e beneficios. A remuneração “natural” de cada recurso tem naturalmente que ver com o binomio custo de utilização / contribuição produtiva. O que interessa aqui é que, para este efeito, a distinção entre “custo” e “investimento” não é relevante (a não ser para a analise marxista, com a tese da “exploração”). De resto, à medida que as sociedades e economias modernas se vão sofisticando há cada vez menos pessoas concretas, individuos, que sejam apenas “trabalhadores” ou apenas “capitalistas” (detentores de “capital”). Descartando as margens de um lado e do outro, a esmagadora maioria das pessoas, as tão indefenidas e diferenciadas “classes médias”, agem em diferentes planos, isto é, desde logo trabalham mas também investem recursos em “capital”, desde o “humano” (formação, p.e) até à aplicação das poupanças passando por “sociedades” dos mais diversos tipos. Por sinal, e ao contrário do que parece ser o senso comum, o principal aumento das desigualdades de rendimento e patrimonio não tem que ver com o aumento da distancia entre o 1% dos mais ricos e os 20% dos mais pobres (que também existe mas, como ja se tem dito aqui, não é em si um problema social) mas antes com as diferenças entre “trabalhadores”, isto é, pessoas que ganham mais ou menos em função do modo como cada uma “investe” no seu trabalho e “investe” outros recursos proprios na criação de valor. O exemplo do Cristiano Ronaldo, aludido num comentário aqui em cima, um infatigavél “trabalhador” do espectaculo do futebol, é bem ilustrativo do que são hoje uma grande parte dos novos “milionarios”, cujo numero não para de aumentar e que muitos dos campeões da “igualdade” atiram para a frente como sendo a prova de que “o capital” se apropria de uma parte cada vez maior da riqueza em prejuizo do “trabalho”. Nada disso. O “trabalho” e o “capital” estão por todo o lado e onde menos se espera. Por isto é que a teoria vampiresca de Thomas Piketty, que, levada até às ultimas consequencias e parafraseando Zeca Afonso, faria com que a prazo “o capital” acabasse por “comer tudo e não deixar nada” para “o trabalho”, é uma velha ideia que já há muito tempo se revelou um flop total e que hoje em dia não tem qualquer utilidade para uma melhor compreensão do mundo em que vivemos.

  32. R Rocha,

    Quase todos os que ganham o euromilhões acabam falidos em menos de uma década. A estatística dava bem acima de 50%. Alguns disseram mesmo que a partir do momento em que se soube que ganharam, entre novos parentes, amizades, pedidos e ameaças a vida tornou-se num inferno.

    Raros são aqueles que sabem o que fazer. A primeira regra do judeu é: nunca digas a ninguém que tens dinheiro. A segunda é: de fora de casa não se vê o que se passa lá dentro. (isto é verdade, e foi-me contado por judeus) A esta acrescento a regra de Colaço: o valor que se dá ao que se tem aumenta com cada gota de suor que por tal foi derramado.

  33. Daniel

    Caro Carlos, a do “alarve” era no sentido de comilão, de querer muito. Não era minha intenção qualquer outro significado. De qualquer forma se acabei por ofende-lo sem o querer, as minhas sinceras desculpas.

    Voltando ao tema, isso que o Carlos afirma é muito subjectivo e não é verdadeiramente uma medida quantificavel. Os padrões minimos de vida alteram com o tempo e com as facilidades que vão surgindo. Só para pegar no seu exemplo e ilustrar o que refiro, o Vasco é conduzido pelo motorista para o trabalho, o que é uma melhoria desde os tempos do avô na sua motorizada enquanto o Zé, coitado, já nem bicicleta tem para ir para o trabalho quando os transportes publicos estão em greve (o que são bastantes vezes). O facto de o Zé ter transportes publicos à disposição é uma mera coincidencia da época onde vive. O Carlos não se esqueça que a produção industrial e a linha de montagem veio embaratecer muitas coisas a que o avô do Zé não conseguia chegar mas que o Zé já consegue. Isso altera muito a perspectiva.

  34. Hustler,

    Quantos nasceram pobres, sem um tostão, e são hoje ricos, sem nada de mal terem feito. Quem enriquece através de trabalho honesto, e lhe que não são tão poucos como isso!, é digno de admiração. Eu sei que cada vez mais é difícil começar um negócio, que uma Adagio que nos anos 80 se iniciou numa garagem não se iniciaria hoje. Mas ainda há muitas pessoas que mostram que o destino de cada um não está traçado à nascença, salvo problemas sérios de saúde física ou mental.

    Prova do que acabo de dizer é que qualquer lorpa ou aloucado passará a ser deputado do PS, do PCE, do BE, de dois terços da bancada do PSD ou de metade da bancada do CDS.

