Sobre a colocação de professores

"Honra e glória ao professor soviético."
“Honra e glória ao professor soviético.”

Pouco haverá a acrescentar ao magnífico texto de José Manuel Fernandes a respeito do problema da colocação de professores, e como este configura uma falha endógena do próprio sistema: o resultado da elefantíase de um modelo hiper-centralizado onde as escolas não têm qualquer autonomia pedagógica ou de gestão, reduzidas a meras agregações que têm de acatar o que do Ministério é decretado.

Recordo, contudo, uma história muito interessante e que demonstra com evidência empírica como a explicação é certeira. Em 2004, no contexto de uma cadeira de Seminários foi à Faculdade um colaborador de uma empresa chamada ATX Software. Matemático de formação, veio-nos explicar como socorreram o Ministério da Educação e resolveram o enorme problema que surgira nesse ano com a colocação de professores, quando a empresa anterior, a Compta, tinha falhado em prover um algoritmo que conseguisse resolver o problema em tempo útil. O problema, em si, é extremamente complexo, complexidade que advém da hiper-centralização de que fala José Manuel Fernandes: é um problema de optimização combinatória (semelhante ao knapsack) com um conjunto de variáveis a optimizar, atendendo a um conjunto vasto de restrições, umas soft, outras hard. A complexidade, e por conseguinte o tempo de resolução, é exponencial. Aliás, é fácil perceber porquê: a priori, existem milhões de combinações possíveis de professores e escolas (número de escolas elevado ao número de professores, embora muitas combinações sejam imediatamente cortadas).

Precisamente 10 anos depois continuamos com os mesmos problemas, consequência natural de nunca termos resolvido o problema de base: um sistema educacional soviético, controlado por um ministério da educação que por sua vez está a mando de um dirigente sindical. Para o ano, e para os seguintes, há mais.

18 pensamentos sobre “Sobre a colocação de professores

  1. JP

    A gestão de um sistema crítico e complexo não se pode fazer anualmente, à última da hora, em cima do joelho, sujeito a expor fragilidades cuja resolução em tempo útil é impossível. Há em Portugal uma rejeição sistemática do planeamento, que faz parte do nosso culto à especialização em “desenrascanço”, para nós uma grande qualidade.

  2. JP, concordando consigo, note apenas que o problema não é a falta de planeamento. É também o facto de que o sistema está centralizado e que anualmente mudam as regras, obrigando à revisão do sistema de planeamento. Na prática, a solução óptima para este problema é local. É deixar as escolas contratarem e despedirem o seu pessoal, tal como se sucede nas Faculdades.

  3. maria

    “É deixar as escolas contratarem e despedirem o seu pessoal.”
    Num país de corruptos, incompetentes e das “cunhas”, seria péssimo.
    Há muitos anos, com mais alunos e professores, a colocação em papel não provocava tantos danos.

  4. JP

    “É deixar as escolas contratarem e despedirem o seu pessoal.”

    Concordo. Mas nasce outro problema: a teia do poder local nos agrupamentos, que já existe. E o medo de professores quando discordantes em problemas melindrosos ocorridos em escolas. Já o constatei. Com uma agravante: não podendo escolher qualquer escola, fica-se limitado à política da zona, que é a mesma. Tapa-se de um lado e destapa-se no outro. Vai ser igual à regionalização e à “democratização” à dias sugerida pelo António Costa. É ver o que se faz nas autarquias, como se tem visto nas capas dos jornais.

  5. maria

    “Quando um professor da escola A conseguia lugar na escola B, abria um lugar na escola A que antes não estava a concurso. Era então necessário refazer todos os ordenamentos, vezes e vezes a fio. O computador não aguentou – nenhum aguentaria – pelo que fez-se um pequeno truque: para esses lugares não se recalculava tudo. ”

    Esta passagem diz tudo sobre o conhecimento que JMF tem sobre o assunto em questão. Só pode ser para rir.

  6. anonimo

    “A gestão de um sistema crítico e complexo” não se resolve simplesmente implementando um sistema de informação. Primeiro é necessário simplificar o sistema. Caso contrário, não só a sua resolução pode continuar a ser demorada, como pode produzir resultados que, embora formalmente correctos do ponto de vista das regras que implementa, são incompreensíveis para os destinatários. Simplificação e clareza precisa-se!!!

  7. Luís Lavoura

    Hmmm, portanto a solução para o problema extremamente complexo é simplesmente eliminá-lo, tipo Alexandre Magno com o Nó Górdio.
    Eu diria que a eliminação do problema não o resolve.
    O problema é colocar os melhores professores nas escolas que eles mais desejam. Trata-se de um problema efetivamente muito complexo. Aquilo que o Mário sugere é que se deixe de procurara atingir tal desiderato: as escolas devem ser livres de contratar maus professores. Os bons professores podem eventualmente não arranjar emprego. Um professor que o tenha sido durante muitos anos pode ficar desempregado na meia-idade quando tem filhos para sustentar, não faz mal. O que interessa é que cada escola possa contratar e seu bel-prazer quem muito bem lhe apeteça.

