António Costa, a melhor esperança da austeridade reformista?

Parece inevitável. Por muito que a imagem de António Costa venha a ser desgastada nos próximos 3 meses e meio, por muitos autocarros que Seguro consiga mobilizar no dia 28 de Setembro, a subida de António Costa à liderança do PS e correspondente vitórias nas próximas eleições legislativas parece agora certa.

Os riscos são conhecidos. António Costa rodeou-se das franjas mais extremistas do PS, um grupo de pessoas que nos tempos de Guterres só encontraria lugar no Bloco de Esquerda mas que agora estão prestes a tornar-se no mainstream do PS. O orgulho em José Sócrates que António Costa não se coibiu de expressar no seu discurso de candidatura, apesar do mais que provável efeito negativo na sua imagem de o fazer, mostra que é uma das franjas mais autistas do PS que está a mexer os cordelinhos desta candidatura. Costa subirá ao poder apoiado pelo grupo mais à esquerda que o PS conheceu nos últimos 30 anos e é provável que ainda venha a pescar alguns dos elementos desavindos do Bloco de Esquerda para completar o ramalhete de extremismo ideológico.

O problema para estes é que a realidade não se altera. Portugal continua a ser um país fortemente endividado e com grandes desequilíbrios estruturais. Salvo a descoberta de recursos naturais ou a abertura dos países mais ricos da UE para transferências fiscais, a austeridade terá que continuar. A questão não é se, mas como e quão rápido uma política de austeridade irá corrigir os actuais desequilíbrios. Para o fazer, um governo precisará de condições políticas, mediáticas e institucionais para o fazer. Costa é, entre os candidatos possíveis, aquele que parece estar mais próximo disso.

Não, não estou iludido. Tenho a certeza que o discurso de António Costa no ano anterior às eleições será do mais radical que se viu no PS nos últimos tempos. Mas a subida de António Costa ao poder, e inevitável confronto com a realidade, irá finalmente demonstrar que a austeridade não é uma escolha ideológica, que não é o exclusivo de um “governo de direita”, mas uma inevitabilidade matemática e económica. O confronto com esta realidade por parte do eleitorado, aliado a uma comunicação social amiga e a um tribunal Constitucional que com o PS no governo tende a ter uma visão mais fléxivel dos príncipios da igualdade e proporcionalidade, Costa terá as condições ideais para completar o programa de austeridade e, com alguma sorte, até reformar parte do estado. António Costa terá as condições que nem Pedro Passos Coelho (por não ser de esquerda), nem Seguro (por não ser telegénico) teriam para reformar o país. Terá também uma oposição bastante melhor: o PSD, sem eleitorado à direita para defender, tende a ser melhor oposição do que o PS, com muito eleitorado à esquerda para defender. Pedro Passos Coelho, apesar da coragem e de algumas boas intenções, nunca teve nem terá as condições políticas que Costa terá.

Na eventualidade, quanto a mim improvável, de António Costa se preocupar mais com a ideologia dos que o rodeiam do que com a realidade terá que enfrentar a mesma humilhação que Sócrates. E o PS sabe que dificilmente o eleitorado, mesmo o menos informado, perdoará ao partido que trouxer a Troika ao país duas vezes em menos de 10 anos.

19 pensamentos sobre “António Costa, a melhor esperança da austeridade reformista?

  1. Gil

    Uma política exclusivamente baseada na austeridade, não resilve desequilíbrios. Pelo contrário, agrava-os. O problema do país é sobretudo económico e nesse campo o confronto ideológico é inevitável. Quanto à capacidade que o PSD vai ter enquanto partido de oposição, só é possível falar nela quando soubermos como vai ser o pós- Coelho.

  2. tina

    “E o PS sabe que dificilmente o eleitorado, mesmo o menos informado, perdoará ao partido que trouxer a Troika ao país duas vezes em menos de 10 anos.”

    Se isso fosse verdade, então os eleitores prefeririam votar em Seguro do que arriscar em Costa, que sempre defendeu as políticas irresponsáveis de Sócrates.

  3. M. Miranda

    Inteiramente de acordo. O António Costa não será o primeiro socialista a meter o socialismo na gaveta. É claro que com o país na moeda única não terá condições tão favoráveis quanto as de Soares mas, por outro lado, tem grande probabilidade de conseguir uma maioria absoluta que lhe permitirá governar com mais liberdade. Mas também é verdade que, quando confrontado com realidade, se der ouvidos às sereias que lhe cantarão à esquerda terá um destino semelhante ao de Sócrates.

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  6. M. S.

    Carlos:
    O famoso jogador do FCP João Pinto dizia: «Prognósticos só depois do jogo.»
    Não acha arriscado o que nos avança como hipóteses, sobretudo porque estamos num terreno tão instável (mundial, europeu e nacional).
    O seu exercício intelectual é brilhante, mas são altamente problemáticos os desenvolvimentos que nos propõe.
    Para mim, a única certeza que tenho é a de que A. Costa tem uma grande capacidade de diálogo, de estabelecer pontes e de fazer consensos, mas isso não chega perante a tarefa ciclópica que temos pela frente.
    A reforma das freguesias (redução de 53 para 24) feita por consenso é prova do que digo. E, apesar de se tratar de um território urbano, mais fácil, ainda assim não é tarefa ligeira num país onde qualquer pequena mudança, por mais cosmética que seja, tem um NÃO generalizado assegurado à partida.
    Para mim, por mais análises inteligentes que se façam, os políticos continuam a ser como os melões: só se sabe a sua qualidade (em cada cargo) depois de «abertos».

