Apita o comboio, lá vai a apitar

Ontem, a meio da sua intervenção no debate quinzenal com o Primeiro-Ministro na Assembleia da República, o novo líder da bancada parlamentar socialista, Ferro Rodrigues, dirigiu-se a Passos Coelho, ao Governo e à bancada do PSD, e disse: “Estão muito enganados se pensam que vão atrelar o PS ao comboio do empobrecimento e da austeridade”. Quando chegou a sua altura de responder, Passos Coelho afirmou, por outras palavras que não estas (não é dado a metáforas, talvez), que não só o PS já estava nesse comboio como foi quem o fez partir: o PS era responsável pela situação a que o país chegara, e até se comprometera com o memorando da troika. Mais do que qualquer outro, este momento do debate de ontem mostra bem a complicada posição em que tanto o PS como os partidos do Governo se encontram, e os problemas que enfrentarão nos próximos tempos.

Passos Coelho teve toda a razão na acusação que fez ao PS, mas os problemas dos socialistas vão bem além do seu passado recente, e são bem mais graves: o PS talvez possa abrandar o “comboio do empobrecimento e da austeridade”, talvez possa até fazê-lo mudar de linha, mas não o poderá fazer parar nem o poderá abandonar; poderá aplicar ao país uma “austeridade” mais branda, e poderá até talvez aplicar medidas substancialmente diferentes, mas de forma alguma poderá escapar a aplicar “austeridade” sob alguma forma, seja ela qual for: o PS usa como bandeiras a “defesa do Estado Social” e o “crescimento”. Como o Estado é deficitário, o PS será inevitavelmente forçado a escolher um de dois males: ou aumenta os impostos, asfixiando a economia e impedindo o crescimento – criando assim uma forma de “austeridade” – ou terá de cortar algumas despesas, empobrecendo pelo menos aqueles que forem directa e indirectamente afectados por esses mesmos cortes – criando uma outra forma de “austeridade. A crer na sua entrevista de hoje à TSF e ao Diário de Notícias, até o próprio Ferro Rodrigues parecer ter consciência – mesmo que só parcial – do problema, ao afirmar que “a defesa do Estado Social dificulta a descida de impostos”. Não faltará muito tempo para que perceba que, sem ela, o tão desejado crescimento não será mais fácil.

Este foi, no entanto, um argumento que Passos Coelho não usou. Se se apercebeu de que este é um problema que o PS enfrenta e enfrentará, não o poderia apontar aos socialistas, pois graças à sua governação, é um problema que afecta também o próprio Governo. Sem ter mudado de forma substancial o sistema português – tenha sido por falta de vontade ou por força de obstáculos com que se tenha deparado – tendo-o mantido relativamente intocado, apenas com menos dinheiro, o governo nada fez para garantir a sustentabilidade das políticas do Estado português, assegurando assim que à austeridade de período 2010-2014 se seguirá uma outra, sabemos lá nós de quantos anos. Mesmo que por milagre o PSD e o CDS se mantenham no Governo depois das próximas eleições, a sua incapacidade para cortar na despesa pública de forma eficaz impedi-los-á de efectuarem cortes na carga fiscal, sob pena de um aumento exponencial do défice que arrasaria com a já ténue confiança externa no nosso juízo orçamental. Pela maneira como o conduziu, o Governo não poderá nunca parar o tal “comboio”, mesmo que se mantenha ao comando.

O problema é que no interior desse “comboio” estamos nós. Neste Verão, esteve nas salas de cinema um filme, de seu nome Snowpiercer e realizado pelo coreano Bong Joon-Ho, sobre um comboio que percorria um mundo pós-apocalíptico, sem nunca parar. O seu interior estava dividido por classes, com as elites governantes na luxuosa frente, e os mais pobres e fracos na pobre e deprimente carruagem traseira, impedidos (salvo uma revolta, que, ou não fosse este um filme, logo acontece) de se mudarem para outras. Lá fora, está apenas um mundo gelado onde dificilmente qualquer ser humano poderia sobreviver. Os portugueses são como esses passageiros, presos na carruagem traseira de um comboio permanentemente em movimento mas sem conduzir a lado algum, sob os comandos de uma elite laranja e rosa com tons azulados, incapaz ou sem vontade de mudar o estado de coisas, e rodeados das gélidas e inabitáveis “alternativas” do PCP e do BE, ou dos vários “Marinhos e Pintos” ou “Ruis Tavares” que forem aparecendo. A não ser que um dia finalmente se fartem e procurem uma verdadeira alternativa, será nesse comboio que irão continuar.

6 pensamentos sobre “Apita o comboio, lá vai a apitar

  1. castanheira antigo

    Países inteiros completamente endividados , como Portugal , têm solução . Basta estudar a História Universal desde a idade clássica e temos lá as soluções . Agora pode querer-se adopta-las ou não . E aí , portas e passos , já demonstraram que não querem , preferem manter os seus empregos em cima do “cavalo do poder” o mais tempo possível .e manter o país “zombi” “ad eternum” . Quanto aos socialistas a sua linguagem é vazia , basta ouvi-los , não têm uma única ideia de como governar . Não sabendo estão empenhados em enganar os portugueses para ganharem votos única e exclusivamente e alcançarem o poder simplesmente para dele beneficiar.

  2. revoltado

    Eu estou cada vez mais descontente com este governo, muito devido aos casos recentes na justiça e educaçao e na inércia com que estes (não) são resolvidos. Mas que este governo tentou fazer mudanças, isso tentou. Só que estas elas esbarraram todas no TC… agora estou curioso em saber se um governo socialista terá respostas mais favoráveis. Julgo que vamos descobrir em breve.

  3. Gil

    Este governo já está “demitido”- só eles é que ainda não perceberam. Quanto ao balanço das suas “reformas”/trapalhadas, comecemos por comparar o que o Gaspar dizia, com o que diz.

  4. El Bronze

    Sem dúvida que o PS está renovado.
    Agora a música é outra.
    A tralha socialista aí está outra vez., cheia de juventude e caras novas
    Então o novo chefe de turma é um mimo de simpatia e confiança. Dá gosto olhar aquelas feições sobretudo quando começa a espumar pelo canto dos lábios.
    Fala grosso e a gente gosta.
    No primeiro debate e depois das banalidades iniciais teve saídas de sendeiro.
    Promete, sim senhor!!! Só precisa de limar as arestas que se apresentam um tanto ferrugentas por falta de uso

  5. Pingback: PS em conflito interno a propósito da carga fiscal | O Insurgente

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