Um Estado De Negação

Quem seguir em Portugal a comunicação social com a participação de diversos comentadores, partidos políticos, sindicatos, tribunal constitucional, etc. ficará com a impressão de que:

  1. O país não esteve a um passo da bancarrota em 2011 (com Teixeira dos Santos a afirmar que só existia financiamento até Maio desse ano).
  2. O país não efectuou um pedido de ajuda internacional e não foi sujeito a um plano de ajustamento assinado com a troika pelo PS, PSD e CDS.
  3. O país não tem uma dívida pública perto dos 130% (a este propósito, ler este post).
  4. O pais não teve um crescimento do PIB anémico na década que precedeu a intervenção da troika, não obstante o enorme aumento da despesa pública.
  5. Portugal, como membro da zona Euro, não esteja sujeito ao tratado orçamental que obriga o país a atingir um défice estrutural máximo de 0,5% do PIB (sem recurso a receitas extraordinárias) e a reduzir a parcela da dívida pública acima de 60% do PIB numa taxa média de um vigésimo por ano numa média de três anos.
  6. Não existe um problema de sustentabilidade da Segurança Social, sobretudo devido a alterações da composição demográfica.
  7. Existem várias e diversas gorduras do Estado – sem considerar salários dos funcionários públicos e prestações sociais, onde seria fácil cortar na despesa, não existindo apenas vontade política.

Para contrapor esta realidade alternativa, ficam aqui três gráficos – os primeiros dois construídos com dados do Pordata, e o terceiro retirado daqui.

PIB_DívidaPública

EvoluçaoGruposEtarios

GordurasDoEstado

32 pensamentos sobre “Um Estado De Negação

  1. lucklucky

    O que mais choca é gente instruída – talvez demasiado – julgar que se pode ter défice permamentes para sempre.

  2. Joaquim Amado Lopes

    lucklucky,
    A realidade é que se pode ter défice permanente, desde que se faça “reset” de vez em quando.
    A “gente instruída” de que fala quer défice permanente mas também se queixa da dívida crescente. Para “eles” isso não é incoerente porque advogam que outros paguem as nossas dívidas (o tal “reset” AKA “default”).

    Um certo “economista” que costumava comentar em blogues dizia que “dívida são impostos futuros ainda não cobrados”. Para a tal “gente instruída”, “o dinheiro dos outros é dinheiro que ainda não lhes conseguimos tirar”.

  3. Eu, que não percebo de economia nem de finanças, gostaria de levantar os seguintes pontos que sempre me vêm à ideia e para os quais gostava de ajuda:

    1- O gráfico 1 remonta à crise bancária e financeira, certo? Por outro lado, tendo eu esta ideia de que a dívida pública é, às vezes, privada (como estamos a assistir), isto baralha um pouco as coisas, ou estou errada? Ainda se me levanta uma outra questão – a da capacidade das empresas criarem riqueza e serem pró activas.

    2- Há mais cidadãos a viverem mais tempo! Um dado positivo, se perspetivado de um lado humanista e social. Quebra de natalidade? Se os jovens casais tiverem estabilidade, confiança e boas condições para educarem os filhos, os alimentarem e lhes prestarem os cuidados de saúde, é de esperar que tenham filhos ou mais filhos. Se lhes dão trabalho pago a recibos verdes, se lhes pagam 500 euros, se não lhes renovam os contratos de trabalho e os mandam ir embora após 3 meses numa empresa, então não podem. Certo?

    3- Quanto às gorduras do estado, não entendo muito bem o gráfico e não tenho tempo agora para olhar para as cores….no entanto, saltam à vista as prestações sociais. Com o aumento da pobreza, isto aumenta. A não ser que se passe esta resolução para as instituições privadas de caridade. Também noto o amarelo dos salários. Um contratempo, um efeito colateral nefasto, diria eu a querer ser sarcástica.

    Agora, gostava mesmo que houvesse um gráfico sobre quanto é que a banca, a finança, instituições várias, e auditorias várias vão buscar ao Estado. Como aconteceu com o BBP, BPP, BCP….já agora, com o Bes bom, o Bes mau….

  4. JS

    Bom post. Obg.
    A pesada rubrica “Prestações sociais”, bem esmiuçada, merece um seu (óptimo) post.
    Afinal trata-se da batata quente que condiciona o acesso ao poder em Portugal.

