Diálogo

O meu artigo no Diário Económico com as lições que Rodrigo da Fonseca e Duque de Palmela nos podem dar sobre o diálogo na política.

Diálogo

Além de objecto de estudo da parte de Maria de Fátima Bonifácio, Rodrigo da Fonseca Magalhães e Pedro de Sousa Holstein (Duque de Palmela) tinham em comum as tentativas para pôr termo às guerrilhas políticas da primeira parte do século XIX. O primeiro foi, inclusivé, um dos obreiros da Regeneração, período marcado por uma certa estabilidade que permitiu um relativo desenvolvimento do país.

Lembrei-me deles quando, terminado o Conselho de Estado da passada quinta-feira, Cavaco Silva pediu diálogo entre os partidos. O actual regime político está a ruir ao som das divergências e das lutas partidárias. Não é apenas a oposição e o governo que não se comprometem em equilibrar as contas públicas; até dentro do PS as acusações entre os seus militantes mostram profundas divisões, embora não de natureza política, mas de carácter meramente pessoal.

As história política do século XIX dá-nos pistas para os problemas de hoje, por sinal, muito semelhantes. Tanto Rodrigo da Fonseca, como o Duque de Palmela, tinham a particularidade de se encontrarem acima das lutas partidárias. Nenhum dos dois contava com uma falange de apoio à sua volta, mas apenas com as suas convicções e qualidades. Enquanto o primeiro tinha um jeito inato para fazer pontes entre partes desavindas, o segundo contava com excelentes ligações no estrangeiro, fruto dos anos vividos fora de Portugal. Ambos, tinham convicções: os dois pretendiam pôr termo à radicalização da esquerda que não queria evoluir, mas revolucionar. Tanto um como outro, defendiam a estabilidade do poder político como único modo de se auto-controlar, e dessa forma, ser limitado e liberal.

O que é interessante nos dois, quando comparados com a pequenez dos restantes políticos, é que eram as suas convicções que lhes capacitavam na procura de entendimentos. A fazerem concessões. Precisamente o contrário do que actualmente se pede e, por essa razão, sem qualquer sucesso. É que as concessões e os entendimentos não se fazem porque se deixa de lado aquilo em que se acredita. Obtêm-se, principalmente, porque se crê em alguma coisa, possível apenas quando se conhece a fundo a realidade em que se vive. A mensagem daqueles homens é esta: não há compromissos, sem convicções; não há convicções, mas mera obstinação, se não houver um conhecimento profundo e honesto da realidade e dos problemas.

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