Pro-life versus anti-choice

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A discussão sobre a maternidade de substituição acabou adiada para o Outono e poderá vir a acontecer em breve. Sobre as objecções baseadas na complexidade legal do tema, já falei aqui. Com 230 deputados na Assembleia da República, mais assessores e escritórios de advogados, parece-me irrelevante usar a complexidade legal como argumento para não legislar.

Sobre o argumento da dignidade, o único quanto a mim válido na oposição à medida, convém reflectir um pouco mais. Em termos muito simples, o argumento é do que não é digno para uma mulher, mesmo que o faça de livre vontade, suportar o esforço físico da gravidez para que outra mulher possa ter filhos. Em primeiro lugar, a dignidade não é um conceito objectivo. Na sua vida profissional, muitas pessoas são expostas a diferentes níveis de indignidade para benefícios de outros. No topo da escala da dignidade estarão médicos, professores cujos meios para atingirem os fins são maioritariamente classificados como dignos. Lá mais para baixo na escala, advogados, jornalistas, políticos que por vezes têm que recorrer a meios menos dignos para atingirem os objectivos que a sua profissão impõe. Depois há a indignidade física, de pessoas que sacrificam a sua saúde uma vida inteira (mineiros, operários da construção, empregados da limpeza, homens do lixo) para que outros possam ter acesso a coisas que consideramos básicas. Ninguém hoje está proibido de apanhar o lixo dos outros ou raspar os seus dejectos de sanitas. Ninguém hoje é proibido de exercer profissões que levam ao desgaste físico e psicológico prematuro. Tudo isso é permitido, desde que exercido de livre vontade, desde que o indivíduo que o faz o considere suficientemente digno para si. Nesta escala de dignidade, onde entra o esforço de suportar uma gravidez para que outra mulher possa realizar o sonho de ter filhos? A dignidade não é um conceito binário nem objectivo, por isso ninguém tem na sua posse um dignómetro capaz de aferir com absoluta certeza o que é suficientemente indigno para ser ilegal, mas eu arriscaria a dizer que fazer o sacrifício de suportar uma gravidez durante 9 meses para que outra mulher possa ser mãe está no topo dos comportamentos dignos. Quando alguém olha para a cara desta senhora, que aceitou suportar a gravidez para que a sua filha pudesse cumprir o sonho de ser mãe, a última coisa que se pensa é na falta de dignidade da sua atitude. Perante algo tão subjectivo, com avaliações tão diferentes dos níveis de dignidade, fará sentido proibir baseado no julgamento de alguns?

Há depois o argumento de que ser contra a maternidade de substituição é uma forma de defender as crianças por nascer, que supostamente terão uma vida coberta de problemas psicológicos por saberem que a sua mãe não as carregou no útero. Uma espécie de repescagem manhosa do argumento profundamente válido usado na discussão do aborto da defesa das crianças por nascer. Há apenas um problema com esse argumento: as crianças que se pretende defender com a proibição da maternidade de substituição nunca irão nascer. Ao querer defender a criança do suposto problema psicológico (não encontrado em nenhum estudo sobre os milhares de crianças nascidas sob maternidade de substituição), estão-lhes a tirar o maior direito de todos: o direito a existir. É o verdadeiro argumento anti-vida, mais parecido com o daqueles que defendem o aborto tardio de crianças com Síndrome de Down, apenas porque os espera uma vida com desafios adicionais.

Na discussão sobre a legalização do aborto colocam-se em lados opostos aqueles que defendem a vida e os que defendem a liberdade de escolha das mulheres. A discussão sobre a maternidade de substituição, pelo contrário, coloca do mesmo lado aqueles que defendem o direito à vida e o direito de opção. Do outro, estará o preconceito simples, o ataque ao direito de opção e, ao mesmo tempo, a oposição à vida. A opção neste caso parece-me óbvia.

39 pensamentos sobre “Pro-life versus anti-choice

  1. Carlos Duarte

    Não, CGP, o principal problema é a questão de maternidade – de QUEM é o filho? Ao contrário de um carro ou de uma casa, um ser humano não é nem pode ser alvo de contratos de compra e venda. Logo, o que se passa, é uma inseminação artificial com zigoto de terceiros. E nesse caso, quem tem o direito de paternidade? Os pais genéticos ou a mãe gestante?