    O pessoal do centrão já tratou, criteriosamente e com justiça, da sua “prestação social”. (Curiosamente tema aflorado como requesito, pelo TC, aquando desta última decisão.
    Quem diria!)
    Agora, em plena época de pânico pré-eleitoral, andam, ridiculamente, a tentar atirar a batata quente para o colo um do outro (PSD/CDS versus PS).
    Provavelmente, uma vez que já resolveram o seu caso pessoal, engendram uma peça de teatro, entre eles, para “épater” o eleitor ….

  5. Olá Fernanda. Tentando responder às suas questões:
    1.O gráfico 1 compreende o intervalo de tempo entre 2000 e 2013 – incluí o período “pré-crise” e “pós-crise”. A dívida no gráfico apenas incluí dívida pública. A divida privada será também um problema, mas é da responsabilidade de quem a contraiu, e não dos contribuintes.
    2. É positivo que as pessoas vivam mais tempo, mas o esquema piramidal da segurança social, assume sempre um crescimento constante da população, o que nao está a ser o caso.
    3. Existe pouca margem para reduzir de forma significativa e permanente a despesa do estado sem mexer na massa salarial do estado e nas prestações sociais – não é uma questão ideológica, mas sim de uma questão matemática.
    Em relação à nacionalização (BPN) e à injecção de capitais públicos nos bancos – sou absolutamente contra, mas convém distinguir os diferentes casos. A esse propósito, recomendo a leitura deste post do Carlos Guimarães Pinto (https://oinsurgente.org/2014/08/07/o-custo-dos-bancos-para-os-contribuintes-um-resumo/).

  6. manuel branco

    Pois sim. Cheira a fim de farra; quando a dolorosa se aproxima. Palpita-me que vai ser assim como no Pierre Gagnaire.

    Ao autor deste post que se proclama liberal: se há coisa que esta gente não é é liberal. Veja-se o caso BES: uma família inteira, administradores, donas de casa, jovens, velhos, tudo posto sob uma quase morte civil, uma espécie de culpa colectiva à moda de Estaline – menos um de todos conhecido.

    Eu nunca fui de esquerda nem muito comunista. Reconheço-os logo. mesmo que andem a vomitar balelas em inglês técnico-economês. Quem o foi um dia é-o toda a vida; mesmo que noutra confraria.

  7. Pingback: Estado de Negação | Ricardo Campelo de Magalhães

  8. Marco

    Também não existe corrupção nem criminalidade política, e ainda na política aparentemente é tudo gente competente … já que falamos de estados de negação.

    Em todo o caso também o BPN, BES, Swaps, PPPs e tantos mais desfalques feitos com o compadrio criminal de políticos bem conhecidos que estão todos de consciência tranquila também são alucinações surrealistas.

    As taxas do INE, também costumam espelhar a realidade, já agora 😉 Ambos sabemos que se eu tiver dois frangos e formos duas pessoas temos um frango cada um, na teoria. Mas lá está, posso ser eu próprio em estado de negação, ou drogas … quem sabe, neste país … por vezes parece que anda tudo alterado.

  9. Je

    No terceiro gráfico qualquer alfabetizado percebe que, apesar de estar à frente no gráfico e a encarnado, as prestações sociais são a rubrica mais baixa, e que tem estabilizado apesar de -dada demografia e crise -dever subir bastante, naturalmente. Todas as restantes rubricas estão muito acima – diria que especialmente os “cons intermédios” e “outras despesas” são items consideravelmente gordos para o que obscuramente representam, não acham?

  10. Je

    Gordos são os “cons intermédios” e “outras despesas” e “subsidios”, claro. Só que nos 2 primeiros não se percebe de todo para onde vai o €€€… O Item Salários mostra um corte, mas suspeito que irá voltar ao que era, dado que estes são temporários

  11. jo

    A segurança social não é um esquema em pirâmide. os pagamentos aumentam mas o que é expectável é que o PIB aumente e o valor dos salários médios também aumente.
    Agora se as contribuições estão quase todas indexadas aos salários e a política deste governo é fazer baixar os salários, provocando com isso uma contração do PIB, claro que o sistema não aguenta. Mas não por ser um esquema em pirâmide, não aguenta porque foram seguidas políticas deliberadas para o “secar”.
    O aumento da idade média nas atuais contribuições para a segurança socias provoca um efeito positivo. A maioria dos jovens estão desempregados ou emigraram, se tivessem ficado por cá o peso nos subsídios de desemprego e no RSI seria muito maior.
    É engraçado ver gente douta a falar no problema de envelhecimento da população para a estabilidade da Segurança Social, parece que temos muitos postos de trabalho para serem ocupados por gente nova que não existe. Ora o que temos é gente nova que não tem trabalho.
    Se a minha geração tivesse tido 2,8 filhos por mulher os números do desemprego seriam assustadores.

