Notas sobre o duelo de cavalheiros (enfim, são o contrário disso)

Sobre Costa haverá muito a dizer. O sentimento de entittlement sobre a coisa pública que carrega, visível na suprema lata com que mantêm o cargo (e o ordenado) de presidente da CML enquanto passa quatro meses a passear-se pelo país em trabalho eleitoral das primárias do PS, ou como afirma que não devia ter dado oportunidades a Seguro, como se lhe coubesse permitir que Seguro (acaso fosse capaz) brilhasse. O seu percurso profissional, sempre feito na política e na traiçoeirice que esta proporciona, que nos garante desde já que teremos um pm que não faz a mais pequena ideia do que é, por exemplo, uma PME (daquelas, que são a maioria, que não vivem empoleiradas no dinheiro dos contribuintes, que essas Costa provavelmente conhece muito bem). A sua produção assustadora de banalidades, tanto mais grave quanto faz da política vida há décadas, revelando que é apenas um gestor de dinheiros e de tachos, que ideologia não tem nenhuma e é incapaz de alinhavar ideias que vão além de tonterias como ‘tenho visão estratégica’, ‘precisamos de uma agenda para a década’, o que faz falta ‘é aumentar a riqueza’. Mas isso fica para depois. Para agora uns pequenos apontamentos sobre as primárias e o PS segurista.

1. As primárias foram um sucesso, muitos simpatizantes votaram, saiu delas um vencedor com imensa legitimidade. Usemos mesmo um cliché: um lindo exercício de cidadania. Os simpatizantes que votaram estão de parabéns. Mas, como já referiu José Manuel Fernanades, por exemplo, votou muito menos gente proporcionalmente que noutros países. Porquê? Em minha opinião, pela mesma razão das vitórias pífias do PS (cuja culpa de facto não foi só de Seguro): o PS foi um partido despesista desde 1995 até 2011, ano em que se não fosse a troika teríamos falido. Os eleitores não são parvos (apesar de terem votado duas vezes em sócrates) e sabem perfeitamente quem nos trouxe até estes 3 anos de garrote.

2. Todos os métodos de escolha de líderes partidários serão certamente melhores do que as diretas aos militantes. Este tipo de eleições trouxe-nos sócrates e Passos Coelho. Ganhavam os líderes que melhor controlavam o aparelho – i.e., que mais prometiam e que maiores benesses tivessem possibilidade de ganharem para os aparelhistas. As diretas em si próprias eram a garantia que o estado continuaria a servir os interesses dos aparelhos partidários e, logo, continuariam mastodôntico, alarve, em processo de hiper-obesidade acelerada. Com as primárias a escolha do líder volta a fugir apenas destes critérios, porque os simpatizantes não votam com o cargo x em vista. É, para mim, uma gigantesca melhoria.

3. Claro que nenhum partido que quer governar pode ter um líder como Seguro. Quem vai votar com confiança num so called líder que afirma ter-se anulado durante vários anos? E depois de ter dito o disparate quando Costa lhe contestou a liderança, ainda veio repetir a imbecilidade nestas últimas semanas. Se o próprio garante que não se consegue afirmar, quem se daria ao trabalho de o contrariar? E a moção de censura do PCP, lembram-se da figura? E quem leva a sério o seu recém distanciamento face a sócrates se durante anos se fingiu orgulhoso da governação socialista que sempre isentou de culpas? Enfim, Seguro não precisa de inimigos quando se tem a si próprio.

4. Aparentemente há vida inteligente no PS, que entende – além das culpas do PS na crise de 2011 – o erro crasso que será dar a entender ao eleitorado que se pretendem coligações de governo com o PCP ou que a CRP é afinal um documento datado m algumas partes. Seguro e este PS que, pelos vistos, raciocinam podem bem questionar-se: não estaria o PS em píncaros nas sondagens se, e com este governo azelha que resolve tudo com mais um aumento de impostos, se tivesse em devido tempo distanciado de sócrates e mostrado que havia compreendido o que as políticas socráticas fizeram ao país? É que às vezes há recompensa por fazer o que está certo.

5 pensamentos sobre “Notas sobre o duelo de cavalheiros (enfim, são o contrário disso)

  1. Josand

    Faço minhas estas palavras e endereço-as para os adoradores de Costa e de afins nos partidos do Governo:

    ” Concorde -se ou discorde-se da sua actuação e do seu estilo, Seguro liderou o partido durante mais de três anos muito difíceis, em que mais ninguém se dispôs a fazê-lo. Três anos muito difíceis devido ao estado de emergência financeira em que Portugal se encontrava. Três anos muito difíceis para o PS enquanto partido da oposição num quadro político dominado pelo memorando negociado e assinado pelos próprios socialistas quando ainda eram governo, antes do mandato de Seguro. Três anos em que, apesar disso, o PS registou três vitórias eleitorais — nas regionais açorianas, nas autárquicas e nas europeias.
    Há uma tendência crescente para a perda de memória na política portuguesa. Até por isso convém ir lembrando alguns factos essenciais. Como estes.”

    Que este tipo de traição não se passe no PSD…

    http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/penso-rapido-53-6738182

  2. Marquês Barão

    Como candidato somos todos bons, no desempenho é que a porca torce o rabo. Pode é queimar-se nas próprias palavras se lhe rebenta o fósforo nas mãos. Aproveito para fazer a minha chama a propósito da oratória vitoriosa: Com Costa ou sem Costa este seria sempre um dia a contar para ficar-mos mais próximos da saída deste governo. O que mais se pode temer é que com Costa seja o primeiro dos dias que faltam para nova bancarrota.

  3. Luís Pereira

    Não deixa de ser interessante que, andando todos aos berros sobre a necessidade de cortar as gorduras do Estado, a primeira decisão do António Costa tenha sido contrariar a proposta do Seguro para reduzir o número de deputados. Muito interessante! E aquela de atirar o cravo para a multidão dizendo “este cravo é vosso”? Demagogia pura. Receio que o dia da vitória do Costa seja o primeiro da comntagem para o regresso da Troika.

  4. JP

    É escusado perder tempo com Costa:
    “Contas de 2010 marcam um défice histórico de 11,2% do PIB.” (Observador)

    Isto ainda sem TGV, Aeroporto, etc.

  5. JP,

    Nem as dívidas das autarquias nem a Parque Escolar, nem a Parpública, nem tudo o que estava fora do perímetro orçamental. E quanto a esse perímetro, muito obrigado, Troika! Mais vale uma verdade inconveniente que uma ilusão amena.

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