A primazia moral da pulverização

I have wanted to give Iraq a lesson in democracy — because we’re experienced with it, you know. And, in democracy, after a hundred years, you have to let your slaves go. And, after a hundred and fifty years, you have to let your women vote. And, at the beginning of democracy, is that quite a bit of genocide and ethnic cleansing is quite okay. And that’s what’s going on now.

Kurt Vonnegut

É talvez profunda e negramente irónico que, alguns dias depois de se assinalarem os sessenta e nove anos volvidos sobre os bombardeamentos nucleares em Hiroshima e Nagasaki, esteja em cima da mesa em discussão a indignação moral e o discurso do Horror, alicerçados na difusão de imagens que exibem cabeças decapitadas, como se de troféus se tratassem, por jihadistas. Uma discussão que procura utilizar esse facto para sustentar a posição dos guerreiros morais que nos separam da negra barbárie do extremismo islâmico.

Naturalmente que não são imagens simpáticas ou fáceis de digerir, pelo menos pelos cidadãos de um ocidente já em grande medida esquecido do convívio na primeira pessoa e in loco com os horrores da guerra. Mas essa reacção é afinal um sintoma que permite concluir do distanciamento e alheamento que essas pessoas têm em relação àquilo que é feito em seu nome, sustentado nas “democracias evoluídas” e nos “valores ocidentais” com que os que governam o Ocidente enchem os ouvidos dos governados.

À exibição de algumas cabeças cortadas em fotos preparadas para circular pelos blogs e pelas redes sociais dos indignados, contrapõem-se os milhares de vítimas da acção militar dos exércitos regulares das potências que supostamente partilham dos valores mais altos. As fotografias dos últimos não povoam esses fora tão somente porque não existem fotografias de vítimas pulverizadas de forma grossista por artilharia ou por higiénicos mísseis guiados por laser. Ou não são suficientemente palatáveis e convenientes para abrirem os noticiários do dia.

Enquanto uns apontam o dedo em jeito de ameaça com cinco cabeças aos seus pés, outros apontam outro dedo em jeito de outra ameaça, na elevação impoluta do palanque da Casa Branca, depois dos drones debaixo do seu comando terem pulverizado com mais uns mísseis Hellfire mais umas dezenas de participantes num casamento algures num arrabalde no distante Iémen.

Enquanto uns partilham os retratos da sua barbárie no Facebook ou no Twitter, outros publicam as fotografias da humilhação dos capturados, dos cadáveres (inteirinhos, sem cabeças separadas) aos seus pés, ou as recordações dos momentos de vitória em que urinavam sobre os cadáveres dos vencidos. Tudo isto geralmente protagonizado por gente bonita, jovem, albergando os seus sofisticados e regulares uniformes pagos com dinheiro dos contribuintes, debaixo da chefia de muito democráticos Comandantes em Chefe.

Os desígnios morais elevados e os valores ocidentais dos indivíduos que acabam por protagonizar a intervenção militar das forças armadas americanas e israelitas, sem dúvida os principais porta-estandarte actuais da bandeira – mais de que de uma guerra justa – de uma guerra com objectivos morais (em que os mais elevados estão naturalmente do seu lado), acabam nestes pequenos álbuns de fotografias.

Quando se pulverizam 20, 30, 80, 100, 500 pessoas com o carregar de um botão do comando remoto de um drone, de um bombardeiro furtivo ou de uma posição de artilharia, essas vítimas não voltam para assustar, intimidar e colocar problemas de consciência nas pessoas que frequentam as redes sociais. Não é preciso. A intimidação fica feita, e as consciências leves por não haver troféus de cabeças seus para mostrar. Mas a mesma barbárie, o mesmo ódio que alimenta e constitui em grande parte a natureza da guerra, lá estão, envoltos somente em melhores roupagens.

Quando me apresentam estas fotos, tenho alguma dificuldade em achar que são algo assim de tão extremo, desumanizante e primário, quando comparado com as ofensivas contra civis do presente e do passado. Como o bombardeamento de Tóquio, uma cidade construída à altura em grande parte com madeira e papel, com bombas incendiárias que redundaram em 100000 mortos carbonizados. Ou em Dresden. Mas esses foram lá longe, e não sobraram fotografias capazes de alimentar indignações morais.

