O ilusionista

Rui Tavares no Público

Foi pela dívida que esta crise nasceu – lembram-se dos produtos tóxicos, derivados de vários tipos de empréstimos, incluindo a clientes de alto risco nos Estados Unidos da América? E só cortando o nó górdio da dívida poderemos superar a crise de uma vez por todas.

Enquanto isso não for feito, a dívida vai fazendo vítimas de cima a baixo, pequenas e grandes: o desempregado que não consegue pagar a casa, o sistema bancário cheio de crédito malparado, os Estados cortando nas despesas sociais para pagar uma dívida pública que não cessa de aumentar, os cidadãos mais endividados porque não há emprego nem apoios, as empresas abrindo falência porque não há consumo nem acesso ao crédito – o ciclo não se interrompe, antes se repete e agrava

Seria de esperar que quem lança este anatema sobre os encargos da dívida pública e privada tivesse passado as últimas décadas a perorar por uma redução do consumo público e privado que permitisse equilibrar os orçamentos e uma redução no crédito concedido pelas entidades bancárias. Alguém o ouviu falar disso? E agora? Será que defende uma vida mais frugal, dentro das possibildiades de cada um?

Ao contrário do que faz crer a crise do subrprime não é a responsável directa de muitas misérias privadas. Estas constuiram-se por responsabildade de pessoas e instituiçõe e estados que se endividaram para manter níveis de consumo incomportáveis. Um dia acabou-se o crédito…

Ao contrário do que afirma, as dívidas pública e privadas têm sido renegociadas. Mas se não se alterarem os padrões de consumo, mesmo com perdões de dívida, daqui a uns anos estaremos novamente no mesmo lugar. Mais consumo e mais crédito pede ele. Basta carregar no botão e a crise resolve-se.

31 pensamentos sobre “O ilusionista

  1. JoaoMiranda

    Em resumo, Rui Tavares quer acabar com o nó górdio da dívida (última frase do 1º parágrafo citado) para haver acesso ao crédito (última linha do 2º parágrafo). E isto, na cabeça dele, faz sentido.

  2. Miguel Noronha

    Convém saber do que fala: https://oinsurgente.org/2014/03/21/manifesto-de-ignorancia/

    E conforme referi no post o perdão só resolve a questão do stock de dívida actual. Se continuarmos a acumular défices da mesma forma que no passado voltamos ao lugar de partida em pouco daqui a uns tempos.

    Mesmo que relevassemos o link que explica o perdão da dívida alemã, convém ter em conta as precaução ao nível das políticas orçamentais e monetárias seguidas ao longo dos anos por estes

  3. antonio

    Bundesbank diz que economia alemã vai continuar fraca
    E é neste cenário que ontem Alemanha e França anunciaram um acordo para um plano de estímulos à economia da zona euro, que será divulgado no dia 1 de Dezembro. O plano faz também parte de um acordo entre Berlim e Paris sobre o Orçamento do Estado francês para o próximo ano, que prevê violar a meta do défice acordada com Bruxelas, para evitar que a consolidação orçamental estrangule ainda mais a economia.

    Também ontem o Banco Central Europeu (BCE) deu início ao programa de compra de obrigações cobertas – títulos hipotecários e do sector público, cobertos com outros empréstimos – da zona euro, como forma de estimular o crédito na moeda única. A autoridade monetária não forneceu detalhes das operações, mas fontes do mercado garantiram a várias publicações internacionais que o BCE comprou, pelo menos, títulos de França, Espanha e Alemanha, com maturidades entre um e seis anos.

  4. Nuno Cardoso da Silva

    O problema maior do texto do Rui Tavares está aqui:

    “…Um grande plano de investimentos, um aumento da inflação, um estímulo ao crescimento económico podem ter tanto efeito como um corte nos montantes, a diminuição dos juros ou o alongamento dos prazos – e tão ou mais interessantes do ponto de vista do desenvolvimento económico…”

    A isto respondi, noutro local, da seguinte maneira.

    Sendo evidente o interesse que teria o investimento e o crescimento económico, é igualmente evidente – para quem saiba alguma coisa de economia, o que não é o caso do Rui Tavares – que não é isso que resolve o problema da dívida, embora possa eliminar a necessidade de mais dívida. Só a diminuição da taxa de juros para valores próximos de 1% (semelhantes aos que a Alemanha paga) e o alongamento dos períodos de maturidade podem permitir servir a dívida já existente e reduzi-la progressivamente para níveis suportáveis, sem deprimir a economia nacional. E apostar na inflação para reduzir o peso da dívida é, uma vez mais, atirar para cima de nós os custos cruéis dessa redução. É mais austeridade com outro nome.