  2. Carlos Guimarães Pinto

    Os pais genéticos. Note-se que já hoje a gestação não garante nenhum direito acrescido de paternidade: pai e mãe tem o mesmo direito à criança em caso de separação.

  3. lucklucky

    Concordo. Não concordo no entanto que faça a comparação com Aborto.
    Ninguém é morto neste caso.

  4. PiErre

    Penso que quem pode avaliar o grau de dignidade de um acto desta natureza são os próprios actores e nunca os espectadores. Estes apenas podem dizer se o acto é ou não é imoral.

  5. Carlos Duarte

    Caro CGP,

    Ai garante, garante (pelo menos de forma temporária). Durante o período gestacional, a mãe pode abortar sem necessitar do consentimento paterno.

    Mais, a igualdade que refere baseia-se na necessidade da intervenção de duas pessoas para gerar a criança. Num caso de uma barriga de aluguer, existe uma terceira parte envolvida. Ou seja, em termos equitativos, a criança seria filha dos três…

    Eu não estou a tomar a posição num sentido ou noutro – a única coisa que rejeito liminarmente é a possibilidade de transacção comercial – mas antes que os problemas não são simples.

  6. Manolo Heredia

    Caro Carlos Duarte, a única coisa que pode dar como certo é que 99% dos casos existentes são transações comerciais, e continuarão a sê-lo independentemente da lei que vier a ser aprovada… O resto é conversa fiada.

  7. Carlos Duarte

    Manolo Herédia, não duvido nada. Mas uma coisa é acontecerem dessa forma, outra coisa é uma legislação que surja permitindo as barrigas de aluguer que o permita sob a forma de um contrato comercial. Uma coisa são eventuais ajudas de custo (pelo incómodo, perca de dias de trabalho, etc), outra coisa é “comprar” uma gestação, que é parte integral do surgimento da vida.

    Como referi no post anterior, se se admitir barrigas de aluguer, o único critério justo será uma partilha (não uma divisão, uma partilha) do direito parental sobre a criança por parte dos três intervenientes. Se após o nascimento um dos intervenientes renunciar à criança, está no seu direito. Mas não deveria ser possível fazê-lo ante-parto.

  8. lucklucky

    Não faz sentido algum. Um médico, uma parteira até ao construtor do hospital … fazem o “malvado” comércio com nascimento de uma criança porque é que uma mãe de aluguer não?

  9. Luís Lavoura

    O argumento no terceiro parágrafo é disparatado. Suponha o seguinte caso, realista: uma criança com um cancro na cavidade abdominal. Se o médico tentar retirar cirurgicamente esse cancro, corre um muito levado risco de destruir os nervos ciáticos da criança e de ela ficar paraplégica. O que os médicos normalmente fazem em casos desses é recusarem-se a operar tais cancros. Ou seja, é preferível o risco de a criança morrer ao risco de a operação permitir salvar a criança mas condená-la a uma vida miserável.
    Faz todo o sentido recusar uma determinada intervenção quando ela, mesmo que permita que uma vida exista ou prossiga, tem um elevado risco de tornar essa vida miserável.

  10. Luís Lavoura

    Carlos Duarte,

    a única coisa que rejeito liminarmente é a possibilidade de transacção comercial

    Não deixa de ser curioso, num blogue liberal, pretender recusar por lei transações comerciais.

    Como é evidente, estou em desacordo consigo. A maternidade de substituição, tal como a doação de órgãos, deve poder ser, aliás deve até ser na generalidade dos casos, uma transação comercial.

  11. Nuno

    Não se refere a barrigas de aluguer, mas levanta questões semelhantes:
    http://blasfemias.net/2014/10/07/o-problema-e-o-conservadorismo-dos-outros-dizem/
    Como é que a criança se vai sentir aos 15 anos quando se cruzar na internet (que nada esquece) com estas notícias?

    O liberal em mim diz que as pessoas devem ter a liberdade de fazer tudo o que a ciência e os recursos lhe permitem, desde que isso não colida com o respeito pela liberdade dos outros. Mas estas questões são delicadas, e colidem com muitas garantias legais e direitos dos intervenientes.

    Se uma mulher quiser ter um filho e biologicamente preferir que o pai seja um amigo (que sabe ser saudável, inteligente, etc), o amigo não pode legalmente evitar assumir a responsabilidade de pai. Já o dador de esperma semi-anónimo escolhido através do banco, é completamente inconsequente. A barriga de aluguer, que não tem forma nenhuma de ser anónima, tem direitos, tem deveres? Pode ser inconsequente, pode mudar de ideias?