As nossas morais e superiormente elevadas democracias ocidentais, os nossos faróis e bastiões do Médio Oriente matam, mataram e hão-de continuar a matar milhares de civis, quer os baptizem como “danos colaterais” ou não. Os seus carrascos vão poder continuar a festejar as mortes inimigas e a dar largas ao ódio não por exibição de colecções de cabeças, mas por detrás de uma asséptica, democrática, moralmente elevada e publicamente financiada consola, longe dos olhares potencialmente reprovadores. Os nossos sons of bitches.

33 thoughts on “A primazia moral da pulverização

  1. Pinto

    Pessoalmente não fiquei indignado com a imagem das cabeças decapitadas. O que me indignou foi o regozijo, o prazer com a exibição das cabeças. Todas as sociedades, todos os países usam a força. Não é isso que está em causa. O mais relevante e chocante é o desrespeito pela dignidade.
    Quando um criminoso é condenado, é privado da liberdade mas não da dignidade. O preso é transferido para um estabelecimento prisional mas deve ser respeitado enquanto ser humano. Há poucos dias li que na China a polícia obriga os condutores que circulam com os máximos ligados a permanecer em frente a um carro com os faróis ligados durante cinco minutos. Embora a pena possa ser vista como pedagógica e não seja tão grave quanto a privação da liberdade, parece-me que não respeita a dignidade dessa pessoa.
    O que distingue um comportamento violento dentro dos parâmetros éticos que considero aceitáveis de um que ultrapassa esses parâmetros é o respeito pela dignidade humana. O GOE alvejou os assaltantes do BES em Campolide na cabeça. Desrespeitou a sua dignidade? Penso que não pois era a forma adequada, necessária e proporcional para pôr cobro àquela situação. Um polícia foi recentemente visto a dar uma bofetada a um criminoso que tinha acabado de interceptar. Respeitou a sua dignidade? Penso que não.
    .
    Quando o António Araújo e a Helena falaram em valores éticos e morais penso que tenha sido nesta perspectiva e não na ideia da violência das imagens.
    Por mais chique que seja dizer que os israelitas também usam a força e que também matam, a verdade é que não ostentam os cadáveres com regozijo. Matam porque supostamente têm de matar ao abrigo de uma legítima defesa preventiva (não valem aqui não-argumentos do tipo “está bem está; eles sabem-na toda), no entanto não exibem os cadáveres como se de troféus se tratasse. É a diferença (para além de todas as outras mas isso era outra conversa)
    .
    Um professor dizia numa conferência que não havia direitos absolutos. Um outro discordou dizendo que havia um: o respeito pela dignidade humana. Concordo.

  2. Pinto

    Correcção: “O GOE alvejou os assaltantes do BES em Campolide na cabeça. Desrespeitou a sua dignidade? Penso que sim pois era a forma adequada, necessária e proporcional para pôr cobro àquela situação”

  3. “Por mais chique que seja dizer que os israelitas também usam a força e que também matam, a verdade é que não ostentam os cadáveres com regozijo.”

    Pode-se dizer que o não fazem “institucionalmente”. Já no que toca às fileiras das forças armadas propriamente ditas, há os mais diversos exemplos de que tal não é bem assim.

  4. ricardo

    Quando eles estiverem à vossa porta para vos degolar e escravizar as vossas filhas quero ver se também se ralam com as dignidades humanas.
    O bom selvagem só existe enquanto anda pela casa dos outros…

  5. Pingback: Por mais que seja santa – Aventar

  6. Nightwish

    “School’s out, we killed all the children”. Adivinhem lá qual é o país onde os seus cidadãos cantam alegremente tal coisa.

  7. JPT

    Sucede que também o “absoluto” do Pinto não é absoluto nenhum. Por exemplo, a mim não me parece nada ofensivo da dignidade humana essa ideia de sancionar os artistas que encandeiam outros condutores, com cinco minutos do mesmo tratamento. Parece-me justo e profiláctico, desde que não lhes lese definitivamente a vista. Já aplicar-lhes multas ou submetê-los a cursos de formação parece-me apenas um modo hipócrita de o estado fazer receita. Tal como considero justo e profiláctico o tratamento que Singapura dá aos “street artists” que emporcalham as paredes. No meu entendimento, fere mais a dignidade humana – do Homem enquanto ser social – a convicção de total impunidade com que putos de todo o planeta vêm cagar paredes a Lisboa, do que 3 a 8 contundentes bastonadas aviadas nos quartos traseiros desses “artistas”. Também a pena de morte atesta bem a fragilidade e a contingência da (actual) definição (ocidental) de “dignidade humana”. A UE não hesitou em qualificar o enforcamento de Saddam Hussein (que invadiu dois países, gaseou dezenas de milhares de curdos, e torturou, deportou e executou sem julgamento dezenas de milhares de chiitas) de atentado contra a dignidade humana, mas a Dinamarca, Noruega, Bélgica e Holanda tão pouco hesitaram em repristinar a pena de morte no período imediatamente posterior à II Guerra Mundial.