    O discurso do Rui Tavares é absurdo, é produto da sua grande ignorância e falta de humildade, e nem se percebe bem o que ele quer alcançar com tal discurso. Dar a impressão de que se move com à vontade no campo da economia? Se era isso, saiu-lhe o tiro pela culatra, pois é exactamente o contrário que ficou provado.

  5. lucklucky

    “Foi pela dívida que esta crise nasceu – lembram-se dos produtos tóxicos, derivados de vários tipos de empréstimos, incluindo a clientes de alto risco nos Estados Unidos da América”

    Mentira. A crise nasceu da receita do Rui Tavares: Crescimento a qualquer Preço.

    Só pressão dos pares explica este tipo de pensamento.
    Só assim se explica o absurdo de Rui Tavares defender cortar a dívida se faça com mais dívida.

    Nem sequer tem a disponibilidade de olhar para as 3 quase bancarrotas do regime.

    Pode começar por perceber que Sócrates fez precisamente aquilo que disse.
    Resultados foram o desastre.
    Nunca houve crescimento para compensar pagar o que se gastou.

    Pode começar por perceber que o sub-prime e as agências do Governo dos EUA Fannie Mae e Freddy Mac existem precisamente para estimular o crédito, para existir muito dinheiro a passar de mãos, tendo assim crescimento e muitas receitas para políticos como o Rui Tavares.

    Pode ainda começar por perceber que a riqueza que tivemos na primeira a década foi toda ela feita sobre montanhas de crédito. Curiosamente protesta contra o seu fim, defende o seu fim, e um novo começo com a mesma receita. Tudo ao mesmo tempo.

    “Sendo evidente o interesse que teria o investimento e o crescimento económico”

    O crescimento económico precisa de poder pagar o investimento mais os juros para valer a pena.
    Crescimento económico não é só atirar dinheiro para depois ter um crescimento de 2% quando o endividamento subiu 10%. Ou seja impossível de pagar.

  6. JP

    “Se continuarmos a acumular défices da mesma forma que no passado voltamos ao lugar de partida em pouco daqui a uns tempos.”

    Claro! Mas esse é o nosso problema. O país está cheio de gente que não quer outra coisa. De um lado alguns políticos dos TGVs, OTAs e campeonatos do mundo, e do outro um exército de consumidores ávidos por retornar a vida a crédito em baixo do tapete. Todos eles borrifando-se para as gerações futuras. Pela mera possibilidade de o conseguirem estão dispostos a colocar o país em risco.

  7. Nuno Cardoso da Silva

    “De um lado alguns políticos dos TGVs, OTAs e campeonatos do mundo, e do outro um exército de consumidores ávidos por retornar a vida a crédito em baixo do tapete. Todos eles borrifando-se para as gerações futuras.”

    Não atirem as culpas para cima dos consumidores. Haverá sempre consumidores que querem consumir para lá dos seus rendimentos. Os culpados são aqueles que lhes proporcionam o crédito para que eles descarrilem. Nós não podemos controlar os impulsos dos consumidores, mas podemos controlar a forma como a banca disponibiliza o crédito.

  8. Miguel Noronha

    “Nós não podemos controlar os impulsos dos consumidores”
    Se calhar deviamos impor outro tipo de limitações a quem não tem pleno domínio das suas faculdades. Será que deviam ter o direito de voto ou de procriar sem a supervisão de alguém mais esclarecido? Sabe-se lá o que fariam se cedessem aos seus “apetites”.

  9. Rafael Ortega

    “Não atirem as culpas para cima dos consumidores. Haverá sempre consumidores que querem consumir para lá dos seus rendimentos. Os culpados são aqueles que lhes proporcionam o crédito para que eles descarrilem.”

    O Zé ganha 600€/mês. Faz um crédito para ir de férias para a República Dominicana. Não o consegue pagar.
    Conclusão: a culpa é da COFIDIS.

    É essa a lógica do raciocínio?

  10. Gil

    Se derem um crédito para ir passar férias à República Dominicana a alguém que tem um rendimento mensal de 600 euros, deve ser porque lhe querem ir à herança de alguma quinta no Minho que a velhota lhe vai deixar.

  11. Nuno Cardoso da Silva

    E se não for a quinta no Minho serão os contribuintes a pagar, porque os bancos são importantes demais para se deixar que vão à falência… Mas a culpa é sempre dos consumidores descontrolados…

  12. Nuno Cardoso da Silva,

    O argumento «o diabo fez-me fazê-lo» é demasiado religioso para um tipo de esquerda. Em boa verdade, não faz um crédito com a Cofodis quem não o quer fazer. Não sei se sabe, mas a Cofidis não anda com uma pistola atrás de cada português a mandar «assina isto».