    Fernando S.,

    Um papel de fotocópia é um recurso da empresa, tal como um empregado. Tente lá fazer uma fotocópia sem papel ou sem empregado. 😉

    Não temos de ter medo da palavra custo. O empregado é um custo, contabilisticamente. E também na vida real. Em termos de processo é um input, um recurso ou um controlador. Os custos optimizam-se, procurando-se a melhor prestação por um custo fixo ou um custo menor para uma prestação aceitável. Os equipamentos melhoram-se constantemente ou substituem-se no seu fim de vida. As pessoas formam-se para ganhar novas competências ou substituem-se quando vão para a reforma ou quando são despedidas. A única diferença entre um equipamento e pessoas deriva do facto de as pessoas terem dois pés, uma cabeça para pensar e de não serem propriedade de ninguém. E de a qualquer momento poderem dar à sola e mudar de empresa, sem que a gerência da mesma o possa obstar. Ou mesmo de formar nova concorrência.

    Veja lá se um agrafador também pode fazer o mesmo. 😉

    A formação é uma das maneiras de valorizar um trabalhador, de dar mais reporte ao que custa. Um elogio sincero faz mais pelo moral numa empresa do que muita gente em Lisboa julga.

    Por isso sou contra a lei das 35 horas de formação. Andou-se a formar costureiras em informática e em inglês, muitas vezes desejando elas estar noutro lado em vez de na sala de formação, apenas para cumprir a estúpida lei. A formação ou interessa o trabalhador ou é uma perda dde tempo, de dinheiro, e apenas uma maneira de evitar uma multa de EUR 500 por trabalhador.

  35. Hustler,

    «O Carlos GP deu o exemplo do mcdonalds, pelo que convem perguntar aonde fica a morbilidade relacionada com a obesidade, doencas cardiacas, hipertensao, baixa esperanca de vida, naquelas pessoas que sao “obrigadas” a fazer o regime das fast food, como e o caso do Ze.»

    Estava para não responder a esta, de tão óbvia, mas acho que tenho de o fazer.

    Lá em Lisboa, povoada de lisboetas, não sabem o que é uma marmita?

  36. rrocha

    Sr Francisco
    Deu um exemplo 3 estrelas sobre o ter dinheiro nao e igual a se feliz
    “Quase todos os que ganham o euromilhões acabam falidos em menos de uma década. A estatística dava bem acima de 50%. Alguns disseram mesmo que a partir do momento em que se soube que ganharam, entre novos parentes, amizades, pedidos e ameaças a vida tornou-se num inferno.”
    mas nao comentou o nivel de “felicidade” que cada personagem desta historia podera ter.

  37. Fernando S

    Francisco,
    Portanto, como não podia deixar de ser, também concorda que um trabalhador, tal como outros factores corporeos e incorporeos, é um “recurso”.
    Dito isto, um “recurso”, seja ele humano ou material, pode ou não ter um “custo”. Normalmente, com raras excepções, tem. Ou seja, “recurso” e “custo”, embora fortemente relacionados, e frequentemente equiparados na linguagem corrente, são conceitos bem distintos.
    Foi apenas isto o que eu disse, pelas razões que procurei explicar, mas, pelos vistos, o Francisco não me percebeu. “No problem” Provávelmente fui eu que não me expliquei de modo suficientemente claro.
    Eu também não tenho “medo da palavra custo”. Antes pelo contrário. Surpreende-me que me tenha interpretado neste sentido. Se ler os meus comentarios verá que eu critico o comentador que se referiu ao “custo” como algo de negativo, associando-o ao “trabalhador” e “exigindo” que este fosse antes tratado como é um “investimento” (em “capital”). Verá igualmente que eu refuto esta diferença qualitativa e que procuro inclusivamente mostrar que o proprio “trabalho” pode ser visto através da noção de “capital”, neste caso “humano”.
    Assim sendo, posso perfeitamente subscrever varias das considerações práticas que faz de seguida no seu comentário. Inclusivé a respeito da formação dos trabalhadores e quando diz que também houve e há muita formação desajustada, com custos elevados e resultados insuficientes.
    Mas o meu “ponto” era outro ! 🙂

  38. Fernando S.,

    Eu percebi. A subtileza da linguagem provém do ponto de vista do negócio. De um ponto de vista contabilístico um salário é um custo, conta 64. De um ponto de vista de prossecução do negócio, o trabalhador é um recurso, ou um agente.

    Mas deixa-me sempre margem para brincar com agrafadores com pernas. 😉

  39. rrocha,

    Se me disser o que é felicidade, de bom grado a avaliarei. Não conheço as personagens fictícias em questão, e não sei qual deles está com um arma carregada apontada aos miolos.

    Os homens devem ser livres para procurar a sua felicidade. Estamos muito longe de ser livres para tal. Temos um estado pervasivo, como um grilhão abolado na nossa perna, impedindo mesmo as coisas que não têm efeitos negativos plausíveis sobre outrem.

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