  12. Ricciardi

    O argumento contra relevante é outro. É o argumento de que um ser humano não pode ser vendido, alugado ou traficado. Com ou sem a sua vontade. Mesmo pela vontade da sua própria mãe. A resposta vai sustentá-la não na lógica, mas antes na moral e na tradição.

    Se se pode vender um bebé, seja por que pretexto juridico for, o mais natural é que a coisa (des)evolua para a venda de crianças, e adolescentes. Não vejo que argumento se possa usar para o não fazer, abrindo o precedente dos bebés.
    .
    Afinal de contas porque é que o caro CGP achará que se deve proibir a venda de crianças, digamos, com um ano ou dois? (se é que acha).
    .
    Se responder a esta pergunta verá que o argumento pode ser usado no caso das barrigas de aluguer,

    Vender, abortar não podem ser tolerados, senão em excepções.

    As excepções são isso mesmo. Excepções. Pode haver casos onde se deva proceder dessa forma, por questões de temperança e amor dependendo da situação, nunca por razões comerciais.

    Eu vejo com maus olhos virem a existir sites de venda de serviços de engravidamento. Loiras, morenas, ruivas, pretas e amarelas a disporem daquilo que não lhes pertence como se a vida pudesse ser disposta de forma intencional.
    .
    Rb

  13. Josand

    É isso e o vender órgãos. Há bairros inteiros nas Filipinas em que todos têm menos um Rim.

    Se eu fosse um gajo com poucos escrúpulos e pertencesse a uma elite maldosa pensaria em esquemas para manter uma parte da população miserável para que esta estivesse sedenta de dinheiro e vendesse logo um rim, um útero ou parte do fígado.

    Uma pessoa de Bem tem de considerar isto mais do que ilógico, IMORAL e ABJECTO.

    Depois o CGP vem com o argumento de que a dignidade não se mede. Pois não. Nem o Amor! Há tanta coisa que não se mede mas que existe!

  14. Carlos Duarte

    Caro Luís Lavoura,

    O blog pode ser liberal mas eu felizmente não sou (como na anedota do Lázaro, andei estúpido por uns tempos mas depois passou-me).

    Tanto as barrigas de aluguer, como os orgãos, como o sangue (apesar de neste último caso ser menos gravoso) não devem ser alvo de transações comerciais. Devem poder, isso sim, ser doados a título gracioso e com as devidas salvaguardas. Se depois na realidade tal acontece, é outra história (como referido no meu comentário).

  15. Carlos Duarte

    Caro Ricciardi,

    Nem mais. Eu poderia considerar casos excepcionais (exemplo: entre irmãs ou de mães/filhas), em que não existe qualquer dúvida que NÃO se trata de operações comerciais, mas de um acto gracioso com fundações em laços familiares. Quanto ao resto, tenho as minhas dúvidas apesar de, como escrevi, não serem absolutas e prenderem-se acima de tudo com a comercialização do acto (que o degrada).

  16. Luís Lavoura

    A lógica impecável do Carlos Guimarães Pinto (CGP) implicará, no entanto, no mínimo, uma alteração à lei do aborto. De facto, de acordo com essa lei a mulher grávida tem o direito de abortar sem dar cavaco a ninguém. Com as barrigas de aluguer no modelo proposto pelo CGP, a mãe de aluguer entregará, de facto, o seu direito de abortar aos pais genéticos.
    Prevejo que tal alteração à lei do aborto não seja fácil de fazer. Até porque tal alteração poderá, no futuro, levar a ampliações, em que por exemplo uma mãe genética entregue ao pai genético o direito ao aborto, coisa que atualmente é dificilmente pensável.

  17. É fallaciosa a ideia de que a barriga de aluguer salva vidas ou de que a sua prohibição retira direitos a bebés por nascer, pois estando prohibido não ha nenhuma creança que não chega a nascer; ellas simplesmente não chegam a existir, tal como os billiões e billiões de seres humanos que nunca existiram e nunca existirão. E não passa pela cabeça de ninguem dizer que alguem violou os direitos d’esses incontaveis seres humanos.

    O embrião produzido (é este o termo; com a artificialização da vida, e é a isto que me opponho, os seres humanos passam de concebidos a produzidos; imagino que não te opponhas a fabricas de seres humanos) só é produzido para ser implantado na barriga de aluguer. Se esta technica for prohibida, o embrião não chega a ser produzido, pelo que o argumento não colhe.

