O buraco negro

Invasion of PolandHá 75 anos, a Alemanha de Hitler invadia a Polónia, dando início à II Guerra Mundial. Fica aqui um texto que publiquei no Insurgente há 5 anos.

I

Em 1919, o agora aparentemente ressuscitado John Maynard Keynes afirmava que a paz saída do palácio de Versailles iria condenar a Alemanha “à servidão por uma geração”, “degradando a vida de milhões de seres humanos”, “semeando a decadência de toda a vida civilizada na Europa” . Para Keynes, o elevado montante das “Reparações” que a Alemanha deveria pagar aos vencedores da guerra constituía “um instrumento de opressão e rapina”, que “procurando deliberadamente o empobrecimento da Europa Central”, provocaria a “vingança” alemã e a destruição “da civilização e do progresso”. Keynes pensava que as “Reparações” conduziriam a uma subida brutal da inflação que destruiria a democracia alemã e que espalharia um “tumulto sem fim” e um “perigo constante” por toda a Europa.

O facto de sucessivas crises inflacionistas e de desemprego terem tido lugar, de alguém como Hitler ter tomado o poder, e posteriormente, lançado a guerra sobre a Europa, parece confirmar a previsão de Keynes. Mas terá mesmo sido essa a causa da II Grande Guerra? Segundo A. J. P. Taylor, no seu The Origins of The Second World War, a Alemanha recebeu bastante mais dinheiro emprestado (sem o pagar de volta) de investidores privados americanos do que pagou em reparações : “entre 1919 e 1932 a Alemanha pagou 19.1 mil milhões de marcos em reparações; no mesmo período recebeu 27 mil milhões de marcos em injecções de capital, maioritariamente de investidores estrangeiros, que nunca foram pagos em resultado dos repúdios da dívida em 1923 e 1932”, o que parece sugerir que foram as opções políticas alemães (e não as imposições externas) que conduziram às crises que trouxeram Hitler para o poder.

Em primeiro lugar, optaram deliberadamente por desequilibrar o orçamento, não fazendo qualquer reforma no sistema fiscal, para transmitirem a ideia de que seria impossível obterem os recursos necessários para o pagamento das reparações . Em segundo lugar, optarem pela inflação em detrimento da deflação, pois pensavam que a primeira seria mais vantajosa no sentido de evitar a revolução . No fim, ela acabou por trazer a descredibilização do sistema parlamentar: a inflação fez com que “todas as relações permanentes entre devedores e credores” ficassem “tão desordenadas ao ponto de serem insignificantes”, e com que se “virassem do avesso” as “bases existentes da sociedade” ; “um tal falhanço da ordem legal” teria de conduzir “à quebra da confiança no Estado” , e todos aqueles que estivessem revoltados contra “a ladroagem da inflação” poderiam encontrar consolo no exaltado regaço dos nacionais-socialistas, que prometiam “preços estáveis” e, acima de tudo, “trazer os ladrões” à “justiça” .

Depois, com a crise da Grande Depressão e o brutal desemprego que esta trouxe, levou a um não menos brutal crescimento do voto, não no partido nazi, mas nos comunistas, o que por sua vez, fez com que Hitler parecesse a menos má das alternativas . E para muitos, ele parecia mesmo a melhor: para um país derrotado na guerra e atingido por uma crise económica, um homem que dizia ser possível ultrapassar tudo apenas com a união do volk germânico numa única gemeinschaft, um “novo reino germânico de grandeza e poder e glória e justiça”, seria certamente mais sedutor que os “bolcheviques” que, embora suficientemente “socialistas”, eram pouco “nacionais”, ou as velhas caras de Weimar .

II

O facto de Keynes, afinal, não ter estado tão certo como à primeira vista poderia parecer não nos deve fazer ilibar o Tratado de Versailles de forma apressada. Pois se as “consequências económicas da paz” não podem ser alvos da atribuição da culpa pelo destino da economia alemã e a ascensão de Hitler, as suas “consequências políticas” precisam de ir a julgamento.