  7. Alexandre Carvalho da Silveira

    Dificilmente António Costa será o reformador que o país precisa, basta ver quem são os que ele tem para levar para o governo: são os mesmos que estiveram nos governos Sócrates. O Mário Soares só meteu o socialismo na gaveta em 1983, porque apanhou um enorme cagaço, e teve ao lado dele Ernani Lopes como ministro das finanças, e Mota Pinto como vice-1º ministro.
    Os maiores desafios do proximo governo são a captação de investimento estrangeiro para incrementar a criação de emprego e o crescimento da economia. Isso não se faz com lugares comuns e conversa fiada, faz-se com propostas concretas e conhecimento sobre os sectores onde é interessante investir em Portugal.
    As últimas decisões do TC foram uma forte machada na indispensavel descida dos ratings do país, de modo a atrair os investidores que possam estar interessados em investir aqui neste rectângulo à beira-mar.

  8. — “António Costa terá as condições que nem Pedro Passos Coelho (por não ser de esquerda), nem Seguro (por não ser telegénico) teriam para reformar o país.” —
    Extraio da afirmação anterior que o Sr. Coelho é um telegénico de direita. Não obstante, esta imagem pode ser enganadora… Não quanto à telegenia, mas sim quanto à direita… É suposto um PM de direita só dizer “bacoradas”, meter-se em lutas quixotescas (para agitar a malta) e não largar a manivela dos impostos?! – Onde pára a “minha” reforma do estado? O Portas comeu-a?!…

  9. lucklucky

    Este post basea-se na hipocrisia e desonestidade dessa Extrema Esquerda agora no PS.

    CGP esquece-se que Portugal é um país rico para a bitola da Extrema Esquerda. Logo ainda há muito dinheiro para ir buscar aos nossos bolsos.

    É preciso lembrar que os placards da Extrema Esquerda hoje estão tão cheios de motivos patrióticos que fariam Rolão Preto votar no PCP ou no MRPP?

  10. lucklucky

    Ou seja uma deriva “patriotica” da parte da Extrema Esquerda ligado ao BE-PS é possível.7

  11. M. S.

    Silveira:
    O senhor é useiro e vezeiro em alterar os dados do problema para obter o resultado que lhe interessa.
    Soares meteu o Socialismo na gaveta muito antes, quando fez o governo com o CDS.
    Nada teve que ver com o brilhante ministro da Economia Ernâni Lopes nem com o confiável (para aguentar a palavra dada e a borrasca política) Mota Pinto.
    Foi ainda por alturas do primeiro resgate do FMI.
    As últimas decisões do TC foram como a primeira e as seguintes.
    O rating de Portugal nunca desceu por isso e os juros têm flutuado ao sabor de outras circunstâncias.
    Informe-se e não seja demagogo.

  12. Alexandre Carvalho da Silveira

    M.S., vamos por partes. Então um fulano que já foi ministro por três vezes em dois governos diferentes, é ” como os melões, só se sabe o que vale depois de aberto?” A reforma das freguesia de Lisboa, foi assunto consensual porque antes do o Costa chegar à camara, já havia muito trabalho feito sobre o assunto, e os consensos estavam praticamente encontrados.
    Se o Mário Soares meteu o socialismo na gaveta em 1977 ou 1983 é irrelevante. Relevante é o que ele dizia na época e o que diz agora sobre os mesmos assuntos.
    Quanto ao TC: não sou jurista. Mas lendo o que srs juizes escreveram para sustentar as decisões que tomaram, e eu já me dei ao trabalho de ler algumas dessas prosas, percebe-se bem que tudo aquilo são interpretações subjectivas e ideologicamente orientadas do que está de facto escrito na CRP.
    Quanto aos ratings: vem em todos os jornais da especialidade, que as agências de rating estavam à espera das decisões do TC para baixar, ou não, os ratings de Portugal. As decisões ideológicas dos zelotas do Ratton têm implicações gravìssimas para o futuro deste país. Quem é que quer investir num país, onde um tribunal interfere despudoradamente nas competências do legislador?
    Por outro lado, é verdadeiramente estúpido aceitar com tanta satisfação decisões tão polémicas como as dos juizes do TC que representam fatalmente aumentos da carga fiscal, portanto que atingem os bolsos do sr M.S. partindo do principio de que paga impostos.
    Por isso é que eu sou dos que defendem que o governo se deve demitir depois do verão, e entregar ao “melão que está por abrir” duas tarefas essenciais: pedir aos credores o indispensavel hair cut da divida publica, e gerir o inevitável 2º resgate. Tenho a certeza de que a “grande capacidade de diálogo, de estabelecer pontes e de fazer consensos” de António Costa resolvem estes assuntos com uma perna às costas. Pode até usar uma PPP para as pontes a estabelecer serem tão sólidas como o betão.