  18. Rita Melo

    Não li em nenhum dos comentários sobre a óbvia ligação mãe-filho que ocorre durante a gravidez. É aquele corpo (mesmo que de aluguer) que trata, protege, alimenta, cuida, nutre, já para não dizer ama, aquele bebé. Isso é indissociável e indelével. E ignorar isso é ignorarmos a nossa própria condição de filhos, que fomos gerados e criados dentro de uma mãe. Dizer que aquela mãe não é mãe só porque não é a dadora do material genético é no mínimo reduzir a maternidade a um gâmeta. Se uma mulher não pode ser mãe (ou não quer, porque também por aí umas que querem ter filhos mas sem estragar o seu belo corpinho sem a mazelas da grravidez :P), por muito doloroso que isso possa ser, e muitas vezes é, não é tirando o filho a outra mulher que se vai sentir realizada. E há por aí muitas crianças abandonadas, à espera de serem adotadas. Talvez os legisladores se devessem preocupar em baixar o número de crianças à espera de mãe e pai nas instituições. E não em criar leis em que as crianças possam ser retiradas às mães “de barriga” para as dar às outras.

  19. Vasco Gama

    A estranha (para não dizer mistificadora e perigosa) ideia de que a dignidade (o que também serve para a moral) não é objectiva, e portanto é uma espécie de conceito plástico sujeito aos caprichos individuais de qualquer um (que tenha poder), serve para justificar o que quer que seja, reduzindo qualquer discussão moral ao acordo entre os envolvidos, assumindo que têm voz e se manifestem.

    Não é o facto de a dignidade (ou a moral) não ser algo completamente definido e inequivoco (como pretendem os relativistas) que faz com que a moral, ou os conceitos de bem, mal, ou de dignidade, não seja objectivos.

    No caso da maternidade de substituição as mulheres e as crianças são desprovidas de dignidade, as primeiras são tratadas como objectos (digamos meras incubadoras) e as crianças têm uma dignidade comparável à de um animal de estimação.

    Claramente o autor do post é uma pessoa confusa (ou melhor determinada a confundir os demais), pelo seu conceito de dignidade um escravo seria uma pessoa digna (independentemente dos caprichos do dono) desde que a compensação financeira fosse razoável.

    tenha juizo.

  20. Subscrevo o commentario do Ricciardi. E accrescento:

    Nestes themas que quebram tradições millenares, não é evidente á primeira vista, e muitas vezes nem á millesima vista, todas as consequencias sociaes, moraes, civilizacionaes, que uma decisão d’estas acarreta. E por isso o “preconceito simples” de que falla o auctor do post é uma attitude racional e util. É muito mais prudente continuar a prohibir que passar a permittir, porque a prohibição tem consequencias que conhecemos e a permissão não. Este é um meta-argumento proprio do conservadorismo, o que faz d’essa attitude politica bem mais segura e racional que o progressismo. Os beneficios da legalização da barriga de aluguer são conhecidos, mas os seus custos não, mesmo que seja legalizado. Um bom principio é seguir a tradição e practica normal da natureza: quem carrega o filho é mãe biologica. Dissociar a maternidade da gestação altera o proprio conceito de maternidade. E parece-me mais ou menos evidente que não vale a pena alterar o conceito de maternidade porque uma minoria de pessoas deseja fazer contractos de gestação com terceiros.

  21. Ricciardi

    Os liberais e os comunistas partilham este tipo de ideias. Era bom que o pessoal Conservador se afastasse deste tipo de ideias libertárias para que se percebesse bem ao que vêm os libertários. Os comunistas já sabemos.
    .
    A ideologia parece conseguir elevar-se acima dos valores mais básicos. Para defender a ideologia abdica-se de qualquer tipo de valores morais.
    .
    O caso paradigmatico do que descrevi é Rothbard, um dos gurus dos libertários. Rothbard defendia que um pai devia poder não alimentar o seu filho. Isto diz tudo. Para ter lógica e coerência a ideologia tem que se transformar numa espécie de satanismo.
    .
    Rb

  22. Josand

    Ricciardi totalmente de acordo. Qualquer Pessoa , dotada de moralidade e valores de respeito pelo seu semelhante, tem de ser contra isto. Seja de esquerda , direita, centro conservador ou progressista.