Enquanto Keynes fazia as suas previsões catastrofistas, outra Cassandra (muito mais próxima da mítica, pois tal como ela, estava correcta e ninguém a ouviu) afirmava que o Tratado de Versailles iria conduzir a uma nova guerra: em Março de 1919, Lloyd George escrevia a Woodrow Wilson, dizendo não conseguir “conceber uma maior causa de uma futura guerra que o povo alemão, que certamente provou ser uma dos mais vigorosas e poderosas raças do mundo, ser rodeado por uma variedade de pequenos estados, muitos deles consistindo de povos que nunca antes estabeleceram um governo estável por si próprios, mas cada um deles contendo largas massas de germânicos clamando por reunião com a sua terra nativa” .

Até 1914, o Império Austro-Húngaro havia permitido a convivência dessas “largas massas de germânicos” com outros povos: eslavos, magiares, polacos, checos, eslovacos, romenos, croatas, ucranianos, para não falar dos vários judeus das várias nacionalidades, todos eles pertenciam a uma mesma unidade política sob a autoridade do “monarca dual” Habsburgo. Claro que essa convivência não era fácil: a própria existência da “monarquia dual” nascia da necessidade de equilibrar os interesses das várias entidades políticas que constituíam o Império, e a minoria germânica só conseguia assegurar a sua predominância ao jogar umas etnias contra as outras no edifício político do Império . Mas era de facto um estado de direito multiétnico, em que o hino podia ser cantado em qualquer uma das várias línguas oficiais do império, incluindo o yiddish . Algumas décadas mais tarde, os judeus da Europa da Central não estariam a cantar o hino austríaco, estariam a ser exterminados pelo nazismo alemão.

E isto porque o Império não sobreviveu à Grande Guerra, e sem ele, o conflito entre os vários povos da região passou do seu edifício político para as ruas das antigas cidades imperiais. De acordo com o princípio da “autodeterminação” estabelecido em Versailles, o Império dividiu-se numa série de países, quase tão multiétnicos como o Império, mas sem as mesmas garantias para as minorias. Entre elas, estavam as tais “largas massas de germânicos”, que passaram a ser alvo de violência, por exemplo, na Polónia e na Checoslováquia, ou que perderam o direito de voto (na Checoslováquia), ou que viram escolas serem fechadas, ou a possibilidade de aceder a empregos públicos recusada . Não era apenas Hitler quem queria unir o volk germânico, nem apenas os eleitores alemães que nele votaram, mas também os elementos de etnia germânica a viver nos novos estados da Europa Central. Numa era obcecada pela raça, um “Grande Reich” surgia como uma solução para o problema destes germânicos fora da Alemanha, como a forma que eles teriam de se libertarem do jugo das raças inferiores, que os dominavam. A anexação da Áustria, ou a reivindicação da “autodeterminação” dos germânicos de Danzig ou dos Sudetas , eram a forma de “substituir” a protecção da minoria germânica na Europa Central que havia sido o Império Austro-Húngaro.

Ainda por cima, ao mesmo tempo que retirava aos germânicos essa protecção, a desintegração retirava também à Alemanha um contrapeso que pusesse limites ao seu ressurgimento: antes de 1914, não se podia expandir sem que encontrasse no seu caminho uma outra grande potência (França, Áustria ou Rússia); agora, os seus vizinhos eram países como a Checoslováquia ou a Polónia . Versailles criara uma ameaça aos germânicos fora da Alemanha, e abrira a esta uma estrada para ir em seu socorro.

III

Essa estrada fora aberta com o vazio de poder na Europa Central criado pela desintegração do Império Austro-Húngaro, e pela ausência de uma outra potência que o ocupasse. Os EUA, os construtores da nova ordem, recusaram-se a dar-lhe os alicerces: em vez de assinarem o Convénio da Liga das Nações que os obrigaria a “preservar e defender” a integridade territorial dos restantes membros, os EUA preferiram manter a sua liberdade de acção” . E aqueles que assinaram, por sua vez, não demonstraram grande vontade em manter a palavra, como a invasão da Manchúria ou a da Etiópia mostrariam, antes mesmo de Hitler fazer o teste à fibra dos Aliados.

O Reino Unido, que surgia agora a única potência mundial europeia, sentia-se manietado precisamente por ser a única potência mundial na Europa: a política de appeasement centrava-se na ideia de que o Reino Unido nada tinha a perder no continente a não ser, em caso de intervenção, a capacidade de defender o Império . Quando o Japão começou a sua política de expansão na Ásia, a ameaça de guerra nas colónias fez com que Chamberlain preferisse aceder às reclamações de Hitler, em vez de, como lhe pediam alguns membros do gabinete, defender a integridade territorial da Checoslováquia .

