O Economista Insurgente, 101 perguntas incómodas sobre Portugal – Pergunta 62

O Economista Insurgente

Porque é que os patrões em Portugal são menos generosos com os salários do que no resto da Europa?

Todas as estatísticas apontam no mesmo sentido: Os salários em Portugal são bastante inferiores aos do resto da Europa. O que as estatísticas tipicamente não demonstram é a razão dos salários serem mais baixos. Serão os patrões menos generosos em Portugal do que noutros países? Se for esse o caso, porque é que tal acontece?

Para entender isto, é preciso primeiramente perceber o mecanismo da relação laboral. Um empregado, com o seu trabalho, acrescenta valor ao empregador. O empresário apenas contrata um trabalhador se antecipar que o lucro acrescido por esse trabalhador é superior ao seu salário. Em teoria, qualquer empresário contratará um trabalhador desde que lhe consiga pagar 1€ abaixo daquilo que o ele produz (na realidade o empresário tem dificuldades em avaliar exatamente quanto produz cada trabalhador). O valor que o trabalhador produz corresponde à sua produtividade e está diretamente ligado ao nível salarial. A resposta simples à questão é que os portugueses recebem menos porque produzem menos, ou seja, são menos produtivos.

Os leitores mais atentos apontarão para uma aparente falha nesta explicação: Os mesmos indivíduos que recebem salários baixos em Portugal, conseguem receber salários mais altos quando emigram para outras zonas do globo. Se os salários baixos se devessem exclusivamente à capacidade de trabalho dos indivíduos, eles receberiam o mesmo em qualquer país, o que não é o caso. Por outro lado, os portugueses que emigram não deixam instantaneamente de ser preguiçosos, passando a produzir tanto como os alemães ou os ingleses. Tal acontece porque a produtividade não depende exclusivamente da capacidade ou formação dos indivíduos, mas também de outro factor de produção: O capital. Quanto mais capital (máquinas, ferramentas, equipamento) existir numa economia, mais produtivos serão os seus trabalhadores. Uma costureira a coser vestidos à mão será bastante menos produtiva do que uma que utilize uma máquina de costura. Um motorista que conduza um grande autocarro conseguirá transportar mais pessoas (ou seja, ser mais produtivo) do que se apenas conduzir um autocarro pequeno. Mas a relação nem precisa de ser tão direta. Uma empregada de limpeza tem praticamente acesso às mesmas ferramentas de trabalho em qualquer parte do mundo, mas recebe mais nos países onde existe mais capital noutros sectores. Isto acontece porque limpar uma sala onde se produzem 10 mil camisolas por dia com máquinas de costura é mais valioso do que limpar o mesmo espaço físico em que se produzam 10 camisolas à mão. Ou seja, mesmo que o capital só aumente diretamente a produtividade de certas profissões, todos os restantes trabalhadores beneficiarão no seu salário com a existência desse capital.

Há ainda um segundo efeito: A capacidade negocial. Os salários de um trabalhador não estão apenas relacionados com a sua produtividade, mas também com a sua capacidade negocial. Numa economia em que existam poucos empregos disponíveis, um empresário pode recrutar trabalhadores por um salário abaixo da sua produtividade, porque o trabalhador não tem alternativa. Pelo contrário, num mercado de trabalho onde existam bastantes empresas à procura de trabalhadores, estes podem investigar quais aquelas que garantem melhores salários e recusar as ofertas mais baixas. Os atuais trabalhadores das empresas com salários mais baixos podem também optar por se despedir e procurar emprego na empresa ao lado, onde receberiam mais. Eventualmente, as empresas com as ofertas mais baixas acabarão sem empregados, sendo forçadas a aumentar os seus salários.

A razão para a diferença de salários entre Portugal e outros países deve-se portanto à escassez da oferta de empregos (que retira capacidade negocial aos trabalhadores) e ao facto de as empresas estarem descapitalizadas. A única forma de aumentar salários de forma sustentada é fomentar políticas que incentivem a acumulação de capital e, portanto, de empregos. Num país avesso à ideia de capital, onde a luta contra o “grande capital” ainda é bandeira de partidos políticos e sindicatos, tal será tarefa complicada.

in “O Economista insurgente”, Esfera dos Livros

9 pensamentos sobre “O Economista Insurgente, 101 perguntas incómodas sobre Portugal – Pergunta 62

  1. Nuno Cardoso da Silva

    Óptimo. Subscrevo. Excepto a parte final:

    “A única forma de aumentar salários de forma sustentada é fomentar políticas que incentivem a acumulação de capital e, portanto, de empregos.”

    Não é a acumulação de capital, é o investimento, o que não é exactamente a mesma coisa. E há empresários que não investem enquanto puderem esmagar os salários. Logo o que terá de se fazer é reforçar o poder negocial dos trabalhadores, aliviar a carga fiscal sobre lucros reinvestidos, e aumentar os impostos sobre os rendimentos do capital. Quanto ao resto, há muito tempo que não lia um texto com o qual concordasse tanto.

  2. k.