  8. Cfe

    A diferença é que sendo Portugal um aliado dos EUA e este de Israel, podem falar mal, até muito mal num a vontade tcompleto sobre os excessos cometidos no campo de batalha. Há passeatas, distúrbios, debates acerca da NOSSA (ALIADOS inclusive) maneira de agir.

    Faça isso lá para aquelas bandas a ver.

  9. CN

    A violência da ISIS (e a capacidade de recrutamento) resulta também da assimetria de meios, O Ocidente c/meios tecnologicos (drones, high-tech-bombardeamentos, op.especiais) o que induz a resposta.possível.

    E a única saída é escalar a radicalização, extremar violência sem pruridos com os meios disponíveis. Forma de reduzir resistëncia s/combate. É da história, Gengis Khan assim o fazia para as cidades se renderem sem combate tal o medo provocado.

    O ponto máximo de “self-delusion” dos libertadeiros foi destruir toda estrutura admin. de Saddam onde provavelmente era necessário manter capacidade autoritária ao mesmo tempo que mais valeria dividir o país preventivamente.

    Claro que outra solução era chamar alguém capaz de enfrentar a ISIS. Mas morreu enforcado a gritar “Viva o Iraque”…

    Mas agora… sendo a ISIS tão radical o mais certo é que produza reacção em sentido imposto e parece que os sunitas pro-Saddam já estão e enfrentá-los. Por outro, a ISIS não tem capacidade de implementar um sistema económico capaz de sustentar os seus objectivos de crescimento territorial. É um poder temporário.

    Mas podemos esperar que os mesmos intervencionistas que criaram as condições para o ISIS (o que inclui mais uma liberation: a Sìria) vão agora transformar a ISIS no “Novo inimigo” conveniente e absoluto a combater por que em contrário invadem o mundo..

  10. Comunista

    Imagine que Portugal estava sob controlo de Espanha assim como Gaza está sob o controlo de Israel e imagine que há uma resistência armada portuguesa. O que você pensa que a resistência armada portuguesa faria se você andasse a organizar marchas em Portugal contra a resistência armada portuguesa face a Espanha?

    E antes disso, você acha que deveria existir uma resistência armada portuguesa? E se achar que deveria existir essa resistência armada, você acha que no plano diplomático ela deveria tomar as posições de espanha como suas, ou seja, se Espanha os considerasse terroristas você acha que era como terroristas que a resistência portuguesa deveria apresentar-se?

  11. Comunista

    O meu comentário anterior foi para o comentário:

    “A diferença é que sendo Portugal um aliado dos EUA e este de Israel, podem falar mal, até muito mal num a vontade tcompleto sobre os excessos cometidos no campo de batalha. Há passeatas, distúrbios, debates acerca da NOSSA (ALIADOS inclusive) maneira de agir.

    Faça isso lá para aquelas bandas a ver.”

  12. A memória é tão curta!
    O “problema” vasto e antigo… Tem raízes no expansionismo imperialista árabe que “construiu” o Islão como cartilha política para submeter povos e castrar a reflexão crítica dos próprios seguidores. O “inventor” desta ideologia totalitária, supremacista e cruel, é o “ditador” mais bem sucedido e duradouro que existe na História humana.
    É um “hitler” universal que superando a própria morte deixa a herança duma “receita macabra”, um veneno que, século após século, continua a espalhar atritos, selvajaria, mentira e morte. O expansionismo das potências ocidentais no século XIX e XX. e a incapacidade árabe para gerar riqueza mantiveram a situação adormecida. A tal ponto que a memória dos povos substituiu os horrores medievos dos “mouros” pelo exotismo delirante dum mundo de “Mil e Uma Noites” que nunca existiu.
    Hoje confrontados com uma realidade nova, continuamos a confundir as pedras no tabuleiro, e a dar “tiros nos pés”… É exemplo disso a retórica política contra a ganância ocidental pelo “petróleo”, quando afinal de contas apenas procuramos manter a possibilidade de o comprar… Entretanto, do “outro lado”, os “vendedores”, acumulam fortuna, e entre mirabolantes e infames desperdícios alimentam a “reconquista” – ou a “conquista” -, até que a bandeira da Jihad seja içada em Washington…
    O mal não está nos “fundamentalistas”, ou “radicais”. A solução não está nos “moderados” (uma “invenção” absurda… Existem cristãos moderados? Ateus moderados? Benfiquistas moderados?). A solução está em reconhecer e respeitar o inimigo: primeiro entendendo-o como tal, segundo: combatendo-o com firmeza e sem hesitações. O inimigo é, de facto; o Islão. O combate implica perseverança, inteligência e subtileza. É uma luta política, ideológica, eventualmente repartida por muitas batalhas ao longo de décadas ou séculos. Passa por libertar povos e convencer pessoas. Em certa medida é um combate parecido – mais mais longo – do que aquele que derrotou o comunismo. Neste caso a ideologia do adversário é ainda mais feroz… Não come criancinhas ao pequeno almoço. porque já as comeu antes…
    Enquanto tal não acontecer é a própria civilização que estará em risco.

