Tintinólogos do mundo, uni-vos

Vão a correr ler este texto maravilhoso do Paulo Tunhas no Observador, quase todo sobre Tintin – e Hergé (como se se pudesse escrever sobre um sem escrever também sobre o outro). Eu tenho mais ou menos a mesma relação com os livros do Tintin: when the things get tough, quando não há paciência para absolutamente mais nada, (re)lê-se os livros do Tintin, a melhor psicoterapia à disposição da humanidade.

blue lotusAcrescentava só um pequeno ponto, que é talvez o mais agridoce dos livros do Tintin: as suas incursões pela política. Destaco duas. A primeira do Lótus Azul, onde Hergé mostra a China repartida, não só pelas concessões das potências europeias nas grandes cidades (vê-se a de Shanghai) mas também pela invasão japonesa dos anos 30. Hergé foi mesmo acusado de ter escrito um livro político em vez de um livro para crianças. E nisto, como em tudo o resto (o humor, a amizade, os preconceitos,…), os livros de Tintin são de hoje. A China e o Japão continuam em zangas intermináveis à conta de minúsculas disputas territoriais de ilhotas. E não há vez que a China não use a carta ‘invasão japonesa’ e, sobretudo, a ‘violação de Nanjing’. (O Flowers of War, de Zhang Yemou dá-nos o vislumbre do que foi o evento.) Pelo seu lado, o Japão menoriza as atrocidades dos soldados japoneses pela Ásia oriental nos anos 30 e 40, o que enfurece a China e a Coreia. Como de costume, o presente só se entende através do passado – e as visões do passado só se entendem através do presente. E nestes casos de eventos históricos violentos, tal como nos traumas individuais e como diz Dori Laub (que eu estou a notar uma ausência de referências a autores relevantes há bastante tempo aqui no blog, o que me faz temer pelas nossas reputações), os traumas são eventos sem fim.

A segunda é ainda mais desiludida e assassina e calhou ser como termina a série do Tintin. Está no último quadradinho dos Pícaros, com o avião de Tintin e companhia a voar de regresso. Hergé repete a visão da capital de San Theodoros com o avião de Tintin e companhia sobrevoando a cidade antes de aterrar. Nos dois quadradinhos se vêem as lixeiras e as famílias que nelas vivem. Apenas mudaram – depois da transição política em que Tintin participou – os uniformes dos guardas armados que patrulham as lixeiras e os cartazes com o nome do ditador.

picaros

10 pensamentos sobre “Tintinólogos do mundo, uni-vos

  1. JP Ribeiro

    Não se esqueça por favor do primeiro livro de Hergé “Tintin no país dos sovietes”, de uma justeza e actualidade gritantes, mas que foi censurado pela imprensa europeia que nunca deixou que se fizessem novas edições ou traduções, porque era de um anticomunismo dito primário, e era politicamente incorrecto dizer mal do regime e do país dos amanhãs que cantam.
    Tal qual hoje se alguém malvadamente se lembrasse de escrever que o aquecimento global é uma treta.

  2. Maria João Marques

    Sim, há várias. No Ouro Negro, por exemplo, Hergé começou por incluir ataques terroristas do Irgoum na Palestina e, em edições seguintes, alterou para um país imaginário. Ou a Bordúria, primeiro como a Alemanha nazi e, depois, como a União Soviética.

  3. Foi uma forma extraordinária de introduzir crianças e jovens ao mundo da política internacional, com muitos clichets e estereotipos (Oliveira da Figueira o mais famoso), mas com um sentido crítico fantástico.

    Hergé foi muitas vezes acusado de racismo (Tintin no Congo) e até de fascismo, mas a verdade é que Tintin sempre representou o modelos do herói perfeito: sem super poderes, sem magia, sem nada que o distinguisse de nós, os leitores.

    Apenas tinha algo de muito valioso que o ajudava a superar todas as adversidades: amigos verdadeiros (Milou, Haddock, Oliveira da Figueira, Chang, Dupond, Alcazar, etc). E isso é uma lição que fica para o resto da vida.

  4. dervich

    Para além do que já foi dito no artigo e também pelo Surprese, o que está subjacente em Tintim é um sentido universal de ética e humanismo, é como se os seus comportamentos e exemplos servissem de guia e estabelecessem uma forma automática de distinguir entre o certo e o errado, o justo e o injusto…É neste sentido que ele se torna um super herói, para mim maior que todos os outros.

    Quanto às referências de ética política já aqui mencionadas (e de cuja noção actualmente existe tanta carência), vale a pena referir o caso do traficante Basil Bazarov, este baseado na figura verídica Basil Zaharoff.

  5. rui a.

    Maria João, conhecendo-a como já a conheço, acredito ter-se aberto uma nova era de felicidade para si. Ela (durante anos pensei que fosse um escritor, mas, na verdade, só uma mulher poderia ter escrito aquilo) só tem um personagem – o Guilherme. Leio-o desde os meus 13, 14 anos, e regresso-lhe muito frequentemente, sempre que me quero divertir. É das coisas mais bem escritas que li até hoje. Passa-se na Inglaterra da 2ª Guerra Mundial e são as peripécias de um garoto de classe média rural inglesa e o que lhe vai na cabeça. E, note bem, sou absolutamente avesso a literatura psicológica infantil e juvenil, e nem o Calvim e Hobes aturo. Isto é uma coisa muito, mas muito diferente, Maria João. Um dia, há de agradecer-me. Indo a questões práticas, as edições portuguesas só as encontrará em alfarrabistas e, mesmo assim, com muita dificuldade. Se o seu inglês estiver bem, as edições inglesas compram-se com facilidade na net. E comece pelos primeiros livros, que, apesar da superior qualidade de todos, são inquestionavelmente os melhores. Abraço e, por favor, não desconsidere esta minha sugestão.

  6. Pingback: O Mundo Perfeito (ou algumas notas sobre o Mundial e o Tintin) | O Insurgente

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.