Democracia Vs Poder, face à ameaça do Estado Islâmico

Nota prévia: À semelhança do que escrevi em 2006 – e como este texto permanece actual… – assumo que como princípio censuro em toda a linha a atitude protagonizada por muitos islamitas, porque sou liminarmente contra a violência e a intolerância. A escalada aliás do Estado Islâmico é muito consequência do alheamento europeu, e dos partidários do melting pot do multiculturalismo. Agora, pergunto: quem é que na Europa está disponível para enfrentar pessoalmente as consequências de um confronto directo com o Islão? Ao contrário dos EUA, que sabem bem que a liberdade tem um preço, e estão dispostos – como já demonstraram – a defendê-la (apesar de todos os erros que são sobejamente conhecidos), está a Europa preparada para acarretar com os custos associados à afirmação da superioridade dos nossos valores?

Não sendo fácil fixar as ideias no tempo, pode afirmar-se que, pelo menos desde os anos 60 que na Europa se concebe o Poder como algo institucionalizado, cuja fonte radica no consentimento ou no reconhecimento daqueles que o exercem (cf. Hannah Arendt). Na nossa cultura recente, habituámo-nos a ver os valores como sendo conciliáveis entre si, pelas grelhas da tolerância e da liberdade negativa: o Ocidente – sobretudo a Europa – afastou-se das concepções tradicionais de Hobbes, Weber ou Dahl, fortemente criticadas nos últimos cinquenta anos por apenas apresentarem um mundo de preferências opostas, em tensão, onde os antagonismos se dirimem mediante predomínio de «uma» sobre a «outra».

A ideia de uma tolerância inclusiva encontra a sua base em muito do que é o ambiente dominante nas sociedades ditas liberais. O Ocidente, nos limites da sua Civilização, tem na verdade conseguido compatibilizar os valores essenciais da liberdade e da tolerância, retirando uma boa parte do atrito que necessariamente se gera quando procuramos conciliá-los.

A forma porém como hoje encaramos as relações de Poder – como carecendo de consentimento e reconhecimento institucional, maxime império da lei, e consensual na salvaguarda de certos valores, os «nossos» (cf. Hannah Arendt) – não é replicável no modo como interagimos com sociedades cujo estádio civilizacional é assumidamente próximo do estado-natureza hobbesiano. Os recentes acontecimentos mediatizados na Síria e no Iraque mostram bem como em certas regiões do globo ainda impera a barbárie.

Durante anos, grande parte dos políticos europeus preferiram acreditar que os valores essenciais seriam universais, e que o Poder se exerceria na capacidade de conciliação das visões e concepções em conflito. Basta ver como se tem procurado resolver desde há 30 anos conflitos insolúveis como o israelo-árabe.

Infelizmente, porém, grande parte do mundo não está disponível para exercícios de conciliação. As Teocracias em que vivem hoje diversos países de religião islâmica não subscrevem os valores estruturais do pensamento ocidental, e têm com o passar dos tempos encontrado formas bem expressivas de o manifestar. Na Europa, durante anos, muitos preferiram ignorar a realidade, já que a afirmação liminar da liberdade de expressão neste contexto poderia ter um custo elevado.

Só que com o evoluir da radicalização estamos a chegar a um ponto onde é difícil não nos definirmos. A Europa começa a perceber que a passividade pode ter um preço a pagar, num horizonte que começa a não se pressentir como longínquo.

Num mundo em que as relações de Poder com o Islamismo Radical são, face ao gap civilizacional, dialécticas, afirmativas (na linha do defendido por Hobbes), não basta querer ser livre, consentir nessa liberdade: é preciso Poder (no sentido tradicional) para o ser. Aqui fazem sentido as palavras de Weber, claramente inspirado em Hobbes: power «(…) is the probability that one actor within a (…) relationship will be in a position to carry out his own will despite resistance».

