Problemas com o conceito de democracia

Não querendo agora discutir os subsídios às fundações privadas, as políticas culturais ou o valor da coleção do Museu do Brinquedo (conheço-a apenas por lá ter ido com as minhas crianças), esta notícia é muito curiosa pelo que se percebe da atuação de Basílio Horta e que parece ter vindo da cartilha aprendida por todos os socialistas. É mesmo todo um retrato da forma como os socialistas medem o mundo. A coleção é privada e tem (assumamos) interesse público. O que faz Basílio Horta? Apresenta uma proposta (na verdade, impõe) assegurando apenas o seu interesse e espera que a parte privada aceda prontamente e ainda agradeça profusamente. Faz lembrar sócrates negociando (não se preocupem, tenho aqui ao lado os rebuçados para a tosse) uma possível coligação em 2009, com o seguinte guião a apresentar aos outros partidos: ‘vossas excelências aceitam sem tirar nem por o nosso programa eleitoral como programa de governo e, em troca de nada, dão-nos os vossos votos; e sorridentes, se faz favor’. Ou António Costa, que já avisou que só aceita – e com benevolência e pleno de espírito ecuménico – o PSD se este renunciar às suas políticas e até pretende escolher o próximo líder do PSD. Ou seja, os socialistas só se sabem relacionar em submissão. A atitude que respeita a outra parte, que a aceita como igual com quem há que tomar decisões em conjunto, que não estabelece relações de poder humilhantes (e estes socialistas não só não aprendem com os seus erros como não aprendem com erros alheios; o episódio irrevogável do anos passado, mais o que o gerou, come to mind) – essa atitude é-lhes desconhecida.

E a hipocrisia de Basílio Horta é tanta (e a de sócrates, que se queixava que ninguém se tinha querido coligar com ele apesar das suas avassaladoras tentativas, e a de Costa se o deixarmos lá chegar) que claramente pouco se esforçou para chegar a um entendimento mas, ainda assim, recomenda insistência à parte privada. É a ordem natural das coisas: os privados a pedincharem coisas aos deuses do Olimpo socialista. Tu aí trabalha muito para me agradar e persuadir que eu, virtuoso e ser superior, como bom socialista, se estiver bem disposto, dou umas migalhinhas e olhem que as dou apenas por dias contados, não andem cá à procura de mimalhices intermináveis. Quem tinha um deadline, oficial ou oficioso, era a CMS, mas pode-se lá exigir à casta superior dos nossos autarcas que se sujeite aos tempos de um privado que tem algo com algum interesse público? Não é obrigação dos privados esperarem todo o tempo que os iluminados do PS e anexos entenderem por bem (e mesmo quando a situação a negociar se torna por alguma razão, com a passagem do tempo, impossível ou indesejável ou menos apelativa)? Ou até se aparece uma melhor proposta na autarquia ao lado? Obviamente que a um organismo do estado lhe tem de ser concedido toda a eternidade para o processo de decisão.

Todo um conceito de estado às avessas.

13 pensamentos sobre “Problemas com o conceito de democracia

  1. dervich

    Isto é realmente muito curioso…

    Eu gostava bastante do museu do Brinquedo de Sintra, visitei-o ANTES de ter crianças (quando ainda estava nas antigas instalações) e visitei-o depois, pelo menos umas duas vezes.

    O próprio museu admite que a razão principal do seu fecho é a quebra de receitas das entradas (está no subtítulo da notícia) e, lá está, o que não é auto-sustentável, segundo o que é suposto, já sabe o que o espera…

    E porque cairam as receitas cerca de 20% de um ano para o outro?

    Muito simplesmente porque Portugal não tem dimensão para suportar este tipo de museus, não gera suficiente massa crítica de visitantes – eu próprio reconheço que visitar um museu 3 vezes num período de 20 anos não é suficiente para o ajudar muito, mas o que também é certo é que ganho cada vez menos…

    Aliás, essa é também a questão – Com a crise o numero de visitantes desce a pique, basta pensar nos infantários/escolas que deixam de fretar autocarros para poder visitar locais deste género.

    Poder-se-ia pensar que a solução seria o aumento do turismo estrangeiro mas…o museu do brinquedo era bom, mas não era assim tão bom, quantitativamente e qualitativamente, em relação a outros do género existentes em Espanha, França, Inglaterra, Itália… e o turista estrangeiro que vai a Sintra já esteve nesses sítios todos e, tendo interesse no tema, já visitou esses locais, pelo que nada de novo encontraria em Sintra.

    Neste aspeto, pode-se dizer que o museu era uma mais valia para Sintra mas Sintra não era uma mais valia para o museu.

    Por outro lado, a estapafúrdia, extemporânea e mal amanhada “Lei das Rendas” (num assunto em que era quase impossível mexer, tinha de se fazer uma lei qualquer, para resolver um problema de décadas que, por vias naturais, estava quase resolvido) encontrou o seu alvo predileto nas Associações e Coletividades, de que este museu é mais um exemplo.

    http://e-cultura.sapo.pt/NoticiaDisplay.aspx?ID=4708&print=1

    As políticas de cortes cegos (cujas consequências apenas agora começam a surgir) impedem a manutenção do subsídio que a CM Sintra sempre disponibilizou, pelo que poderia sempre ter surgido uma solução como a que foi adotada para a Coleção Berardo mas, depois do que se passou, é natural que Basílio não queira (a outra escala) repetir os erros de outros…como eu o entendo!