  13. cfe

    Ó inteligencia comunista,

    O kokito foi até a Síria cortar cabeças. Síria e não Israel. Árabe contra árabe!
    Tudo bem que Israel é o fetiche desses tarados e de certeza queria-o fazer mesmo. Mas não é o caso. E o que dizer da Irmandade Muçulmana que quer estourar com tudo que não concorda com eles ? Ou do Isis?

    .

  14. lucklucky

    O repugnante texto já esperado.

    O autor como habitualmente manobra entre defender o pacifismo que a Civilização Ocidental deve ter: a nossa violência é injustificada.

    E o elogio disfarçado do combatente Islâmico. Mas agora num grau superior, agora vai até ao ponto em que o Islâmico que torna o corte de cabeças em aspiração cultural e marca de civilização e em algo não repugnante é elogiado.

    E como comparação entre cabeça cortadas com um Muçulmano sorridente a pegar nelas foi buscar uma imagem de prisioneiros Palestinanos.

    Edificante. Deve ser um novo tipo de proporcionalidade.

    Podia pelo menos ter ido buscar fotos de combatentes ocidentais com partes de corpo dos inimigos cortadas: orelhas, dentes. Mas não.

    Depois claro mistura guerras com milhões de soldados e guerras com milhares. Como esperado a puxar pelo dogma da proporcionalidade. Aqui já a inversa.

    Não compreende, nem sequer pergunta porque não se vê fotos de vítimas do 9/11 e não se vê vítimas Israelitas dos ataques Palestinianos. Ou dos atentados Islâmicos na Europa.

    —-

    Sobre os curdos, os assírios, os caldeus, os zoroastras, druzos, os cristãos àrabes, judeus e inúmeros tribos e povos do Médio Oriente, estes podem ser mortos à vontade pelo Islão que ainda nunca se viu o JLP dizer alguma palavra sobre tal coisa.

    Aliás no meio da confusão, uma conclusão solida que se pode tirar dos textos de JLP é que as mortes de muçulmanos só o preocupam quando são feitas por não muçulmanos.

    Pois é a única maneira de no Insurgente o JLP escrever alguma coisa.

    ————————————-
    @CN
    “O ponto máximo de “self-delusion” dos libertadeiros foi destruir toda estrutura admin. de Saddam onde provavelmente era necessário manter capacidade autoritária ao mesmo tempo que mais valeria dividir o país preventivamente.”

    Ou seja Saddam era um tipo que fazia as coisas necessárias, mas coisas necessários que o CN não aceita nós façamos. As estruturas de Saddam deveriam ter sido preservadas : Tortura, assassinatos, vilas destruídas, raptos de famílias etc…
    Claro tudo embrulhado na frase “capacidade autoritária”. Uma daquelas frases que burocratas inventam.

    O argumento inicial não colhe, a Síria era muito mais estável mas está numa guerra civil.
    Nada do que se passa tem que ver com o Iraque.

    Tem tudo que ver com uma Religião Totalitária e o choque do que diz o Corão com a realidade e a evolução tecnologica nos transportes e comunicações.

    ——————————————
    Ainda estou à espera que o Comunista e o PCP defenda o lançamento de rockets e atentados suicidas contra Angola, e Moçambique.

  15. Cfe

    ” se Espanha os considerasse terroristas você acha que era como terroristas que a resistência portuguesa deveria apresentar-se?”

    O que difere a resistência do terrorismo é fim que tem. O terrorista tem o terror por objetivo em si.