As escaladas de violência, no Estado Islâmico, e a degradação da segurança a Leste, após a invasão da Ucrânia, levam-nos a concluir que a afirmação da nossa liberdade, neste contexto, vai ter um preço adicional. Que passa pela aposta em Segurança, defensiva e ofensiva, mas também, por serviços de informações e warfare. Implica que nos próximos tempos iremos ver restringidas conjunturalmente as nossas esferas de liberdade negativa (cf. Berlin). A pax perpetua europeia, para ser pax, pode não ser necessariamente perpetua. E começa a ser improvável que não vejamos, num futuro muito próximo, tropas europeias envolvidas em conflitos regionais, e a necessidade de afirmarmos culturalmente os nossos valores, contra os que defendem a barbárie.

7 pensamentos sobre “Democracia Vs Poder, face à ameaça do Estado Islâmico

  1. Mário Pinto

    Muito sinceramente, gostava de saber qual é o “peso” que os erros dos EUA têm no eclodir do Islamismo Radical. Por outras palavras, eu sentir-me-ia muito mais tranquilo a condenar este radicalismo se tivesse a certeza de que aquela barbárie nasceu por geração expontânea e que não foi ateada por actos praticados pelo Ocidente.
    É que eu não esqueço que os EUA fazem “amigos” consoante as suas necessidades que, mal estejam realizadas, são descartáveis.
    Exemplos: Saddam Hussein e Bin Laden.

  2. Pois, na altura em que tudo aponta para a estatégia falhada do pensamento revolucionario (vox populli nos desertos) altamente ingenuo, fica a sugestao que sempre tiveram razao… enfim.

  3. Pedro Oliveira

    Porquê só os Estados Unidos? E as potências europeias – França. Alemanha, etc – para já não falar na Russia, China, Paquistão ou mesmo a Índia? Não fizeram também amigos descartáveis?

  4. A guerra será civil, entre muçulmanos e não-muçulmanos, em solo europeu; virão os enclaves (vide Malmoe e outras no-go areas em França), os conflitos nas fronteiras entre os enclaves e os territórios circundantes e as incursões de células mais ou menos suicidas no seio dos países europeus. As autoridades começarão por nada fazer («trata-se de casos isolados»), a resistência virá de milícias (que serão perseguidas pelas autoridades nacionais). Só quando a maré de resistência for inelutável é que os políticos acabarão por mobilizar as forças de segurança e militares contra os mujahideen. Muito sangue será derramado.

  5. CN

    “Muito sangue será derramado.”

    good grief…

    nem Hitler passou o canal de Mancha…

    Agora, se continuarem a fazer tudo o que parece ter sido um plano bem traçado por Bin Laden para o Ocidente cair em uma a uma, na armadilha estratégica seguinte…

  6. HenryC

    Não consigo ver, para já, o Estado islâmico como um problema global. Nasce de um vazio de poder gerado por uma intervenção militar absurda.
    O mundo nunca foi um lugar calmo e pacífico. Já houve outros proto-estados semelhantes e normalmente duram pouco. Que eu saiba, neste momento, em África há várias situações semelhantes (Sudão, Nigéria), que parece não ter a mesma atenção.

    “Ao contrário dos EUA, que sabem bem que a liberdade tem um preço, e estão dispostos – como já demonstraram – a defendê-la”

    Os EUA têm um exército gigantesco com custos gigantescos que tem que se justificar continuamente. Eisenhower avisou.
    Os EUA têm um comportamento essencialmente imperial (posso, quero,mando, drono).
    O tempo da inocência dos EUA acabou lá para os anos 70 (se é que alguma vez existiu).
    É muito melhor o império EUA que o império USSR, mas, um império é um império, usa a força para defender os seus interesses, não a liberdade.

  7. Mário Pinto

    Pedro Oliveira

    Repare que eu citei os EUA, dada sua influência mundial mas não esqueci o Ocidente em geral.
    Quanto aos outros países que refere, não os incluo pq, para o bem e para o mal, não fazem parte…do Ocidente.

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