  12. Mário Pinto

    Caro João Cortez

    Dependerá sempre dos comentadores e da própria comunicação social pq tb é possível (basta estar atento) que em ambos os sectores se oiça e leia quem nos queira fazer crer que Portugal é o Paraíso na Terra, o que está muito longe da verdade. Poderíamos dizer que no meio é que está a virtude se esse meio não tivesse sido engolido pela crise que continuamos a atravessar.

  13. Obrigada pelos esclarecimentos, João Cortez.

    No entanto, há muito a ser explicado:

    1-“A divida privada será também um problema, mas é da responsabilidade de quem a contraiu, e não dos contribuintes.”

    Então porquê a injecção de capital do Estado no BES?

    2- “…assume sempre um crescimento constante da população, o que nao está a ser o caso”

    E que razões lhe vêm ao pensamento para tal facto?

    3- “…não é uma questão ideológica, mas sim de uma questão matemática.”

    Eu tenho esta ideia que a economia tem de estar ao serviço dos cidadãos e da sociedade. Assim sendo, falar-se tão peremptoriamente de que se trata de uma questão “matemática”, choca-me.

    É por eu me chocar e por o João reduzir a coisa a uma questão matemática que analisamos a coisa de modo diferente. Esta diferença tem a ver com ideologia, o que não significa que (e vai-me custar escrever esta palavra, ó se vai) não possa haver consensos ou compromissos, como lhe passaram a chamar.

  14. Joaquim Amado Lopes

    Je,
    “No terceiro gráfico qualquer alfabetizado percebe que, apesar de estar à frente no gráfico e a encarnado, as prestações sociais são a rubrica mais baixa”
    Está portanto a dizer que ser “alfabetizado” significa não saber ler gráficos.

  15. Nuno

    Faz-me confusão como é que alguém, neste caso a Fernanda, acha que sendo 80% dos gastos em salários e prestações sociais, ache que escolher cortar nos outros 20% é ideologia e não matemática.

    Para poupar uns míseros 10% sem tocar nos 80% é preciso cortar os outros 20% a metade. Isto é matemática. Dizer que a economia tem é que crescer “pre-lim-pim-pim”, é ideologia barata.

    Para cortar os consumos intermédios em metade, para esclarecer outro douto comentador, basta deixar de comprar papel higiénico, de pagar a conta da luz e outras despesas menos essenciais.

    Quem já trabalhou numa empresa falida na qual acabou o papel higiénico durante alguns dias, e teve que se ausentar do posto de trabalho para ir, rabo entre as pernas, cagar a casa, que comente sobre a bondade de, do alto, se cortar em tudo o resto para tentar desesperadamente pagar salários. Não se pagam salários na mesma, e borra-se a cueca.

    É uma experiência degradante que fazia falta a muita gente que acredita piamente que o dinheiro dos outros é infinito.

  16. Joaquim Amado Lopes

    Nuno,
    Há quem ainda não tenha ouvido falar dos carros da PSP que estão parados porque falta dinheiro para manutenção e combustível, dos tribunais sem dinheiro para comprar toners para as impressoras nem dos cortes nos orçamentos de hospitais e escolas, com a consequente redução nas horas extraordinárias do pessoal hospitalar, nos medicamentos receitados e na prescrição de exames.

    _
    Fernanda,
    “Eu tenho esta ideia que a economia tem de estar ao serviço dos cidadãos e da sociedade. Assim sendo, falar-se tão peremptoriamente de que se trata de uma questão “matemática”, choca-me.”
    O seu “choque” apenas demonstra que não entende que não é a matemática que faz com que não haja dinheiro, apenas demonstra que não há dinheiro.

    E pode explicar o que é isso de “a economia (…) estar ao serviço dos cidadãos e da sociedade”?
    É que não consigo sequer conceber como possa não ser assim.