  8. Luís Lavoura

    a solução óptimo para este problema é local

    Essa não é solução nenhuma. É simplesmente a eliminação do problema. Desiste-se de resolver o problema eliminando-o.
    Não é solução porque não garante que os melhores professores sejam colocados nas escolas que desejam.
    Com a pseudo-solução proposta pelo Mário teríamos o mesmo que se observava no passado em muitas universidades portuguesas, e o mesmo que se observa ainda hoje em muitas autarquias portuguesas: contratações por cunhas e compadrios, que de forma nenhuma garantem que os melhores sejam contratados.
    As escolas seriam livres, é claro, de seguir os seus projetos educativos específicos. Com maior probabilidade, escolheriam os seus projetos mafiosos específicos. Com o contribuinte a pagar.

  9. JP

    “anualmente mudam as regras”

    Eu percebo a ideia, mas as regras não podem mudar anualmente. O que pode mudar são as variáveis e condicionantes, nomeadamente oferta e procura de lugares, número de escolas, histórico do professor, etc. E essas têm de estar consagradas.

  10. Luís Lavoura,

    Um problema *que não existe* é um problema resolvido. Por definição.

    Digo-lho eu, que faço muitas vezes manutenção melhorativa, para eliminar das máquinas industriais a causa de problemas.

    A esquerda é que gosta de centralizar tudo. Como vemos, dá resultados espantosos.

    Isso lembra-me uma ANEDOTA SOVIÉTICA:

    Um guarda manda parar um homem num posto de polícia. O homem tira um papel do bolso a julgar que eram documentos, para verificar que não estavam no seu bolso. Fez um esgar de terror e o guarda suspeitou logo.

    — «Análise de urina»!? Com qu’então análise de urina! Para conseguir uma só pode ser um espião estrangeiro. Fuzilamo-lo já aqui? — pergunta o guarda, virando-se para o oficial, a quem tinha entretanto passado o papel.

    — Não. O papel diz: «Proteínas: zero, gordura: zero». Este é com certeza russo. Deixa-o passar.

  11. Há outra, que vou aportuguesar.

    Um campónio para a Universidade de Lisboa. Dirige-se à secretária do Reitor e declara o que pretende:

    — Eu vi como vossemecês têm bons empregos, ganham bem e o reitor carro e chofer lá fora. Eu só tenho a terceira classe e mal sei ler, mas quero ser reitor desta universidade. Onde é que me posso candidatar?

    A secretária, atónita, pergunta-lhe:

    — Mas o senhor é idiota ou doido?

    — Então esses são os requisitos? Peço desculpa.

    E desliga.

  12. Luís Lavoura, tem razão, a minha solução para o problema é eliminar o problema. Na exacta proporção que a solução para a União Soviética, que aliás inspira este sistema educativo, foi a sua eliminação. Precisamos de um Gorbachev e de uma perestroika para descentralizar a educação.

  13. Joaquim Amado Lopes

    Luis Lavoura,
    “Não é solução porque não garante que os melhores professores sejam colocados nas escolas que desejam.”
    E há alguma “solução” que o garanta?
    É sequer possível ordenar os professores do “melhor” para o “pior” de forma objectiva e inquestionável? O “melhor” professor é sempre o melhor, independentemente da escola e respectivo contexto? O professor nº 10.000 colocado numa escola que não conhece e de que não gosta é “melhor” do que o professor nº 20.000 colocado numa escola que conhece e de que gosta?

    A melhor solução para TODOS (professores, alunos e escolas) é que as escolas possam contratar directamente os professores. As escolas poderão fazer por manter os melhores professores, os piores professores serão afastados da profissão e os quadros de professores serão mais estáveis, podendo estes organizarem as suas vidas sem andarem a saltar de escola em escola nem terem de se habituar a um contexto novo todos os anos.
    O Ministério da Educação apenas necessitaria de manter listas actualizadas de vagas e candidatos, correspondendo a estes candidatarem-se às vagas que lhes interessassem.

  14. Joaquim Amado Lopes,

    É impossível arguir com quem acha que cada formigueiro deve ser sujeito ao Gabinete Director de Operações da Formigalidade. Para eles é claro que os formigueiros teriam já sido extintos se não houvesse tal órgão centralizador, e isso prova-lhes que ele existe.

  15. jo

    O episódio que conta da colocação de professor que deu barraca, aconteceu quando o grande especialista em educação que é o então ministro David Justino resolveu desmantelar os serviços informáticos do ministério para dar o serviço a fazer ao anterior ministro e correligionário.
    Tentem não colocar idiotas como ministros que mudam as regras a 30 de agosto e vão ver como as coisas funcionam.

  16. ““É deixar as escolas contratarem e despedirem o seu pessoal.”
    Num país de corruptos, incompetentes e das “cunhas”, seria péssimo.”

    Cara maria, este é o chamado argumento não-argumento. Acha mesmo que por as coisas estarem centralizadas a corrupção diminui? Não, só se altera a escala: nas autarquias os desfalques são na ordem dos milhares, no Estado central são na ordem dos milhares de milhões. Temos aí as PPPs, o aeroporto de Beja, as obras do Parque Escolar como singelos exemplos.

    A questão da corrupção resolve-se removendo os incentivos económicos a que esta aconteça. Repare, por exemplo, o caso das Faculdades públicas, que asseguram as suas próprias contratações: a contratação de um mau professor tem um enorme custo de oportunidade nos indicadores de produtividade do ensino superior. Menos publicações, piores resultados dos alunos. Ora, neste momento e da forma que as Faculdades são avaliadas, não se podem dar ao luxo de cometer esses erros capitais. Basta transpor parte do método para as escolas do ensino não-superior.

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