A França, por sua vez, viveu vinte anos em pânico com a possibilidade do ressurgimento alemão. Como o Reino Unido não acedia a criar uma aliança militar contra a Alemanha, a França sentia-se demasiado fraca para enfrentar a Alemanha, e nada mais lhe restou senão esperar que Hitler fosse “sincero” quando dizia não desejar nada para além da paz . No meio do desespero, chegou a celebrar alianças de defesa mútua com a Checoslováquia, Polónia e Roménia, países que poderiam lucrar com a ajuda francesa, mas que eram demasiado fracos para poderem contribuir para defender a França de um eventual ataque alemão . Como demasiado fraca era também a própria França para ajudar a URSS caso esta fosse invadida pela Alemanha, fazendo com que a aliança (ainda por cima excluindo colaboração militar) assinada em 1935 pouco ou nada incomodasse a Alemanha .

A própria URSS parecia pouco interessada em entrar em conflito com a Alemanha. Stalin dizia não ver razão para “fazer sacrifícios na defesa das democracias ocidentais” quando não via qualquer “diferença” entre elas e a Alemanha . E se era verdade que o “espaço vital” desejado por Hitler se encontrava a Leste, ou seja, na Rússia e nos seus domínios, também era verdade que o facto de o alvo seguinte ser a Polónia abria uma oportunidade a Stalin: querendo expandir-se para a Polónia, Stalin não poderia aliar-se a Chamberlain na garantia da integridade territorial polaca; Hitler, querendo garantir Danzig, também não desejava ter de enfrentar a URSS; assim, ambos tinham um incentivo para partilhar a Polónia .

Quando as tropas alemãs entraram na Polónia, a relutância em intervir do Reino Unido e da França desapareceu (a da URSS e dos EUA só desapareceria quando fossem atacados). Talvez tenha sido tarde demais: “em 1933 um primeiro-ministro francês deveria ter dito (…): o novo chanceller alemão é o homem que escreveu o Mein Kampf, que diz isto e aquilo. Este homem não pode ser tolerado na nossa vizinhança. Ou ele desaparece ou nós marchamos.” Quem dava este conselho dizia também que os aliados haviam deixado os nazis “sozinhos” a “passar pela zona perigosa” e “navegar em torno dos recifes”: e quando “haviam terminado”, e passaram a estar “bem armados”, “melhor” que França e Reino Unido, então sim, “eles atacaram”. Quem dava este conselho não era o warmonger Winston Churchill, mas alguém que conhecia bem a capacidade alemã e as ambições de Hitler, um tal de dr. Goebbels . Em 1938, os responsáveis alemães diziam não terem condições para conduzir uma guerra contra a França ou o Reino Unido. Se, em vez de ter cedido em Munique, Chamberlain tivesse feito frente a Hitler, os Aliados estariam em melhor posição para travar uma guerra com a Alemanha em 1938, do que acabariam por estar 1939 . Chamberlain queria “ganhar tempo”; acabou por vendê-lo à Alemanha.

IV

Quando uma estrela colapsa, cria um buraco negro, um corpo com uma tal força gravitacional que atrai tudo à sua volta. Foi isso que aconteceu na Europa após a Grande Guerra de 1914-18: o colapso de uma estrela (o Império Austro-Húngaro) criou um buraco negro (uma série de pequenos estados multiétnicos, sem que existisse uma entidade que garantisse o respeito pelos direitos das minorias, como havia sido o Império) na Europa Central, que exerceu uma força gravitacional tal que nada lhe pôde escapar: a Alemanha quis “salvar” os germânicos que estavam em minoria nos novos estados; a Inglaterra e a França (e bastante mais tarde, os EUA), a partir do momento em que a acção alemã implicou a aquisição de cada vez mais território, quiseram impedir que esta substituísse o desaparecido Império; e a URSS, querendo aproveitar o vazio deixado por ele, encorajou o expansionismo alemão antes do combater.