  17. Fernanda

    1- Um exemplo elucidativo de como não é um dado adquirido a crença e confiança de uma economia ao serviço do cidadão:

    “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor” (Luis Montenegro)

    2- A matemática demonstra que não há dinheiro mas não tem de demonstrar como se distribui esse dinheiro numa sociedade justa. A matemática demonstra que não há dinheiro mas não consegue demonstrar onde pára o dinheiro, o dinheiro que não entra nas contas e nas contabilidades.

  18. Comunista

    O presidente da república, o primeiro-ministro, a ministra das finanças, o vice-primeiro ministro, o ministro da economia, o governador do banco de Portugal colaboraram com a fraude do BES, anunciaram ao país semanas, meses mesmo a fio que o BES estava sólido. Disto se aproveitaram os tubarões do BES para um aumento de capital e para despejar as acções que já sabiam a caminho do nada sobre pequenos investidores e clientes do banco.

    O que tem de comum esta escumalha do governo é ser de direita. Se tivessem vergonha na cara haveria demissões mas não continuam todos aí como se não tivessem mentido ao país, seja por dolo seja por terem sido burros que nem portas. A Comunicação Social que os calimeros dizem que é de esquerda, não só colaborou com esta fraude como agora calou e deixou andar.

    Descemos ao mais baixo da nossa democracia: um governo que faz publicidade a um banco falido dizendo que estava sólido levando a perdas de pessoas que acreditaram no governo.

    Entretanto depois de terem colaborado com esta fraude vêm agora mais uma vez querer enfiar as mãos sebentas no bolso dos reformados e funcionários públicos. O governo que venha aqui ao Insurgente e veja esta gente toda a querer cortes para combater o deficit: o governo que vá ao bolso desta malta que eles não se importam. Não há aqui quase empresários nenhuns, no Insurgente, há um ou outro, é verdade, mas o resto, a vasta maioria, é tudo assalariados que, como eles dizem, não criam emprego nenhum. Ó Passos, imbecil, anda aqui aos teus amigos e vais mais fundo ao salário deles.

    Porca miséria.

  19. Nuno

    Há coisas simples que a malta teima em não entender. Fernanda, o dinheiro que nos fazia ter mais qualidade de vida há uns anos simplesmente deixou de vir.

    Será assim tão complicado perceber que se o estado se endividava umas centenas de euros por ano por cidadão para nos prestar serviços, construir infraestruturas, pagar a funcionários etc, e deixa de o fazer porque não encontra quem lhe empreste mais, a nossa qualidade de vida piora?

    Que se as empresas e as famílias faziam o mesmo para pagar melhor ou contratar mais empregados, comprar casa, ir de férias, etc e deixam de o fazer porque os bancos não conseguem ir lá fora buscar o dinheiro para tal, vamos viver pior?

    O dinheiro estava a entrar emprestado e agora está a sair para pagar esses empréstimos. Quando chega a hora de pagar, vive-se pior. Quando a dívida é pública e se gasta em coisas úteis mas que não se pagam a si próprias, paga-se com mais impostos depois.

    Afinal quem é que querem que pague os 200 mil milhões de dívida publica? O Sócrates e o Salgado? Os corruptos? Os ricos? Os alemães? Os outros? Acham mesmo que esses têm os 200 mil milhões escondidos na Suíça e nas Caimão?

    E anos depois, continuam a votar no crescimento, no investimento público, nas escolas, nos hospitais, nos transportes públicos, e tudo com menos impostos e salários e pensões mais altos. Não há paciência para este povo.

  20. Comunista

    O Nuno é daquelas inteligências que dizendo que não há dinheiro diz ao mesmo tempo que é hora de pagar a dívida. Se não há dinheiro, ò inteligência, como é que se vai pagar a dívida?

    Ah, já sei, deixa-se de pagar aos funcionários públicos e aos reformados. Deixa-se de se manter hosptais, escolas, deixa-se colocar o preço dos transportes ao valor de mercado e os trabalhadores mais pobres e os desempregados que andem a pé. Fecha-se o país, vende-se tudo e começa-se do zero.

    Não há paciência para é para burros destes.

  21. Joaquim Amado Lopes

    Fernanda,,
    Não precisa de perceber muito de Economia mas convém pelo menos ter uma noção do que o termo “economia” quer dizer. Dou-lhe uma ajuda:
    “Economia é o conjunto de atividades desenvolvidas pelos homens visando a produção, distribuição e o consumo de bens e serviços necessários à sobrevivência e à qualidade de vida.”
    (de http://www.fea.usp.br/conteudo.php?i=202)

    Depois pode fazer perguntas que há por aqui quem esteja mais do que disponível para lhe explicar as coisas. Se optar por continuar a fazer comentários sobre uma matéria que não entende minimamente, arrisca-se a passar a ser ignorada.