    Ao contrário do Estado que, sem a minha anuência, sem que eu seja tido nem achado, me vai aos impostos para sustentar uma cambada de emperresários alapados, de funcionários indolentes e de pessoas que recusam a integração e o trabalho. Isso de compulsão é coisa de mafiosos.

  13. Nuno Cardoso da Silva

    Francisco Miguel Colaço,

    Não se faça de ingénuo! Recebi, ao longo dos anos, “N” propostas da Cofidis para recorrer ao crédito junto da sua instituição. Não fui eu que pedi, foram eles que vieram atrás de mim com as técnicas de marketing mais agressivo que alguma vez encontrei. É evidente que uma pessoa com alguma cultura sabe dizer não a esse assédio, mas há muito quem embarque e que depois é acusado de atirar o país para o endividamento. Haja um pouco de pudor!…

  14. Joaquim Amado Lopes

    Nuno Cardoso da Silva,
    Só está a dar razão ao Miguel Noronha: se não se pode confiar numa parte da população para decidir sobre os empréstimos que pedem, como se pode confiar nelas para escolherem o Governo?
    Se a sua solução “solução” é o Estado actuar pelo lado da oferta (decidir como os créditos são concedidos) então deve defender que o Estado impeça de irem a votos os partidos em que só votam pessoas com capacidade muito limitada para entenderem o resultado das políticas propostas. Decide o Nuno ou confia em mim para vetar esses partidos?

    Se acha que deve haver “um pouco de pudor”, que tal começar o Nuno por ter o pudor de não publicar comentários em que demonstre não ter um pingo de respeito pelo direito que os outros têm de decidir sobre as suas próprias vidas e assumirem a responsabilidade pelas consequências das suas escolhas?

  15. Nuno Cardoso da Silva,

    Algum dessas propostas lhe foi apresentada por esbirros, com obrigação de assinar a menos que alguma coisa má acontecesse?

    Nuno Cardoso da Silva, a responsabilidade é individual. Cá estou eu para recusar as propostas que não me interessem.

    Por si, então, a responsabilidade da prostituição é das prostitutas. Afinal, se não houvessem barregãs não havia quem as usasse. Então por que raio é que a esquerda acarinha tanto as putas, e de tudo as desculpa? Será que a Esquerda que Temos é um bando de putas frustradas?

  16. Miguel Noronha,

    Há quem na esquerda gostasse de proibir o voto, não vá alguém votar nos partidos que não lhes interessam.

    Já a nossa constituição proíbe alguns partidos socialistas e admite outros. Depende da tendência socialista e do tamanho do bigode (quanto maior o bigode, mais bom socialista se é).

  17. Nuno Cardoso da Silva

    Joaquim Amado Lopes

    Não se trata de impedir pessoas de obterem crédito. Nem eu sugeri isso. Cá estamos de novo perante a demagogia e a falsificação dos argumentos.Trata-se de deixar as instituições financeiras que emprestam dinheiro a quem não pode pagar sofrerem as consequências das suas decisões. Se há calotes por imprudência de quem empresta, então que o credor vá à falência, e não nos venham pedir que paguemos pelos erros e ganância dos bancos. A dívida contraída desta maneira não é uma responsabilidade colectiva.

  18. Miguel Noronha

    “Se há calotes por imprudência de quem empresta, então que o credor vá à falência”
    Claro. Veja-se o caso do BES.
    É claro que quem pediu o empréstimo também pode e deve sofrer as consequências dos seus actos. Mas não estou a ver que uma coisa impeça a outra.

  19. Nuno Cardoso da Silva,

    Se quer dizer-me com o seu argumento que entre o credor e o devedor se devem entender, que vão os dois à falência se quiserem, mas não me peçam do meu dinheiro para andar a safar um ou outro, estamos completamente de acordo.

  20. Joaquim Amado Lopes

    Nuno Cardoso da Silva,
    “Trata-se de deixar as instituições financeiras que emprestam dinheiro a quem não pode pagar sofrerem as consequências das suas decisões.”
    E pagam. Quando um indivíduo ou empresa abre falência (é isso que significa não poder pagar as dívidas), os credores perdem o dinheiro que lhes é devido.
    De qualquer forma, noto que concordamos em que o Estado não tinha nada que intervir no BPN nem no BES e devia tê-los deixado falir. Mas recorde-me: qual é a posição do LIVRE (giggle) relativamente a essas intervenções?