  13. M. S.

    Silveira:
    Devido ao seu grau de cegueira ideológica e de sectarismo político é inútil perder mais tempo consigo.
    Que eu saiba, inicialmente a Assembleia Municipal estava contra a reforma das freguesias em Lisboa.
    E se o trabalho estava todo feito antes porque deixaram o fruto maduro para o Costa comer?
    O que eu sei que deixaram foi uma situação explosiva, 1,2 mil milhões de euros de dívida, os fornecedores sem receber e diversos processos de penhora entrados nos tribunais.
    O descrédito total da câmara da capital, processos-crime contra vereadores (Fontão, Helena, Napoleão, etc.) e contra o presidente (Carmona).
    E um buraco no Parque Mayer depois de o Frank Gery ter papado 2,5 milhões de euros num projecto para nada, etc., etc., etc.
    Aliás, nada de surpresas depois da brilhante passagem do Zombie (e seu braço direito Eduarda Napoleão) pela Figueira da Foz, que com aquele fermento lá deixado e a igualmente brilhante gestão seguinte já tem um buraco de 55 milhões de euros pelo qual paga 1.767.127,44€ em juros. Ainda assim, decidiu “investir” mais de meio milhão de euros (518.692,98 €) só na remodelação do jardim junto ao mercado municipal. (http://madespesapublica.blogspot.pt/).
    Outro exemplo. Ouça com atenção 5 minutos de entrevista sobre outro meteorito laranja que se abateu sobre Vila Nova de Gaia (http://www.rtp.pt/play/p470/e135316/portugal-em-direto)
    Mas enquanto se destila ódio sobre o Costa esquece-se isto.
    É a velha técnica de ocupar a agenda mediática.
    Mesmo que me responda eu não lhe responderei, você é uma daquelas pessoas com que é impossível dialogar. É o maniqueísta mais sectário e sem vergonha que conheço nos blogs. Apesar de frequentar a blogosfera muito esporadicamente, só quando as pausas profissionais mo permitem, conheço-o bem de vários sítios onde marca ponto para encher a agenda mediática vendendo o seu peixe podre. Sempre que me acontece passar por lá lá está o Silveira, sempre ele, sempre com TODA a razão, sempre a defender o indefensável e a atacar os mesmos.

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  15. Alexandre Carvalho da Silveira

    M.S.

    Se lê o que o Silveira, este seu criado, escreve é porque algum interesse deve encontrar no “peixe podre”.
    A mim interessa-me pouco o que o Costa faz em Lisboa, porque nem vivo em Lisboa. Se os lisboetas estão contentes com ele, é problema dos lisboetas. Não sei que buraco ele encontrou na camara de Lisboa quando lá chegou, mas sei duas coisas: 1ª o tal buraco não deve ser apenas da responsabilidade da direita, se calhar já vinha muito de trás, e ele, imagine-se lá, até sonegou as contas da autarquia ao insuspeito Publico, e nem com uma ordem de um tribunal ( o quê, o Costa não cumpre as ordens dos tribunais?) as publicou; 2ª os 400 milhões que o governo lhe deu de mão beijada pelos terrenos do aeroporto, também devem ter ajudado um bocadinho à festa que têm sido estes oito anos a governar Lisboa.
    Mas apesar de tudo há uma coisa que ele fez em Lisboa que me chateia um bocadinho: o zig-zag da Avenida da Liberdade é um verdadeiro hino à incompetência e à estupidez.
    Um dia destes havemos de falar aqui e noutros sitios do trabalho do seu querido Costa como ministro da Justiça de Guterres , e da Admnistração Interna do Sócrates. E, se eu tiver pachorra, do seu papel na “gestão” da Expo’98.
    Quanto ao resto, não que me importe, o caro M.S. não me conhece de lado nenhum para dizer que eu sou assim ou assado.
    Tchau…

  16. Alexandre Carvalho da Silveira

    Espero não maçar muito o sr M.S. mas esqueci-me de mencionar a coroa de glória da gestão de António Costa à frente dos destinos da capital: a indemnização que já concordou em pagar à BragaParques a propósito do negócio do Marque Mayer/Feira Popular: 110 milhões de euros (CENTO E DEZ MILHÕES ).
    Mas a coisa não fica por aqui: a empresa de Braga que apareceu em Lisboa e aí medrou à sombra do Partido Socialista ( o affair feira popular foi mais um imbróglio arranjado pelo Zé-que-faz-falta), exige 180 milhões, e parece que vai recebê-los.
    E o mais engraçado, pelo menos para mim que não vivo em Lisboa, é que os buracos do Parque Mayer e da Feira Popular lá continuam: duas lixeiras a céu aberto no centro da capital.
    Temos homem!

  17. Artur Borges

    Inconstatuticional
    As primárias não estão previstas nos estatutos do partido. Mas a existirem o seu lema poderia ser ” Vota em Costa, pelo seguro.”

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