No mundo físico, nada se pode fazer para evitar um buraco negro. Mas o buraco negro de 1918-39, cuja força gravitacional atraiu todas as potências para a guerra de 1939-45, podia ter sido evitado: ou impedindo o colapso da estrela (assegurando a sobrevivência do Império Austro-Húngaro) ou substituindo-a (quer colocando os novos estados sob a tutela de uma ou várias potências que assegurassem o respeito por certas regras, como os EUA haviam feito na Nicarágua ou no Panamá, quer enfrentando o projecto expansionista alemão desde o início). Ao não o fazerem, apenas foram obrigados a fazê-lo muito mais tarde, e com custos muito maiores.

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5 thoughts on “O buraco negro

  1. Muito bem! Sem querer descurar o texto no seu todo – que é excelente – gostaria de o aproveitar para tentar fazer um paralelismo entre a queda do Império Austro-Húngaro (o tal buraco negro de que fala) e a situação que se vive actualmente na região do Iraque e da Síria, onde o ISIS parece ter vindo para ficar, com as consequências já conhecidas e outras que se imaginam.

    Já agora, é possível daqui extrair algum ensinamento (dada a causa-efeito) que possa ser usado como “remédio” para o conflito entre a Ucrânia e a Rússia?

  2. CN

    “Se, em vez de ter cedido em Munique, Chamberlain tivesse feito frente a Hitler, os Aliados estariam em melhor posição para travar uma guerra com a Alemanha em 1938, do que acabariam por estar 1939 . Chamberlain queria “ganhar tempo”; acabou por vendê-lo à Alemanha.”

    Há um problema, os ingleses também não estavam preparados e Chamberlain conseguiu de facto tempo.

    E depois como o texto indica, porque iniciar uma segunda guerra mundial, depois do traumatismo da primeira, para impedir os Sudetas de serem alemães, ou de forma mais genérica, fazer a guerra porque a solução pós-primeira está enferma de erros, na altura indicados por muitos?

    (nota: em Munique, também Polacos e Húngaros ficaram com território checo-eslovaco que continha população de uns e outros,e não esquecer que o resto da checo-eslováquia caiu em parte por colapso/deagregação)

    O erro de Chamberlain não foi esse, foi ter dado um blank check à ditadura militar Polaca que assim se recusou a negociar o que quer que fosse por causa de uma cidada ex-Prussa com 99% de Alemães.

    Mas ainda que Hitler tivesse invadido de qualquer forma a Polónia (tendo em conta que teria provavelmente preferido ter uma relação como teve com os outros regimes fascistas… e poder ter atacado Estaline nesta base) porque escolheram Ingleses e Franceses declarar guerra em vez de simplesmente terem tratado de defender a França no tempo que dispunham?

    Hitler teria combatido Estaline, com alguma probabilidade teriam-se ambos destruído mutuamente.

    O resultado que tivemos foi a vitória total de Estaline, um conhecido genocida dos anos 30, que invadiu a Polónia 15 dias depois de Hitler, e que ficou com a Polónia (o suposto motivo para a declaração de guerra do Império Britânico e França) e com metade da Europa.

    Quanto ao Império de Churchill, caiu por morte súbita, desgastado.

  3. paam

    “O resultado que tivemos foi a vitória total de Estaline (…) que ficou com a Polónia (o suposto motivo para a declaração de guerra do Império Britânico e França) e com metade da Europa.”

    E 60 milhões de pessoas morreram nesse conflito. 2.5% da população mundial. No entanto, a História apenas nos ensina que não aprendemos nada com a História. O que não falta nos dias de hoje são individuos ansiosos de começar uma nova guerra mundial.

  4. lucklucky

    “Há um problema, os ingleses também não estavam preparados e Chamberlain conseguiu de facto tempo.”

    Só asneiras como habitualmente vindas do CN. É capaz de dizer quais as forças armadas da Alemanha em 1938 comparadas com as da França e Inglaterra e depois comparar com 1940?

    Nem vou expandir o periodo ” drole de guerre” quando os Aliados deixaram os Alemães recuperarem das feridas da conquista da Polónia.

    “E 60 milhões de pessoas morreram nesse conflito. 2.5% da população mundial. No entanto, a História apenas nos ensina que não aprendemos nada com a História. O que não falta nos dias de hoje são individuos ansiosos de começar uma nova guerra mundial.”

    Ou seja que alguém que se defende provoca a guerra e os 60 milhões de mortos . Não o agressor.

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