O que fazer, Mario?

The European Central Bank's new chief Ma

É interessante tentar encarnar Mario Draghi enquanto Presidente do BCE, num exercício de puro pragmatismo. Em causa não está a existência do próprio banco central. Muitos de nós concordarão que as questões monetárias estariam melhor entregues ao próprio mercado livre, em alternativa a uma entidade indirectamente controlada pelo Estado que põe e dispõe dos agregados monetários e de algo que deveria reflectir de forma endógena o preço do crédito, o custo de oportunidade de não investir, o encontro entre procura e oferta: a taxa de juro. Nos actuais moldes em que o BCE é a entidade supranacional que controla a emissão de moeda e a expansão monetária, que deveria fazer o Mario?

A política monetária está esgotada. A taxa de juro nominal está próxima de zero, pelo que não é possível qualquer estímulo adicional ao investimento e ao crédito barato, admitindo que uma baixa taxa de juro efectivamente promove o investimento. Hayek argumentaria que promoverá também o mau investimento, tornando qualquer investimento viável ao tornar positivo o VAL do projecto, o que, inevitavelmente, conduzirá a más alocações de recursos. É um risco que tanto a Europa como os EUA têm vindo a correr há muitos anos. Uma corrente forte de pós-keynesianos como Simon Wren-Lewis ou Brad DeLong insistem numa política fiscal expansionista. Discordando, essa não é a competência directa do BCE, pelo que não vale a pena aprofundar a questão.

Depois existem as políticas não convencionais. O quantitative easing na sua forma mais light consiste em alargar o leque de activos que podem servir de colateral para os bancos solicitarem liquidez junto do banco central e numa forma mais extrema a um programa de compra de activos e a aquisição directa de dívida pública por parte do banco central são as hipóteses que restam. O QE é inócuo se os canais de transmissão não estiverem devidamente operacionais. Basta observar os últimos anos para perceber que não estão: a oferta monetária aumentou, a liquidez disponibilizada também, e ainda assim o crédito não expandiu, contraiu. Mas este não é um problema de liquidez, é um problema de solvência de estados soberanos. Assim sendo, resta a aquisição de títulos de dívida pública, forçando o aumento do preço dos bilhetes e a consequente baixa da taxas de juro. Isto coloca problemas morais: países incumpridores são desresponsabilizados dos seus actos, abrindo mais um perigoso precedente. Mais ainda, nenhuma política monetária, convencional ou não convencional, resolverá um problema que é estrutural: as contas públicas têm de ser consolidadas e importantes reformas estruturais têm de ser conduzidas para reforçar a competitividade. No entanto, reduzir encargos com o serviço de dívida ajudaria, em muito, os Estados-membros.

E isto conduz-me ao que poderia fazer o Mario: compra de títulos de dívida pública em proporção da quantidade de despesa estrutural reduzida ou do défice estrutural consolidado, embora prefira a primeira porque promove um corte da despesa em detrimento de um aumento de impostos. Um exemplo: aprovado um projecto lei que vise reduzir encargos de um determinado sector em X milhões de Euros, o BCE estaria disponível para adquirir dívida pública numa proporção desse montante. A proposta não está isenta de problemas, especialmente o de atribuir mais um mecanismo discricionário ao BCE, mas talvez tivesse o apoio Alemão, preocupado (justificadamente) com o laxismo fiscal do sul. Aliás, a proposta está longe de ser ideal, pois todo essa oferta monetária pode reverter em inflacção assim que os mecanismos de transmissão da política monetária voltem a estar operacionais. O problema é que pouco mais resta fazer: a Europa tem de se recompor, e fá-lo-à, mas algum alívio fiscal, o rollover da dívida pública e a redução com encargos do serviço de dívida, tudo isto efectuado de uma forma ordeira, certamente ajudaria.

4 pensamentos sobre “O que fazer, Mario?

  1. antonio

    O que não devia fazer era, ainda há pouco tempo estar preocupados com a inflação e neste momento existir deflação. Não acertam uma.

  2. Carlos Martins

    Interessante a perspectiva, mas ha um detalhe que continua a escapar aos banco centrais, que ‘e precisamente a procura de credito. Se a politica monetaria expansionista (ate mais nos US do que na Europa, embora por ca com imensa disponibilizacao de liquidez no sistema) nao consegue reaviviar o consumo, a producao, o investimento e em ultima analise a inflacao, entao o problema nao esta no supply de credit ou na liquidez. o caso japones, que muitos chamam “balance sheet crisis” podera bem ser o problema. e resolver o balanco dos bancos, das empresas e … dos paises passa por… baixar impostos, o que so e’ possivel com reformas estruturais. O ECB tem dado os passos todos quase certos, mas nao pode fazer as reformas pelos paises. E de um ponto de vista puramente supply-demand, o mercado ate esta a dar uma folga aos governos (leia-se tempo) para implementarem as reformas a taxas de juro historicamente baixas. Em suma, QE e deficits nao sao a solucao. Mais uma vez, a solucao e’ emagrecer o Estado social da europa.

  3. manuel branco

    Camarada,

    O camarada Mário Soares e outros camaradas pensam como tu. O diabo é o artigo 123 do tratado de lsiboa e mais o diabo dos estatutos do BCE. Isto para não falar do que se diz lá para a outra banda do Reno, que esta vadiagem só quer viver à conta deles. A luta continua! eubonds para a rua, a máquina das notas a imprimir e já agora transferências para cá que o cartão de crédito está pela hora da morte.

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