    Mas, afinal de contas, para que raio precisa um privado do estado?!…

    No meio de tudo isto, o que é mesmo de lamentar é o fecho de um museu que, na verdade, até tinha valor e era simpático (sem ironia).

  2. tina

    “(num assunto em que era quase impossível mexer, tinha de se fazer uma lei qualquer, para resolver um problema de décadas que, por vias naturais, estava quase resolvido) encontrou …”

    AHAHAHAHA, que ridículo, vê-se logo que é inquilino e não senhorio. O assunto estava realmente resolvidissimo, em que ainda poderia haver metade de rendas congeladas num prédio e muitos inquilinos nem sequer vivendo lá mas não querendo desisitr do contrato na esperança de uma indeminização choruda. O govermo de Passos Coelho pôs o fim a grande parte desta pouca vergonha.

  3. dervich

    “vê-se logo que é inquilino e não senhorio”

    Só você viu, porque não sou nem uma coisa nem outra. Ou melhor, até sou senhorio (a meias com uma prima do meu pai) de um inquilino de um avô meu, que não paga renda há mais de três anos, mas ao qual não consigo fazer nada porque essa prima do meu pai não quer despejar, não quer vender, não quer nada…

    “metade de rendas congeladas num prédio e muitos inquilinos nem sequer vivendo lá mas não querendo desistir do contrato na esperança de uma indeminização choruda”

    Certamente, todos com mais de 80 anos, ou seja, estando o assunto perto de resolução, como referi…além disso, vamos a ver o que resolveu essa lei do PCC quando se acabar o período de moratória sobre os aumentos, já para não falar que não tocou no problema principal, os beneficiários com pensões de miséria a quem não se pode aumentar a renda..
    Fez-se uma lei porque tinha de se fazer, mas não serve para quase nada, nem para inquilinos, nem para senhorios – serve apenas para despejar coletividades, associações e museus que pagam rendas simbólicas por grandes imóveis em centros urbanos valorizados e sujeitos à especulação imobiliária..parece que as famosas SRU (Soc. de Reabilitação Urbana estavam sem nada que fazer e a morrer de fome)

    Mas embora essa lei pareça uma brincadeira, este post era mais sobre os brinquedos, pelo que dou por terminado o off-topic.

  4. António

    1 – Trabalhei, no ano 2000, de forma muito colateral num projecto, também sobre o brinquedo, onde o fundador deste museu, João Arbués Moreira, a quem presto a minha homenagem, colaborou e que culminou numa exposição e edição respectivo catálogo. Nesse catálogo a páginas tantas, escreveu algo que eu penso ser adequado a este espaço de discussão “O Insurgente”, diz assim: «Esta mania que os adultos têm de querer influenciar as crianças através do brinquedo pode ter aspectos perigosos, como aconteceu antes da 2ª Guerra Mundial com brinquedos fabricados na Alemanha, destinados a habituar aos jogos de guerra toda uma geração de crianças que daí a trinta anos viriam a ser os líderes dos exércitos de Hitler, durante uma guerra que já se sabia inevitável. Outro exemplo, mais recente, chega-nos dos EUA, onde o governo influenciou um fabricante de brinquedos para que, numa consola de jogos de computador, os comandos fossem colocados da mesma forma que os comandos dos computadores de uma futura e possível guerra das estrelas. Assim, as crianças poderiam exercitar-se, podendo vir a tornar-se homens sobredotados no funcionamento e manejamento desta maquinaria de guerra do futuro.»
    2 – É pena, o fim anunciado e desejamos ardentemente que haja ‘boas novas’ para o futuro desta colecção.
    3 – Tendo em conta os considerandos que no seu texto faz a António Costa, fica inevitável a pergunta: a Maria João já se inscreveu para votar nas primárias do PS, para, com o seu contributo, fazer eleger António José Seguro?

  5. Maria João Marques

    Dervich, o post não pretendia dicutir o encerramento do museu e as suas causas. Só mesmo o facto de a CMS até considerar que a coleção tem interesse para o município e, ainda assim, agir como uma prima dona, como se ao privado cabesse aceitar qualquer imposição estatal dada à laia de favor.

    Quanto ao museu, fui lá sempre no Inverno com os meus filhos e de facto tinha muito poucas pessoas e não considero que se possam manter museus sem visitantes abertos só porque sim. O curioso na notícia, novamente, é que Basílio Horta até ‘tinha gosto’ no museu mas fez uma daquelas propostas absurdas em que o dono da coleção perdia o controlo sobre ela, algo que evidentemente ninguém aceitaria.