  22. Fernanda

    “Será assim tão complicado perceber que se o estado se endividava umas centenas de euros por ano por cidadão para nos prestar serviços, construir infraestruturas, pagar a funcionários etc, e deixa de o fazer porque não encontra quem lhe empreste mais, a nossa qualidade de vida piora?”

    Nuno,

    Lets look on the bright side of life/facts:

    1- O que é complicado é nós dar-mo-nos conta de tantos fundos vindos da CEE e UE que deviam ter ajudado a nossa economia, bem como as nossas infraestruturas e que foram parar onde?

    2- Agora vem aí mais uma “pipa de massa” e eu desconfio de tudo isto porque me fizeram desconfiada, o que dá uma trabalheira mental que não queira saber!

    3- Eu ainda não entendi bem se é a dívida pública que causa tanto constrangimento ou se é a dívida privada.

    4- E também não entendo porque é que a banca recebe capital a juro x e o Estado paga à banca a juro muito superior

    5- Não entendo e não me conformo com esta insustentável leveza de uma narrativa que afirma ,ad nauseum, que os cidadãos são, em última e em primeira instância, os culpados pela crise porque viveram e vivem acima das suas possibilidades.

  23. Joaquim Amado Lopes

    Fernanda,
    “1- O que é complicado é nós dar-mo-nos conta de tantos fundos vindos da CEE e UE que deviam ter ajudado a nossa economia, bem como as nossas infraestruturas e que foram parar onde?”
    Uma parte foi “desviada” e encheu as contas bancárias de uns quantos milhares. É inevitável (mas nem por isso aceitável) quando há demasiado dinheiro que “tem que ser gasto” e grupos organizados para se aproveitarem da situação.
    Mas boa parte desses fundos foi gasta em infraestruturas. Elas estão aí e só não as vê quem não quer. No entanto, as infraestruturas necessitam de manutenção e esta custa dinheiro. Como a manutenção não é “inaugurável” nem dá direito a tempo de antena foi menosprezada e tem agora que ser paga pelos utentes ou pelos contribuintes.
    Outra parte importante dos fundos foi (muito mal) gasta em (má) formação e aproveitou mais a quem a deu do que a quem a recebeu.

    Assim, a resposta à sua pergunta é: esses fundos foram gastos e ajudaram a nossa economia durante o tempo em que estiveram a ser gastos, criando muito trabalho temporário e a ilusão de que estávamos mais ricos. Com os fundos a “secarem” e como era inevitável, o desemprego aumentou e o dinheiro disponível diminuiu.
    Reformar a economia (algo que compete aos agentes económicos e não ao Estado) quer dizer que temos que descobrir como usar os nossos recursos de forma mais produtiva. Ou seja, a produzir para vender e não tanto para consumir.

    “2- Agora vem aí mais uma “pipa de massa” e eu desconfio de tudo isto porque me fizeram desconfiada, o que dá uma trabalheira mental que não queira saber!”
    A “pipa de massa” é um presente envenenado porque vai alimentar a ilusão de que o “normal” é o dinheiro vir da UE para nós gastarmos a manter um nível de consumo incompatível com a nossa produção.

    “3- Eu ainda não entendi bem se é a dívida pública que causa tanto constrangimento ou se é a dívida privada.”
    São ambas (externas) mas muito mais a pública.
    A dívida privada significa que os verdadeiros “donos” das empresas e das casas são estrangeiros. Mas esta dívida é responsabilidade de cada um dos endividados e as famílias e as empresas são muito mais adaptáveis do que o Estado.
    E se uma empresa abre falência, o seu problema está resolvido (criando problemas para quem dependia dela para pagar as contas). Mas o Estado não pode abrir falência e tem que continuar a pagar os ordenados dos funcionários públicos, as reformas, o funcionamento dos hospitais e dos tribunais, o combustível para os carros da polícia, …
    Isso quer dizer que, na impossibilidade de obter financiamento externo (foi isso que esteve quase a acontecer em 2011), o Estado vira-se para os cidadãos, aumentando os impostos. Ou seja, tirando cada vez mais a quem (ainda) produz e diminuíndo a capacidade destes para continuarem a produzir. É por isso que o Estado tem que arranjar forma de gastar muito menos do que está a gastar, acabando com os “incentivos à economia” (que apenas distorcem o mercado, penalizam – através dos impostos – os que realmente produzem e levam a uma má alocação dos recursos), limitando os apoios sociais apenas a quem deles realmente necessita e reduzindo a administração pública ao essencial, flexibilizando a gestão dos recursos humanos.