    Muito bons comentários do Vasco Gama, Sebastião Durão e acima de tudo a perspectiva certíssima da Rita Melo

    Ou desistimos de tentar distinguir entre o certo e o errado?

  23. Carlos Guimarães Pinto

    Ricciardi, no processo de maternidade de substituição não existe qualquer venda do bebé. O embrião é produzido com material genético do pai e da mãe. Já com alguns dias de vida é transferido para o útero de substituição e devolvido aos pais 8 meses depois. Onde está a venda aqui?

  24. Rafael Ortega

    Se uma mulher quiser, por dinheiro ou porque é familiar ou por qualquer outro motivo, ter na barriga durante nove meses um bebé de um casal, quem sou eu ou qualquer outra pessoa para proibi-la?

    Estou certo que muitas mulheres não se importariam de ter tudo pago durante 9 meses, e ainda receber uma quantia que as satisfizesse no final.

    Se estiverem dispostas a isso fazem mal a alguém?

    Uma pessoa pode pensar se estaria disposta ou não a fazê-lo, mas proibir os outros de fazer?…

    É o país que temos…

  25. Josand

    CGP: Você está numa fase de alienação da natureza humana.

    Leia menos Descartes e não se apegue tanto ao Positivismo. Nem tudo tem de ser provado e não olhe só para o lado aparentemente lógico. A razão também é emoção. Como julga um futuro em que a Mãe não contacta com a criança durante a gravidez e não há a criação de laços entre ambas? Sabe que existe muita troca de hormonas que permitem estabelecer esses laços?
    Depois não nos admiremos da alienação dos pais em relação aos filhos e de crianças indisciplinadas, mimadas e isoladas.

    Aproveite e vá aos clássicos. Ao Platão e Aristóteles. Vai ver que não se arrepende e fica a perceber melhor o sucesso da civilização ocidental. Talvez por nos estarmos a afastar gradualmente disso é que explica grandes focos de decadência moral e portanto civilizacional.

    Conhece o filme Matrix? Lembra-se quando o NEO descobre que os Humanos são cultivados e estão em gigantescas incubadoras para serem usados como combustível? É o caminho que pretende?

    Somos pessoas, não somos computadores, com total consistência das nossas convicções, imperfeitos e como tal humanos. Como tolerar a imperfeição nos outros, se ela for ilógica? Olhe para que totalitarismo nos dirigimos… o da lógica. Lá por Deus ter uma vontade racional, a razão por detrás é a Vida e o Amor.

  26. «O caso paradigmatico do que descrevi é Rothbard, um dos gurus dos libertários. Rothbard defendia que um pai devia poder não alimentar o seu filho. Isto diz tudo. Para ter lógica e coerência a ideologia tem que se transformar numa espécie de satanismo.» — Ricciardi

    Exacto. Rothbard defendia o aborto com argumentos de propriedade privada, tambem. O aborto consiste em mactar seres humanos, logo é moralmente inacceitavel e tem de ser prohibido, tal como o infanticidio foi prohibido por ser moralmente (sim, pela moral christan, que é a nossa, não pela pagan) inacceitavel. Ora, se uma theoria ethica conduz a conclusões ethicamente inacceitaveis, ou se baseia em premissas falsas ou o raciocinio está errado. No caso de Rothbard, creio que se baseia em premissas falsas, i.e. moralmente inacceitaveis.