  16. Pinto

    João Luís Pinto: Pode-se dizer que o não fazem “institucionalmente”. Já no que toca às fileiras das forças armadas propriamente ditas, há os mais diversos exemplos de que tal não é bem assim
    .
    Bem, exemplos individuais de más condutas há em todo o lado. Os tribunais israelitas têm condenado alguns militares.
    .
    Há agentes da PSP que agridem detidos, suspeitos, etc. Isso invalida a necessidade da acção policial?

  17. ricardo

    Parece que até a grande Ana Gomes, depois de ter ajudado a acabar com os voos da CIA e com a prisão de Guantanamo, apela agora ao bombardeamento dos ISIS…
    Como já não se fazem Georges Bushes como antigamente vai ter que se contentar com o camarada Hollande.

  18. CN

    Ai, ai. Neste ponto os idealistas ingénuos revolucionários da direita liberal continuam moralistas puritanos a julgarem-se puros e livres do julgamento do caos crescente que vão (as condições) criando…

  19. Caro lucklucky,

    Eu já sei quais são as repercussões da invocação do sagrado nome de Israel em vão. Já sei que tudo o que se afaste da defesa incondicional do que este país esteja a achar por bem fazer e a ousadia de afirmar algo que não seja a óbvia congratulação da sua postura são razões mais do que suficientes para justificar no meu texto a leitura de que faço um “elogio ao combatente islâmico” ou que apoio vigorosamente a especificidade cultural do corte das cabeças. Quando deixar de salivar e de hiperventilar pode ser que lhe regresse a capacidade de interpretar textos, capacidade essa que vai fazendo tanta falta. Veja-se o recente caso dos professores.

    De resto, em relação ao seu comentário sobre as “guerras de milhões” e as “guerras de milhares”, só me sinto na obrigação de relembrar já velhas palavras segundo as quais uma morte é uma tragédia. Já um milhão de mortes é uma estatística. Estimo que saiba reconhecer a autoria.

  20. Pedro Oliveira

    Na 2ª Guerra Mundial a cidade de Dresden foi arrasada, e centenas de milhares de civis inocentes mortos. O mesmo se passou em Hiroxima e Nagasaki. Sou contra? Não. A guerra é mesmo assim.
    Quem não quer baixas que não inicie o que não consegue acabar. A razão de existência dos governos é antes de mais nada a proteção – um negócio mafioso já antigo. Se os governos não oeferecem proteção às suas populações não são legítimos. O governo do Hamas não é legítimo, o ‘governo’ do ISIS não é legítimo. Até o Saddam tinha mais legitimidade que estes palhaços. Mais mais triste ainda são os pacóvios que os elegem, e o cúmulo os ‘intelectuais’ que os defendem. Ou que inventam equivalências morais.

  21. Ifdl

    Não seja piegas : é melhor morrer com um block buster do que com uma faca de cozinha a mando do filho da p-ta do Al-lat ou Allah (que aliás é grande).

  22. tina

    “Mais mais triste ainda são os pacóvios que os elegem, e o cúmulo os ‘intelectuais’ que os defendem. Ou que inventam equivalências morais.”

    Aprovado!..

  23. jacarlos

    joão luis pinto é o homem que mais textos colocou no insurgente a lembrar Hiroxima. Dia sim dia não, lá vem ele com Hiroxima e Dresden e as hiroximas do ocidente e de Israel. Ó homem , o Japão é o maior aliado dos EUA na ásia e a Alemanha no ocidente. Se até eles perdoaram, pq é que V.Exa não consegue perdoar ? viver com tanto ódio e amargura faz-lhe mal. Open your mind ..and your heart.

  24. lucklucky

    “Já sei que tudo o que se afaste da defesa incondicional do que este país esteja a achar por bem fazer e a ousadia de afirmar algo que não seja a óbvia congratulação da sua postura são razões mais do que suficientes para justificar no meu texto a leitura de que faço um “elogio ao combatente islâmico” ou que apoio vigorosamente a especificidade cultural do corte das cabeças. ”

    As únicas vezes em que fala de guerra é quando os Islamitas podem levar.

    Ou seja quando há reacção.

    Se os Americanos não estivessem a largar bombas não teríamos nenhum discurso seu sobre o corte de cabeças.