    “4- E também não entendo porque é que a banca recebe capital a juro x e o Estado paga à banca a juro muito superior”
    Não serei a pessoa mais indicada para lhe explicar isso.

    “5- Não entendo e não me conformo com esta insustentável leveza de uma narrativa que afirma ,ad nauseum, que os cidadãos são, em última e em primeira instância, os culpados pela crise porque viveram e vivem acima das suas possibilidades.”
    Porque o Estado somos nós. Fomos todos nós, colectivamente e não cada um de nós individualmente, que estivemos a viver acima das nossas possibilidades. E para isso conta o dinheiro gasto em escolas, hospitais, tribunais, segurança pública, defesa nacional, “incentivos à economia”, investimento público, reformas e toda uma míriade de despesa que foi (quase?) sempre crescendo acima do aumento da produção.

    Esta não é uma matéria de interpretação mas de simples aritmética: durante demasiado tempo gastámos mais do que produzimos, compensando a diferença com dinheiro que veio da UE a fundo perdido e com endividamento. Com essas duas “fontes” de financiamento a “secarem”, temos que passar a gastar menos. Ou seja, temos que passar a viver com menos, ao nível das nossas possibilidades. Ou seja, ao nível do que produzimos.

    Fernanda, mais do que nos queixarmos dos sintomas temos que aceitar a realidade e tentar entender as causas.
    Isso não significa que aceitámos o comportamento de quem tinha a responsabilidade de velar pelo nosso futuro e se limitou a habituar-nos a uns “doces” enquanto ia enchendo os bolsos. Significa apenas que, em vez de gritarmos uns com os outros e com a tripulação porque o navio bateu no iceberg, devemo-nos concentrar em reparar os estragos de forma a que o navio não afunde. É que há muito poucos botes salva-vidas e quem já tem lugar garantido neles está-se nas tintas para os outros.
    E quem prefere queixar-se e atravessar-se no caminho de quem ainda tenta salvar o navio faria um melhor serviço a todos se se limitásse a saltar para a água.

  24. Nuno

    Faço minha a resposta do Joaquim, que basicamente explicou o meu ponto de vista muito melhor do que eu o conseguiria fazer. Obrigado.

  25. F

    Joaquim,

    Poderia continuar com a condescendência com que se refere ao “desvio inevitável de verbas”, com a crítica às “infraestruturas” ( fala-se de quê?), sobre a importância do consumo interno na dinamização da economia, sobre a negação do papel do Estado na dinamização da economia ( e não no encosto e no recurso ao Estado). Para não ir mais longe e ficar por aqui, parece que o caso BES nos devia ensinar alguma coisa…
    Mas, basicamente, discordo da insistência em ver como causa da situação que vivemos o termos vivido acima das nossas possibilidades e como saída para a situação o termos de baixar/continuar a baixar salários. A História e a Economia ensinam-nos sobre isto. As estórias e o economês manipulam.

    Também gosto de metáforas – não chega reparar os estragos e salvar o navio. É preciso que flutue e não avance à bolina. Como dizia o filósofo “Não há bons ventos para quem não sabe para onde vai”

    Agradeço as suas explicações e dou por terminada, pela minha parte, esta troca de opiniões.

  26. Joaquim Amado Lopes

    Fernanda,
    Não sei a que se refere com “condescendência com que se refere ao “desvio inevitável de verbas”, com a crítica às “infraestruturas” ( fala-se de quê?)”.
    Pelo que me diz respeito sempre fui crítico do “desvio de verbas” e da construção de infraestruturas desnecessárias (TGV, novo aeroporto de Lisboa, mais ligações entre Lisboa e Porto, rotundas por todo o lado, parques urbanos que são deixados ao abandono logo a seguir à inauguração, escolas com candeeiros de luxo, …). Mas a defesa da “dinamização da economia através do consumo interno” e do “papel do Estado na dinamização da economia” não merece outra coisa senão condescendência.