    O problema da legalização da barriga de aluguer é não só partir o conceito de maternidade em dois — mãe ovular e mãe umbilical –, com as consequencias nefastas que dahi adveem, mas tambem tornar seres humanos em objecto de contractos de transacção. Para tornar claro que são problemas independentes, consideremos o caso de um homem que paga a uma mulher para a engravidar com a condição de ella lhe devolver o bebé depois do parto e abdicar de quaesquer direitos de maternidade. Isto é prohibido, pois a mãe tem sempre direitos sobre o filho que pare, mas pela ethica libertaria do auctor d’este post, e elle que me corrija se estiver enganado, tal contracto deve ser legal. Neste caso, não ha barriga de aluguer, mas ha tambem um contracto em que uma mulher abdica do filho antes de o parir, não podendo renunciar á sua decisão (se pudesse, o contracto não teria valor). Alguem de mente san pode acceitar uma coisa d’essas? A lei não existe na atmosphera; tem de respeitar a cultura e a tradição. Este contracto que expuz e o da barriga de aluguer defendido pelo auctor do post vão no sentido de tornar a vida humana sujeita a contracto, a tornal-a mercadoria, um producto, e não é por acaso que o auctor usa a palavra “produzir” para os embriões. São um producto. Isto choca os valores mais basicos da nossa moral. A lei da barriga de aluguer não fere (só) a dignidade da mãe-de-aluguer ou mãe umbilical, como lhe chamei (que passa a incubadora humana), fere a propria dignidade humana. Qualquer pessoa minimamente sensata, cuja mente não tenha sido capturada pelos theorias adolescentes do “libertarismo”, só pode ser contra estas leis que vão no caminho da objectificação da vida humana. Os passos seguintes serão a legalização da venda de bebés (qual o mal, dirão elles, se for voluntario?), a clonagem humana (os meus genes são meus e ninguem tem o direito de os usar como bem entender), a constituição de fabricas de seres humanos (justificada pelo valor da propriedade privada e da liberdade contractual), etc. As pessoas de bem teem de se unir contra estas aberrações juridicas dos progressistas, a fim de tentar evitar a destruição da nossa civilização e sua substituição por um mundo completamente desligado da natureza, artificial, e em que homem e objecto teem a mesma dignidade, a tal que diz o auctor que ninguem pode medir.

  27. Josand

    10 polegares para cima Sebastião Durão.

    PS: Essa escrita é algum manifesto contra os Acordos Ortográficos?

  28. Carlos Guimarães Pinto

    O que eu vejo aqui nesta caixa de comentários é uma enorme ignorância em relação à maternidade de substituição, aos seus efeitos nas crianças e nas mulheres que carregam os bebés. Todos estes efeitos estão documentados. Basta apenas dar-se ao trabalho de procurar. É com base nessa ignorância, nessa neofobia, que querem proibir milhares de casais de constituirem família.
    São de uma pobreza franciscana os conservadores em Portugal, que não sabem distinguir uma novidade da outra, que não sabem distinguir entre o que é a favor das famílias e o que é contra, que assumem uma atitude anti-científica em todos os assuntos, apenas por medo e insegurança interior, disfarçado de ideologia. O simétrico exacto dos progressistas neófilos. Ignorantes e irresponsáveis como esses são.

  29. Duma pobreza franciscana é esse teu commentario, que só sabe adjectivar e até vem com uma nova phobia, a neophobia. Tão pobre como os argumentos da esquerdalha que anda sempre com palavras como homophobia e racismo na bocca. Quando não se tem argumentos correctos, diz-se que os outros são ignorantes, preconceituosos e qualquer-coisa-phobicos. Haja pachorra.

  30. Josand

    CGP: Mostre lá essa factualidade científica, com ensaios clínicos e estudos observacionais longitudinais em países que não se disponham a sociedade por castas e onde esta gravidez não seja altruísta e sim comercial.

    Mas não se esqueça de apontar os impactos sociais, legais e clínicos (este últimos principalmente para a mulher que se transforma em fábrica). Imagine que uma filha sua(este tipo de exemplos é mais fácil para percebermos) é uma incubadora profissional… como a consolaria quando ela percebesse que tinha cometido um erro ao entregar um filho ou acha que são inócuas as interacções entre a mulher e a criança durante a gestação?

    Engenharia social progressista como esta nem os soviéticos ou nazis.
    Compreende-se a eclosão de focos de fundamentalistas islâmicos na sociedade ocidental.
    Quando nos regemos pelo materialismo é fácil vendermo-nos a quem der mais. Há pessoas para quem nem tudo se rege por relações financeiras mas também morais. Quando abdicarmos disto, venham os islâmicos, porque aqui já não há cristãos. !

    Não costumo ser tão taxativo mas esta ideia é abjecta!

  31. Josand

    Há bocado tinha dado uma sugestão de leitura dos clássicos helénicos mas tem um mais recente: O Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley.
    Pode ser que respeite mais dado que é lá dos lados anglosaxónicos…

  32. Pingback: É divertido ser liberal em Portugal | O Insurgente

  33. EMS

    Já se fazem transplantes de útero. Daqui a pouco tempo essa questão das barrigas de aluguer será obsoleta. Teremos os liberais da facção religiosa, os que condenam as barrigas de aluguer, a apoiar a venda de úteros.

  34. Pingback: Manifesto contra as mães de leite (ironia) | O Insurgente

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