    Existe outro vector que não foi analisado (francamente também não sei se há dados):

    A desigualdade salarial dentro da Empresa é fruto das regras de mercado, ou de poder institucional ou legal?

    Isto é, quantas vezes é superior “o salário do patrão” versus “o salário do trabalhador”?
    Na prática, observamos a produtividade de uma empresa (que pode ser maior ou menor), é dificil aferir a produtividade de qualquer empregado individualmente. Mesmo assim, as diferenças relativas de salários deviam traduzir a escassez relativa de “tipos de trabalhadores”: Isto é, desconfio que em Portugal um licenciado ganhe relativamente mais que um não licenciado versus outros paises, porque são mais escassos. – Mas é isto verdade?

  3. Em matéria de “produtividade” existem outros factores importantes que pesam imenso no contexto nacional: o saber, expresso na qualidade da gestão e a tecnologia. Na verdade os exemplos do motorista e da costureira estão mal costurados… Tanto um empregado como outro integram empresas as quais estão sujeitas às obrigações oficiais, regulamentações e impostos do país… Por outro lado, os “produtos” da empresa exprimem a “ciência” aplicada na sua construção: a eficiência dos processos de seleção de pessoal, organização de horários, gestão de salários, técnicas de imagem e comercialização, etc. etc. etc. Assim, mais importante do que o “capital” é saber o que fazer com ele… A costureira será mais produtiva consoante o patrão for mais ou menos esclarecido… Em consequência, o problema português da produtividade apenas se resolve quando o estado deixar de comer uma fatia tão grande do trabalho (e do capital…), e quando os patrões forem de melhor qualidade.

  4. K.,

    Na maior parte das PME o salário do patrão é o salário mínimo, e isto por causa de uma das regulações mais estúpidas do Mundo.

    Para já poderia acabar-se com o IRC, o verdadeiro imposto mais estúpido do Mundo. Se as empresas têm lucros, ou ficam e são reinvestidos (por vezes em dívida da Rio Forte, concedo!) ou saem e são tributados em sede de IRS. Poderia também acabar-se com o modo bloco de multas da ASAE e da ACT, tomando estas à deteção da ofensa um papel pedagógico (e multando apenas se a ofensa persistisse).

    Por fim, faríamos muito bem em acabar com as críticas aos ditos patrões, particularmente de quem nunca esteve no lado de lá da barricada (sei que não é esse o seu caso, e não tome isto como uma crítica ao que escreveu).

    Se maus patrões há, as empresas não singram e ficam as que têm bos patrões; a não ser que a variável compinchisse com alguém no Estado Central ou no poder local possa grassar. E pode, e grassa, graças (sim, paralelismo intencional! 😉 ) sejam dadas ao tamanho descomunal e à regulamentice do Estado, que tem poder de mais de um modo para distorcer catastroficamente a economia. E não se coíbe de o demonstrar no dia-a-dia.

    Luís FA,

    Lidere por exemplo. Seja patrão. Use a sua genialidade e o seu aviso para fazer uma empresa excelente. E diga-me, seis meses entrado na experiência, se ainda concorda com o que escreveu hoje.

  5. Franciso, os seis meses já passaram há muito tempo.
    Não seja “mau feitio”! Estamos a falar do mesmo e certamente partilhando pontos de vista.

  6. Luís FA,

    As minhas desculpas, nesse caso.

    Bem precisávamos de mais patrões e profissionais independentes e de menos empregados e de alapados aos subsídios. Se é um bom patrão, tem a minha sincera admiração. Digo isto sem qualquer ponta de sarcasmo, e com sinceridade lhe peço para dizer qual é, na sua opinião, o necessário para fazer melhores patrões.

  7. Manuel

    As opiniões expressas aqui revelam grandes bias na apreciação da questão. Os empregados empurram para os patrões, os patrões empurram para o governo. Caros, enquanto continuarem a pensar de forma “polar” , sendo que num polo esta o estado e noutro o empresário , ou estado vs empregado ou empresario vs empregado NUNCA mais saimos disto. As ideologias MORRERAM. É preciso transcender estas dicotomias em busca de uma solução que resulte em melhores instituições para enfrentar os desafios que se colocam a Portugal. O resto é conversa fiada, divisões que não levam a lado NENHUM. Estado, Patrões, Banca e Trabalho têm todos um papel relevante. Estas quatro instituições têm de se entender quanto a uma visão para Portugal a 20 anos. Olhem para o modelo de capitalismo da Alemanha e dentro das nossas circunstancias e especificidades, acho que deviamos caminhar nesse sentido. Os resultados penso que começam a aparecer em 10 anos. Mas não nos podemos desviar.

  8. Comunista

    “Num país avesso à ideia de capital, onde a luta contra o “grande capital” ainda é bandeira de partidos políticos e sindicatos, tal será tarefa complicada.”

    Com uns analistas que não sabem o mundo em que vivem em que a acumulação de capital hoje é cada vez mais vertida para produtos financeiros cada vez mais desfazados das necessidades económicas é possível conclusões infantís como a citada.

    Mas como o livro é dirigido a potenciais idiotas úteis está a conclusão bem de acordo com o público-alvo.

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