    Dinamizar a economia através do consumo interno é como um padeiro passar a fazer mais pão para ele próprio comer. Sim, produz mais mas quanto mais produz mais pobre fica porque precisa de comprar os ingredientes para fazer o pão e, como não vende mais, o prejuízo é cada vez maior.
    E pôr o Estado a decidir em que áreas os privados devem investir ou investir ele próprio o dinheiro que tira aos privados é um (outro) completo disparate, porque os agentes políticos não estão a decidir sobre o dinheiro deles, não perdem nada se o investimento dêr para o torto e usam SEMPRE o investimento público para benefício próprio (propaganda política, “comprar” corporações e satisfazer os seus grupos de interesse).

    Quanto às metáforas, realmente não chega reparar os estragos e salvar o navio. Mas, se não se reparar os estragos e salvar o navio primeiro, de que serve saber para onde se quer ir?

    Começou o seu primeiro comentário com “não percebo de economia nem de finanças” e colocou uma série de perguntas. Quando as explicações sobre economia e finanças que recebe de volta põem em causa as suas ideias pré-concebidas (em grande parte derivadas de, como assumiu, não perceber de economia nem de finanças) decide “dar por terminada” a troca de opiniões. Confere.

  27. Fernanda

    Olá, Joaquim,

    Não resisto.

    1- “Dinamizar a economia através do consumo interno é como um padeiro passar a fazer mais pão para ele próprio comer. Sim, produz mais mas quanto mais produz mais pobre fica porque precisa de comprar os ingredientes para fazer o pão e, como não vende mais, o prejuízo é cada vez maior.”

    Apesar dos parcos conhecimentos que possuo sobre a coisa, parece-me que se o pessoal puder comprar o pão, se o pão for de boa qualidade, e se conseguir exportar o pão, se contratar mais gente, se investir…..

    2- Quanto ao Estado: há uma relação de amor/ódio – não é preciso quando há lucro; volta-se ao seu seio quando se faz falcatrua- mais uma vez, conferir o mais recente caso do BES.

    3- Sobre o papel do estado na dinamização da economia, o que não significa substituir-se à iniciativa privada, um excerto da UE:

    “O investimento nas infra-estruturas pode contribuir para se atingirem os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, uma vez que permite, com efeito, melhorar o acesso aos serviços, nomeadamente os serviços de saúde e de educação, criar emprego e reforçar a capacidade de um país para participar no comércio, reduzindo os custos dos bens e serviços. As infra-estruturas de qualidade também facilitam a vida dos operadores económicos e contribuem para melhorar as condições do ambiente.”

    O facto se não perceber os meandros de economia e finanças, das macro e micro economia, não significa que não leia, olhe à volta e tente saber mais e tirar dúvidas.

    Mas o Joaquim é mais “assertivo”. Tão mais “assertivo” que confunde opiniões com ideias pré-concebidas. E quando uma troca de opiniões começa cada vez mais a insinuar ignorância e má fé da parte do outro interlocutor, é sinal que me devo retirar.

    Boas férias.

  28. Comunista

    “Dinamizar a economia através do consumo interno é como um padeiro passar a fazer mais pão para ele próprio comer.”

    Não. Não é como um padeiro passar a fazer mais pão. O problema desta malta é pensar que tudo se explica com padarias, enfim, é querer espalhar as vistas curtas que têm pelos assuntos a que se referem.

  29. Nuno

    O problema, Fernanda, é que nós não exportamos comboios nem auto-estradas. E os cidadãos querem a autoestrada, mas deixam-na deserta se tiverem que pagar o seu custo em portagens. O mesmo se aplica aos comboios, onde temos como exemplo de excelência a ligação Porto-Vigo, cujos passageiros não cobrem sequer os custos operacionais (electricidade, pessoal, manutenção). Os mesmos que acham o investimento fundamental e apoiam as greves dos maquinistas, acham o preço dos bilhetes exagerado. Está tudo muito bem, desde que sejam os outros a pagar.

    E mesmo quanto a novos aeroportos, convém não esquecer o custo de oportunidade. Ou seja, com €6000M para gastar, o melhor que podemos fazer para promover o turismo é um novo aeroporto para substituir a Portela, ou é outra coisa qualquer? Com €6000M consegue-se fazer muita coisa pelo turismo, desde obras nos aeroportos já existentes, melhorias aos terminais de cruzeiros, ou até a criação de largas dezenas de instalações hoteleiras subsidio-dependentes que, fazendo-me espécie, parecem uma melhor alocação de recursos que a subsitiuição da Portela.

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