  6. ambarino

    Lamento, mas não vejo na noticia do Observador bases para grande parte das afirmações feitas no post, nem em particular para uma critica tão feroz à atuação da CMS e/ou de Basílio Horta, até porque a mesma quase não dá detalhes sobre a esta atuação (à parte o ‘até tinha gosto’). Não deixa de ser revelador que o post não pretenda abordar nada do que de objetivo pode ser discutido (o encerramento do museu e as suas causas, as razões pro / contra o apoio da CMS, os efeitos da Lei das Fundações, que linhas de ação podem ou não ser desenvolvidas pelas CMS), mas apenas algo de vago e subjetivo (a atitude de Basílio Horta; uma proposta sobre a qual nada sabemos a não sera opinião de uma das partes interessadas). Admitindo que a única possibilidade era integrar o Museu na rede de museus municipais, uma proposta em que o dono da coleção perde o ‘controlo’ sobre ela é tão absurda como uma proposta em que um município não tem ‘controlo’ sobre o que se passa nos seus museus municipais. E resta ainda saber em que consiste afinal esse ‘controlo’ (a notícia não informa a este respeito). Em qualquer dos casos não vejo que se possa acusar nenhum dos participantes de uma atitude menos adequada, nem sequer de ser prima dona. Pelo que se lê na notícia tanto é possível que Basílio Horta se tenha realmente comportado como uma ‘prima dona’ como é possível que fosse Ana Arbués Moreira a ter esse tipo comportamento. Afinal de contas ela é que acha que ‘a coleção não pode ficar encaixotada’ e ela é que, ao que parece, rejeitou uma proposta que impedia esse destino sem alternativas ou contrapropostas. Nestas circunstâncias, acho os termos do post excessivos e enviesados se considerarmos o que nele é adiantado como suporte factual. A autora pode não gostar de Basílio Horta, e até pode ter razão, mas não revela nada que suporte a maioria das coisas que sobre ele diz. Se o fizesse o texto soaria menos a ‘cartilha’ …

  7. rmg

    Eu fiz há mais de 20 anos com uma determinada Câmara Municipal deste país um acordo como aquele que a CMS propôs ao Museu do Brinquedo (não eram brinquedos).
    E fui eu que propus o modelo, quase que podia acusar a CMS de plágio…
    Nunca houve problemas e os acervos não se perderam nem se estragaram porque são devidamente conservados e mantêm-se úteis.

    E repito: não ouvi falar no assunto nem foi um conhecido meu, fui mesmo eu.
    Volto à minha vida, que é fazer coisas em vez de dizer mal delas.

  8. tina

    “Certamente, todos com mais de 80 anos, ou seja, estando o assunto perto de resolução, como referi…”

    Continua a falar do que não sabe. Além disso, mesmo que fosse verdade, porque carga de água têm os senhorios de fazer o papel do Estado, continuando a dar alojamento de borla aos inquilinos? É esta mentalidade sociallista arrogante que levou o país à bancarrota, com os muitos preguiçosos e indolentes a pendurarem-se nos poucos produtivos, e ainda por cima com a complacência do resto.

  9. dervich

    “como se ao privado cabesse aceitar qualquer imposição estatal dada à laia de favor”

    Imposição?!…Essa é boa! Um negócio só é bom quando é bom para as duas partes. Foi apenas uma proposta e não uma imposição, por isso pode ser recusada, como foi…resta saber qual das partes quis fazer braço de ferro com a outra, isto é, se Sintra achava que era mais importante para o museu ou se o museu achava que era mais importante para Sintra.

    “fez uma daquelas propostas absurdas em que o dono da coleção perdia o controlo sobre ela, algo que evidentemente ninguém aceitaria.“

    Exatamente, por isso seria estranho Sintra aceitar (tal como fez com o Berardo) montar toda uma infraestrutura, custear todo o pessoal e despesas fixas, custear todos os seguros, etc, para assegurar a exibição de um acervo que, a qualquer momento e sem aviso prévio, poderia ser vendido ou deslocalizado, desde que o legitímo proprietário (e bem) assim o entendesse (o que é hoje em dia o museu de arte moderna de Sintra? Pois…)

    Mais uma vez, (como nas bolas de Berlim) este é um post paradigmático, mas agora por outro motivo:

    Ele mostra os aburdos e os resultados de querer misturar o que é público com privado e vice versa.

  10. Maria João Marques

    ambarino, mas que quer, eu nos meus posts escrevo sobre o que acho relevante, e neste caso o que me parece relevante é a atuação sobranceira que o PS tem face a tudo.

    dervich, pelos vistos até leu que eu defendi que a CMS devia construir de raiz um edifício para o museu do brinquedo, ou ter quaisquer outros encargos deste e daquele molde, pelo que tenha uma boa tarde a discutir com as suas invenções.

  11. dervich

    “até leu que eu defendi que a CMS devia construir de raiz um edifício para o museu do brinquedo, ou ter quaisquer outros encargos deste e daquele molde”

    Certo. Sendo assim, a CMS não precisava de mexer um palha – foi o que aconteceu. De que se queixa então?…

  12. Maria João Marques

    dervich, by all means, se não tiver mais que fazer pode ficar aqui a inventar conclusões que me atribui e a rebatê-las. quando aprender a ler, conversamos.

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