    Quanto a “demagogia e a falsificação dos argumentos”, devia ter mais cuidado naquilo de que acusa os outros e na forma como se expressa. É que foi o Nuno que disse textualmente que os consumidores não devem ser responsabilizados pelas suas decisões e que o Estado devia controlar o crédito que é concedido.

    Nuno Cardoso da Silva em Outubro 21, 2014 às 15:25 disse:
    “Não atirem as culpas para cima dos consumidores. Haverá sempre consumidores que querem consumir para lá dos seus rendimentos. Os culpados são aqueles que lhes proporcionam o crédito para que eles descarrilem. Nós não podemos controlar os impulsos dos consumidores, mas podemos controlar a forma como a banca disponibiliza o crédito.”

    Não é preciso qualquer exercício de imaginação ou falsificar seja o que fôr para retirar disto que o Nuno acha que o Estado deve impedir que os consumidores tenham acesso a escolhas que o Estado (ou o Nuno Cardoso da Silva?) ache negativas para aqueles. Isso significa que não respeita o direito dos consumidores de tomarem decisões sobre as suas próprias vidas.

  21. Nuno Cardoso da Silva

    Joaquim Amado Lopes,

    Se é assim, porque não liberalizamos totalmente o uso de estupefacientes e deixamos cada um usar as drogas que quiser, mesmo se isso os levar a uma morte prematura… E veja-se que eu não quero impedir que os consumidores tenham acesso ao crédito, quero garantir que os bancos não usam de técnicas agressivas para impingir crédito a quem o não pode pagar, e que os bancos tenham de suportar a totalidade das consequências do crédito mal-parado.

  22. Miguel Noronha

    “Se é assim, porque não liberalizamos totalmente o uso de estupefacientes e deixamos cada um usar as drogas que quiser, mesmo se isso os levar a uma morte prematura”
    E porque não? A proibição não tem impedido o consumo nem as mortes para além de propiciar o aparecimento de inumeras organizações criminosas e terroristas. Exactamente o mesmo que sucedeu nos EUA durante a “lei seca”.

  23. Joaquim Amado Lopes

    Nuno Cardoso da Silva,
    “Se é assim, porque não liberalizamos totalmente o uso de estupefacientes e deixamos cada um usar as drogas que quiser, mesmo se isso os levar a uma morte prematura…”
    E por que não, desde que seja o próprio a pagar as drogas, respectiva parafernália e os tratamentos relativos às doenças relacionadas com o abuso de drogas e comportamentos de risco como a partilha de seringas?

    Conheci alguns toxicodependentes que deixaram de consumir e construiram família e convivi durante mais de duas décadas com um toxicodependente que teve todos os apoios para deixar o vício e não o fez porque “gostava de como as drogas o faziam sentir” (palavras do próprio). Dessas experiências resultou não ter a mais pequena simpatia pelos toxicodependentes em geral e acreditar que o consumo de drogas é extremamente negativo.
    Mas acredito que cada um deve ser livre de fazer as escolhas que quiser (que afectem apenas o próprio) e que a liberdade e a responsabilidade andam sempre de mãos dadas. Desde que se aceitem as consequências das escolhas que se fazem, cada um que escolha o seu veneno.

    A diferença entre nós reside precisamente no facto de eu acreditar na liberdade individual e o Nuno defender que deve ser o Estado a decidir o que é melhor para cada um em todas as áreas da sua vida excepto (aposto) em algumas em que a decisão afecta mais do que o próprio (p.e. aborto livre e greves).

    “E veja-se que eu não quero impedir que os consumidores tenham acesso ao crédito, quero garantir que os bancos não usam de técnicas agressivas para impingir crédito a quem o não pode pagar, e que os bancos tenham de suportar a totalidade das consequências do crédito mal-parado.”
    Que “técnicas agressivas” são essas?
    Quem pode decidir melhor do que o consumidor se pode ou não pagar o crédito?
    E de que forma os bancos não suportam a totalidade das consequências do crédito mal-parado?

  24. Miguel Noronha, Nuno Cardoso da Silva,

    O crime associado à droga (o qual é uma violência sobre inocentes) justifica a proibição das drogas duras. Quanto às drogas ditas leves, cada um mata-se como quer.

  25. Joaquim Amado Lopes,

    Toda a plataforma da esquerda ocidental provoca a anulação do indivíduo. Todas as escolhas podem ser feitas por indivíduos, desde que os mantenham escravizados em vícios. Aquilo que é verdadeiramente libertador é vilipendiado como ultrapassado, retrógrado e beato.

    A esquerda é a única doença social que despovoaria o planeta numa única geração, se esta se tornasse prevalecente.

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