  25. JPT

    Cabeças cortadas causam, certamente, repulsa. Mas não será mais repugnante ver o presidente dos EUA a invocar argumentos morais para bombardear o ISIS, quando ele, de facto, patrocinou o golpe de estado no Egipto, que derrubou um presidente eleito, em favor de um general que já massacrou mais civis do que o ISIS? E não será mais repugnante ver o presidente dos EUA invocar, para bombardear o ISIS, os riscos de crimes contra civis quando ele tolerou o uso pelo presidente da Síria de gás sarin contra a sua própria população, o pior crime de guerra que se concebe? O ISIS assume a sua escabrosa monstruosidade, a política de Obama, no médio oriente, invoca princípios morais para promover e tolerar escabrosas monstruosidades. Não sei, francamente, o que é mais repugnante.

  26. “Se os Americanos não estivessem a largar bombas não teríamos nenhum discurso seu sobre o corte de cabeças.”

    Meu caro, a minha posição ideológica nem sequer é (veja lá e contrariamente às suas leituras) pacifista. Tiro ao lado. Já é profundamente intransigente em relação à defesa da soberania dos estados e na oposição à ingerência de terceiros. E isso é para mim válido para todos os conflitos, independentemente dos seus protagonistas. Portanto é natural que surjam criticas minhas quando há movimentações daqueles que se gostam de entreter a rebentar com os seus (longínquos) vizinho para plantar de estaca democracias (ou cumprir objectivos mais prosaicos).

    O “discurso sobre o corte de cabeças” nem foi iniciado por mim. E foi originalmente utilizado para fazer um elogio moral de Israel, que não tem até ao momento nada a ver com o ISIS, nem o ISIS tomou alguma iniciativa em relação a Israel. Um elogio moral que é na minha opinião despropositado, com fundamentação que pôde ler acima. Parece que tudo o que se passa naquela zona do globo serve de expediente para a narrativa e para a consagração. Ou parece a esquerda lusa saudosa da revolução que quando vêm qualquer movimentação socialista por aqui ou por ali, logo dizem o quanto aquilo “lhes lembra Abril”.

    Já é também curioso como é nas alturas de plena expansão das “campanhas morais ocidentais”, quando se começam a empilhar os mortos, que oportuna e subitamente são descobertos noutro locais os problemas da violência que afligem as mais diversas minorias. Ou que então estas deixam de ser subitamente relevantes. Normalmente esquecendo os contributos do passado. Quando o Saddam gaseava os curdos mas era “our son of a bitch”, era uma infeliz repercussão do conflito Irão-Iraque (e culpa dos iranianos). Depois, já era “genocídio” e rendia condenações em tribunal.

    Quando as milícias líbias que tomaram o poder armados e coadjuvados pelo moral Ocidente começaram a entreter-se a matar as minorias negras, era a “democracia que ainda não estava consolidada” e um “problema tribal”. Quando a Arábia Saudita exercita os seus reconhecidos pergaminhos de liberdade e tolerância religiosa (e obviamente não faz exibição pública de cabeças cortadas e de cadáveres), são tratados nas palminhas e como “aliados estratégicos”, com acesso privilegiado ao pote do armamento. Agora, até o PKK já passou de “associação terrorista” para ser brava resistência contra o avanço fundamentalista.

    São estas tropelias que o meu caro aprecia, que incentiva e com as quais pactua, que eu ainda perco tempo a criticar. Mas o meu problema é com os americanos estarem a “reagir”, e a “largar bombas” para os islamitas “poderem levar”.

  27. mggomes

    “só me sinto na obrigação de relembrar já velhas palavras segundo as quais uma morte é uma tragédia. Já um milhão de mortes é uma estatística. Estimo que saiba reconhecer a autoria”

    É de um velho compagnon de route do camarada Uliánov, ao qual, por sua vez, atribuem a paternidade da expressão “idiota útil”.
    Quem lê alguns dos textos do João Luís Pinto pode não reconhecer quem cunhou o epíteto, mas saberá inequivocamente reconhecer do que se trata…

  28. k.

    Numa sociedade sem leis, vence a força.
    As leis que se tentam fazer entre Estados são continuamente ignoradas e desrespeitadas, e todos aplaudimos os nossos lideres que o fazem – Afinal, denunciar a “tirania das Nações Unidas”, dos “burocratas de bruxelas”, ou dos “intelectuais que fizeram as convenções de genebra” fica sempre bem.
    Por outro lado, apoiar a existencia de regras (que tambem impactam os nossos paises, e expõem a nossa hipocrisia, muitas vezes) é dificil.

    A consequencia é óbvia. Não há leis entre os estados: Os Vencedores escrevem a História.
    Não os melhores, não os mais honestos e decentes – apenas os mais fortes.

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