Resta sofrer

O meu artigo de hoje no Diário Económico sobre o discurso de Cavaco no 10 de Junho: uma sociedade em que o mérito é sofrer pelo Estado, as virtudes inatas dos homens livres há muito que estão adormecidas. Resta esperar, que é o que se tem feito.

Sofrer

No seu discurso do 10 de Junho, Cavaco Silva pediu que a coragem dos portugueses demonstrada durante o programa de assistência financeira continuasse no pós-‘troika’.

Na verdade, quem lide no seu dia-a-dia com o sector privado conhece a dimensão da catástrofe: milhares de empresas fechadas, centenas de milhares de empregos perdidos. Negócios que já não existem, pessoas de quem já não se ouve falar. Foi como se uma guerra tivesse passado por aqui e destruísse quase tudo o que viu pela frente. Ao contrário do que fizeram os cidadãos, o Estado manteve intacta a sua estrutura. A crise não o moveu. Como também não comoveu os partidos que continuam incapazes de propor soluções que vão além do lógica socialista, que a todos é transversal e que domina o discurso político há décadas.

A coragem e a esperança que Cavaco pede, não são possíveis porque as pessoas podem fazer das tripas coração para sobreviver, mas não fazem milagres. Continuando o Estado estruturalmente deficitário, e o vício despesista de outrora à espreita da próxima oportunidade, não há fé que incentive o investimento privado que o País precisa. As pessoas sacrificaram-se para aguentar, mas não são masoquistas o suficiente para arriscar o que lhes resta quando a classe política não é sequer capaz de questionar as premissas em que se baseia.

Passados três anos de sacrifícios, e porque a discussão política ainda não vislumbrou a possibilidade de um Estado politicamente limitado e financeiramente são, mas presente, em vez de esperança, vimos paciência; ao invés da coragem, subserviência. Porque uma sociedade em que o mérito é sofrer pelo Estado, as virtudes inatas dos homens livres há muito que estão adormecidas. Resta esperar, que é o que se tem feito.

2 pensamentos sobre “Resta sofrer

  1. CPinto

    Não poderia estar mais de acordo. Acrescentaria que esta frase que transcrevo no final se aplica à UE que, a exemplo do estado, e numa Europa em crise nada fez para, no minimo, aparentar um esforço de contenção nos seus excessivos e desajustados custos. “Ao contrário do que fizeram os cidadãos, o Estado manteve intacta a sua estrutura. A crise não o moveu”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.